Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

21/04/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (9) - Qual é afinal a taxa de letalidade do Covid-19? (1)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Em primeiro lugar é necessário distinguir numa epidemia a taxa ou coeficiente de letalidade e a taxa de mortalidade. Na primeira compara-se o número de óbitos com o número de infectados pela epidemia e no segundo caso compara-se com a população de uma área (mundo, pais, região, cidade, etc.)

Uma epidemia pode ter uma alta taxa de letalidade e uma baixa taxa de mortalidade, como o ébola que é muito letal e contamina pouca gente devido precisamente à sua elevada letalidade. Ou o contrário, como a gripe A (H1N1) de 2009 que foi pouco letal mas infectou milhões 700 a 1.400 milhões ou 11 a 21% da população mundial de então, causando 200 mil mortes pelo que a sua letalidade terá sido entre 0,03 a 0,06 por cento ou 30 a 60 por 100.000 e a sua mortalidade teria andado por 0,003 a 0,006 por cento.

Repare-se desde já que, com 735 óbitos nesta altura, a taxa de mortalidade do Covid-19 em Portugal anda pelos 0,007 por cento. Ainda que admitíssemos que a mortalidade diária, que está a baixar, se mantivesse igual à média até aqui (21 por dia em 35 dias) por mais seis meses, teríamos no total cerca de 4.500 mortes ou seja aproximadamente o mesmo número que a gripe comum causa em média num inverno. Recorde-se, a propósito, que até agora ainda ninguém se lembrou de confinar os portugueses no inverno.

De onde, chegados aqui, podemos concluir que a agitar taxas de mortalidade o jornalismo de causas não assustaria ninguém (nem venderia jornais), mesmo se acrescentasse outra demagogia como a de a nossa taxa de mortalidade ser mais baixa porque somos os melhores dos melhores, pela razão óbvia que a nível mundial até hoje há cerca de 170 mil óbitos atribuídos ao Covid-19, ou seja uma taxa de mortalidade de 0,002 por cento ou 2,2 por 100.000.

Como os valores presentes das taxas de mortalidade não assustassem ninguém, o jornalismo de causas passou a chamar taxa de mortalidade à taxa de letalidade ou a alternar, como no caso do DN que ora chama mortalidade ora chama letalidade. Alguns exemplos:

  • 28-02 - «Taxa estimada de mortalidade global da Covid-19 é de 2%» (Público)
  • 04-03 - «Afinal, taxa estimada de mortalidade global do Covid-19 é de 3,4%, diz OMS» (Executive Digest)
  • 06-03 - «O novo coronavírus é igual à gripe? Não. Mata 26 vezes mais» (Sábado)
  • 19-03 - «Organização Mundial de Saúde (OMS) avançou na semana passada que a taxa de mortalidade do vírus se encontra nos 3,4%» (Expresso)
  • 21-03 - «Taxa de mortalidade do Covid-19 em Itália atinge aterradores 9%» (Visão)
  • 27-03 - «Portugal com taxa de mortalidade de 1,7% de Covid-19» (JN)
  • 29-03 - «a taxa de letalidade subiu para 2% » (SIC Notícias)
  • 08-04 - «Espanha ... 28 em cada 100.000 habitantes morreram devido à covid-19» (Zap)
  • 12-04 - «Em Portugal, a taxa de mortalidade situa-se agora ligeiramente acima dos 3%» (ionline)
  • 13-04 - «A taxa de mortalidade subiu para 3%, disse a ministra da Saúde» (DN)
  • 13-04 - «OMS diz que o novo coronavírus é dez vezes mais mortal que o vírus da gripe de 2009» (Público)
  • 15-04 - «Portugal está com uma taxa de mortalidade de cerca de 5,5 por 100.000 habitantes devido à covid-19» (Visão)
  • 16-04 «Portugal tem taxa de letalidade de 3,3%. A média europeia é de 8,6%» (DN)
  • 19-04 - «A taxa de mortalidade belga está perto dos 15%» (Observador)
  • 20-04 - «o que fez baixar ligeiramente a taxa de mortalidade para 3,52%» (Observador)

É claro que qualquer leitor atento perceberia que se fossem taxas de mortalidade estaríamos a falar de centenas de milhar de mortos. Em Portugal 330 mil ou 550 mil, conforme os dias e os jornais, ou, no caso de Itália, mais de meio milhão. A confusão está garantida e o pânico está alcançado.

(Continua)

20/04/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (8) - Enquanto não houver vacina é preciso contacto fora dos grupos de risco para criar imunidade

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

«A gripe espanhola era um vírus muito mais perigoso, mas viajava de barco — demorou muito mais a transmitir-se. Agora um vírus viaja mais depressa, está em todo o lado. Dito isto, é importante as pessoas não entrarem em pânico: este é um vírus relativamente bonzinho.

Vamos pensar. Praticamente, não afeta crianças, adolescentes e jovens adultos. Temos de ter esta noção. E os grupos de risco são pessoas com mais de 70 anos ou com outras complicações de saúde. Embora acima dos 70 anos morrer não seja uma fatalidade, isso não acontece com a maioria desses pacientes. Tivemos o caso, muito bonito, de um idoso com 100 anos que no Hospital de São João recebeu alta passadas quatro semanas. É necessário ter medidas coletivas que protejam em especial estas pessoas sem — e esta é a minha opi­nião pessoal — estagnar a vida daqueles de quem depende o futuro. Os mais jovens não correm grande risco, e temos de arranjar maneira de que eles continuem a viver a sua vida, não pondo os outros em risco.

O confinamento total é muito importante nesta primeira fase, para os serviços de saúde não implodirem. Mas tem o senão de, ao mesmo tempo, não permitir que as pessoas fiquem infetadas. E sobretudo num vírus destes, em que temos uma grande parte da população que não corre riscos. O que vai ter de acontecer é, mais cedo ou mais tarde, passar para uma segunda fase. A imunidade populacional atinge-se de duas formas: permitindo a infeção ou vacinando. Há uma enorme corrida à vacina, com 75 entidades no mundo inteiro oficialmente à procura dela. Cinco destas instituições estão mais avançadas, mas para ter a certeza de que uma vacina é segura existe toda uma série de trâmites a seguir. E todos concordam que vai demorar pelo menos um ano. O que temos de perceber é se estamos preparados para esperar esse ano ou não.

Na minha opinião, não (estamos preparados). Estaríamos a diminuir tremendamente a capacidade dos nossos jovens, com sequelas para o futuro.

Tal como fechámos, lentamente teremos de começar a abrir. Tomar estas decisões é difícil, porque são sempre necessários 15 dias para se ver o efeito de uma medida. 

Há muita gente que esteve em contacto com o vírus e nunca se apercebeu. Pelos estudos feitos, provavelmente de 15 a 20% da população nunca teve qualquer tipo de sintoma. E entre 20 e 80% teve sintomas ligeiros.»

Excerto da entrevista à Revista do Expresso de Maria Manuel Mota, cientista e directora do Instituto de Medicina Molecular, uma voz no silêncio da comunidade científica portuguesa

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (28) - Em tempo de vírus (VI)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Senhor Contente, Senhor Feliz, a mesma luta?

Aproprio-me outra vez desta rábula, que me parece perfeita para etiquetar o par a quem competiria conduzir os trabalhos de desencalhe do Portugal dos Pequeninos requeridos por erros nossos e a má fortuna, mais os primeiros do que a segunda, e que, em vez disso, o estão a encalhar cada vez mais.

Um e outro dedicam-se agora à competição de popularidade, nela usando nela o talento que o Senhor lhes emprestou para produzir sound bites em entrevistas, aparições e eventos em que se desdobram todo o santo dia. Chegará a altura em que tentarão empurrar um para o outro as responsabilidades pela provável maior crise económica desde Dona Maria II, sendo certo que neste momento a balança pende mais para o lado de S. Exª. que, movido pela hipocondria e pela compulsão irreprimível de protagonismo, inventou um estado de excepção mais apropriado a um PREC do que a medidas para combater uma gripe.

Mestres do ilusionismo

Em intensa competição com S. Ex.ª, o Dr. Costa aviou em menos de um mês uma dezena de entrevistas e conferências de imprensa e até fez uma performance na "Cristina" e outra no "Goucha". E ainda teve tempo para fazer o número do rebelde sem causa, contrariando Bruxelas e convidando os portugueses a fazer férias cá dentro. Atingiu o pináculo da prestidigitação tirando da cartola, a propósito dos aumentos da função pública, núcleo central da sua freguesia eleitoral, a fórmula «pode não haver condições, como pode haver». Teria feito sucesso nos tempos em que nas feiras da província, regiões a que hoje se chama interior, eram animadas por uma criatura a quem chamavam "vendedor da banha da cobra".

O Lehman Brothers do Dr. Costa

Ponto de situação em constante actualização: 66 mil empresas em lay-off; um milhão de trabalhadores em lay-off,  353 mil desempregados. «Tudo somado» diz o Dr. Centeno são 20 mil milhões de euros só este ano. Tudo somado? Nem pensar. E ainda ao que somar à soma há que subtrair a quebra da produção de bens e serviços que resultante das medidas criadas pelos medos e falta de coragem da dupla Senhor Contente, Senhor Feliz.

