Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

13/05/2020

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (101) - Para que não restem dúvidas

Outras preces

O Dr. António Costa mente ou tem má memória quando se desculpa sobre não saber do empréstimo para o Fundo de Resolução dos 850 milhões destinados ao Novo Banco, empréstimo que resultou de um contrato que ele assinou em 2017 com os compradores do NB e que está previsto no OE 2020 por ele também assinado. Nada disto dependia de alguma auditoria a fazer ou em curso.

O Dr. Centeno disse isso mesmo, por outras palavras, na entrevista à TSF na segunda-feira, e esta manhã voltou o dizê-lo no parlamento.

Durante a visita à Autoeuropa acompanhado do Dr. Costa, S. Ex.ª, que não podia deixar de saber de tudo isso, pagou o preço do anunciado apoio do Dr. Costa à sua reeleição e acrescentou à já longa lista de iniquidades mais uma, e disse aos jornalistas:
«O primeiro-ministro esteve muito bem quando disse que fazia sentido que o Estado cumprisse as suas responsabilidades, mas naturalmente se conhecesse previamente a conclusão da auditoria».
E perante a pergunta se isso foi uma desautorização ao ministro?, respondeu com a habitual malícia «Significa aquilo que eu disse. Não tenho mais nada a dizer. O que disse foi claríssimo».

Questionado, o Dr. António Costa acrescentou que nada mais tinha dizer. Pudera!

Eis aqui mais uma razão porque eu não votei nem nunca votarei no Sr. Professor Marcelo Rebelo de Sousa, ainda que Cristo desça de novo à terra.

Aditamento:

Exibindo os seus dotes na intriga e na manobra e corrigindo o tiro, S. Ex.ª telefona à tarde ao Dr. Centeno a dizer-lhe que o que tinha dito de manhã aos jornalistas foi «um equívoco». Percebendo que tinha outra vez acertado nos próprios pés, encomenda à jornalista porta-voz em serviço no Expresso um artigo conspirativo na tentativa de exportar o equívoco para o Dr. Costa. Não tem emenda e está outra vez equivocado por não perceber que Costa não é Centeno. Costa é um catedrático na manobra e tem às suas ordens as tropas do PS e os emissários nas redacções.

Há quem lhe chame jornalismo de referência

Expresso

«O Brasil tem o número mais alto de mortes»

O Brasil teve ontem 779 mortes (*), o 2.º número de mortes depois dos EUA, e até ontem tinha 58 mortos por milhão de habitantes, a 28.º taxa mais alta, praticamente metade da portuguesa (114), menos de 8% da belga, 10% da espanhola e 11% da italiana.

(*) Hoje (16h) tinha 57 novas mortes

«A Rússia é o 2.º país mais afectado pelo surto»

A Rússia até ontem tinha 232.243 infectados, o 3.º valor mais alto depois dos EUA e da Espanha, correspondentes a 1.591 infectados por milhão de habitantes, a 46.ª taxa mais alta, 58% da taxa portuguesa, 28% da taxa espanhola, 34% da belga e 44% da italiana.

Fonte: worldometers

ACREDITE SE QUISER: Estão a investigar se Bruce Lee reencarnou em Isabel dos Santos

«A Procuradoria-Geral da República de Angola respondeu esta terça-feira às acusações da empresária Isabel dos Santos sobre alegadas provas forjadas, nomeadamente um passaporte com a assinatura de Bruce Lee, explicando que a autenticidade do documento estava a ser investigada.» (Observador)

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (16) - O que teria acontecido sem confinamento? (3)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva e é continuação de O que teria acontecido sem confinamento? (1) e (2), onde se concluiu que os idosos tem uma letalidade muito mais elevada e os acolhidos em lares de idosos representam uma percentagem muito significativa do total de vítimas.

Essa conclusão levou-nos à pergunta como explicar ser precisamente o grupo com maior letalidade o mais confinado e legitima a dúvida sobre a eficácia do confinamento considerando as suas consequências indesejadas quer no campo económico quer no campo social.

