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| O último dos queirozianos |
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
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22/02/2020
DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.
Etiquetas:
R.I.P.
02/08/2018
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (21)
Uma espécie de continuação dos excertos das crónicas compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos,
(O PS estava a usar o Estado) "para se sustentar e para através dele criar e manter uma pequena burguesia, que se acha revolucionária e que é, pura e simplesmente, a raiz do fascismo possível". "O Estado que hoje existe, com os seus 400 mil funcionários, as suas infinitas empresas, a sua Reforma Agrária, o seu domínio PS estava a usar o Estado "para se sustentar e para através dele criar e manter uma pequena burguesia, que se acha revolucionária e que é, pura e simplesmente, a raiz do fascismo possível". "O Estado que hoje existe, com os seus 400 mil funcionários, as suas infinitas empresas, a sua Reforma Agrária, o seu domínio da banca, do ensino, da comunicação social, não será nunca uma fonte de igualdade, (...) autoritário e explorador, prolonga e completa aquele que herdámos da tradição e de Salazar",
(Vasco Pulido Valente, prefácio de "O País das Maravilhas", 1979)
(O PS estava a usar o Estado) "para se sustentar e para através dele criar e manter uma pequena burguesia, que se acha revolucionária e que é, pura e simplesmente, a raiz do fascismo possível". "O Estado que hoje existe, com os seus 400 mil funcionários, as suas infinitas empresas, a sua Reforma Agrária, o seu domínio PS estava a usar o Estado "para se sustentar e para através dele criar e manter uma pequena burguesia, que se acha revolucionária e que é, pura e simplesmente, a raiz do fascismo possível". "O Estado que hoje existe, com os seus 400 mil funcionários, as suas infinitas empresas, a sua Reforma Agrária, o seu domínio da banca, do ensino, da comunicação social, não será nunca uma fonte de igualdade, (...) autoritário e explorador, prolonga e completa aquele que herdámos da tradição e de Salazar",
(Vasco Pulido Valente, prefácio de "O País das Maravilhas", 1979)
10/12/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (20)
Outros excertos.
Termina, por agora, esta série com este excerto em tom confessional de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Nunca perdi a memória ou os sinais desse princípio, que foi, por assim dizer, a minha introdução ao mundo. A guerra fria veio complicar as coisas. Em Portugal, a existência da ditadura impunha, na prática, a escolha de um único lado. Não se podia ser contra os comunistas pela razão primitiva e óbvia de que o regime perseguia e prendia os comunistas. Não houve ninguém, ou quase ninguém, com um resto de consciência moral, que, numa altura ou noutra, não caísse neste buraco: o buraco sem fundo do "antifascismo". Sair dele era mais difícil e muitos só saíram muito depois do 25 de Abril. Por mim, gastei esforçadamente uma dúzia de anos no trabalho inglório de varrer a tralha política e teórica da minha cabeça. É uma parte da minha vida que se estragou e que não volta. Sou um filho da guerra fria.
Termina, por agora, esta série com este excerto em tom confessional de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Nunca perdi a memória ou os sinais desse princípio, que foi, por assim dizer, a minha introdução ao mundo. A guerra fria veio complicar as coisas. Em Portugal, a existência da ditadura impunha, na prática, a escolha de um único lado. Não se podia ser contra os comunistas pela razão primitiva e óbvia de que o regime perseguia e prendia os comunistas. Não houve ninguém, ou quase ninguém, com um resto de consciência moral, que, numa altura ou noutra, não caísse neste buraco: o buraco sem fundo do "antifascismo". Sair dele era mais difícil e muitos só saíram muito depois do 25 de Abril. Por mim, gastei esforçadamente uma dúzia de anos no trabalho inglório de varrer a tralha política e teórica da minha cabeça. É uma parte da minha vida que se estragou e que não volta. Sou um filho da guerra fria.
