29/11/2018

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A esquerdalhada tem o monopólio do protesto e da oposição

«Dir-se-á: mas se o PCP e o Bloco diminuíram a intensidade dos protestos, porque é que a direita não ocupou o seu lugar? A resposta é simples: porque não o sabe fazer, nem tem estruturas para isso. Existe uma rotina de protesto que foi constituída e alimentada durante 40 anos de democracia. Os sindicatos têm milhares de funcionários cujo trabalho não é outro senão esse, e os meios de comunicação social têm formas de trabalhar que são sempre iguais: directo à porta do protesto, conversa previamente combinada com o sindicalista de serviço, números de adesão estratosféricos, jornalistas a debitar a cassete do trabalhador oprimido, discussão do tema nos canais por cabo à noite, e por aí fora. Esta coreografia está altamente rotinada e não é nada fácil de quebrar. Se a esquerda não dança, a comunicação social fica sem par – e a direita não conhece os passos. Esta foi a grande fragilidade de PSD e CDS nos últimos três anos. Ao mostrarem-se incapazes de ocupar o espaço que PCP e Bloco deixaram ao abandono, a direita ficou não só sem governo, mas também sem oposição.»

Excerto de O monopólio do protesto e a xanaxização do país, João Miguel Tavares no Público