É claro que sempre se pode argumentar que o confinamento ao atrasar a propagação retarda os impactos sobre os serviços de saúde e evita o seu colapso. Se isso for verdade, será sobretudo para um confinamento limitado no tempo, no espaço e nos grupos sociais. E talvez não seja uma verdade universal porque salvo alguns casos pontuais (como a Lombardia em Itália) os serviços de saúde nunca estiveram à beira da ruptura.

Mas há muitas outras razões para terminar tão cedo quanto possível o confinamento. Vou-me socorrer, uma vez mais do médico John Lee, professor de patologia recém-aposentado e ex-patologista consultor do NHS, que há poucos dias escreveu na Spectator «Ten reasons to end the lockdown now» onde identifica vários aspectos, alguns deles peculiares ao Reino Unido que não vou referir, entre os quais relevo os seguintes:
  • A maior parte dos casos são assintomáticos; quase todos os que são infectados recuperam e dos que morrem 90% sofriam de doenças graves; 
  • As políticas de confinamento basearam-se em modelos irrealistas, assumindo por exemplo que 80% da população seria rapidamente infectada quando essa percentagem não deve ultrapassar 15%; 
  • Não há evidência sobre se o confinamento está resultar quando se compara com países como a Suécia que não adoptaram o confinamento compulsivo; os custos directos económicos e de saúde pública do confinamento são gigantescos e os custos indirectos nem sequer estão a ser considerados; 
  • O confinamento atinge directamente uma maioria das pessoas cuja saúde nunca chegará a ser afectada pela pandemia;
  • Este vírus como todos os vírus está em permanente evolução e as estirpes menos perigosas vão gradualmente tornando-se dominantes;
  • A maioria das pessoas sabe como comportar-se responsavelmente.
O que aconteceria então sem confinamento generalizado e compulsivo?  Ninguém saberá exactamente mas podemos comparar com os resultados da Suécia que não o adoptou e adoptou uma estratégia de imunidade de grupo com confinamento voluntário ou com a Holanda que adoptou um confinamento mitigado. O número de óbitos por milhão de habitantes era ontem de 328 e 322, respectivamente, mais alto do que os 113 de Portugal, mas muito menos do que as taxas da Bélgica (756), Espanha (576), Itália (511), Reino Unido (482), França (414) (worldometer).

É claro que esta é a situação agora e é muito provável que nos países com menor a letalidade ela venha a aumentar mais no futuro, precisamente porque a taxa de infecção é menor do que nos países em que o confinamento foi mais aligeirado. O epidemiologista sueco Johan Giesecke disse em entrevista recente ao Público que quase 90% dos óbitos suecos são de pessoas com 70 anos ou mais e que estima que um quarto da população já tenha sido infectada, antecipando que dentro de um ano as letalidades na Europa não terão grandes diferenças.

(Continua)

12/05/2020

NÓS VISTOS POR ELES: Os portugueses cumprem os padrões que exigem dos outros?

Expresso

Só faltou dizer que é por causa do Trump. Será assim? Podemos perguntar a Rita Carreira que vive e trabalha nos EUA há 25 anos. Eis o que ela nos conta da sua experiência:

«São muitos os portugueses que me perguntam se estou bem nos EUA. Eles falam comigo como se a minha vida estivesse em perigo. E hoje alguém me enviou um artigo do Expresso dizendo que pessoas de ascendência portuguesa estavam a ter problemas para conseguir ajuda nos EUA porque não sabiam falar inglês. Acho isso muito estranho porque quando marco uma consulta no médico, por exemplo, me perguntam em que idioma eu gostaria de comunicar. Hospitais e polícias têm uma rede de voluntários que podem falar línguas estrangeiras e ajudar em caso de emergência. Eu sei porque, quando eu morava em Stillwater, OK, eu era a intérprete voluntária de língua portuguesa.