A democracia portuguesa trouxe uma exagerada esperança de reforma e decência. Ao começo, mesmo a seguir ao PREC, nada parecia impedir que se fizesse um país sem a miséria, a corrupção e a complacência do costume. Por isto e por aquilo, não se fez. Portugal conservou os seus velhos vícios, sem adquirir novas virtudes. Na minha última encarnação sou, prosaicamente, um filho da democracia falhada. Como escreveu o homem, a velhice é um naufrágio. Comigo, um naufrágio que às vezes não acho exclusivamente pessoal. Mas são com certeza momentos de megalomania. A verdade é que já não pertenço a esta história. O meu interesse é forçado, a minha presença é, pelo menos para mim, gratuita. Mas, por enquanto, não há remédio senão persistir.
Histórias, 21-04-2007
Histórias, 21-04-2007
08/12/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (19)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres de vistas curtas.
«O meu "catastrofismo", o meu pessimismo, a minha malevolência, estão num único ponto. Insisti, como insisti em 1991, depois do colapso da URSS, que o levantamento popular não levaria com certeza à democracia, como hoje a entendemos no Ocidente.
E não fiz mal em insistir porque, desde Obama ao jornalismo de ocasião, toda a gente esperava, ou até garantia, que de Trípoli à Praça Tahrir iam sair, resplandecentes, novas democracias. Gostava de prevenir, para pôr ponto final no caso, que prever um acontecimento ou uma situação não significa ( excepto para mentes excepcionalmente estreitas) que se deseje esse acontecimento ou essa situação. Não significa mais do que tentar compreender o que se passa e de não criar falsas expectativas. Desde a Antiguidade que existiram tiranias e, fatalmente, uma luta constante contra elas. Mas regimes democráticos não existiram antes do século XVIII (existiu, de resto, um único: o americano). A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade. É isto muito difícil de perceber?»
Difícil de perceber?, 24-02-2011
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres de vistas curtas.
E não fiz mal em insistir porque, desde Obama ao jornalismo de ocasião, toda a gente esperava, ou até garantia, que de Trípoli à Praça Tahrir iam sair, resplandecentes, novas democracias. Gostava de prevenir, para pôr ponto final no caso, que prever um acontecimento ou uma situação não significa ( excepto para mentes excepcionalmente estreitas) que se deseje esse acontecimento ou essa situação. Não significa mais do que tentar compreender o que se passa e de não criar falsas expectativas. Desde a Antiguidade que existiram tiranias e, fatalmente, uma luta constante contra elas. Mas regimes democráticos não existiram antes do século XVIII (existiu, de resto, um único: o americano). A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade. É isto muito difícil de perceber?»
Difícil de perceber?, 24-02-2011
06/12/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (18)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«(…) hoje o sonho da ressurreição do califado não morreu. Taheri, que provavelmente se orgulha dessas velhas façanhas, só podia interpretar as divagações de Freitas como fraqueza e arrependimento da "Europa".
Pior. Na cabeça iraniana de Taheri, se Freitas rejeitava com tanta intensidade os terríveis pecados do Ocidente, por maioria de razão rejeitava também o maior de todos: quem condena as cruzadas condena logicamente o Estado de Israel. Taheri julgou que Portugal o compreendia e resolveu explicar em público que os cartoons não passavam de uma conspiração sionista e transgrediam a liberdade de imprensa (ponto com que o próprio Sócrates, de resto, concordara). Até aqui Taheri agira com a implícita aprovação de Freitas. Mas faltava o Holocausto e Taheri não resistiu e negou o Holocausto. Suspeito que o escândalo e o protesto o surpreenderam. Freitas tinha aberto o grande caminho da " compreensão". Que essa "compreensão" parasse no Ho1ocausto não lhe ocorreu. Se não parara ou se inibira com a mentira, a demagogia, o terrorismo, a promessa de arrasar Israel e a ameaça nuclear, que diferença fazia o Holocausto? Taheri é um bom embaixador, porque representa com zelo o sentimento e as convicções do islão. Freitas não é um bom ministro porque representa com excesso as mais torpes tendências de Portugal e da "Europa". Para conciliar a "rua" muçulmana, condenou o que nós somos.»
