Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

28/02/2019

Porque não fiquei surpreendido, ainda outra vez? (6)

Alguém acredita que Kim alienará a sua nomenclatura político-militar subtraindo-lhe o armamento nuclear? Perguntei-me aqui, aquiaquiaqui e aqui:

Trump-Kim Summit Updates: ‘Sometimes You Have to Walk,’ Trump Says as Talks Collaps

Trump acreditou nas balelas de Kim, dirão os seus detractores. Não importa se acreditou, porque Trump concentra-se nos meios e não nos fins. Os meios são para ele os fins e resumem-se em manter a sua clientela eleitoral - os deplorables de Hillary Clinton - mobilizada contra o que Hillary Clinton representa, ou o que os deplorables acham que ela representa.

DIÁRIO DE BORDO: Confessando outra vez a minha irremediável ignorância

Outras confissões do mesmo género sobre "género".


Ao princípio era o clássico LGBT, depois foram os 10 "géneros" LGBTIQQAAP (L = lesbian, G = gay, B = bisexual, T = transgender, I = intersex, Q = queer, Q = questioning, A = allies, A = asexual, P - pansexual). Mais tarde os 71 propostos pelo Facebook no Reino Unido.

Os 71 "géneros" seriam imbatíveis, pensei. Pensei mal. Neste comentário um leitor preocupado com a minha ignorância dá-me «conta dos últimos avanços da mais zenital conquista civilizacional», a saber: os 112 "géneros" identificados pelo Tumblr (don't ask). De entre os 112, cito apenas um que me parece o sexo vagabundo definido como se fosse o bosão de Higgs:
«Verangender: a gender that seems to shift/change the moment it is identified
Em quanto e quando é que isto vai acabar? Ninguém sabe. Toda esta criação é provavelmente produto de mentes esquizofrénicas, isto é de pessoas «que perdem a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais». Ora essas mentes são abundantes sobretudo entre a esquerdalhada mais radical e, reconheça-se, até entre certas direitas. Se for assim, o limite máximo para o número de "géneros" deverá andar actualmente pelos 7 mil e picos milhões.

Quando uma criatura vos abordar com uma lista de "géneros" fazei-lhe uma PET (Tomografia por emissão de positrões) e confirmai se aparece a manchinha vermelha característica.


Entretanto, resolvi questionar-me sobre o meu "género" e descobri que sou transeconómico.

27/02/2019

Não sabe quem é o Costa? Pergunte ao filho, ele sabe

«E o António Costa, até hoje não sei quem ele é. Dizem que mantém a legislatura. E depois? O que é que isso quer dizer?», confessou Alexandre Soares dos Santos, o fundador da Jerónimo Martins em entrevista ao Observador.

Não sabe quem é o Costa? Pergunte ao filho Pedro Soares dos Santos que, segundo José Miguel Júdice, «disse a quem o quis ouvir: “Acredito muito no Dr. António Costa"».

Dúvida (255) - Já tínhamos a condição feminina, já temos a condição militar. Para quando a condição civil?

«Sargentos ameaçam com criação de sindicato militar»
Nas manifs exigem a dignificação da «condição militar», na vida real tornam-na indigna com os episódios de Tancos, dos roubos nas messes, etc. e a incompetência generalizada da instituição militar capturada por gente desqualificada que gasta o talento a dar graxa aos políticos. Se querem dignificar a «condição militar» expurguem-na dos incompetentes e desonestos.

26/02/2019

Governo socialista, o lugar geométrico do nepotismo


«Não há mais nenhum caso como o nosso na Europa. Nenhum. Somos manifestamente uma “República familiar” onde quase todos os parentes do PS têm lugar no governo. Uma vergonha que nos coloca ao nível dos países mais corruptos e ditatoriais mas que não envergonha nadinha o PS que usa e abusa do nepotismo para se instalar e perpetuar-se no poder. Isto não é uma democracia. Isto é um “polvo”. Uma “família siciliana”. Um negócio.