Há menos de duas semanas, enquanto falava com uma amiga russa que mora em Houston, TX, ela reclamou comigo que, no centro comunitário que frequentava, eles tinham informações em espanhol. Ela achou que tudo deveria estar em inglês. Eu disse-lhe que os EUA não têm uma língua oficial; na verdade, se ela fosse para Chinatown, os nomes das ruas estariam em chinês. Se você for para East Providence, RI, há nomes de rua em português. Nos EUA, você pode passar sem falar inglês, se quiser. Muitas pessoas fazem isso.

Quando comecei meu emprego actual, uma das minhas colegas de trabalho era brasileira e ela estava a passar alguns meses nos EUA para se familiarizar com o negócio americano. A nossa empresa contratou alguém, uma pessoa americana, para a conduzir e levá-la a lugares como o banco para ela abrir uma conta, o escritório de Segurança Social, etc., ainda que ela falasse um inglês perfeito. Sim, há pessoas aqui que ganham a vida honestamente ajudando os outros a navegar na burocracia.

Mesmo quando eu vim para os EUA como uma estudante de intercâmbio, quase 25 anos atrás, um dos assistentes do Study Abroad Office levou-me ao campus para arranjar um quarto numa residência, comprar um plano de refeições, inscrever-me para as aulas, abrir uma conta de estudante, inscrever-me para fazer o TOEFL (exame de proficiência em língua inglesa), etc. Nessa altura, no meu dormitório, havia estudantes voluntários que nos acompanhavam pelo campus para nos mostrar onde estavam nossas aulas. É assim que a América funciona. Há muitas pessoas dispostas a ajudar os outros e o sistema é baseado em pessoas que se ajudam umas às outras.

Mas vamos virar a mesa e ver se os portugueses cumprem os padrões que exigem dos outros. É prática comum em Portugal facilitar a vida de ucranianos ou alemães, por exemplo? Hospitais e escritórios do governo oferecem acesso a tradutores e intérpretes? E como se está a sair a comunidade de expatriados em Portugal com esta pandemia?»

Esclarecimento a esta pergunta: a Rita Carreira (que não conheço) escreve em português e inglês. Ao contrário da maioria dos posts em português, o post que citei está redigido em inglês que traduzi usando a tradução automática "brasileira" da Microsoft que não está propriamente formatada para as especificidades do português falado pelos 4% de falantes portugueses que residem neste país. Fiz algumas ligeiras adaptações sem me esforçar muito porque acho que é igual ao litro. O que verdadeiramente importa é mostrar que estão erradas duas ideias generalizadas no Portugal dos Pequeninos: uma sobre os EUA e outra sobre o direito divino que julgamos ter a que os outros nos tragam ao colo, dispensando-nos de dar corda aos sapatos e fazer pela vida.

NÓS VISTOS POR ELES: A pedinchice mal-educada aos olhos de um emigrado

«O caso é que os nórdicos esforçam-se por poupar, ter a casa em ordem, confiam nos governos e nas instituições e fazem quanto podem para que o futuro dos seus filhos seja melhor do que o deles. Ao mesmo tempo veem que uma boa fatia das suas poupanças é dada aos países meridionais a fundo perdido, e esses surpreendem-nos, não só por se mostrarem desagradecidos mas por, ainda por cima, terem a lata de lhes chamar repugnantes. O pedinte a insultar quem o favorece é uma situação que mesmo numa comédia teatral seria insólita.»

Rentes de Carvalho, um escritor português emigrado há mais de 60 anos que é mais celebrado na Holanda do que em Portugal, em entrevista ao DN.

Pro memoria (401) - A propósito de pandemias e de boas intenções

Há umas semanas, circularam nas redes sociais dois vídeos de Bill Gates e Barack Obama alertando há uns anos para o risco de uma próxima pandemia. Tratou-se essencialmente de uma arma de arremesso contra Donald Trump (arma supérflua porque ele sem ajudas arremete contra si próprio),

Esses vídeos, promovidos por gente "progressista", apresentam Gates e Obama como paradigmas
de proactividade e responsabilidade em contraponto com discurso errático e incoerente de Trump a respeito da pandemia.