O embaixador e o ministro, 17-02-2006
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«(…) hoje o sonho da ressurreição do califado não morreu. Taheri, que provavelmente se orgulha dessas velhas façanhas, só podia interpretar as divagações de Freitas como fraqueza e arrependimento da "Europa".
Pior. Na cabeça iraniana de Taheri, se Freitas rejeitava com tanta intensidade os terríveis pecados do Ocidente, por maioria de razão rejeitava também o maior de todos: quem condena as cruzadas condena logicamente o Estado de Israel. Taheri julgou que Portugal o compreendia e resolveu explicar em público que os cartoons não passavam de uma conspiração sionista e transgrediam a liberdade de imprensa (ponto com que o próprio Sócrates, de resto, concordara). Até aqui Taheri agira com a implícita aprovação de Freitas. Mas faltava o Holocausto e Taheri não resistiu e negou o Holocausto. Suspeito que o escândalo e o protesto o surpreenderam. Freitas tinha aberto o grande caminho da " compreensão". Que essa "compreensão" parasse no Ho1ocausto não lhe ocorreu. Se não parara ou se inibira com a mentira, a demagogia, o terrorismo, a promessa de arrasar Israel e a ameaça nuclear, que diferença fazia o Holocausto? Taheri é um bom embaixador, porque representa com zelo o sentimento e as convicções do islão. Freitas não é um bom ministro porque representa com excesso as mais torpes tendências de Portugal e da "Europa". Para conciliar a "rua" muçulmana, condenou o que nós somos.»
O embaixador e o ministro, 17-02-2006
03/12/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (17)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres, e a sua «falta de respeito» para com as vacas sagradas do regime.
«Estava na televisão, em 1975, quando Cunhal, um estalinista indecoroso e beato, proibiu com a ajuda do MFA um documentário em que se mencionava de passagem a purga ao Exército Vermelho de 1938. Nessa altura, a Europa conhecia K.ravchenko, Souvarine, Serge, o relatório de Khrushchov ao XX Congresso, e também Koestler, Orwell, Milosz e Solzhenitsyn. Infelizmente, Portugal era uma ilha de iletrados em que se admirava o PC e se persistia em venerar Sartre. Porquê ir agora buscar esta velha história? Porque ela deixou a sua marca na cultura política portuguesa: a intolerância que reapareceu e aumenta dia-a-dia de ferocidade; a desonesta e facciosa simplificação da crise (da direita à extrema-esquerda); e a terrível ideia de que o Estado pode formar e corrigir a sociedade. No Portugal arcaico, que é o nosso, estas ressurreições não animam.»
Folhas mortas?, 22-03-2015
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres, e a sua «falta de respeito» para com as vacas sagradas do regime.
«Estava na televisão, em 1975, quando Cunhal, um estalinista indecoroso e beato, proibiu com a ajuda do MFA um documentário em que se mencionava de passagem a purga ao Exército Vermelho de 1938. Nessa altura, a Europa conhecia K.ravchenko, Souvarine, Serge, o relatório de Khrushchov ao XX Congresso, e também Koestler, Orwell, Milosz e Solzhenitsyn. Infelizmente, Portugal era uma ilha de iletrados em que se admirava o PC e se persistia em venerar Sartre. Porquê ir agora buscar esta velha história? Porque ela deixou a sua marca na cultura política portuguesa: a intolerância que reapareceu e aumenta dia-a-dia de ferocidade; a desonesta e facciosa simplificação da crise (da direita à extrema-esquerda); e a terrível ideia de que o Estado pode formar e corrigir a sociedade. No Portugal arcaico, que é o nosso, estas ressurreições não animam.»