Não lembra nem ao diabo ter no mesmo governo a família inteira Vieira da Silva:   pai,  mãe e  filha. Como não lembra ter inúmeros cônjuges, filhos, noras, irmãos e amigos (estes nunca podem faltar). Preparados para a lista extensa? Aqui vai:

  • João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, é filho do ex-ministro João Cravinho;
  • António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, é irmão de Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta do PS
  • ...»
Continue a ler a interminável lista (eventualmente incompleta) no post «Uma “família” sem vergonha» de Cristina Miranda no Blasfémias.

ACREDITE SE QUISER: Para os cépticos que pensavam que Guterres não faria diferença nenhuma na ONU (3)

Outras diferenças que Guterres não fez.


O assessor especial de Guterres para a prevenção do genocídio (como é que será que se previne o genocídio?), Adama Dieng, foi encarregado de «definir uma estratégia e apresentar um plano global de acção" para combater o discurso de ódio, revelou Guterres na 40.ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

O Conselho de Direitos Humanos tem entre os seus 47 membros países tão respeitadores dos direitos humanos como: Arábia Saudita, China, Cuba, Egipto, Venezuela.

Irá Guterres encarregar o seu assessor especial de criar um discurso do amor, uma espécie de newspeak, em alternativa ao discurso do ódio? E porque não um comissário do amor, uma espécie de Miniluv da Oceania orwelliana?

Picareta falante uma vez, picareta falante sempre.

25/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (176)

Outras avarias da geringonça e do país.

Com a popularidade de Costa e as intenções de voto do PS ambas em baixa, a maioria está cada vez mais distante. Em pior situação se encontram o PC e o BE cuja intenções de votos ficam hoje 2 e 1,3 pontos percentuais, respectivamente, abaixo das últimas eleições (fonte). Se não fosse o Ronaldo das Finanças estar a tentar arranjar um emprego permanente em Bruxelas, Costa entregue a si mesmo iria certamente começar a entornar dinheiro em cima da clientela eleitoral.

Em vez de entornar o dinheiro que não há, Costa em alternativa continua a fazer fogo de barragem com medidas, leis, projectos e planos. A última dessas iniciativa foi, como referi a semana passada, o Direito Real de Habitação Duradoura ou Arrendamento Vitalício, sobre o qual quanto mais se sabe mais se percebe que é um aborto inviável que não interessa aos inquilinos nem aos senhorios

Só um sujeito distraído ficaria surpreendido com as manobras e as pressões que o governo fez sobre a OCDE - a que sucumbiu Ángel Gurría, um correlegionário do PRI mexicano, membro da Internacional Socialista - para alterar o capítulo de Portugal sobre corrupção do Economic Survey e afastar Álvaro Santos Pereira, responsável da equipa que preparou o relatório, da apresentação. Está nos genes do PS que em muitos aspectos é tanto ou mais controleiro do que o PC.

24/02/2019

Títulos inspirados (85) - A inteligência artificial como sucedâneo da falta de inteligência natural


«Governo recorre à inteligência artificial para exportar mais» titulou o semanário de reverência para promover a «estratégia» do governo que vai usar «o e-commerce, o bigdata, o design thinking e o machine learning, etc.» (ou seja and so on). Estratégia de internacionalização da economia que «nunca teve tanta escala e coordenação» nas palavras do secretário de Estado Brilhante Dias, em promoção.

O brilhante Dias não explicou como conseguiram os industriais do vestuário e do calçado e outros exportadores de sucesso exportar sem tal estratégia e desprovidos de «o e-commerce, o bigdata, o design thinking e o machine learning, etc.», nem quais os produtos que o governo irá fabricar para exportação, para além das tretas em que é um fabricante de referência.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um comissário para todo o serviço (2)

Secção Albergue espanhol

Confessamos (outra vez): aqui no (Im)pertinências o comissário Carlos Moedas tem vindo a provocar urticária. A primeira vez que surgiu no nosso radar em plena crise do resgate foi a descerrar uma lápide em Beja com o seu nome, a pretexto de ser lá da terra, numa escola sem alunos (um projecto do tempo de Sócrates), na qualidade de secretário de estado adjunto do primeiro-ministro.