Perguntava há um mês e meio o outro contribuinte se o Covid-19 não seria para o Dr. Costa o que o Lehman Brothers foi para o Eng. Sócrates. E eu respondo, sem dúvida, embora com algumas diferenças, a começar pela génese de crises profundamente diferentes e a acabar na quebra de produção que vai ser um múltiplo da crise de 2011. Há contudo uma coisa em comum: o Dr. Costa tentará usar a pandemia como o Eng. Sócrates usou o Lehman Brothers, isto é como um álibi para então justificar anos de desgovernação e, no caso presente, para justificar medidas de combate à pandemia inadequadas e excessivas que estão a matar a economia.

«Nunca estivemos tão bem preparados»

O Dr. Centeno não tem as desculpas dos ignorantes para dizer estas baboseiras, quando na UE28 somos em termos de posição líquida de investimento internacional o 2.º país mais vulnerável, a seguir ao Chipre, e o 3.º na dívida pública, a seguir à Grécia e Itália (segundo o Expresso que em matérias de mostrar buracos é uma fonte credível).

19/04/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (7) - E se o presente "excesso" de mortes resultar da falta de mortes quando deveriam ter ocorrido?

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Um dos espantalhos agitados pelo jornalismo de causas para justificar a suposta imensa gravidade da pandemia do Covid-19 é o facto de o número de mortes estar a ser em muitas regiões e países superior à média nesta altura.

André Dias toca brevemente neste ponto, mas limita-se a constatar que o número diário de mortos não excede os máximos verificados em vários anos anteriores, o que sendo verdade pode não ser toda a verdade.

Há muito que se sabe que, por razões perfeitamente conhecidas, os meses de Inverno são os meses com maior mortalidade sobretudo nos grupos de risco e nomeadamente nos idosos. Ora o que teve de extraordinário o Inverno de 2019-2020 no hemisfério norte? Foi o Inverno mais quente desde que existem registos (os catastrofistas climáticos dizem "mais quente de sempre".

The northern-hemisphere winter of 2019-20 was the warmest ever on land
 E o que acontece nos Invernos mais suaves? A mortalidade cai. Vejamos o caso de Portugal, onde este ano a mortalidade diária caiu bastante nas 5 quinzenas até 15-Março e subiu na 6.ª quinzena quando precisamente tiveram lugar os primeiros 160 óbitos "pelo" e "com" Covid-19. 


Num ano "normal" teriam ocorrido nas 5 primeiras quinzenas cerca de 28 mil óbitos e só ocorreram cerca de 26 mil com toda a probabilidade "poupados" pelo Inverno suave. Muitos desses 2 mil óbitos "poupados" são de idosos ou pessoas de risco que viram a sua vida prolongada. Alguns deles, os 160 óbitos "pelo" e "com" Covid-19 registados na 2.ª quinzena de Março vieram a sucumbir.

Isso justifica o alarme? Nem por isso, se compararmos com o "excesso" de 367 mortes registado na segunda quinzena de Março de 2018 em relação ao mesmo período do ano anterior, para não falar do "excesso" de 1.744 mortes registado na primeira quinzena de 2017 em relação ao mesmo período do ano anterior. E, no entanto, alguém mandou fechar o país? Isso nem fez primeiras páginas de jornais.

Dúvidas (300) - Eu também tenho essa dúvida?

«O PM atacou a Holanda por falta de solidariedade, criticando o seu governo pela recusa de emprestar dinheiro sem condicionalismos. Ora bem, soubemos esta semana que qualquer ajuda do governo à TAP será com condicionalismos, apesar da crise ser a mesma crise. Ou seja, na doutrina socialista, um país estrangeiro, apesar de europeu, tem mais obrigações em relação a outros países do que o governo de Portugal em relação a uma das principais empresas nacionais. O que dirão os holandeses quando souberem que o governo português não empresta dinheiro a fundo perdido a empresas do seu país? Mas exige que o governo holandês e outros governos se financiem para emprestar dinheiro a países como Portugal a fundo perdido

Pergunta-se João Marques de Almeida e eu com ele e com isto não quero significar que o governo português tenha de emprestar dinheiro dos contribuintes portugueses a fundo perdido a empresas portuguesas. Quero apenas significar que também não vejo porque diabo terão os governos estrangeiros de emprestar dinheiro dos seus contribuintes a fundo perdido ao Estado português que já tem os contribuintes portugueses a quem extorquir dinheiro.

SERVIÇO PÚBLICO: O estado do Estado Federal americano

«Denunciar Washington, DC como disfuncional é um cliché que se tornou aborrecido. No entanto, é verdade. Passei os últimos sete anos escrevendo sobre política americana. Naquela época, apenas algumas leis foram aprovadas pelo Congresso que realmente se pode afirmar que mudaram a América. As outras mudanças legislativas substanciais que surgiram da capital durante esse período não envolveram a legislatura. Eles vieram da Casa Branca, na forma de acções e ordens executivas, e do Supremo Tribunal.

A maior parte da energia política nos Estados Unidos está focada em mudar o que acontece em Washington. Mas a pandemia do Covid-19 é mais um lembrete da importância dos estados. Enquanto o presidente recebe aconselhamento do seu conselho - um augusto corpo de especialistas, incluindo sua filha e genro - sobre como reabrir a América, os governadores estaduais são os que terão que fazer os difíceis escolhas que o coronavírus impõe.

Isso me faz pensar se é possível um tipo mais saudável de federalismo. Os democratas, recordando a oposição aos direitos civis, normalmente vêem com desconfiança argumentos para devolver mais poder aos Estados. Os republicanos são a favor até que controlem a Casa Branca, nessa altura ficam mais interessados ​​em usar o poder federal para impedir um Estado como a Califórnia de adoptar a sua própria agenda progressista.

A diferença entre os índices de aprovação do presidente e os dos governadores estaduais é um lembrete de que é possível criar no nível estadual o tipo de consenso político que permite um bom governo. Acho que não é mais possível fazer isso a nível nacional, seja quem for o presidente. Washington passou a parecer-se cada vez mais com Bruxelas - necessária, mas distante, disfuncional e não amada - enquanto os estados se assemelham a nações. O progresso, em qualquer direcção, deve começar por reconhecer isso e dando-lhes mais poder.»

John Prideaux, US Editor, na newsletter Checks and Balance da Economist

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (6) - Os dados podem não reflectir adequadamente o impacto do Covid-19 (III)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.


«André Dias, PhD., é Doutorado em Modelação de Doenças Pulmonares pela Universidade de Tromso, na Noruega. A instituição que o acolheu é uma das mais prestigiadas do mundo na área de investigação em epidemiologia. https://www.helmholtz-muenchen.de/epi... 

Depois de ter publicado um artigo no jornal ECO e de ter escrito nas redes sociais sobre a forma, na sua opinião injustificada, como o mundo está a lidar com a pandemia do novo coronavírus, começou a ser insultado e a ser alvo de ataques de cibernautas que não aceitam, simplesmente, a sua versão dos factos. 

Esta entrevista foi feita à Qi News no dia 11 de Abril de 2020

Ao expor pontos de vista desalinhados, André Dias seria sempre insultado por gente não preparada para o contraditório e possuída pelo sentimento de manada dominante nas redes sociais. Mas pôs-se mais a jeito por não ter explicado que as taxas de mortalidade publicadas pelos mídia resultam de metodologias diferentes em cada país e, mais importante, não reflectem os dados reais, coisa que os jornalistas de causas, se percebessem, não estariam interessados em esclarecer porque esvaziaria a histeria que vende notícias e cria o pânico propício para se aceitar a intrusão do Estado e a limitação das liberdades, algo que torna húmidos os sonhos da esquerdalhada.

E não reflectem os dados reais pelas razões que expus aqui e aqui e que em síntese resultam de o número de óbitos no numerador estar sobreestimado, por incluir óbitos "com Covid" e não apenas "pelo Covid", e o número de infectados no denominador estar subestimado, porque há muitas pessoas que não têm sintomas ou tem sintomas tão ligeiros que são negligenciáveis e não foram submetidas a testes - há estimativas que apontam para o número real ser 5 a 10 vezes maior.

Quem afinal está disposto a ir contra a manada e colocar a pandemia nas suas proporções e as medidas para a combater na sua razoabilidade? Não muita gente e, em particular, não os políticos do regime que querem aproveitar boleia da "ameaça terrível" para fazer passar a mutualização da dívida institucionalizando um modo dos "pobrezinhos" viverem à custa dos ricos.

(Continua)

18/04/2020

Bons exemplos (132) - A justiça no seu melhor

Amjad Rihan, um engenheiro canadiano especialista em sustentabilidade, que foi partner da EY (Ernest & Young), um dos mais novos de sempre, denunciou um cliente no Dubai suspeito de lavagem de dinheiro e de contrabando de ouro. Como retaliação a EY despediu-o e Amjad Rihan propôs há dois anos uma acção nos tribunais ingleses contra quatro subsidiárias do grupo EY acusando-o que tinha sido forçado a pedir a demissão depois de ter descoberto a lavagem do dinheiro pelo cliente do Dubai, violando os seus deveres profissionais de integridade e objectividade para garantir que as questões que levantou na auditoria não fossem relatadas às autoridades.