Folhas mortas?, 22-03-2015
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eu diria mesmo mais,
trilema de Žižek
01/12/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (16)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres, e das ilusões que povoam o mundo em geral e, neste caso, o Vaticano em particular.
«O Papa Francisco mandou fazer um inquérito aos católicos para saber o que eles pensavam da cultura (ou, se preferirem, da moral) sexual contemporânea. Não é que ele não saiba já.
(…)
Em princípio, Francisco, como, antes dele, João Paulo II e Bento XVI, pode escolher um de dois caminhos. Pode escolher o caminho do compromisso, na esperança de reconduzir à Igreja alguns dos milhões que se afastaram ou estão à sua margem. Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao anglicanismo. O segundo caminho para o Papa Francisco é ficar em público pela retórica e, na substância, defender o que está. Esta estratégia, além de lhe ser pessoalmente nociva, aumentaria a desconfiança geral dos fiéis pela Igreja como hipócrita e fraudulenta. Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão. O inquérito não o ajudará.»
O inquérito do Papa Francisco, 09-11-2013
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres, e das ilusões que povoam o mundo em geral e, neste caso, o Vaticano em particular.
«O Papa Francisco mandou fazer um inquérito aos católicos para saber o que eles pensavam da cultura (ou, se preferirem, da moral) sexual contemporânea. Não é que ele não saiba já.
(…)
Em princípio, Francisco, como, antes dele, João Paulo II e Bento XVI, pode escolher um de dois caminhos. Pode escolher o caminho do compromisso, na esperança de reconduzir à Igreja alguns dos milhões que se afastaram ou estão à sua margem. Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao anglicanismo. O segundo caminho para o Papa Francisco é ficar em público pela retórica e, na substância, defender o que está. Esta estratégia, além de lhe ser pessoalmente nociva, aumentaria a desconfiança geral dos fiéis pela Igreja como hipócrita e fraudulenta. Apesar da sua imensa popularidade, e mesmo por causa dela, Francisco acabou numa velha armadilha, em que esbraceja em vão. O inquérito não o ajudará.»
O inquérito do Papa Francisco, 09-11-2013
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é muito para um homem só,
eu diria mesmo mais
27/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (15)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Os "reformadores" têm de meter na cabeça uma verdade básica: na prática, o sistema de ensino não permite expulsar, repito, expulsar ninguém e assim, como se depreenderá, qualquer aluno tem a impunidade garantida. Do ministro ao último professor, toda a gente acredita que expulsar um aluno equivale a uma espécie de condenação à morte. Marçal Grilo, uma das pessoas mais deletérias que passaram pelo Governo, reservou para si a autoridade de aplicar essa pena capital e, segundo nos disse depois, ficou muito emocionado e tremente, quando em três casos durante quatro anos não a pôde evitar. Isto quase que significa uma licença para matar, coisa que as criancinhas percebem muito bem.
Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute. Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (como defende o PSD), que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores. Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais; precisa que os pais paguem pelo menos parte da educação dos filhos (mesmo que em muitos casos esse pagamento seja um gesto simbólico).
A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite.»
O monstro, 02-06-2006
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Os "reformadores" têm de meter na cabeça uma verdade básica: na prática, o sistema de ensino não permite expulsar, repito, expulsar ninguém e assim, como se depreenderá, qualquer aluno tem a impunidade garantida. Do ministro ao último professor, toda a gente acredita que expulsar um aluno equivale a uma espécie de condenação à morte. Marçal Grilo, uma das pessoas mais deletérias que passaram pelo Governo, reservou para si a autoridade de aplicar essa pena capital e, segundo nos disse depois, ficou muito emocionado e tremente, quando em três casos durante quatro anos não a pôde evitar. Isto quase que significa uma licença para matar, coisa que as criancinhas percebem muito bem.
Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute. Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (como defende o PSD), que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores. Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais; precisa que os pais paguem pelo menos parte da educação dos filhos (mesmo que em muitos casos esse pagamento seja um gesto simbólico).
A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças. Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. É inútil, quando não é nociva. Chegará, ou não chegará, o dia em que um governo se resolva a olhar para a realidade. Até lá não vale a pena gemer por causa de um monstro que Portugal inteiro viu crescer com equanimidade e deleite.»
O monstro, 02-06-2006
25/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (14)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«(..) como se na mão-de-obra "qualificada" estivesse o fundamento de todo o progresso.
Não está e há muito tempo que é público e notório que não está. Um país não enriquece porque se educa. Pelo contrário, na maior parte dos casos, trata de se educar, quando enriqueceu. Basta pensar, por exemplo, que nunca ninguém promoveu a literacia por um motivo primariamente económico. Os judeus ensinavam a ler as crianças para que elas lessem o Talmude. Os protestantes, incluindo os da Inglaterra (e da Escócia), para que elas lessem a Bíblia. Os prussianos, para que lessem ordens de batalha (daí o mito universal de que a escola ganhara a guerra franco-prussiana). E os próprios franceses encheram a França de escolas, não para a "desenvolver" (nem sabiam o que isso era), mas para arrancara população às trevas do catolicismo. O Sul da Europa ficou à pane deste esforço, porque na Igreja se falava latim e os pais queriam os filhos para trabalhar.
A tecnologia moderna convenceu infelizmente algumas pessoas de cabeça fraca que uma licenciatura (ou um grau académico superior) abria as portas para um emprego estável e para uma vida de classe média. Claro que a frequência de uma universidade é um bem em si mesmo. Só que já não é a garantia de nada. Em economias como a americana, há emprego para pessoas com altas qualificações (não forçosamente técnicas) e para pessoas com baixas qualificações. No meio há muito pouco emprego e muito mal pago. A informática eliminou milhões de lugares e a "deslocalização" do trabalho outros milhões. Para o resto, o 12.º ano chega e às vezes, sobra. Os jovens deste 11 de Março são vítimas de um Estado que lhes mentiu e que os roubou e agora, quando eles se queixam, responde, como o sr. Sócrates, com o silêncio ou com insultos.»
História de um crime, 12-03-2011
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«(..) como se na mão-de-obra "qualificada" estivesse o fundamento de todo o progresso.
Não está e há muito tempo que é público e notório que não está. Um país não enriquece porque se educa. Pelo contrário, na maior parte dos casos, trata de se educar, quando enriqueceu. Basta pensar, por exemplo, que nunca ninguém promoveu a literacia por um motivo primariamente económico. Os judeus ensinavam a ler as crianças para que elas lessem o Talmude. Os protestantes, incluindo os da Inglaterra (e da Escócia), para que elas lessem a Bíblia. Os prussianos, para que lessem ordens de batalha (daí o mito universal de que a escola ganhara a guerra franco-prussiana). E os próprios franceses encheram a França de escolas, não para a "desenvolver" (nem sabiam o que isso era), mas para arrancara população às trevas do catolicismo. O Sul da Europa ficou à pane deste esforço, porque na Igreja se falava latim e os pais queriam os filhos para trabalhar.
A tecnologia moderna convenceu infelizmente algumas pessoas de cabeça fraca que uma licenciatura (ou um grau académico superior) abria as portas para um emprego estável e para uma vida de classe média. Claro que a frequência de uma universidade é um bem em si mesmo. Só que já não é a garantia de nada. Em economias como a americana, há emprego para pessoas com altas qualificações (não forçosamente técnicas) e para pessoas com baixas qualificações. No meio há muito pouco emprego e muito mal pago. A informática eliminou milhões de lugares e a "deslocalização" do trabalho outros milhões. Para o resto, o 12.º ano chega e às vezes, sobra. Os jovens deste 11 de Março são vítimas de um Estado que lhes mentiu e que os roubou e agora, quando eles se queixam, responde, como o sr. Sócrates, com o silêncio ou com insultos.»
