Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/03/2018

Dúvidas (218) – Qual a fiabilidade das sondagens amigas da Eurosondagem? (II)

Definitivamente não faço parte da Lisboa política. Na verdade nem da Lisboa propriamente dita e muito menos da política. Isso, contudo, não me impediu de escrever há uns anos um post onde questionava a fiabilidade das sondagens amigas da Eurosondagem, fiabilidade agora posta em causa por quem tem muito melhor informação do que este vosso escriba. Aqui vai um excerto do artigo «A fraude das sondagens» de João Marques de Almeida no Observador, onde segundo Costa, um dos beneficiários das sondagens amigas, se entrincheira a direita inorgânica, diferentemente, digo eu, da esquerda inorgânica que não precisa de se entrincheirar porque está comodamente instalada em quase todas redacções - em boa companhia da esquerda orgânica, acrescente-se.

    «A Lisboa política sabe que a Eurosondagem favorece sistematicamente o PS mas o Expresso e a SIC continuam a trabalhar com a empresa. Tudo isto diz muito sobre o modo como se faz política em Portugal.

    (...)

    Pelos dados de 2011 e de 2015, a Eurosondagem não só erra sistematicamente, como os seus erros favorecem sempre o mesmo partido, o PS, e prejudicam invariavelmente os partidos de direita. Como é possível que ainda se leve a sério as sondagens da Eurosondagem? O Expresso e a SIC não se preocupam com os erros da empresa com quem colaboram? Será que em Portugal a sucessão de erros não afecta a credibilidade de uma empresa? Nada disto espanta ou admira os portugueses?

    Os erros sistemáticos de uma empresa de sondagens e sempre a favor do mesmo partido deturpam a democracia. Qualquer pessoa envolvida na política sabe que as sondagens servem propósitos políticos. Mobilizam o eleitorado dos partidos que estão na frente e desmobilizam aqueles com sondagens fracas. A Lisboa política sabe que a Eurosondagem favorece sistematicamente o PS mas o Expresso e a SIC continuam a trabalhar com a empresa e a publicar os resultados. Tudo isto diz muito sobre o modo como se faz política em Portugal e sobre o desrespeito com que as elites políticas tratam os portugueses.»

    30/03/2018

    SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (4)

    Uma espécie de continuação de (1), (2) e (3)

    Retomando uma antiga série com um excerto de «Keynes é de esquerda?» de Vítor Bento no DN sobre o keynesianismo de martelo (aquele que vê todos os problemas como pregos).

    «Muitos dos que se reclamam das suas ideias, conhecem-nas mal e usam-nos como o homem que, tendo um martelo na mão, tudo lhe parece um prego. É uma espécie de keynesianismo de martelo, em que a intervenção do Estado e o aumento da despesa pública é a receita para todos os males. E é daqui que vem a associação implícita no título. Mas este "keynesianismo de martelo" - que conduz à insustentabilidade das finanças públicas - tem muito pouco de Keynes e de económico e muito mais de político e de ideológico. É a expressão de uma preferência política, ideologicamente fundada, de um Estado intervencionista e dominador, e que conduz inevitavelmente a um de dois caminhos - crises de dívida ou inflação acelerada (se for usado o financiamento monetário) -, terminando ambos em austeridade, para debelar as crises que originam.

    Tão errada estará, pois, a esquerda em invocar o patrocínio de Keynes, como a direita em recusar as suas ideias.»

    29/03/2018

    Popular pelas razões erradas

    Não conheço, nem sequer nunca me cruzei com Adolfo Mesquita Nunes, o vice-presidente do CDS, ex-secretário de Estado do Turismo e actual vereador da Covilhã. Apesar de já antes disso ser uma figura mais ou menos pública, era para mim um completo desconhecido até chegar ao governo de Passos Coelho onde fez um excelente papel no turismo.

    Tudo isto para dizer que tenho dele uma boa impressão que é completamente alheia às suas preferências sexuais. Apesar de não ter ficado espantado - porque sei bem o que a casa gasta -, achei uma completa parolice o destaque que o jornalismo de causas gay e o lóbi gay deram ao seu coming out na primeira página do Expresso. É como se fosse uma declaração discriminatória ao contrário e a esse tipo de discriminação pode adaptar-se a mesma anedota que dizia que o capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o comunismo é o seu contrário.