O caso percorreu várias instâncias e dois anos depois foi agora resolvido pelo Supremo Tribunal que decidiu condenar a EY a pagar a Amjad Rihan uma indemnização de 10,8 milhões de dólares por o ter envolvido numa «conduta gravemente imprópria» para esconder as conclusões da auditoria. Note-se que isto se passou com um estrangeiro, no estrangeiro com uma empresa estrangeira, cliente de outra empresa estrangeira.

Enquanto isso, aqui nos Portugal dos Pequeninos qualquer acçãozeca da treta que envolva "conduta imprópria" salta de Herodes para Pilatos durante vários anos ou décadas e, se o crime não prescrever, o criminoso é inocentado por falta de prova, e, se não for inocentado, é condenado a uma pena da treta e se, for condenado a uma pena da treta, sai em liberdade passado pouco tempo sem pagar um centavo de indemnizações.

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (5) - Estatísticas de causas, a tradição ainda é a mesma coisa (II)

Continuação de outros posts.

Em retrospectiva, o que se passa na China em matéria de dados estatísticos é apenas uma reedição com sabor local do comportamento das autoridades dos Estados que fizeram parte do Império Soviético. A China, apesar de ter abandonado o comunismo, substituindo por um capitalismo do Partido Comunista, manteve e refinou a tradição de tratar a estatística como a arte de torturar os números até que eles confessem. E eles, os dados e os traidores ao Partido, acabam sempre por confessar.

Os indícios de falsificação dos dados relativos à pandemia Covid-19 pelo governo chinês eram cada vez mais fortes e as acusações que começaram pelo presidente americano foram prontamente descartadas pelo jornalismo de causas que não consegue abster-se de reacções pavlovianas a seja o que for que Trump diga, o que devido às suas constantes contradições mostra da parte dos jornalistas de causas algum talento para conseguirem estar contra duas coisas contraditórias.

Até que as autoridades locais de Wuhan reconheceram publicamente que cometeram um erro cuja correcção aumentou em 50% a mortalidade. Não sei se há alguém neste mundo, para além dos 90 milhões de membros do PCC, que acredite num erro de contagem desta magnitude.

Pela minha parte classificaria este discrepância não como um erro mas como o resultado da primeira contagem ter sido segundo os métodos próprios das estatísticas de causas.

17/04/2020

Portugal dos Pequeninos, a caminho na Rota da Seda para ser um satélite do Novo Império do Meio

«Financiamento para salvar TAP poderá vir do maior banco chinês», a acrescentar à participação no capital do grupo chinês HNA.

Citando de memória, participações de controlo em sectores que costumavam ser "estratégicos" na mão de grupos chineses todos eles ligados directa ou indirectamente à nomenclatura do Partido Comunista Chinês:
  • REN Rede Eléctrica Nacional - proprietário da infraestrutura eléctrica
  • Fidelidade - a maior seguradora 
  • BCP - segundo maior banco
  • EDP - maior produtor e distribuidor de electricidade
  • Brisa - maior operador de autoestradas em risco de ser controlada por um grupo estatal chinês

Uma Proposta Modesta Para Evitar que os Activistas Desperdicem Acções e Indignações

Em 1729 Jonathan Swift publicou um panfleto satírico com o título longo e insólito A Modest Proposal: For Preventing the Children of Poor People in Ireland from Being a Burden to Their Parents or Country, and for Making Them Beneficial to the Public.

Desde então, inúmeras Propostas foram baptizadas de «Proposta Modesta». Chegou a vez do (Im)pertinências apresentar também uma Proposta Modesta Para Evitar que os Activistas Desperdicem Acções e Indignações neste Portugal dos Pequeninos a que Falta Dimensão e aos Habitantes Pachorra.

Para aplicar a Proposta Modesta é indispensável separar os Activistas em diferentes classes de Acções, propor-lhes de seguida um Propósito e oferecer-lhes uma Viagem para destinos onde as suas indignações encontrem chão para dar frutos, por exemplo:

  • Activistas Feministas - Níger, Somália ou Mali, ou qualquer outro país onde as mulheres possam ser sujeitas a mutilação genital
  • Activistas Climáticos - China ou qualquer outro país que use intensamente o carvão
  • Activistas da Identidade de Género - Sudão, Irão, Arábia Saudita, ou qualquer outro país onde um gay possa ser condenado à morte 
  • Activistas que culpam Trump pelas mortes pelo Covid-19 - Bélgica, Espanha, Itália, França ou qualquer outro país com maior taxa de mortalidade por Covid-19 
  • Activistas admiradores de "Democracias" Musculadas - Federação Russa, Turquia ou qualquer outro país onde as liberdades sejam meramente formais
  • Activistas do Comunismo - Coreia do Norte, Cuba ou Venezuela ou qualquer outro país que faça parte da lista dos países amigos do PCP ou do BE.

(Work in progress)

16/04/2020

Dúvidas (299) - Como conseguem sem um Trump?

worldometer (às 14:30)
É uma pergunta estúpida? Talvez seja. É uma pergunta pertinente aos jornalistas de causas que fazem títulos e artigos a anunciar o Great American Disaster.

Dúvidas (298) - Podemos confiar na OMS? (com P.S.)

Reformulando a pergunta: podemos confiar no director-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus e na equipa que actualmente dirige a Organização Mundial de Saúde?

Vejamos alguns factos descritos pela revista The Atlantic (How China Deceived the WHO):

«Em Janeiro, quando a pandemia que agora consome o mundo ainda estava ganhando força, um pesquisador de Berkeley chamado Xiao Qiang estava monitorando as declarações oficiais da China sobre um novo coronavírus que se espalhava por Wuhan e notou algo perturbador. As declarações da Organização Mundial da Saúde, o organismo internacional que aconselha o mundo a lidar com crises de saúde, frequentemente faziam eco das mensagens da China. "Particularmente no começo, foi chocante quando eu vi repetidamente o director-geral da OMS, quando falou à imprensa ... quase citando directamente o que li nas declarações do governo chinês", ele me disse.

O exemplo mais notório veio na forma de um único tweet da conta da OMS em 14 de Janeiro: "As investigações preliminares conduzidas pelas autoridades chinesas não encontraram evidências claras da transmissão de humano para humano do novo coronavírus". Nesse mesmo dia, o boletim público da Comissão de Saúde de Wuhan declarou: "Não encontramos provas de transmissão de homem para homem". Mas, a essa altura, até o governo chinês estava fazendo advertências não incluídas no tweet da OMS. "A possibilidade de transmissão limitada de homem para homem não pode ser excluída", disse o boletim, "mas o risco de transmissão sustentada é baixo".

Sabemos agora que isso era catastroficamente falso e, nos meses seguintes, a pandemia global colocou grande parte do mundo sob um bloqueio sem precedentes matando mais de 100.000 pessoas.»

Acrescentemos outros factos:
  • Desde 14 de Janeiro a nomenclatura chinesa estava consciente que se tratava de uma pandemia e em Wuhan deixaram realizar um banquete para dezenas de milhar de pessoas e só no dia 20 Xi Jinping tornou pública a pandemia
  • Em 28 de Janeiro Tedros Adhanom Ghebreyesus foi a Pequim dar os parabéns a Xi Jinping por «estabelecer um novo padrão para o controle de epidemias», enquanto ainda nessa altura as autoridade chineses puniam quem espalhasse "boatos";
  • No dia 3 de Fevereiro quando já havia 17.238 infectados e 361 mortes na China e 151 casos confirmados em 23 países e 1 morte, Ghebreyesus, garantiu não se justificarem medidas que «interfiram desnecessariamente nas viagens e no comércio internacional» para impedir a propagação do coronavírus a partir da China; apesar de o médico chinês Li Wenliang ter alertado em Dezembro para o surto e ter sido intimidado pela polícia chinesa;
  • Durante vários meses a OMS desaconselhou o uso de máscaras (quando na China e por toda a Ásia eram maciçamente usadas);
  • Ajuda a perceber a subserviência de Ghebreyesus sabendo-se que a China foi um apoio vital para a sua eleição, dívida que ele começou a pagar ostracizando Taiwan e agora com a lavagem dos erros e da falsificação de dados sobre a pandemia pela China.
Agora já podemos esclarecer à dúvida com alguma segurança.

Post Scriptum:

Citando Paulo Tunhas que preencheu uma parte da minha ignorância sobre Tedros Adhanom Ghebreyesus: «pertenceu a um facinoroso movimento comunista na Etiópia, que muito o ajudou na sua eleição para o cargo que presentemente ocupa e que um dos seus primeiros gestos desde que eleito para esse cargo foi nomear Robert Mugabe para “Embaixador da Boa Vontade” da OMS.»

15/04/2020

CASE STUDY: Trumpologia (63) - A freguesia eleitoral aceita tudo

Mais trumpologia.

Personagens como Donald Trump suscitam sentimentos extremos: por um lado os seus detractores destilam ódio por todos os poros e rejeitam até o que aceitariam vindo de um dos seus; por outro os seus indefectíveis aceitam e até louvam os disparates mais óbvios e ignoram o que contradiz o que diz defender e até, por vezes, vai contra os interesses de uma parte significativa do seu eleitorado.