História de um crime, 12-03-2011
Dedicatória
Este post é dedicado a António Costa, primeiro-ministro, que produziu ontem o seguinte juízo:«Não temos licenciados e mestres a mais. Temos é emprego a menos para doutores, mestres e licenciados. É essa a transformação de mentalidade e reorientação do nosso esforço produtivo que temos que fazer para conseguir vencer»,Vale a pena ler alguns comentários dos leitores do jornal i ao artigo onde é citado o profundíssimo pensamento.
22/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (13)
Outros excertos.
Mais um excerto (neste caso uma crónica completa) de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Um estudo de Luís de Sousa, sociólogo do ICS, mostra que 63 por cento dos portugueses toleram (ou, mais precisamente, aprovam) a corrupção, desde que ela produza "efeitos benéficos" para a generalidade da população. Isto não é um sentimento transitório, provocado por trapalhadas recentes; é uma cultura. A cultura dessa grande guerra que cada um de nós tem com um Estado opressor e remoto e com governos que nunca respondem pelo que fazem ou deixam de fazer. O português médio execra a autoridade, seja sob que forma for, e vive no seu país como se vivesse sob ocupação estrangeira. O servilismo e a falta de carácter, que tanta gente pelos tempos fora lamentou, escondem a vontade de salvar a pele e a aspiração, muito natural, de enganar quem manda.
Não há regras para ninguém, porque ninguém cumpre as que por acaso há. Quem pode levar a sério uma escola em que o próprio ministério fabrica os resultados, proíbe legalmente a reprovação e aceita a violência? Quem pode levar a sério um regime que se diz democrático e selecciona o funcionalismo pela fidelidade partidária? Quem pode considerar um ponto de honra pagar impostos, quando a fraude e a injustiça fiscal são socialmente sinais de privilégio e esperteza? Quem vai pedir um recibo ao canalizador ou ao electricista ou a factura no restaurante, quando sabe que o Estado gasta sem utilidade e sem sentido? E quem vai obedecer às determinações da câmara do seu sítio, quando a câmara é uma agência de negócios de favor e uma bolsa de favores sem explicação e sem desculpa?
Não admira que o "povo dos pequenos" conspire constantemente contra a lei e até contra a decência. Que falte ao trabalho ao menor pretexto; que trabalhe mal, se trabalhar bem lhe custa; que peça aqui ou empurre ali, para se beneficiar ou aliviar; que tome as ruas uma lixeira pública; que guie, na cidade ou na estrada, como se estivesse sozinho; que minta a torto e a direito sobre o que lhe apetece e lhe convém; que não passe, enfim, de um miserável cidadão, indiferente à política e ao país. Não lhe ensinaram outra coisa. Os chefes são como ele. Os políticos são como ele. O Estado é como ele. Como exigir que ele se porte como Portugal inteiro não se porta? Claro que ele aprova a corrupção e consegue ver nela virtudes redentoras. Não é agora altura de mudar os costumes.»
O triunfo da corrupção, 12-03-2010
Esclarecimento:
Desta série de posts, nomeadamente deste post, não deve concluir-se a minha concordância total com a visão (queiroziana) de Pulido Valente, frequentemente redutora de uma realidade bem mais complexa do que fazem supor as suas simplificações, em parte inevitáveis pelo formato de crónica. Ainda assim, mesmo quando a simplificação vai longe demais, como aqui, a sua visão é um oportuno contraponto aos delírios da comentadoria doméstica fabricados por ignorância, estupidez ou encomenda.