    Talvez num Portugal do passado cada vez mais remoto estas cerimónias do coming out tivessem alguma utilidade para colocar em causa a discriminação efectivamente existente em relação à homossexualidade. A meu ver, não mais. Nos tempos actuais, quanto mais se exaltam estas manifestações mais se acentua a sua anormalidade no sentido estatístico e, nas mentes mais retrógradas, a anormalidade no sentido sociológico. Como seria vista uma declaração de heterossexualidade de uma criatura pública?

    Sem falar da instrumentalização que a esquerdalhada faz desse folclore transformando os homossexuais em idiotas úteis e figuras de circo, instrumentalização que, por vezes, nas entrelinhas deixa transparecer o que verdadeiramente pensa a esquerda radical a este respeito - escutem-se ou leiam-se por exemplo os comentários da abencerragem berloquista, ex-comunista, ex-maoísta e ex-trotskista, Fernando Rosas a respeito da sexualidade de Mesquita Nunes.

    TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O Ronaldo das Finanças é um aprendiz de alquimista

    «Os números de 2017 ajudam a dissipar quaisquer dúvidas sobre esta alquimia das Finanças Públicas que permitiu acabar com a austeridade e reduzir o défice para níveis nunca antes vistos. As pensões, os salários e as carreiras dos funcionários públicos foram (parcialmente) repostos à custa da maior carga fiscal de sempre e de níveis de investimento público baixíssimos. Tal como o Cristiano Ronaldo do futebol não viola as leis da Física, também o Cristiano Ronaldo das Finanças não viola as leis da Economia.

    É perfeitamente legítimo o argumento de que a receita fiscal aumentou porque houve crescimento. O crescimento económico gera receitas fiscais sem que tal envolva aumento de taxas. Mas para a carga fiscal aumentar, tal quer dizer que as receitas fiscais aumentaram ainda mais do que o rendimento. É como se a taxa média de imposto tivesse aumentado.»

    Excerto de «A vitória da TINA ou a ditadura da matemática», Luís Aguiar-Conraria no Observador

    Repetindo-me, é uma análise objectiva e factual, parecendo ter prevalecido o Conraria sem hífen, pontualmente libertado dos seus complexos de esquerda e do ideologismo que lhe costuma estar associado. Estou quase a promover Conraria (sem hífen) à categoria de esquerda inteligente.

    28/03/2018

    ESTADO DE SÍTIO: A liberdade de imprensa está manifestamente a incomodar Costa

    A nova liderança do PSD está «está manifestamente a incomodar grande parte do PSD e da chamada direita inorgânica, aquilo que alguns costumam designar a direita do Observador».
    António Costa em entrevista à revista Visão 
    Uma vez mais, para Costa como para toda a esquerdalhada, a liberdade de imprensa é boa quando usada para enaltecer a «obra feita» e espalhar a fé nos amanhãs que cantam. É má e convivem dificilmente com ela quando a imprensa desalinhada noticia factos inconvenientes ou transmite opiniões divergentes.

    Já vimos isto várias vezes, a última das quais quando o animal feroz esteve estacionado em S. Bento. De caminho, Costa, agora como o animal feroz no passado recente, mostra a sua mente rasteira e pequenina a enviar recados aos desalinhados. Nisso está bem acompanhado por Belém que até avia mensagens para os jornais através de jornalistas amigos.

    DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (52)

    Outras preces.
    «Aqui está também o Comandante Supremo das Forças Armadas, aquele que, além de se orgulhar dos portugueses porque são portugueses, se orgulha dos militares portugueses porque são militares portugueses, que são os melhores militares do mundo, foram sempre, mas são cada vez mais». 
    Garantiu Marcelo Rebelo de Sousa na República Centro-Africana ao contingente que lá se encontra estacionado. Passando ao lado de vários factos, como os melhores militares do mundo deixarem que lhes roubem as armas (Tancos, remember?), esquecendo as dificuldades de Marcelo com os adjectivos, perdoando o Ti Célinho que se descontrola mais do que o costume no clima africano (até dança, remember?), passando ao lado de Marcelo ser o Comandante "Supremo" desta tropa fandanga, ainda assim, mesmo para ele, melhores do mundo não será um bocadinho exagerado?