O exemplo mais recente de uma medida daquele último tipo faz parte do pacote de US$ 2 biliões de estímulo à economia e consiste numa alteração da fiscalidade de que resultam benefícios fiscais de US$ 90 mil milhões em 2020, dos quais 82% são destinados aos 43 mil contribuintes com rendimentos fiscais superiores a um milhão de dólares por ano e menos de 3% são destinados aos contribuintes com menos de 100 mil dólares, segundo os cálculos do Joint Committee on Taxation um órgão não partidário do congresso. (WP)

Uma parte significativa da base eleitoral de Trump são aqueles a quem Hillary Clinton chamou deplorables e inclui também o operariado branco que nas primárias democratas anteriores votou Sanders, a maioria com rendimentos abaixo de 100 mil dólares.

ADITAMENTO:

Esclarecendo o último parágrafo (que não tem relação nenhuma com «associar o Trump à esquerda radical»):

Pew Research Center

«... these results support the claim that Trump’s appeal to the white working class was crucial for his victory», Trump Voters and the White Working Class, Stephen L. Morgan, Jiwon Lee, Johns Hopkins University

14/04/2020

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (2)

Uma continuação deste post de há quatro anos, com um título que regista um statement de John Kenneth Galbraith, talvez o único que não devemos ignorar de um economista inspirado no que ele considerava ser keynesianismo, mas era mais uma espécie de marxismo serôdio.

Retorno a este tema a propósito das previsões do impacto na economia da pandemia, ou mais rigorosamente, do impacto das medidas resultantes do medo/ignorância/falta de lucidez (escolher ao gosto) da dupla presidente da República-primeiro ministro.


Chegados aqui, se o statement de JKG vos pareceu uma piada, sabendo-se que o país ficará confinado no mínimo um mês e, provavelmente, até às férias, e que o turismo, até agora o verdadeiro sustentáculo do Estado Sucial, é para esquecer este ano, a maioria das previsões citadas são uma confirmação post mortem dessa pérola única do pensamento económico de JKG.

Em tempo: registe-se que a previsão de S. Ex.ª o PR é provavelmente a mais rigorosa. Tal como o Monsieur Jourdain de Molière que fazia prosa sem o saber, talvez nem ele saiba que fez uma previsão.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (28) - Somos os melhores dos melhores a exaltar os nossos melhores

Outros portugueses no topo do mundo.

Depois de ter tido alta, Boris Johnson agradeceu ao enfermeiro português Luís e à enfermeira neo-zelandesa Jenny os cuidados que lhe prestaram no St Thomas' Hospital.

Em Portugal e na Nova Zelândia a coisa foi celebrada na imprensa como se pode ver nas seguintes pesquisas Google.


Mas há exaltações e exaltações. Como nos ensina S. Ex.ª, somos os melhores dos melhores e mostrámos também que somos os melhores a exaltar os nossos melhores.

13/04/2020

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (27) - Em tempo de vírus (V)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Mestres do ilusionismo

Jura Nelson de Souza que «não vamos deixar cair nenhum grande investimento». Isto dito por um ministro do Planeamento de um governo que nas vacas gordas orçamentou o ano passado 4.853 milhões de investimento público e executou menos 900 milhões, só mesmo o Expresso pode levar a sério.

Nomeadamente, diz-nos ainda o semanário de reverência, que o «Ferrovia 2020 tem 69% do investimento em marcha». Como os restantes 31% ainda estão na fase de projecto, supõe-se que os 69% em marcha significam que já existe projecto, daí até à obra mover-se com a economia parada é precisa uma enorme fé só ao alcance dos crentes.

Não, isto não foi causado pelo coronavírus, foi causado pelo vírus socialista

No estudo relativo à 11.ª missão de avaliação ao pós-programa de resgate a CE são destacadas as maiores ameaças: problemas estruturais da despesa com (1) os salários da função pública (resultantes, recorde-se, das "reposições", 35 horas etc.), (2) a segurança social e (3) a despesa com saúde, problemas que tornam difícil a redução de uma dívida pública cujo rácio é um dos mais elevados do mundo. A quarta ameaça são os riscos para a estabilidade financeira com o aumento do crédito hipotecário e ao consumo. Com as consequências das medidas em curso para conter a pandemia tudo isto é história que apenas devemos recordar para concluir que partimos descalços para esta "guerra", como lhe chama o Dr. Costa, porque o socialismo vendeu as nossas botas.

Também as exportações já estavam a desacelerar antes da pandemia, e o défice da balança comercial de bens até Fevereiro aumentou 170 milhões para 1.547 milhões.

É claro que também não teve a ver com a pandemia a última queda da taxa de poupança das famílias para 6,7% do rendimento disponível, que compara com 13,0% da Zona Euro. Como disse o honorável capitalista Warren Buffett, é quando a maré baixa que se vê quem tem calções e no nosso caso nem cuecas, só talvez uns testículos mirraditos.

A evaporação de temas fracturantes, uma consequência inesperada da pandemia (2)

Continuação desta evaporação

Mais temas até recentemente urgentes e avassaladores que se evaporaram dos mídia:
  • A violência doméstica
  • A ameaça fascista do Chega
  • A ascensão imparável de Bernie Sanders, o socialista que haveria de livrar os americanos das garras de Trump
  • Os temas relacionados com a invasão turística, tais como:
  • A "gentrificação" de Lisboa, causada pelos estrangeiros que compram casas nas zonas históricas
  • A descaracterização do nosso querido património pelo turismo de massas
  • A poluição de Lisboa pelo navios de cruzeiro que trazem o turismo de massas
  • A falta de habitação "digna" pela invasão do alojamento local.
(Work in progress)

12/04/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (5) - O passado pode ensinar-nos alguma coisa sobre o presente

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Visual Capitalist
Até agora, as estatísticas da OMS mostram um número de óbitos relacionados com Covid-19 um pouco superior a 110 mil (110.827 no momento em que começo a escrever este post). Na verdade, na maior parte dos países, incluindo Portugal, não se trata apenas de mortos pelo "Covid-19" mas de morte com "Covid-19". Ou seja, contam-se como vítimas do pandemia todas as pessoas que morrem infectadas o que, como escrevi no post anterior, faz tanto sentido como classificar como morte por gripe comum os casos em que um doente terminal morre constipado.

Ainda assim, nesta altura, a pandemia em curso é uma das menos mortíferas registadas na história, com pouco mais de metade das mortes da Swine Flu, conhecida entre nós por Gripe A, causada pelo vírus de gripe H1N1, aparentado ao da Pneumónica (Spanish Flu) de há cem anos.

Estima-se que a Gripe A tenha há dez anos infectado 700 a 1.400 milhões ou 11 a 21% da população mundial de então, ou seja mais do que a Pneumónica (Spanish Flu) apesar de ter causado apenas 2% a 4% das mortes desta. A pandemia actual, depois de mais de quatro meses (começou em Dezembro em Wuhan) infectou até agora menos de dois milhões. Um estudo realizado em 2010 concluiu que o risco de doença grave resultante da gripe H1N1 de 2009 não era maior que o da gripe sazonal, que a OMS estima que cause 250.000 a 500.000 mortes por ano.

Quem se lembra hoje da pandemia de Gripe A há dez anos? Por que razão não despertou a excitação dos mídia nem a histeria colectiva como a pandemia do Covid-19? Provavelmente por uma coincidência de várias razões entre as quais o facto dos primeiros casos da Gripe A terem surgido nos Estados Unidos e ter-se concluído na altura que o vírus tinha origem no México, enquanto a pandemia actual foi primeiro identificada num local "exótico".

(Continua)

Até parece um Estado Social

Como parte do pacote de estímulo de US$ 2 biliões, os contribuintes elegíveis que apresentaram declarações fiscais para 2019 ou 2018 receberão reembolsos de até US$ 1.200 para pessoas individuais ou US$ 2.400 para casais. Aqueles que se qualificarem para o reembolso recebem um extra de $500 para cada filho qualificado com menos de 17 anos. Os pagamentos serão feito por transferência bancária ou enviados pelo correio e terão lugar automaticamente para a maioria das pessoas a partir da próxima semana, informou a Receita Federal. (Washington Post)

11/04/2020

Não foi a banca que foi salva e não foi o Estado que salvou. A banca não vai salvar-nos e o plano Marshall é um delírio ou outro nome para os ricos que paguem a crise

Percebo que Dona Catarina Martins grite salvámos a banca, agora a banca tem de salvar-nos. Afinal ela é uma artista do teatro independente, o teatro a quem o estado diz «toma lá dinheiro e faz qualquer coisa», como em tempos o caracterizou António Feio, um artista do teatro dependente do público.

Percebo que o Dr. Louçã mande o pelotão berloquista gritar que devemos evitar que a banca tenha lucros. Ele sabe perfeitamente que uma banca sem lucros, como qualquer empresa sem lucros, está destinada a falir... ou a ser nacionalizada. Percebo perfeitamente que o Sr. Jerónimo diga coisas parecidas porque ele também sabe do mesmo.

Percebo perfeitamente que o Dr. Costa diga coisas parecidas em modo "solidário", como os bancos «já contaram com a comunidade nacional no suporte à sua actividade. Agora é a fase de os bancos ajudarem». Para o caso é indiferente se ele acredita ou não, porque o Dr. Costa não tem convicções, só tem conveniências.

