«As fraquezas humanas, que têm que ver com os humores, o fígado, a gasolina, as vénias, as influências, os compadrios, explicam esta atitude no que se refere ao Partido dito Socialista. Com efeito, ele montou rapidamente uma máquina administrativa e uma rede de influências, sucessora da extinta União Nacional, que faz de cada membro deste partido um privilegiado. Neste país de bichas, ser do Partido Socialista é estar à cabeça de qualquer bicha, quer para um cargo de mando quer para um emprego. Mais, e mais grave: tratando-se de socialistas do topo, o «socialismo» do interessado constitui até uma protecção contra a acção da justiça, pois chegamos a assistir ao espectáculo escandaloso de ministros (incluindo o primeiro) e porta-vozes do PS atacarem e injuriarem, em público, o poder judicial, para defender membros do partido e fazerem pressão para influir no decorrer do processo. Isto é simplesmente uma violação da Constituição actual e de qualquer Constituição democrática, cuja base universal é a separação de poderes (legislativo, executivo e judicial). Num país normalmente democrático esta pressão sobre o poder judicial seria motivo mais que bastante para a exoneração do Governo.»
Excerto de «Os partidos o presidente e o povo», capítulo de «Filhos de Saturno», de António José Saraiva (publicado originalmente no Diário Popular de 29-8-1978