    Concedo: finalmente uma grande realização de Costa

    Só as mentes frágeis podem acreditar que o governo de Costa e a geringonça trazem os turistas para Portugal e exportam produtos. Mas agora essas mentes têm algo de sólido a acrescentar à sua obra de reposições e restituições, a saber:

    Do semanário de reverência, na sua versão diária

    26/03/2018

    ESTADO DE SÍTIO: A justiça sucialista

    «Investigação TVI: Cândida Almeida levou em caixotes processos da operação Fizz para casa»

    Recorde-se que Cândida Almeida foi uma amiga do peito de Almeida Santos e mandatária de Mário Soares. Durante os seus doze anos à frente do DCIAP e nessa qualidade arquivou o processo Freeport e vários outros em que estava envolvido José Sócrates e outras eminências socialistas ou conexas. Graças a Joana Marques Vidal, em 2013 Cândida Almeida não foi reconduzida no DCIAP.

    Em concordância com o arquivamento dos processos envolvendo figuras de cera do regime garantiu um dia que «o nosso país não é um país corrupto, os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos. Portugal não é um país corrupto.» Viu-se e vê-se.

    Pela sua acção no DCIAP, Cândida Almeida esteve várias vezes sob o olho do (Im)pertinências.

    Como noticia a tvi24, ficou agora a conhecer-se a versão integral do relatório da inspecção feita durante o mandato de Cândida Almeida no DCIAP e o que ficou a saber-se confirma por excesso tudo aquilo que se poderia esperar de uma criatura enfeudada à protecção do bas fond do regime.

    Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (128)

    Outras avarias da geringonça.

    Regresso a dois temas já tratados nestas crónicas, ambos exemplificativos de uma governação opaca e focada na manipulação do lobo límbico dos portugueses que, lamento dizê-lo, é muito absorvente.

    Da governação opaca são exemplo as orchestral manoeuvres in the dark com vista em fazer passar pela porta do cavalo as ligações de alta velocidade a Madrid, o celebrado TGV, que Costa ainda recentemente classificava de tema «tabu». Os mídia, com excepção do jornal SOL, têm dado pouca atenção a este tema. À pala do TGV lá voltará a terceira travessia do Tejo e tutti quanti como factos consumados indiscutíveis e indiscutidos.

    25/03/2018

    CASE STUDY: A doutrina Somoza como modo de vida (2)

    Miguel Monjardino escreveu na sua coluna Guerra e Paz no Expresso, um texto «Tecnologia e Política» que por coincidência é uma continuação perfeita do post de ontem onde citei Helena Matos. Aqui vai o excerto mais directamente relacionado com a doutrina Somoza:

    «A campanha eleitoral recorreu a dados disponíveis no Facebook e identificou milhões de eleitores suscetíveis de serem persuadidos a votar no seu candidato à presidência dos Estados Unidos, através de anúncios televisivos direcionados. O candidato apoiou a ideia, mas exigiu cuidado no modo como os dados pessoais dos eleitores seriam utilizados politicamente. 

    Os técnicos do Facebook aperceberam- se da utilização que estava a ser feita dos dados dos seus utilizadores. contactaram a campanha, mas consideraram que a privacidade dos mesmos não estava a ser afetada. O candidato ganhou a eleição e, como é natural, membros da sua campanha não resistiram a informar os jornalistas de que os dados recolhidos e a tecnologia disponível lhes tinham permitido, pela primeira vez, caracterizar cada um dos 15 milhões de eleitores indecisos nos EUA pelo nome, morada,  rendimento, sexo e raça. 

    Tudo isto aconteceu em 2012, na campanha presidencial de Barack Obama contra Mitt Romney, e é público. Nada disto foi considerado controverso na altura. Jim Rutenberg, por exemplo, escreveu um longo artigo sobre o assunto no diário “The New York Times”: “Data you can believe in” [Dados em que pode acreditar] a 20 de Junho de 2013.

     A conclusão de que o Facebook, um dos gigantes empresariais no centro da utopia tecnológica e progressista de Silicon Valley, esteve de alguma forma envolvido na vitória de Donald Trump tem vindo a gerar uma verdadeira tempestade política.»

    24/03/2018

    CASE STUDY: A doutrina Somoza como modo de vida

    «Quando a pertença política do utilizador determina se estamos perante um escândalo ou perante um notável progresso» ou de como a internet e as redes sociais são meios virtuosos quando usados pelos prosélitos de Barack Obama e se transformam em meios malignos quando são usados pelos prosélitos de Donald Trump - e pelo próprio, já agora.

    É apenas mais um exemplo de como a esquerdalhada não tem o menor escrúpulo (é por uma boa causa, dizem-nos) em adoptar e praticar intensamente o que aqui no (Im)pertinências baptizámos como doutrina Somoza.