Ainda restava alguma boa impressão na segunda vez que nos apareceu,  (...) Para nós foi sempre a descer. E quando pensávamos que já não desceria mais, ... (a partir daqui é ler o post anterior)

Agora que já sabemos que pode descer mais, não nos surpreendemos com as promoções que o semanário de reverência lhe fez esta semana. Aqui vão elas:


Repare-se como Moedas substituiu Tsipras nos favores da viúva de Miguel Portas.

Corrige-se assim a avaliação da prestação de carreira de Moedas, segundo a pontuação impertinente, com cinco em vez de quatro urracas pela frouxidão, mantêm-se os cinco pilatos por querer colocar cartas em todos os tabuleiros e leva cinco em vez de três chateaubriands por confundir a sua promoção com os deveres do cargo e o interesse do país, a que acrescem dois ignóbeis.

23/02/2019

O culto da aberração na religião do politicamente correcto


«Aaron Philip, de 17 anos, é a primeira modelo negra, transexual, com paralisia cerebral e dependente de uma cadeira de rodas a assinar com uma agência de renome – a Elite Model Management. Num artigo escrito na primeira pessoa para a Them., a plataforma online dedicada à temática LGBTQ, a jovem explicou o seu percurso e fala das suas aspirações. (...)

Depois de assinar com a Elite, seguiram-se muitos outros trabalhos. Porém, Aaron não conseguiu desfilar na Semana da Moda em Nova Iorque. A modelo conta à Teen Vogue que não conseguiram colocá-la na passerelle “porque não havia acessos para a cadeira de rodas”. Não ter participado motivou-a ainda mais a falar sobre os problemas de acessibilidade na indústria da moda.» (Público)

Não há nenhuma razão para discriminar uma criatura negra, transexual, com paralisia cerebral e dependente de uma cadeira de rodas. Há talvez razão para duvidar da sua sanidade mental ao insistir em ser modelo, guia turística ou mineira. E seguramente há razões para duvidar da honestidade de quem quer usar a criatura como bandeira de uma qualquer causa.

22/02/2019

SERVIÇO PÚBLICO: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, nada. Aos restantes, cumpra-se a lei”.

«Portugal tudo perdoa e relativiza. Somos tão cristãos que até perdoamos a quem jamais demonstrará arrependimento, desde políticos sem ética nem vergonha, a gestores geniais que arruinaram milhares de vidas. Na verdade, tudo é facilmente perdoado neste país, das pequenas às maiores patifarias, exceto uma coisa: morder a mão de quem nos alimenta. Foi o que fez o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que, num país pequenino, cometeu o pecado supremo. Virou-se contra a ordem natural de que ele próprio fizera parte durante anos, como gestor da CGD e de outros bancos.

Senão vejamos: este é o governador que não só ‘mordeu a mão’ do primeiro-ministro que o nomeou, José Sócrates, como mais tarde ajudou o seu sucessor a deitar abaixo o maior lobby que existia em Portugal e que alimentava muita gente dos negócios, da política, da comunicação social e até dos sindicatos. Isto é imperdoável para muitos que prefeririam que o governador tivesse seguido os passos do seu eficaz e vigilante antecessor, que, como sabemos, acabou por ser promovido para Frankfurt.

Carlos Costa cometeu erros, a resolução do BES foi uma experiência trágica e existem questões por explicar sobre a sua passagem pela Caixa, tal como o JE tem noticiado nas últimas edições, numa excelente investigação da nossa redatora principal Lígia Simões. Mas não podemos ignorar que o seu percurso é semelhante ao de 99% dos quadros da banca portuguesa, que fizeram carreira sem levantar ondas e, expressão apropriada, ajudando ao quórum dos comités de crédito.