Já tenho mais dificuldade em perceber que o Dr. Rio diga também o mesmo, porque ele tem obrigação de saber que as parcelas mais significativas do activo e do passivo dos bancos são os créditos a clientes e os depósitos de clientes, respectivamente. De onde, numa crise, como aquela em que acabámos de entrar, o crédito malparado só pode aumentar e os depósitos de clientes só podem diminuir, por isso ele poderia ter ficado calado porque só por milagre a banca aumentaria os lucros. Como deveria saber que a banca portuguesa não está adequadamente capitalizada.

E todos deveriam ter percebido que o dinheiro dos contribuintes para salvar a banca na crise de 2011 não foi bem para salvar a banca. Foi para salvar os credores da banca que entraram em incumprimento e para salvar os accionistas, como os Espírito Santo que usaram o dinheiro do banco em proveito próprio e em proveito da tentativa de domínio da banca pela clique socialista liderada pelo Sr. Eng. José Sócrates. E também deveriam percebido que a maioria desses credores inadimplentes eram empresas do complexo político-empresarial socialista que na sua maioria parasitavam o Estado Sucial.

E o Estado não salvou essa gente, o Estado usou o dinheiro dos contribuintes e mais dívida, ou seja o dinheiro futuro dos contribuintes, pelo que, segundo a lógica das supracitadas luminárias, seria essa gente quem teria o dever de salvar os contribuintes. Por isso, é  melhor os contribuintes darem corda aos sapatos porque terão de ser eles próprios a salvar-se, como habitualmente..

E quanto ao plano Marshall proposto pelo Dr. Poiares Maduro - uma proposta surpreendente para uma criatura que até aqui não parecia desprovida de senso, proposta que no mínimo é um outro nome para os Corona bonds e no máximo um perfeito disparate - devemos começar por recordar algumas coisas: (1) os beneficiários do Plano Marshall foram países europeus destruídos por uma guerra que arrasou as suas indústrias e as infraestruturas em geral; (2) por muito que o Dr. Costa e outros políticos chamem guerra às medidas para debelar a pandemia, a única coisa que esta destruiu foram as fantasias; (3) o doador de então foi um Estado que ele próprio precisa agora de se ajudar nesta crise e para tal já mobilizou 1.800 mil milhões de euros, isto é, 3,6 vezes os 500 mil milhões de euros de uma União Europeia ou mais de 5 vezes considerando as respectivas populações; (4) o presidente em exercício do dador não é um Harry Truman, mas um Donald Trump que foi eleito a prometer Make America Great Again e não Make Europe Great Again.

10/04/2020

Será o Dr. Costa uma espécie de Churchill? Sim, se trocarmos as convicções pelas conveniências

«É óbvio que os políticos têm direito a mudar de opinião – Churchill mudou de partido duas vezes –, mas a história dos estadistas mostra-nos que estes mudavam de lado para melhor protegerem as suas convicções. Costa, por seu turno, muda de convicções para melhor proteger o seu lado.».

"Mr Winston Spencer Costa", Sebastião Bugalho no Observador

Não me tinha apercebido que na imprensa amiga havia jornalistas de causas a insinuarem que o Dr. Costa seria uma espécie de Churchill. É uma maneira de ver coisas, mas requer algumas trocas: o combate na frente francesa durante a 1.ª Guerra Mundial depois do desastre de Dardanelos pela recruta em Tavira, Downing Street por S. Bento, os nazis pelo Covid-19 e, sobretudo, as convicções pelas conveniências.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (27) - O "sucesso" na guerra contra a pandemia

Outros portugueses no topo do mundo.

Fazendo o costume, a imprensa do costume celebra as referências elogiosas de vários jornais estrangeiros o modo como os portugueses estão a combater na guerra contra o Covid-19, para usar a linguagem bélica do Dr. Costa e dos seus ministros que a imprensa adoptou com entusiasmo.

«Le mystère portugais face au covid-19», «Le Portugal, exception latine face au coronavirus», «Das portugiesische Wunder», «Pourquoi le Portugal semble épargné ?» são alguns dos títulos que celebram o sucesso dos portugueses na guerra contra o Covid-19, para citar outra vez o Dr. Costa e sua referência elogiosa à sua suposta disciplina («Os portugueses são tão disciplinados que a repressão é inútil»).

Peço desculpa por discordar e pelo aparente anti-patriotismo que, em rigor, é mais um patriotismo desalinhado que entende ser um insulto à inteligência dos portugueses que têm alguma as patetices como o «somos muito bons, somos dos melhores dos melhores» de S. Ex.ª. E entende que, em vez disso, as elites deveriam exortar os portugueses a aproveitar as oportunidades para fazer o melhor que podem, um melhor que muitas vezes não é suficientemente bom. E é aqui, nas elites, que está o maior problema, porque essas elites são predominantemente medíocres e engraxam o povo como forma de se enaltecerem a si próprias.

E discordo porque, em minha opinião, neste caso, o aparente sucesso resulta de várias causas, umas que não dominamos, e por isso não temos que celebrar, e uma, provavelmente a causa determinante, que resulta da nossa atitude medrosa que levou muitos de nós ao confinamento, ainda antes do estado de emergência, e no confinamento continuar com uma aparente disciplina que na verdade resulta do medo. Sim, porque os portugueses não são nem nunca foram disciplinados. E também não são nem nunca foram prudentes porque a prudência resulta de uma ponderação racional dos riscos e uma antecipação das suas indesejáveis consequências. Se fossemos disciplinados e prudentes seriam uma espécie de alemães desenrascados do sul, coisa que estamos longe de ser e não estaríamos onde estamos.

Em conclusão, o "sucesso" resulta do medo irracional instrumentalizado pelos mídia infectados de esquerdalhada com sonhos húmidos com pandemias e catástrofes em geral. Não apenas do medo inscrito no ADN humano por centenas de milhares de anos de selecção natural (os psicólogos evolucionistas explicam que os medrosos sobrevivem mais do que os corajosos), mas do processo de selecção social dos últimos cinco séculos que fez sair os inconformados de Portugal nos Descobrimentos e os fez e faz sair pela emigração.

09/04/2020

ACREDITE SE QUISER: “Human kind cannot bear very much reality.”

A "oposição" de Rui Rio ao governo foi elogiada pelo Podemos, um dos partidos da coligação que governa Espanha, originário de um movimento radical esquerdista que nasceu do Centro de Estudos Políticos e Sociais, uma organização financiada pela clique chávista em mais de 7 milhões de euros entre 2003 e 2011 «para criar forças políticas bolivarianas em Espanha».

Uma das poucas afirmações de Donald Trump sobre a pandemia que até agora pareciam estar sustentadas pelo factos era que o coronavirus «it came from China». No more. Estudos por duas equipas independentes de investigadores concluíram que as "assinaturas" genéticas dos vírus que estão a infectar os americanos mostram que «the majority is clearly European».

As luminárias das esquerdas têm sonhos húmidos com pandemias e catástrofes em geral

Entre as esquerdas, mais numas do que noutras, vive-se um momento de excitação com a pandemia. Como paradigma, cito o jornalista de causas / militante / comentador / analista,  ex-comunista, ex-Plataforma de Esquerda, ex-Política XXI, ex-bloquista, ex-Livre, ex-Tempo de Avançar, ufa!, Daniel Oliveira, que até recentemente desempenhou o papel de bactéria diligente-mor da fossa séptica socialista, papel que abandonou desgostoso com o fim da geringonça.
«Pressinto, pressentimos quase todos, a grandeza fundadora deste momento. Ele será recordado como o momento em que muitas coisas mudaram. (...) marca mesmo a História. Provoca ruturas.»
Assim escreveu a criatura em tom apologético, falando, imagina ele, em nome de quase todos. Repare-se grandeza fundadoramarca a História, provoca rupturas. E porquê essa excitação? Simplesmente porque todos os cataclismos, ou eventos que as esquerdas considerem como tais, como é o caso desta pandemia, obrigam geralmente, ou acham as esquerdas que obrigam, a uma maior intervenção do Estado, intervenção que as esquerdas sempre aplaudem. Evidentemente que o cataclismo que mais excita a esquerda das esquerdas é a revolução social, culminando com a tomada de um palácio de Inverno. Nesse sentido, esta pandemia é apenas um pálido ersatz, mas quem não tem cão caça com gato.

E porque aplaudem em geral as esquerdas uma maior intervenção do Estado procurando ocupar o Estado proporcionalmente ao seu grau de radicalismo?  A explicação geral é porque a esquerda é um credo que sacrifica a liberdade em nome da igualdade, na dúvida (esquerda «democrática») ou sempre (a «outra» esquerda) e a igualdade só pode ser conseguida coercivamente, o que requer a ferramenta adequada - o Estado controlado pela esquerda evidentemente. Por isso, sonha Daniel de Oliveira com os amanhãs que cantarão.

E será que os amanhãs vão mesmo cantar? Talvez não, lamenta  Ricardo Paes Mamede, um economista académico e mediático da Mouse School of Economics, com um poucochinho mais de sofisticação do que o padrão dessa escola, num artigo cujo título é, só por si, uma lamentação:  «Não, o vírus (ainda) não trouxe o socialismo de volta».