Mais um excerto (neste caso uma crónica completa) de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Um estudo de Luís de Sousa, sociólogo do ICS, mostra que 63 por cento dos portugueses toleram (ou, mais precisamente, aprovam) a corrupção, desde que ela produza "efeitos benéficos" para a generalidade da população. Isto não é um sentimento transitório, provocado por trapalhadas recentes; é uma cultura. A cultura dessa grande guerra que cada um de nós tem com um Estado opressor e remoto e com governos que nunca respondem pelo que fazem ou deixam de fazer. O português médio execra a autoridade, seja sob que forma for, e vive no seu país como se vivesse sob ocupação estrangeira. O servilismo e a falta de carácter, que tanta gente pelos tempos fora lamentou, escondem a vontade de salvar a pele e a aspiração, muito natural, de enganar quem manda.
Não há regras para ninguém, porque ninguém cumpre as que por acaso há. Quem pode levar a sério uma escola em que o próprio ministério fabrica os resultados, proíbe legalmente a reprovação e aceita a violência? Quem pode levar a sério um regime que se diz democrático e selecciona o funcionalismo pela fidelidade partidária? Quem pode considerar um ponto de honra pagar impostos, quando a fraude e a injustiça fiscal são socialmente sinais de privilégio e esperteza? Quem vai pedir um recibo ao canalizador ou ao electricista ou a factura no restaurante, quando sabe que o Estado gasta sem utilidade e sem sentido? E quem vai obedecer às determinações da câmara do seu sítio, quando a câmara é uma agência de negócios de favor e uma bolsa de favores sem explicação e sem desculpa?
Não admira que o "povo dos pequenos" conspire constantemente contra a lei e até contra a decência. Que falte ao trabalho ao menor pretexto; que trabalhe mal, se trabalhar bem lhe custa; que peça aqui ou empurre ali, para se beneficiar ou aliviar; que tome as ruas uma lixeira pública; que guie, na cidade ou na estrada, como se estivesse sozinho; que minta a torto e a direito sobre o que lhe apetece e lhe convém; que não passe, enfim, de um miserável cidadão, indiferente à política e ao país. Não lhe ensinaram outra coisa. Os chefes são como ele. Os políticos são como ele. O Estado é como ele. Como exigir que ele se porte como Portugal inteiro não se porta? Claro que ele aprova a corrupção e consegue ver nela virtudes redentoras. Não é agora altura de mudar os costumes.»
O triunfo da corrupção, 12-03-2010
Esclarecimento:
Desta série de posts, nomeadamente deste post, não deve concluir-se a minha concordância total com a visão (queiroziana) de Pulido Valente, frequentemente redutora de uma realidade bem mais complexa do que fazem supor as suas simplificações, em parte inevitáveis pelo formato de crónica. Ainda assim, mesmo quando a simplificação vai longe demais, como aqui, a sua visão é um oportuno contraponto aos delírios da comentadoria doméstica fabricados por ignorância, estupidez ou encomenda.
20/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (12)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Talvez convenha perceber duas coisas sobre a corrupção. Primeira, onde há poder, há corrupção. E onde há pobreza, há mais corrupção. Destes dois truísmos resulta necessariamente que quanto maior é o poder ou a pobreza, maior é a corrupção. Portugal junta a uma atávica miséria um Estado monstruoso e autoritário e, por consequência, tem as condições perfeitas para produzir uma enorme quantidade de corrupção. Em Portugal nada se salva da corrupção: nem a administração local, nem a administração central, nem os partidos, nem os "negócios", nem os governos, nem o futebol. A corrupção está íntima da cultura "nacional", no centro da ordem estabelecida, na maneira como os portugueses tratam de si e se tratam entre si.
Não vale a pena, por isso, declamar, perorar, rugir e chorar. O mal só tem dois remédios: o enriquecimento do país, por um lado, e, por outro, uma drástica redução do Estado e, principalmente, da autoridade do Estado. Quanto ao enriquecimento, não parece próximo. Quanto à redução de um Estado com 700.000 funcionários, ninguém até hoje o conseguiu reformar. Pelo contrário, aumentou sempre, intocável e triunfante. Quarta ou quinta-feira, o dr. Silva Lopes perguntava na televisão porque não se metiam, pelo menos, meia dúzia de corruptos na cadeia. Como em Espanha. Ou em França. Ou na América. Não se metem, porque, a meter meia dúzia, acabavam por se meter uns milhares, ou umas dezenas de milhares. E também, evidentemente, porque nenhuma sociedade se persegue a si mesma.»