O que o distingue de outros que entravam mudos e saíam calados de tais convénios é o facto de, assim que teve poder para tal, ter tido a coragem de enfrentar interesses que jamais haviam sido desafiados. Só por isso, Carlos Costa já merece o nosso respeito, independentemente de tudo o resto. Tivesse agido de outra forma e hoje não seria vítima da máxima, apócrifa, atribuída a um dos pais do regime: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, nada. Aos restantes, cumpra-se a lei”. (*) O governador encontra-se na segunda categoria, mas arrisca-se a receber também o tratamento previsto para a terceira.»

«Aos amigos os favores, aos inimigos a lei» crónica de Filipe Alves no Económico

(*) Não sei quem a quem é atribuído este lema, talvez inspirado em Maquiavel que escreveu: «Aos amigos os favores, aos inimigos a lei.»

Por razões que em boa parte se devem ao governo de Passos Coelho (quando tiver tempo explico porque digo isto), a imprensa de hoje é visivelmente mais livre do que nos tempos de Sócrates. Daí que no passado aqui no (Im)pertinências se escrevia muitas vezes o que a boa imprensa dos socialistas silenciava. Felizmente, hoje podemos dedicar-nos mais às citações.

Lost in translation (317) - Não é tout court? Será tout long?

Por alguma razão desconhecida, só hoje me apercebi da boutade do Sr. General Ramalho Eanes, em entrevista à Lusa, a propósito dos 40 anos das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China (aqui citada) na qual postulou:
«A China não é como nós julgamos, um regime totalitário tout court»
Fiquei momentaneamente perplexo, até me recordar do Sr. General Ramalho Eanes ter sido eleito presidente da República do MFA em acumulação com a presidência daquele órgão chamado Conselho da Revolução (o nome diz tudo) que tutelava a quase-democracia portuguesa, órgão cuja perenidade o Sr. General chegou a defender.

Continuando o esforço de memória recordei que enquanto habitava o palácio de Belém se reuniu de um grupo de luminárias que lhe fez um partido chamado PRD (Partido Renovador Democrático) sob o seu «patrocínio tácito», partido com o qual o Sr. General se propôs salvar aquilo que considerava democracia tout court.

21/02/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (12) - Há uns mais no topo do que outros

Outros portugueses no topo do mundo.

Segundo o seu CV oficial, «Bruno Maçães nasceu em 1974. Licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa. É doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard nos Estados Unidos. Foi Professor de política económica internacional na Universidade de Yonsei na Coreia do Sul de 2006 a 2007. Trabalhou no American Enterprise Institute em 2008. De 2008 a 2011 participou na criação de uma nova universidade internacional em Berlim, o European College of Liberal Arts. De Junho de 2011 a Março de 2013 foi assessor político do Primeiro-Ministro. Foi Secretário de Estado dos Assuntos Europeus entre 2013 e 2015, no XIX Governo Constitucional.»

Depois de ter saído do governo foi praticamente esquecido pelos mídia até que, alegadamente, enviou a uma jornalista "dick pics" (don't ask) o que tornou o seu dick um objecto público, por assim dizer, ou pelo menos objecto da atenção de jornalistas (penis envy?).

Bruno Maçães chegou assim ao topo do mundo no Portugal dos Pequeninos por más razões.

Boas ou más - é matéria de opinião - as razões são alheias à sua obra científica à qual ninguém no Portugal dos Pequeninos parece ter ligado nenhuma, talvez porque tenha passado por aquele governo "neoliberal" que tanto mal causou aos portugueses ao aplicar as medidas negociadas pelo governo de Sócrates, antes deste ir estudar para Paris, para resolver os problemas que os seus governos socialistas por cá deixaram. 

Felizmente para Bruno Maçães, ele acabou por chegar ao topo do mundo por outras mãos um poucochinho mais qualificadas para tal do que a revista Visão que tratou com grande soma de pormenor dos "dick pics" enviados à jornalista.

Essas mãos foram as da Economist que publicou há duas semanas uma elogiosa review do seu livro «Belt and Road: A Chinese World Order», livro que com excepção de Francisco José Viegas (que esteve com Maçães  no governo "neoliberal") foi olimpicamente ignorado pelo jornalismo doméstico que esgotou o seu interesse na pila da criatura.