    23/03/2018

    Notícia é o jornalista morder o cão, o que, sendo raro, acontece (2)

    Especulando a propósito do artigo «Mulher morre depois de ter sido atropelada por carro autónomo da Uber» escrevi há dois dias este post. Neste comentário um leitor escreveu «Não esperava esta desonestidade da sua parte! Quantos carros em condução autónoma há por 1.000 habitantes?»

    Esse comentário obriga-me, desde logo, a agradecer ao leitor por não esperar desonestidades da minha parte. Obriga-me também e em consequência a esclarecer que o propósito do meu post não era demonstrar coisa nenhuma, mas simplesmente colocar em perspectiva os factos alternativos e os histerismos que contaminam os mídia e as redes sociais a propósito de qualquer tema, incluindo os veículos alternativos.

    Tratando o assunto de uma forma ultra-simplificada (falando por exemplo como se houvesse apenas um tipo de autonomia, quando há 3 ou 4, e como se as condições de circulação dos autónomos e convencionais fossem as mesmas, que não são), eis o que posso acrescentar:

    1. Não conheço o número de veículos que circulam em condução autónoma. Sei que:
    • Só na Califórnia já foram concedidas 50 licenças a fabricantes de veículos autónomos;  
    • Uma dezena de fabricantes de vários países, incluindo os dois maiores VW e Toyota, e ainda BMW, Honda e Mercedes, estão a testar e nalguns casos também já a produzir veículos autónomos;
    • Até 2017 21 estados americanos tinham introduzido legislação para regular os veículos autónomos;
    • O ano passado o Congresso americano autorizou que os fabricantes testassem este ano 25 mil veículos autónomos nas vias públicas;
    • Em várias grandes cidades americanas e chinesas circula regularmente um número significativo de veículos autónomos.
    2. Também sei que em vários anos que circulam veículos autónomos só são conhecidas duas mortes em 2016 e em 2018 relacionadas com estes veículos; 

    3. Segundo as estatísticas da Association for Safe International Road Travel, ocorrem por ano 1,3 milhões de mortes em acidentes de viação;

    4. O número total mundial de veículos convencionais em circulação segundo a OICA era cerca de 1.300 milhões em 2015;

    5. De 3 e 4 resulta que em média ocorre 1 morte por ano por cada 1.000 veículos convencionais;

    6. Os veículos autónomos em teste circulam em média alguns milhares de km por semana, muitas vezes mais do que em média um veículo convencional;  

    7. De 4, 5 e 6 resulta que para a "taxa de mortalidade" dos veículos autónomos não ser superior à dos veículos comuns seria apenas necessário que em dois anos tivessem circulado em média 1.000 veículos autónomos.

    De onde, permito-me concluir, classificar o meu post como «desonestidade» poderia ser classificado como... desonesto, se não fosse o caso de eu considerar isso uma desonestidade.

    21/03/2018

    Notícia é o jornalista morder o cão, o que, sendo raro, acontece

    «Mulher morre depois de ter sido atropelada por carro autónomo da Uber»

    Que me lembre, esta é a segunda morte causada por um veículo autónomo, neste caso de um peão que atravessava a rua fora da passadeira. A primeira morte foi resultante de uma colisão com um camião em circunstâncias de contra-luz que o computador do carro não interpretou correctamente.

    Estas duas mortes depois de vários anos e de milhões de km percorridos por veículo autónomos comparam com as mais de 100 mortes por dia nos Estados Unidos em acidentes com veículos convencionais.

    Pro memoria (373) - Os universos paralelos do Estado Sucial socialista

    «Todos os agrupamentos de centros de saúde vão ter dentistas em 2019

    Dos 55 agrupamentos de centros de saúde do país, apenas 24 possuem atualmente consultas de medicina dentária. Governo quer colocar “mais de metade dos [dentistas] que faltam” durante este ano e os restantes no primeiro semestre do próximo ano.» (Semanário de reverência)

    O que o secretário de Estado da Saúde, Fernando Araújo, disse aos jornalistas em Leiria foi que o governo está a trabalhar "activamente" nesse sentido o que em politiquês significa: para já está anunciado e isso é que conta, depois logo se vê. A coisa foi transformada em notícia pelo agitprop socialista e pressurosamente publicada pelo semanário de reverência que não cuidou de perguntar ao secretário como é que um governo que está a deixar o SNS a rebentar pelas costuras e em piores condições do que o governo dito neoliberal vai tratar dos dentes podres do povo ignaro.

