A propósito da entrevista a Manuel Machado, escreveu Alberto Gonçalves na sua crónica no Observador:
«Um indivíduo, condenado em tempos por envolvimento num homicídio com motivações raciais e admirador confesso de Salazar, foi a um programa televisivo de variedades. Os censores saltaram com previsível indignação. Infelizmente, no meio da gritaria não se percebeu bem o que os indignou, se a jovialidade com que se entrevistou um criminoso, se o tempo de antena dado a entusiastas de ditaduras.
No primeiro caso, concordo que o tratamento “mediático” (bela palavra) de criaturas responsáveis pela morte de inocentes não deve ignorar o pormenor de as criaturas serem responsáveis pela morte de inocentes. Ou seja, a referida conversa justifica-se em programas de temática criminal ou psiquiátrica, e não em programas “light”, cujos convidados podem incluir, suponho, cançonetistas, cozinheiros, actrizes de telenovela, nutricionistas chamadas Isabel do Carmo, Otelo, o sr. Mortágua e artistas similares.»
Tendo a concordar e acrescentaria que a esquerdalhada indignada em massa pela presença de um admirador de Salazar na televisão, é a mesma esquerdalhada que não consta que se tenha indignado com a presença frequente nas televisões de admiradores de Estaline, Trotsky, Mao e outros ditadores responsáveis pelos gulags, grandes saltos em frente, limpezas étnicas e milhões de mortes.
Por isso, essa indignação a propósito do Botas, uma criatura com um currículo modestíssimo em matéria de atrocidades, além de manifestamente exagerada, é mais um exemplo de uma variante do que costumamos chamar aqui em casa de doutrina Somoza. Neste caso, Roosevelt teria dito «he is a son of a bitch, but he is not our son of a bitch».