20/02/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (11) - Se não fosse a concorrência...

Outros portugueses no topo do mundo.

Sob o título megalómano-gongórico «Estamos à beira de uma revolução nos carros elétricos e Portugal tem o papel principal», o semanário de reverência conta-nos que «a investigadora portuguesa Helena Braga trabalha há dois anos numa solução que pode mudar a indústria dos carros elétricos... e não só. Basta que as empresas o queiram, porque a tecnologia já está encontrada».

Aprecie-se o «e não só» que sugere que podemos estar à beira de muito mais do que uma modesta revolução nos carros eléctricos, o que já não seria pouco. É claro que há algumas dificuldades: «o projeto que lidera está agora numa espécie de impasse. A tecnologia para construir baterias mais seguras e que garantam uma maior autonomia está descoberta, falta dar-lhe escala e dimensão industrial.»  Ou seja, falta aquela coisa que faz passar o que parece ser uma boa ideia que ganhou uma medalha num concurso de inventores a um negócio.

E tudo porquê? Ora porque haveria de ser: «do outro lado da barricada, estão as empresas que hoje produzem baterias para o mercado mundial e que não veem com bons olhos a chegada de uma tecnologia concorrentes que lhes destrua a essência do negócio.» Só podia ser a concorrência a dar cabo do negócio. O que fazer? O Estado Sucial suprimir a concorrência, ou não sendo de todo possível por causa de Bruxelas, domesticá-la e, principalmente, subsidiar a coisa.

19/02/2019

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (74) - É possível enganar quase todos durante algum tempo...

Outras preces

Há dois anos escrevi aqui:

Já agora, deixai-me fazer um prognóstico sobre o provável triste fim que pode esperar quem, esforçando-se por amanteigar uma esquerda que só o tolera porque a amanteiga, se sentir obrigado a largar a manteiga para ele próprio não se afundar, quando essa esquerda se afundar e levar o país consigo, uma vez mais. Nessa altura, pode muito bem Marcelo ficar sem esquerda e sem país. Para quem imagina que a popularidade de Marcelo é um seguro contra todos os riscos, lembremos, que Cavaco, odiadíssimo no final do seu segundo mandato, tinha no final do primeiro ano uma popularidade superior à de Marcelo.

Dois anos depois, Aximage publica mais um estudo de opinião:

Barómetro político da Aximage

Escreve o Jornal de Negócios comentando o estudo da Aximage:

«Com esta avaliação, Marcelo desce para níveis ligeiramente inferiores aos registados pelo seu antecessor, Aníbal Cavaco Silva. Comparando a avaliação entre os dois presidentes em idêntica fase do seu mandato (quase três anos), conclui-se que os 14,5 atribuídos a Marcelo em Fevereiro de 2019 ficam abaixo da classificação recebida por Cavaco Silva em Fevereiro de 2009. Durante mais de três anos, o ex-Presidente da República manteve níveis de aprovação sempre superiores àqueles em que se encontra agora Marcelo. Mais tarde, a popularidade de Cavaco começa a degradar-se, chegando na reta final a atingir patamares raros para um Presidente, abaixo de sete pontos. 

Segundo a Aximage, 67,1% dos portugueses consideram que o Presidente tem atuado "bem", contra 87,3% um ano antes. Nessa altura, apenas 5,5% achavam que atuava mal, percentagem que agora já chega aos 24,2%.»

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: «É fácil seres de esquerda quando estás bem na vida»

«No atual contexto histórico, é de facto muito fácil ser de esquerda quando se vive bem, quando se vive num sector da sociedade privilegiada e protegida em relação ao pior da natureza humana, a pobreza e a violência. Em 2019, a verdade é esta: a esquerda é cada vez mais associada aos privilegiados, às pessoas que por sorte, nascimento ou mérito não têm de se confrontar com o pior das sociedades.»

Excerto de «É fácil seres de esquerda quando estás bem na vida», Henrique Raposo no Expresso Diário

18/02/2019

Crónica da avaria que a geringonça está a infligir ao País (175)

Outras avarias da geringonça e do país.