A este propósito, é interessante recordar duas coisas. Primeira, Gates foi durante muitos anos uma bête noir dos progressistas que ao contrário estimavam Steve Jobs, uma criatura sobre a qual o outro contribuinte do (Im)pertinências disse o que Maomé não disse sobre os porcos: um bastardo sem remissão adorado por uma multidão de patetas, escreveu ele e eu assino por baixo. Com a criação da Fundação dedicada ao combate de pandemias, entre outras causas, os progressistas começaram a limpar a imagem de Gates.

Quanto a Obama, desde sempre um darling dos progressistas, é verdade que ele fez aquele discurso em 2014 aos National Institutes of Health onde disse
«There may and likely will come a time in which we have…an airborne disease that is deadly. And in order for us to deal with that effectively, we have to put in place an infrastructure—not just here at home, but globally—that allows us to see it quickly, isolate it quickly, respond to it quickly…So that if and when a new strain of flu, like the Spanish flu, crops up five years from now or a decade from now, we’ve made the investment and we’re further along to be able to catch it.»
A segunda coisa a recordar é que em 2005, nove anos antes do statement de Obama, George W. Bush outra bête noir dos progressistas, fez também o seu discurso aos National Institutes of Health, a propósito da ameaça por um novo vírus:
«Our country has been given fair warning of this danger to our homeland», disse, anunciando um plano para a identificação de surtos em qualquer ponto do mundo, criar stocks de medicamentos e vacinas e melhorar a capacidade dos EUA produzirem rapidamente vacinas. «We must be ready to respond at the federal, state and local levels in the event that a pandemic reaches our shores», avisou.
Infelizmente nem um nem outro discursos serviram de grande coisa e os EUA foram uma vez mais apanhados com as calças na mão, como o resto do mundo.

11/05/2020

A maldição da tabuada (53) - O número de infectados pode diminuir ou aumentar. A incompetência só pode aumentar

Continuação desta outra maldição da tabuada.


Hoje, uma vez mais, ao actualizar os meus dados do Covid-19 a partir do site da DGS, constatei outra argolada.

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (31) - Em tempo de vírus (IX)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

Para os amigos tudo, para os inimigos nada, para os outros cumpra-se a lei

À primeira vista não há nada em comum entre uma cerimónia religiosa, como o 13 de Maio em Fátima, e uma cerimónia sindical, como a comemoração do 1.º de Maio na Alameda, ou um evento partidário, como a Festa do Avante no Seixal. Contudo, se considerarmos que o Partido Comunista é uma seita quase religiosa com hierarcas, sacerdotes e fiéis, rituais e escrituras, há bastante em comum.

Seja como for, a verdade é que do ponto de vista da prevenção da infecção por uma pandemia os diferentes eventos são rigorosamente equivalentes, com as diferenças inerentes aos privilégios de que desfrutam as entidades organizadoras. Por exemplo, muitos fiéis dirigem-se a Fátima percorrendo longos caminhos a pé, enquanto os fiéis que participam no Primeiro de Maio se deslocam nos autocarros das câmaras municipais.

É por isso difícil perceber que um católico praticante facilite a realização da manif do 1.º de Maio e fique indiferente à celebração mais importante da sua igreja e assista sem um sobressalto de consciência à GNR com 3.500 guardas a impedir o acesso ao santuário.

Mais fácil é perceber que um ateu socialista ajude à realização da manif ou da festa de comunistas introduzindo, como jurista não praticante, a subtileza só ao alcance dos destituídos de inteligência ou de vergonha de que não se trata de festivais mas de actividades políticas, obviamente. Esta distinção do ponto de vista da saúde pública é relevantíssima, sobretudo se houver um preço a pagar à entidade organizadora, pelo que fez ou se espera virá a fazer.