Comparando a actual crise da pandemia com a crise financeira de 2008, Paes Mamede lembra que «os Estados foram chamados a intervir em força, é certo», mas nem por isso o socialismo chegou. «Também agora a crise do covid-19 põe muitas pessoas a defender coisas inesperadas. Mas apesar do volume inaudito de socialização dos riscos e do papel activo dos Estados no combate ao vírus, há pouco de socialismo na situação actual». Porque, explica «não há socialismo numa sociedade onde a participação democrática e a representação dos trabalhadores estão suspensas.»

Temo, como agora se diz a propósito de tudo, que Paes Mamede esteja equivocado. Dependendo da modalidade de socialismo, onde há socialismo costuma haver pouca ou nenhuma participação democrática e costumam estar ausentes ou serem meramente formais os mecanismos e as instituições próprias de uma democracia liberal.

08/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (4) - Estatísticas de causas, a tradição ainda é a mesma coisa

Continuação de outros posts.

Não há nada de novo sobre a terra. Haver há, mas não em matéria de dados estatísticos produzidos por regimes autocráticos. O que se passa na China a este respeito é apenas uma reedição com sabor local do comportamento das autoridades dos Estados que fizeram parte do Império Soviético. A China, apesar de ter abandonado o comunismo, substituindo por um capitalismo do Partido Comunista, manteve e refinou a tradição de tratar a estatística como a arte de torturar os números até que eles confessem. E eles, os dados e os traidores ao Partido, acabam sempre por confessar.

É claro que os admiradores do sistema chinês sempre poderão concluir que a coincidência dos "saltos" que os gráficos mostram com eventos políticos é apenas aleatória e que a correlação não é causalidade. Não adiantará tentar mostra-lhes que a probabilidade de isso ser puramente aleatório cai no domínio da impossibilidade prática. Não há nada a fazer a esse respeito, é uma profissão de fé, credo quia absurdum

China’s data reveal a puzzling link between covid-19 cases and political events
«Há uma suspeita crescente de que não se pode confiar nas estatísticas oficiais da China sobre a pandemia do Covid-19. Em 24 de Março, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chegou perto de admitir que os números haviam sido incorrectos quando alertou as autoridades de que "não deve haver ocultação ou comunicação incompleta". Relatórios classificados ao Congresso das agências de inteligência americanas concluíram que o número de casos e mortes por doenças na China é muito maior do que os números oficiais do governo sugerem.

Tal cepticismo pode ser merecido. Uma análise do The Economist dos dados relatados pela Comissão Nacional de Saúde da China revela duas características peculiares. Primeiro, os dados são voláteis. Nas nove províncias chinesas com surtos graves, identificamos 15 episódios nos quais os novos casos de Covid-19 aumentaram mais de 20% em um único dia, antes de retornar rapidamente aos níveis anteriores. Embora esses picos possam ocorrer em qualquer conjunto de dados - por causa da manutenção errática de registos, por exemplo -, descobrimos que outros países e regiões com surtos de Covid-19, de dimensão semelhante a essas províncias, tiveram menos. Segundo, quando ocorrem picos, eles geralmente são acompanhados por decisões importantes de entidades do governo. Dos 15 episódios observados nos dados, dois terços ocorrem no dia seguinte a ter sido demitido um funcionário da província ou outro evento político significativo

DIÁRIO DE BORDO: Clowning for a cause (2) - Isto é gozar com quem vê o programa

Depois de ver a entrevista de Ricardo Araujo Pereira no «Isto é gozar com quem trabalha» a Cotrim de Figueiredo, pensei escrever sobre o exercício de irremediável imbecilidade de um comediante que, sendo inteligente, na circunstância pareceu um apparatchik obediente a fazer perguntas extraídas da cassete do PCP. A intenção ficou esquecida até ler este post de Helena Matos e recordar o que escrevi há quase cinco anos totalmente aplicável a esta entrevista.

Ao longo dos tempos, inventariámos no (Im)pertinências várias áreas de causas: o jornalismo de causas, as estatísticas de causas, a ciência de causas, a justiça de causas e a tradução de causas. Todas estas áreas partilhando das características identificadas pelo falecido Armando Baptista-Bastos a respeito do «jornalismo de indignação» que ele praticava e exaltava, jornalismo em que «não há factos. Os factos correspondem à visão do mediador, do repórter». Num certo sentido B-B foi um percursor de Kellyanne Conway, consultora de Trump, e dos seus «alternative facts» - les bons esprits se rencontrent.

Concluí então, e confirmo agora, que deveríamos acrescentar mais uma área de causas na actividade humana: o humor de causas, em que o humor não tem graça e está ao serviço de uma agenda mal disfarçada. Se o jornalismo praticado por muitos jornalistas é jornalismo de causas, o humor de RAP no seu pior, como agora, é um paradigma do humor de causas.

E que causas? Certamente não por coincidência, há algumas semanas no seu actual programa, RAP acolheu numa entrevista Jerónimo de Sousa, como então há cinco anos tinha acolhido, outra vez com visível ternura e respeitinho, tentando disfarçar sem sucesso a falta de independência em relação aos temas e a atitude servil face ao entrevistado. Isto é gozar com quem vê o programa.

07/04/2020

ACREDITE SE QUISER: Fazer a festa, apanhar os foguetes e ir a correr atrás das canas

«André Ventura apresenta demissão da liderança do partido Chega
Atual presidente do partido convocou uma convenção nacional para setembro.» (CM)

Sem a esquerdalhada, ocupada a coçar-se com o Covid-19, a apontar-lhe o foco e dar-lhe palco, o Dr. Ventura sonha uma conspiração ameaçando a sua liderança e toma uma medida urgentíssima: convocando para Setembro (sim, leu bem, Setembro) uma convenção para o reeleger por unanimidade e aclamação.

Uma oposição como esta de que faz parte o Dr. Ventura poderia oferecer ao Dr. Costa um cágado para criar em S. Bento e levá-lo depois para Belém.

Contava-se que teriam oferecido um cágado ao Dr. Salazar e ele teria prometido cuidar dele em S. Bento até que o cágado morresse (um cágado-de-carapaça-estriada pode viver em cativeiro até aos 100 anos).

Dúvidas (297) - Estarão os eleitores a ser vítimas de uma espécie de síndrome de Estocolmo?

Jornal Económico

06/04/2020

ARTIGO DEFUNTO: O patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente (ADITAMENTO)

Quanto ontem preparei apressadamente o post sobre as tolices tudológicas de MST, esqueci alguns factos relacionados com os Países Baixos (sim, é este actualmente o seu nome oficial) que tornam ainda mais ridícula a ignorância da criatura.

Esqueci por exemplo que quase todos os dias uso uma Philishave, uma máquina de barbear produzida pela Philips NV, uma multinacional holandesa de electrónica, com mais de um século, 80 mil empregados e vendas de 20 mil milhões de euros, com uma presença muito forte em Portugal, que não apenas criou a primeira máquina de barbear, como introduziu inúmeras inovações no Raio-X, rádio, iluminação, televisão, gravação de som e imagem, iluminação e inventou o disco óptico, o CD (com a Sony) e o DVD (com a Sony e a Toshiba).

Dedicado a MST que ainda o deve ter
visto quando andava na primária
E tive de ser lembrado da DAF Trucks NV por um leitor. A DAF é desde os anos 20 fabricante de camiões, veículos militares e, até ao princípio dos anos noventa, veículos ligeiros, dos quais vários modelos circularam em Portugal no final dos anos 50 e princípios de 60. O mais popular foi o DAF 600 com uma transmissão inovadora (e também problemática).

Em 1996 a DAF foi comprada pela americana Paccar Inc.

Se no Portugal dos Pequeninos existisse uma Philips ou uma DAF, provavelmente Portugal não seria dos Pequeninos e dificilmente MST teria criado uma reputação na área da comentadoria tudológica.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (26) - Em tempo de vírus (IV)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Mestres do ilusionismo

É preciso reconhecer que há coisas que o Dr. Costa e a sua equipa fazem muito bem. A prestidigitação, nomeadamente.

Veja-se o à-vontade com que ele actua em qualquer palco - por exemplo no palco de uma Cristina aos gritinhos. Palco que os invejosos dirão ser uma anfitriã pouco respeitável para falar de coisas sérias como a pandemia. Veja-se como a criatura consegue fazer passar a ideia de que tem liderado o grupo dos pedintes contra os ricos e confira-se o relato do El País das horas de reunião à volta do tema coronavírus e onde não se menciona uma única vez o grande estradista Costa.

Ou leia-se como o semanário de reverência garante que «o governo quer responder à crise com investimento». O mesmo governo que orçamentou o ano passado, nos tempos das vacas gordas - ou voadoras, se preferirem -, 4.853 milhões de investimento público e executou menos 900 milhões, vai agora buscar dinheiro onde? Só se fosse à Óropa, mas os ricos não se mostram muito disponíveis a pagar a crise, por muito que o Dr. Costa invoque solidariedade e ameace o fim da UE.

«Estamos preparados»

Depois das diversos volteios sobre o impacto da pandemia que começou por ser nada, passou por ser o fim do mundo e agora não sabemos bem o que vai ser, o mesmo se passou com as medidas: os testes que criavam falsa sensação de segurança e as máscaras que não eram para usar, que talvez fosse, para usar e agora são para alargar a mais grupos.