Dizem alguns comentadores que Costa começa a dar sinais de desorientação. Não estou certo que os seus ziguezagues signifiquem isso, podem muito bem ser apenas a consequência de Costa só ter uma política consistente - manter-se no poder. Daí não ter qualquer problema em anunciar uma barragem de medidas, leis, projectos e planos independentemente da sua exequibilidade ou mesmo da sua intenção efectiva de os executar apenas para encher o espaço mediático, à semelhança dos seus mestres Guterres e Sócrates.

Talvez seja o caso do Direito Real de Habitação Duradoura, ou para simplificar Arrendamento Vitalício, a sua última produção em matéria do arrendamento, um perfeito disparate que na sua versão mais benigna é a generalização da versão dos arrendamentos anteriores a 2003 para os inquilinos com mais de 65 anos.

17/02/2019

Um exemplo clássico do trilema de Žižek

Recordando: o trilema de Žižek, formulado por Slavoj Žižek,  postula a incompatibilidade, sob um regime de constrangimento ideológico como o comunismo, entre as virtudes de honestidade, inteligência e adesão sincera a esse regime. Uso aqui o trilema num sentido mais geral, abrangendo o constrangimento ideológico a que se auto-submetem mentes como a do comunista Eugénio Rosa, actualmente representando o Partido Comunista na ADSE.

Leia-se agora o naco de prosa de Eugénio Rosa a propósito da denúncia dos acordos com a ADSE por parte de vários prestadores privados, incluindo Saúde Cuf, Luz Saúde, Cruz Vermelha e Grupo Lusíadas.

Expresso de 16-02-2019
O facto de em conjunto estes operadores representaram três quartos do volume da facturação total dos operadores privados (ver este excelente trabalho do Observador) não impede o génio Rosa de reduzir o seu impacto a 0,003% dos 1500 prestadores privados. É assim uma coisa parecida como reduzir o impacto do Continente, Pingo Doce e as outras grandes superfícies em hipotéticos acordos de distribuição de produtos alimentares ao peso ínfimo de meia dúzia em relação às dezenas de milhares de mercearias e mini-mercados.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (7) - Ó afronta das afrontas

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes em 2018 foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência.

Outro dos intangíveis atribuído à realização da Websummit pela coligação do jornalismo de causas com os opinion dealers foi transformar Lisboa numa Tech City e fazê-la constar do respectivo ranking, colocando a capital dos alfacinhas no topo do mundo, a exemplo das resmas de portugueses (sobretudo alfacinhas) já no topo do mundo.

Infelizmente para o complexo de inferioridade nacional, a Savills que promove esse ranking não ligou às aspirações da coligação e borrifou-se para Lisboa e não a incluiu nas 30 cidades mais tecnológicas, apesar da lista incluir, ó afronta das afrontas, Bangalore e a Cidade do Cabo.

16/02/2019

Separados à nascença. A pesada herança do comunismo 30 anos depois

Com a derrota da Alemanha em 1945, a União Soviética ocupou e controlou directamente a parte Oriental e manteve o controlo desde então e até a reunificação em 1990, através do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), da chamada República Democrática Alemã (RDA) - assim foi baptizado o Estado comunista totalitário na zona oriental da Alemanha.

Enquanto no lado oriental a RDA definhava sob a bota soviética, no lado ocidental a RFA prosperava sob um sistema capitalista de inspiração cogestionária. Um dos componentes da receita alemã para o sucesso económico foram e são ainda hoje as suas PME industriais (o Mittelstand) muitas delas empresas familiares, focadas numa gama de produtos, inovadoras e dispondo de mão de obra especializada. O economista alemão Hermann Simon chamou a essas empresas versteckte Champions (campeões ocultos), em contraponto às empresas de grande dimensão (os campeões nacionais).

The Economist

No mapa acima está assinalada a densidade de localização desses hidden champions e a fronteira que separou a Alemanha capitalista e a Alemanha comunista mostra, três décadas depois da reunificação, dois mundos radicalmente diferentes.