    20/03/2018

    TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: «A educação como paixão perdida»

    Costumo dizer que devo tudo o que sou aos meus professores. Mas, pré-adolescente ou adolescente, sabia que tinha de estudar a sério pois o meu futuro dependia disso; e que se não me preparasse com seriedade podia chumbar no liceu público onde estudava. E sabia que se tivesse uma má nota, a minha Mãe não ia protestar com os professores, mas castigava-me a mim.

    Hoje teriam dado cabo do meu futuro.

    Sem faltas, iria jogar bilhar ou futebol; sabendo que não podia chumbar, iria viver dos rendimentos gerados com alguma atenção nas aulas e algumas leituras de sinopses coladas com cuspo.
    Nos anos formativos tornar-me-ia num analfabeto cultural, um preguiçoso preparado para viver de expedientes, uma besta-quadrada a aprender reivindicações a ver a mãezinha a berrar com os professores, até que estes já fartos disso e quantos deles também “analfabetizados”, nos dessem a todos as notas que sossegariam a sua vida e destruiriam as nossas.

    Quando vejo Mário Nogueira e as suas tropas — disse-o no tempo de Maria de Lurdes Rodrigues, e repito agora — descubro que não quero os meus netos entregues a estes sindicalistas do berro, que nunca gritam exigindo rigor, estudo, trabalho aos estudantes, que nunca reivindicam o direito a chumbar, a fazer provas, a censurar duramente os disparates e as bestialidades dos seus alunos.
    E não me venham com as dificuldades sociais para legitimar a bandalheira. Estudei numa escola primária pública na zona mais pobre de Coimbra. Quase todos os meus colegas ao fim da 4ª classe foram trabalhar e roubaram-lhes a infância. E no liceu alguns dos meus colegas vinham de longe, em casa tinham pais analfabetos ou — como se dizia então — capazes de ler as letras gordas e que trabalhavam mais do que seria razoável para dar aos filhos um futuro melhor.

    É por isso muito ofensivo comparar os desfavorecidos de hoje com os desses tempos de miséria, pobreza extrema, abusos, insalubridade, casas sem água corrente, com uma cama onde tinham de dormir num quarto sem janela pais e irmãos. E, apesar disso, o ensino público exigia-lhes trabalho e esforço e com isso colocava-os num ascensor social que era muito imperfeito, mas que não era pior do que hoje.»

    José Miguel Júdice, no comentário no Jornal das 8 da TVI (fonte)

    ACREDITE SE QUISER: Quem melhor para falar sobre o pós-crise do que o maior responsável pela crise?

    «José Sócrates vai falar sobre a crise económica, na próxima quarta-feira, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

    O ex-primeiro-ministro será o orador de uma conferência sobre “o projeto europeu depois da crise económica”. Um evento promovida pelo Núcleo de Estudantes de Economia da Associação Académica.» (jornal SOL)

    Repare-se a diferença: a direcção do ISCSP convidou o sucessor de Sócrates para debitar umas lérias sobre qualquer coisa que ninguém sabe bem o que seja. Os alunos do ISCSP - e ao que parece muitos outros e várias luminárias académicas - indignaram-se muito justamente e produziram uma petição pública onde consideram que a «referida nomeação configura em si mesma uma ofensa à dignidade dos profissionais da ciência e do ensino em Portugal.

    Agora que foram os alunos a escolher alguém para falar sobre a crise económica não tiveram dúvidas, passaram ao lado de Passos Coelho e foram directamente à maior autoridade do Portugal dos Pequeninos nesta matéria: o licenciado em engenharia civil (incluindo a cadeira de Inglês Técnico) pela Universidade Independente e mestre pela Sciences Po.

    19/03/2018

    Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (127)

    Outras avarias da geringonça.

    Costa, que na sua juventude talvez tenha estado próximo do marxismo na versão Karl, à medida que foi envelhecendo foi adoptando o marxismo na versão Groucho. Não faltam exemplos e o mais recente são as suas juras de fidelidade a Bruxelas, ao equilíbrio orçamental e à redução da dívida pública, depois de anos a verberar o império da austeridade. Se não gostarmos ou não resultarem estes princípios, Costa estará sempre disponível para adoptar outros.

    Outro exemplo do marxismo grouchista de Costa é o TGV que tudo indica estar a ser desenterrado às escondidas, um mês depois de Costa ter declarado que é «um tabu e vai sê-lo por muito tempo». É também um exemplo da opacidade da governação social-costista. Sem falar das miudezas de todos os dias, como o ultimato para limpeza das matas com um prazo inadiável que poucas semanas depois foi adiado três meses.