E porque estamos no capítulo dos amigos, inimigos e os outros, registemos que, mais uma vez, o PS não abandona os seus amigos e colocou 118 deles nos 145 concursos da CReSAP para cargos públicos. A CReSAP, uma entidade criada pelo governo de Passos Coelho para avaliar os candidatos a nomeações para cargos públicos, que os cépticos anteciparam que iria desmantelada e não foi. Foi substituída a direcção por amigos, o que mostra, uma vez mais, a mestria com que os socialistas gerem a coisa pública.

A família socialista tem imenso jeito para o negócio

A urgência é sempre uma excelente ocasião para ajudar os amigos e foi o que fez o ministério da Saúde com as compras de vários milhões por adjudicação directa. Comparada com estes milhões a indicação pelo SE do Desporto de uma empresa de um ex-sócio para testes à Covid-19 tem pouca importância porque, explicou ele, não adjudicou nada, só sinalizou.

O Estado Sucial como máquina de extorsão

Fazendo talvez parte dos exercícios de aquecimento para o que aí está a chegar, «fisco está a reter indevidamente reembolsos de IRS e há penhoras que não foram suspensas», segundo a Provedoria de Justiça.

10/05/2020

O Novo Império do Meio é hoje o maior inimigo das liberdades

«Finalmente, um dos elementos mais alarmantes do crescente perfil internacional da China são os seus esforços acelerados para projetar “sharp power” , uma expressão de Larry Diamond, um dos maiores peritos académicos em democracia do mundo. O poder duro refere-se ao recurso regular da China à desinformação, ao equívoco, à coação, ao suborno e à influência penetrante em instituições políticas e civis das sociedades abertas com o intuito de tentar moldar o discurso sobre a China.

A China está a usar a abertura e o pluralismo das democracias para as subverter. Estabelece alianças com grupos sociais chineses no exterior e com indivíduos proeminentes, enquanto vai também, ao mesmo tempo, gerindo informações, promovendo propaganda e envolvendo-se em espionagem. Ex-altos funcionários dos governos do Reino Unido, de França, da Alemanha, da Austrália e de Portugal têm vindo a ocupar cargos lucrativos com interesses chineses depois de deixarem as suas funções governamentais.»

Leitura recomendável «China: Uma ameaça para as democracias ocidentais», Teresa Roque no Observador

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (15) - O que teria acontecido sem confinamento? (2)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva e é continuação de O que teria acontecido sem confinamento? (1), em que se concluiu que os idosos tem uma letalidade muito mais elevada e os acolhidos em lares de idosos representam uma percentagem muito significativa do total de vítimas. Essa conclusão levou-nos à pergunta como explicar ser precisamente o grupo com maior letalidade o mais confinado?

Vejamos mais alguns dados sobre a letalidade da pandemia nos lares de idosos. O gráfico seguinte mostra o peso crescente das vítimas provenientes dos lares em Inglaterra e no País de Gales que só tardiamente começaram a ser incluídas nas estatísticas oficiais.

Spectator
O quadro seguinte da International Long Term Care Policy Network desfaz qualquer dúvida sobre o peso dessas mortes no total das vítimas e evidencia um fenómeno mundial.

Mortality associated with COVID-19 outbreaks in care homes: early international evidence
Pelo que já se conhecia da vulnerabilidade dos idosos, estes dados não surpreendem. Surpreendentes são as conclusões de um inquérito que abrangeu 113 hospitais durante 3 dias no Estado de Nova Iorque (onde a taxa de infecção é das mais elevadas em todo o mundo): dois terços dos casos infectados mais graves que necessitaram de hospitalização, estavam já confinados em casa antes de serem hospitalizados. Esse inquérito (fonte) permitiu ainda concluir:
  • 66% vieram das suas casas, 18% de lares de idosos e 4% de estabelecimentos de saúde assistidos. Uma proporção muito pequena eram sem abrigo ou tinham saído da prisão.
  • Os pacientes pesquisados tinham mais de 51 anos e eram aposentados, desempregados ou não.
  • Cerca de 96% deles tinham co-morbidades. Isso significa que quase todos foram diagnosticados com outra doença antes de serem infectados pelo coronavírus.
  • O COVID-19 afectou desproporcionalmente hispânicos e afro-americanos que vivem em Nova York.
Parece inevitável duvidar de uma estratégia de combate à pandemia baseada num confinamento indiscriminado com um custo económico tão elevado que desencadeará inevitavelmente uma profunda recessão.

