Escrevi há dias que muita da prosa sobre Otelo Saraiva de Carvalho a pretexto da sua morte tem motivação ideológica, reflectindo quase sempre e sobretudo os amores ou os ódios em relação a um personagem contraditório. E quanto ao contraditório divirjo totalmente de
Rui Ramos que vê Otelo como uma criatura unidimensional em que «
tudo nele faz sentido», quando, a meu ver, nada nele faz sentido a não ser a sede de protagonismo e uma certa megalomania.
Dei como exemplo de objectividade o artigo de
José Miguel Júdice no Expresso e acrescento outro, ainda mais factual, de
Nuno Gonçalo Poças no Observador focando um outro aspecto praticamente omitido pela legião de comentadores, a saber: a cumplicidade das elites intelectuais «
num país estruturalmente endogâmico» e a sua tentativa de branqueamento das actividades criminosas de Otelo que acabou por ter sucesso alguns anos depois com a amnistia.