Até a aritmética falhou na contagem dos casos em que houve duplicações e os médicos dizem que o sistema de registo «é um pesadelo burocrático». A trapalhada é tão óbvia que até o director do Público, até aqui um paladino da DGS, viu-se obrigado a reconhecer que «temos um problema». É verdade, mas é só um dos muitos outros problemas.

E o material, claro. No site MATERIAL EM FALTA criado pelo pessoal da saúde listam-se mais de 400 itens.

Com tudo isto não admira que o dinheiro também esteja em falta. É o que acontece com a linha de crédito Capitalizar Covid-19 (uns míseros 365 milhões), destinada às empresas em dificuldades por causa da pandemia, que está quase esgotada.

Cuidando da freguesia eleitoral, sempre

Mesmo quando as vacas se despenham, o governo não abandona a sua clientela e, em pleno estado de emergência e início do lay-off e despedimento de centenas de milhar de trabalhadores das empresas, actualizou a base remuneratória e o valor das remunerações base mensais da Administração Pública.

05/04/2020

ARTIGO DEFUNTO: O patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente

Vou dar-me ao trabalho, mais uma vez, de comentar outro exercício de tudologia de Miguel Sousa Tavares (tudólogo foi como um leitor agrónomo o apelidou a propósito dos disparates que escreveu sobre agricultura). Nos comentários anteriores comentei a ignorância pesporrente que lhe permite avançar asneiras sobre matérias que desconhece sem se dar ao incómodo de procurar primeiro ilustrar-se. Desta vez é diferente porque se trata de ignorância em matéria de cultura geral que se esperava estar no âmbito da tudologia.

Eis o que escreveu na sua coluna habitual no semanário de reverência um MST ressabiado porque «os holandeses, os novos-ricos da Europa, actuando como gauleiters da Alemanha» não parecerem disposto a subsidiar a prodigalidade greco-latina através dos coronabonds:
«E, já agora, tirando o “Século de Oiro” da pintura holandesa, abrangendo o último quartel do século XVI e a primeira metade do século XVII, o que deu a Holanda à Europa? Van Gogh, na pintura, e Johan Cruyff, no futebol, são as únicas excepções. De resto, e sobretudo comparando com a Espanha e a Itália, nos últimos quase 400 anos, eles não deram à Europa um escritor, um músico, um compositor, um arquitecto, um estadista, um economista, um cientista, um automóvel, um desenho de sapatos, um filme inesquecível, uma marca de vinho, uma receita de cozinha, uma nova borboleta..
Começo por «novos-ricos» que me parece pouco ajustado a um povo que, desde pelo menos o século XVII, quando aqui abundava a pobreza mais absoluta fora da corte, tem um nível de riqueza muito acima dos habitantes da jangada de pedra.

O "Século de Oiro" foram vários séculos, em que encontramos Bosch, Brueghel o Velho, Hals, Rembrandt, Vermeer e muitos outros. Depois disso, para além de van Gogh (e não Van Gogh), com projecção internacional, lembro assim de repente Escher, Mondrian e de Kooning.

No futebol, além de Cruyff, lembro assim de repente Marco van Basten, Dennis Bergkamp, Ruud Gullit e Ronald Koeman.

É certo que a literatura holandesa não produziu grandes escritores. Em contrapartida produziu Erasmo e Espinoza. Ah, e produziu vinte Prémios Nobel, a maioria em Física e Química, mas também dois em Economia (Jan Tinbergen e Tjalling Koopmans).

É certo que, para além do contemporâneo Gustav Leonhardt, a Holanda também não produziu grandes nomes na música. Em contrapartida, é sede para dez das 500 maiores empresas globais, como Royal Dutch Shell, EXOR, Airbus, ING, Randstad, Heineken, Rabobank. Por acaso, também por lá têm sede fiscal várias empresas portuguesas do PSI-20 (que por acaso só tem 18 empresas cotadas).

Em matéria de arquitectos de topo também só me estou a lembrar de Rem Koolhaas. E quanto a estadistas não recordei nenhum além de Johan De Witt,

É certo que além dos seus 17 Nobel em Física, Química e Medicina, não se encontram grandes cientistas. Em contrapartida é o 9.º país com mais patentes, Portugal é o 39.º (World Intellectual Property Indicators 2019).

Concedo que não me ocorre automóvel, desenho de sapatos, filme inesquecível, marca de vinho, receita de cozinha e borboleta que possa ser atribuída a holandeses e nestas matérias encontramos do lado português o vinho do Porto (que até pode ter sido inventado pelos ingleses...), o bacalhau à Gomes de Sá e as ameijoas à Bolhão Pato.

E queixa-se MST das redes sociais.

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (4) - Os dados podem não reflectir adequadamente o impacto do Covid-19 (II)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Na opinião de John Lee em How to understand – and report – figures for ‘Covid deaths’, a taxa de letalidade real do Covid-19 pode não ser muito diferente da gripe comum. Essa taxa que é a relação n.º de óbitos causados pelo Covid-19 / n.º de pessoas contaminadas parece estar sobrestimada por estarem a ser considerados todos os óbitos em que existe infecção por Covid-19, independentemente deste ser a causa da morte, isto é contam-se as mortes “com Covid” e não apenas com “por Covid”, o que faz tanto sentido como classificar como morte por gripe comum os casos em que um doente terminal morre constipado. Em Portugal isso foi confirmado na conferência de imprensa da DGS de 3.ª- feira.

Por outro lado, porque não estão ainda a ser feitos testes em grande escala como recomenda a OMS, o número real de infectados é superior, ou mesmo muito superior. porque só se fazem testes a quem já tem sintomas e há inúmeros casos assintomáticas. No Reino Unido, por exemplo, Patrick Vallance, o consultor científico principal do governo, estima que o número real de infectados possa ser 10 a 20 vezes superior ao dos identificados.

Entretanto, a equipa de Neil Ferguson do Imperial College COVID-19 Response Team, que começou por estimar em 0,9% a taxa real de mortalidade do Covid-19 na China, reviu essa estimativa para 0,66% no estudo publicado na Lancet,

Todos os dados apontam para que o impacto é sobretudo nos idosos, também na Suiça onde só 15% dos testados são positivos e as idades médias de falecimentos e hospitalização são 82 anos e 70 anos, respectivamente. 

Pelo menos o Reino Unido e a Alemanha vão aumentar o número de testes e ponderaram emitir certificados de imunidade para permitir às pessoas curadas voltar ao trabalho. Outros países, como a Suécia e Suiça, não estão em estado de emergência com confinamento e optaram por medidas mais leves, em nalguns casos voluntárias.

Se é duvidoso que as estratégias da Suécia e da Suiça sejam socialmente viáveis em Portugal, o que, só por si, não deve ser um álibi para prolongar o estado de emergência, o aumento dos testes e os certificados de imunidade fazem todo o sentido, mesmo em Portugal.

04/04/2020

Desconfiem da internet

CASE STUDY: Suécia - "É uma questão de liberdade, não de epidemiologia"

«Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas». É um retrato deste país por Alçada Baptista que está há mais de uma dúzia de anos a servir de epígrafe deste blogue.

Sabemos que os portugueses como povo apreciam pouco a liberdade e estão dispostos facilmente a dela abdicar em benefício de um Estado Sucial extorsionário que lhes dê colo e os oprima. Mas, que diabo!, não é obrigatório que todos nos babemos com a "eficácia" do Estado totalitário chinês a combater a pandemia que ele próprio tentou esconder e deixou propagar. Olhemos, por exemplo, para a resposta sueca à pandemia como nos é descrita por Fredrik Erixon no artigo «No lockdown, please, we’re Swedish» na Spectator.

«Who would have thought that Sweden would end up being the last place in Europe where you could go for a beer? We have, in our normalcy, suddenly become an exotic place. Other countries are closing their cities, schools and economies, but life in our corner of the world is surprisingly ordinary. Last weekend I went to the gym, met up with friends, and sat in the spring sun at outdoor cafés.

My foreign friends are stunned. They can’t fathom that there are still people enjoying the fruits of civilisation, as if the natural reaction to pandemics is to embrace totalitarianism. And they wrestle with another conundrum: how on earth did Sweden end up being the final bastion of liberty? How did this country of mild-mannered conformists end up rebelling against lockdown culture?

03/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (3) - A celebração da vitória do Grande Irmão

Continuação de outros posts.


Se fosse necessário demonstrar a natureza opressiva e tirânica do regime chinês e o inerente culto da personalidade, esta página de publicidade paga numa grande revista internacional seria só por si suficiente.

Um amigo explicou-me a razão de Donald Trump ter uma indisfarçável inveja de Xi Jinping: ele Donald só tem o espelho e meia dúzia de palhaços para o venerarem, contra os 90 milhões de apparatchiks do PCC do Camarada Presidente Xi.

Pro memoria (400) - E agora uma evocação clandestina dos tempos pré-censura PC. A pandemia segue dentro de momentos


Por inacreditável que hoje nos pareça, nos tempos anteriores ao regime do Politicamente Correcto, instituído pela Horda do Grande Irmão, era permitido produzir vídeos de publicidade com "mulheres-objecto", como este com a polaca Katrin.