Por isso, uma equipa de cientistas da universidade de Edinburgo propôe uma estratégia  de segmentação e protecção (Two-tier approach could begin lockdown end) aligeirando o confinamento das pessoas com menor risco (a maioria esmagadora da população activa) e limitando ao mínimo indispensável o contacto dos grupos de risco (grosso modo idosos e/ou pessoas com saúde debilitada).

(Continua)

09/05/2020

A opinião dos americanos sobre o Novo Império do Meio continua a piorar. E não, não (só) é por causa de Trump e da pandemia


Economist

«As opiniões dos americanos sobre a China variam com sua idade, afiliação política e renda. As pessoas mais velhas têm sido mais negativas que os jovens. Mas a proporção dos mais de 50 anos expressando opiniões desfavoráveis da China agora subiu para 71%. Da mesma forma, os republicanos têm sido consistentemente mais negativos do que os democratas, com 72% nesta pesquisa colocando-se no campo "desfavorável". E aqueles com rendimentos inferiores a US $ 50.000 por ano são mais hostis à China, com 63% negativos. Mas o que é impressionante é o quão geral é o sentimento anti-China, mantido também por 53% dos 18- 29 anos, 62% dos democratas e 53% daqueles que ganham mais de US $ 50.000 por ano

ADITAMENTO:

Para responder a estas perguntas, ocorreu-me, assim de repente, que se uma imagem vale do que mil palavras, duas imagens valem mais do que duas mil palavras.

Fonte

Fonte

O PCP e o Chega como diversões do essencial que é o PS ocupar o Estado Sucial

«O PCP é hoje um dos side-shows (o outro é a “extrema direita”) que disfarçam a verdadeira questão da democracia portuguesa: o peso crescente do Estado numa sociedade cada vez mais fragilizada, e a identificação desse Estado com um partido, o PS. O poder socialista, com as suas clientelas, faz-se sentir em tudo, até na barragem de fogo contra Rodrigo Guedes de Carvalho, pela suposta irreverência com que entrevistou a ministra da Saúde. Não, na Alameda não esteve o PCP. Ou antes, só esteve o PCP, porque estiveram o PS e a presidência da república, que criaram a excepção, e o PSD, cuja influência nos acontecimentos consiste cada vez mais em não ter influência nenhuma.»

Rui Ramos no Observador

08/05/2020

O estranho caso do Dr. Centeno e do Sr. Mário ou o Centeno deles não é igual ao nosso

Há vários Centenos. Há o Centeno ministro-herói das "contas certas", há o Centeno que com as mesmas "contas certas" estraga os planos de comunistas e bloquistas para aumentar ainda mais a despesa pública e engordar o Estado Sucial, há o Centeno em Frankfurt - mais um português no topo do mundo, entre outros.

Mas também há um outro Centeno, o Centeno visto de Frankfurt, neste caso visto pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung desta manhã, num artigo com o título «Mário Centeno hört auf» (Mário Centeno pára):

Crescente descontentamento

«Certamente, vários ministros das finanças do euro estavam cada vez mais insatisfeitos com a presidência de Centeno. O português estava sempre mal preparado e, ao contrário de seu antecessor, foi incapaz de liderar discussões e encontrar compromissos na disputa por questões de facto, segundo diplomatas da UE. O exemplo mais recente é a videoconferência do Eurogrupo na noite de 8 de Abril, na qual os ministros discutiram em vão sobre um pacote de ajuda corona durante 16 horas. Os participantes descrevem a reunião virtual como um "pesadelo".

