26/03/2013

SERVIÇO PÚBLICO: Escrevendo direito por linhas tortas

A estória conta-se rapidamente. Depois de muita barganha e chantagem mútua, o Euro Grupo forçou o governo cipriota a deixar cair a solução que tinha imaginado para manter Chipre como uma offshore bancária para os russos, a qual passava por resgatar os dois maiores bancos e distribuindo as perdas por todos os depositantes, aplicando uma taxa de 6,75% para os depósitos até 100 mil euros e de 9,9% para os superiores.

A solução adoptada, muito próxima da inicialmente apresentada pelo FMI e pelo governo alemão e rejeitada pelo governo cipriota, consiste em deixar cair o Laiki, 2.º maior banco, cujos activos realizáveis e depósitos garantidos serão transferidos para um «banco bom». Os depósitos não garantidos e os activos tóxicos serão transferidos para um «banco mau». O Banco de Chipre, o maior, será reestruturado à custa dos accionistas e dos obrigacionistas e por último dos depósitos não garantidos que se estima poderão perder 35% do seu valor. O Banco de Chipre receberá ainda os activos e passivos do «banco bom» resultante do desmantelamento do Laiki.

É a menos má das soluções que tinham sido postas em cima da mesa: o risco fica do lado de quem o assumiu e tinha a obrigação de o saber e os contribuintes só vão pagar o empréstimo do resgate do Estado cipriota. Espero que sejam só os contribuintes cipriotas porque os contribuintes europeus não deverão ter de o fazer. Até o governo francês, o campeão da «solidariedade», pela boca do ministro das Finanças, não se mostrou disponível para resgatar uma «banca de casino».

É claro que com a ruína da banca cipriota, a economia do Chipre se vai irremediavelmente afundar e entrar em recessão que foi estimada pela troika em 10%. Mas isso é o resultado inevitável que só se evitaria se os contribuintes europeus pagassem as várias dezenas de milhar de milhões de euros para manter o casino a funcionar.

Era isto mesmo que o governo de Sócrates e Teixeira dos Santos deveria ter feito com o BPN e o BPP deixando os accionistas e os clientes com carteiras geridas pelos bancos pagar os 6 ou 7 mil milhões que acabaram por cair no colo dos contribuintes, graças àquele duo e ao resto do coro governamental.

[Fontes: Economist, Negócios]