02/04/2020

Mitos (303) - Milagres do dinheiro caído do helicóptero ou derramado das rotativas de Frankfurt (ACTUALIZADO)


Quem só tem um martelo vê todos os problemas como pregos é o título de uma série de posts deste blogue que talvez explique a fé de inúmeras luminárias nos efeitos miraculosos de «ligar as rotativas em Frankfurt 24-sobre-24 horas, imprimir moeda e distribuí-la pelos países» para responder a uma crise que consiste essencialmente numa quebra da produção de bens e serviços resultante do confinamento obrigatório e da suspensão da maioria das actividades e, no caso português, em que o turismo representa directa e indirectamente mais de um quinto do PIB, de uma quebra da procura externa que não se resolve dando dinheiro aos turistas para visitarem Portugal.

Ou dito de outro modo, é difícil entender a fé em medidas, como o helicopter money, que talvez pudessem ser eficazes em resposta a uma recessão provocada por uma queda da procura mas que de pouco servem para aumentar a oferta, nem mesmo a oferta externa pois trata-se de uma pandemia que afecta todos os nossos parceiros comerciais. De que serve o dinheiro se não houver onde o gastar?

Quereis uma medida eficaz? Multiplicai os testes, aceitai uma letalidade mais elevada da pandemia (ou talvez apenas mais concentrada no tempo) limitando o confinamento aos infectados não curados e às pessoas com maior risco. É difícil? Sim e exige coragem cuja oferta também é escassa. Ainda assim, iria doer.

Quando não se dispõe das rotativas de Frankfurt e à pala da pandemia se tenta a mutualização da dívida, chutando o problema para Bruxelas ou Frankfurt, pode dizer-se o que escreveu a Economist:
«Manter as pessoas seguras é, afinal, a principal preocupação de um Estado. A saúde é da competência dos governos nacionais, de acordo com os tratados da UE . (...)  Neste caso, a responsabilidade é clara. As acções dos governos nacionais determinarão quantos vivem ou morrem. Reclamar que a UE está a falhar em ajudar em questões de saúde é como comprar um gato e queixar-se que ele não corre para apanhar o pau.»
ACTUALIZAÇÃO (Sugestão ao governo português, em alternativa a andar pedinchar dinheiro)
A ministra da Saúde britânica anunciou o objectivo de 100 mil testes por dia no final deste mês e confirmou que o governo está a ponderar emitir «certificados de imunidade», permitindo aos seus detentores comprovar que estiveram infectados e estão imunizados e, portanto, podem voltar a trabalhar.

CASE STUDY: Trumpologia (62) - É demasiado, até para ele

Mais trumpologia.

Não vou insistir nos delírios do Sr. Trump a respeito da pandemia e das medidas de combate. Remeto apenas para esta colectânea que começa por «we have it totally under control» e termina com «we are doing great, our country is doing so great» e acrescento que em mais um flic-fac disse no briefing de terça-feira «we lose more here, potentially, than you lose in world wars», ou seja algo como mais de meio milhão (116 mil na WWI e 405 mil na WWII).

Vou apenas acrescentar que o Make America Great Again do Sr. Trump parece ser compatível com aceitar uma «ajuda humanitária» do Sr. Putin, czar vitalício de um país que tem a sétima taxa de mortalidade mais alta, uma esperança de vida "africana" e um exército de hackers a infectar as redes sociais americanas e europeias, e agradecer-lhe com um «Russia sent us a very, very large planeload of things, medical equipment, which was very nice.»  

Pareceu-me ouvir os Founding Fathers a agitarem-se nas suas sepulturas.

01/04/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (3) - Os dados podem não reflectir adequadamente o impacto do Covid-19

Na sequência do primeiro e do segundo post, procurando sempre uma abordagem racional baseada nos factos, publico agora uma versão em tradução automática de um novo artigo do médico John Lee, professor de patologia recém-aposentado e ex-patologista consultor do NHS.

Em How to understand – and report – figures for ‘Covid deaths’, uma sequência do artigo antes citado, John Lee põe em dúvida de uma forma sistemática e fundamentada os dados que vêm sendo publicados e a sua interpretação. Se, como parece, os dados das mortes estão sobreestimados e os de infectados estão subestimados (como ele refere no texto e como em Espanha se admite que o número deve ser 10 vezes superior), nesse caso a letalidade da pandemia não será muito diferente de uma gripe comum.

«Todos os dias, agora, estamos a ver números de "mortes de Covid". Esses números são frequentemente expressos em gráficos mostrando um aumento exponencial. Mas deve-se ter cuidado ao ler (e relatar) esses números. Dada a extraordinária resposta ao surgimento desse vírus, é vital ter uma visão clara de seu progresso e o do que os números significam. O mundo da notificação de doenças tem sua própria dinâmica, que vale a pena entender. Quão precisos, ou comparáveis, esses números estão comparando as mortes de Covid-19 em vários países?

Frequentemente vezes vemos um rácio óbitos / números de casos. Esse rácio considerado uma medida da letalidade do Covid-19, mas as proporções variam imenso. Nos EUA, 1,8% (2.191 mortes em 124.686 casos confirmados), Itália 10,8%, Espanha 8,2%, Alemanha 0,8%, França 6,1%, Reino Unido 6,0%. Uma diferença de quinze vezes na taxa de letalidade para a mesma doença parece estranha entre países semelhantes: todos desenvolvidos, todos com bons sistemas de saúde. Todos enfrentando a mesma doença.

Pode-se pensar que seria fácil calcular as taxas de letalidade. A morte é um ponto final claro e fácil de identificar. Na minha vida profissional (sou professor de patologia aposentado) costumo deparar com estudos que o expressam comparativamente e como proporção: o número de óbitos em um determinado período de tempo em uma área, dividido pela população dessa área. Por exemplo, 10 mortes por 1.000 habitantes por ano. Então, apenas três números:
  1. A população que contraiu a doença
  2. O número de mortes pela doença
  3. O período de tempo relevante
O problema é que na crise do Covid-19 cada um desses números não está claro.

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (2)

Continuação deste post.

São cada vez mais fortes os indícios de que o surto de coronavírus na China começou em Novembro e foi escondido pela nomenclatura chinesa até Janeiro, com as consequências conhecidas na sua propagação. Nomenclatura que usa todos os meios necessários para abafar ou suprimir informação que não controla, seja proveniente dos próprios chineses (como a médica "desaparecida"), seja proveniente de jornalistas estrangeiros (uma dúzia expulsa recentemente).

Como são cada vez mais fortes os indícios de falsificação dos dados sobre infectados e mortos (ver, por exemplo, este artigo), como de resto é prática habitual em toda informação de origem chinesa.

Não fica por aqui a a utilização da pandemia na estratégia do imperador Xi Jinping e da nomenclatura do Partido Comunista, que se estende à  manipulação das opiniões públicas ocidentais e à tentativa de atrelar os respectivos governos aos seus interesses, como aqui descreve Miguel Monjardino no seu artigo A pandemia e a tentação imperial da China, de onde respigo os excertos seguintes.

«No final de fevereiro, Pequim passou à ofensiva. Zhong Nanshan, o cientista que lidera o painel de peritos na contenção da pandemia, disse pela primeira vez que “o coronavírus apareceu primeiro na China mas pode não ter começado na China”. Esta frase foi o primeiro sinal de uma campanha de desinformação em larga escala orquestrada pelo PCC.

«Duas semanas depois, Zhao Lijian, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, usou o Twitter para defender a existência de provas de que a covid-19 começou num laboratório militar nos EUA. A CGTN, o canal de televisão em inglês da Televisão Central da China, controlado pelo PCC, fez o mesmo. Na sua edição de 22 de março, o jornal “Global Times” sugeria que o vírus apareceu em Itália. De então para cá, estas teorias da conspiração foram repetidas por uma série de embaixadores chineses e divulgadas no Twitter — que é proibido na China — e na aplicação social WeChat. (...)

A duração da campanha de desinformação chinesa é incerta mas, por agora, tem o apoio de Xi Jinping. Do ponto de vista de uma parte da liderança chinesa é essencial desviar as atenções ou as críticas em relação à tragédia de Wuhan, semear as dúvidas em relação à origem geográfica da doença, consolidar a autoridade e legitimidade do líder chinês e criar a impressão de que Pequim comprou tempo para salvar o mundo da pandemia. Tudo isto sugere que o PCC vai reescrever a história do que aconteceu em Wuhan. Tal como sucedeu com as revoltas e o massacre de Tiananmen em 1989, os alunos que frequentarem as escolas e as universidades chinesas em 2040 não deverão ter a oportunidade de saber a verdade sobre o que se passou na cidade no inverno de 2019-2020. Voltando a Isabel Hilton, “é demasiado difícil prever o passado na China”.»

Perguntarão, mas não é o que tentam fazer todos os governos de todos os países? Sim, todos os que podem. Então qual é a diferença. As diferenças são pelo menos duas: (1) a China é uma potência planetária que se tenta impor cada vez mais agressivamente (não por acaso o único vizinho com quem mantém boas relações é a Coreia do Norte) e (2) a democracia liberal não faz parte de cultura política da China que não dispõe dos mecanismos institucionais de contrapoderes nem de uma imprensa livre (imagine-se o que seriam os Estados Unidos sem esses mecanismos e sem uma imprensa que todos os dias faz tiro ao alvo das asneiras e das patologias do seu actual presidente).