Os portugueses interromperam repetidamente a sessão para discussões individuais e literalmente deixaram os outros participantes sentados no escuro por horas. O facto de os ministros ainda chegarem a um compromisso dois dias depois deve-se inteiramente à intervenção da chanceler Angela Merkel (CDU) e do presidente francês Emmanuel Macron, bem como às negociações preliminares entre Scholz e seu colega francês Bruno Le Maire.

É uma questão em aberto se Centeno notificará oficialmente os seus homólogos da renúncia na videoconferência do Eurogrupo nesta sexta-feira. Aparentemente, ele decidiu concluir as negociações sobre o "fundo de reconstrução" de Corona, que ele próprio deseja. No entanto, isso não é realista, porque os chefes de estado e de governo tiraram o assunto do Eurogrupo das suas mãos e esperam uma proposta da Comissão da UE sobre como um programa de estímulo económico pode ser financiado pelo orçamento da UE.»

Dúvidas (305) - O que é importante? É o que o jornalista quiser

«A PSP efetuou uma importante apreensão de armas a um grupo de traficantes internacionais. A lista divulgada ontem inclui três armas de fogo longas, espingardas; uma arma de fogo longa, carabina; dois revólveres; uma pistola calibre 6.35 mm; uma pistola calibre .22 com silenciador; cinco armas de ar comprimido; 21 armas brancas e mais de 250 munições de arma de fogo

Do email Expresso Curto

«Uma importante apreensão»? «Um grupo de traficantes internacionais»? «Cinco armas de ar comprimido» e «21 armas brancas»? O negócio internacional de venda de armas também está em crise?

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (3)

Actualizando o post anterior com as previsões da Comissão Europeia do impacto na economia das medidas de combate à pandemia da dupla presidente da República-primeiro ministro:


Depois de sete semanas de confinamento sem fim à vista, a maioria das previsões citadas são uma confirmação do melhor pensamento de John Kenneth Galbraith.

Reitero a minha homenagem ao talento para as previsões de S. Ex.ª que produziu a mais provável de se realizar.

«Je ne crois pas aux déclarations du genre 'rien ne sera plus jamais comme avant'». Moi non plus

«Je me le demande aussi. Je me suis vraiment posé la question, mais au fond je ne crois pas. Sur la peste on a eu beaucoup de choses, au fil des siècles, la peste a beaucoup intéressé les écrivains. Là, j’ai des doutes. Déjà, je ne crois pas une demi-seconde aux déclarations du genre « rien ne sera plus jamais comme avant ». Au contraire, tout restera exactement pareil. Le déroulement de cette épidé­mie est même remarquablement normal. L’Occident n’est pas pour l’éternité, de droit divin, la zone la plus riche et la plus développée du monde ; c’est fini, tout ça, depuis quelque temps déjà, ça n’a rien d’un scoop. Si on examine, même, dans le détail, la France s’en sort un peu mieux que l’Espagne et que l’Italie, mais moins bien que l’Allemagne ; là non plus, ça n’a rien d’une grosse surprise.

Le coronavirus, au contraire, devrait avoir pour principal résultat d’accélérer certai­nes muta­tions en cours. Depuis pas mal d’années, l’ensemble des évolutions technologiques, qu’elles soient mineures (la vidéo à la demande, le paiement sans contact) ou majeures (le télétravail, les achats par Internet, les réseaux sociaux) ont eu pour principale conséquence (pour principal objectif ?) de dimi­nuer les contacts matériels, et surtout humains. L’épidémie de coronavirus offre une magni­fique raison d’être à cette tendance lourde : une certaine obsolescence qui semble frapper les relations humaines.
»

Michel HOUELLEBECQ no France Inter

07/05/2020

Dúvidas (304) - Não seria mais eficaz ficarem de boca fechada?


Primeiro, o presidente da Assembleia Nacional, Dr. Ferro Estou-me C@g@ndo Rodrigues, despachou o uso obrigatório de máscara, despacho redundante para muitos deputados que a usam desde sempre.

A seguir, os líderes parlamentares (será que está incluída no conceito a Dr.ª Joacine?) decidiram que «o uso de máscara não é obrigatório para o uso da palavra».

Se o despacho é redundante, a decisão dos líderes é um imenso disparate. Enquanto estão calados os deputados só emitem gotículas ocasionalmente quando espirram e é precisamente durante o uso da palavra que com alarvidades emitem abundantemente gotículas e até baba.

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (14) - O que teria acontecido sem confinamento? (1)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

Num comentário a um post anterior em que me questionei sobre se há infectados que não foram testados?, perguntava um leitor «qual seria a taxa de letalidade caso não houvesse isolamento? Estamos a comparar a letalidade de uma gripe comum sem isolamento com a taxa de letalidade do covid em isolamento

Também faço a mim próprio essa pergunta para a qual não tenho uma resposta, nem parece que alguém tenha. Ainda assim há alguns factos soltos que podemos relacionar delimitando a nossa ignorância .

Comecemos por constatar que em todos os países a maior parte dos óbitos é de idosos, sobretudo idosos com saúde debilitada. Veja-se o diagrama seguinte com os dados de Itália e do Reino Unido, sendo caso de Itália o mais óbvio, com cerca de 80% dos óbitos de pessoas acima dos 70 anos.

Fonte
Pelo contrário, a letalidade nas pessoas mais novas é residual e em muitos casos associada a doenças crónicas. Por exemplo em Portugal, a primeira vítima com menos de 30 anos estava hospitalizada há um mês e tinha outras duas patologias associadas.

Sabendo-se que a letalidade mais alta atinge os mais idosos não surpreende que a proporção de vitimas provenientes de lares de idosos seja muito significativa - cerca de 37% em Portugal.  No Reino Unido, onde as mortes por Covid-19 nos lares não estavam a ser consideradas, estima-se que actualmente possam representar metade do total (BBC).

A pergunta nesta altura inevitável é como explicar que o grupo mais letalmente atingido pelo Covid-19 seja precisamente o mais confinado?

(Continua)

06/05/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (13) - Há infectados que não foram testados? (2)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.

O último post terminava assim:
Para finalizar, com dados mais recentes, a Agência Sueca de Saúde Pública estimou que «há aproximadamente 75 casos não confirmados em cada caso notificado de Covid-19». Na Cidade de Nova Iorque onde foram testados 156 mil casos positivos, a percentagem de infectados segundo o mayor Cuomo foi estimada em 21,2% ou seja cerca de 1,8 milhões, isto é 12 por cada caso testado, significando que a taxa de letalidade não é 7,5% (11.708/156.100) mas 0,65% (11.798/1.800.000), uma vez mais, comparável à gripe comum.
É nesta altura que surge a inevitável pergunta: se há indícios significativos de que o número de pessoas infectadas sem sintomas é várias vezes superior ao número de testes positivos, porque ainda não foram feitos testes aleatórios a uma amostra representativa da população?
Finalmente os testes serológicos que permitem detectar as pessoas infectada com algum rigor foram feitos «pela Fundação Champalimaud e pelo Algarve Biomedical Center (que) testou 1235 funcionários da proteção civil, forças de segurança, centros de saúde ou lares no concelho de Loulé. E concluiu que a taxa de infeção, ainda que baixa, é de 2,8%, ou seja, 14 vezes superior ao que tinha sido detetado pelos testes até agora» (Expresso)

Em conclusão: o número de pessoas infectadas sem sintomas é várias vezes superior ao número de testes positivos e, em consequência, as taxas de letalidade são várias vezes inferiores às que têm sido anunciadas.