A corrupção em Portugal, 03-02-2008
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Talvez convenha perceber duas coisas sobre a corrupção. Primeira, onde há poder, há corrupção. E onde há pobreza, há mais corrupção. Destes dois truísmos resulta necessariamente que quanto maior é o poder ou a pobreza, maior é a corrupção. Portugal junta a uma atávica miséria um Estado monstruoso e autoritário e, por consequência, tem as condições perfeitas para produzir uma enorme quantidade de corrupção. Em Portugal nada se salva da corrupção: nem a administração local, nem a administração central, nem os partidos, nem os "negócios", nem os governos, nem o futebol. A corrupção está íntima da cultura "nacional", no centro da ordem estabelecida, na maneira como os portugueses tratam de si e se tratam entre si.
Não vale a pena, por isso, declamar, perorar, rugir e chorar. O mal só tem dois remédios: o enriquecimento do país, por um lado, e, por outro, uma drástica redução do Estado e, principalmente, da autoridade do Estado. Quanto ao enriquecimento, não parece próximo. Quanto à redução de um Estado com 700.000 funcionários, ninguém até hoje o conseguiu reformar. Pelo contrário, aumentou sempre, intocável e triunfante. Quarta ou quinta-feira, o dr. Silva Lopes perguntava na televisão porque não se metiam, pelo menos, meia dúzia de corruptos na cadeia. Como em Espanha. Ou em França. Ou na América. Não se metem, porque, a meter meia dúzia, acabavam por se meter uns milhares, ou umas dezenas de milhares. E também, evidentemente, porque nenhuma sociedade se persegue a si mesma.»
A corrupção em Portugal, 03-02-2008
18/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (11)
Outros excertos.
Mais um excerto (neste caso uma crónica completa) de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«A devoção do povo de Felgueiras pela sra. Fátima espantou muita gente. Os felgueirenses começaram por a eleger, quando ela já andava a contas com a justiça, e, a seguir, na sua esmagadora maioria, aprovaram a sua fuga e até os delitos que alegadamente cometera. Quem estudou a história política do País não se deve espantar. No antigo regime, ou seja, na monarquia absoluta., o povo só conhecia o Estado por duas razões: porque lhe tirava o imposto (em dinheiro ou em espécie) e porque o mandava para a tropa. Uma vez por outra, embora raramente, também o enforcava ou metia na cadeia. A relação entre o soberano e os seus súbditos acabava quase sempre aqui: e os representantes de Lisboa na província eram inomináveis tiranetes, que exploravam e aterrorizavam os locais. Veio o liberalismo (um parto dificil) e, no momento em que o liberalismo conseguiu enfim estabilizar, os portugueses descobriram de repente que os políticos precisavam deles - pelo menos, do voto de alguns deles. Foi nessa altura que se estabeleceu o negócio que ainda hoje dura: os políticos davam qualquer coisa ao povo (estradas, pontes, fontanários, favores de carácter pessoal) e o povo dava em paga o seu voto aos políticos. Convém perceber a natureza eminentemente "democrática" desta transacção. A um povo pilhado e saqueado uma troca - mesmo unilateral - parecia o paraíso. Ninguém se interessava por saber se os políticos roubavam, desde que fornecessem a tempo a sua "parte". Uma "parte" choruda fazia um bom político; uma "pane" mesquinha um mau político. Tal qual como um pai remoto. A roubalheira, de resto, decorria em altas regiões, que o homem da rua ignorava. Coisas para poderosos. Contra Lisboa e contra o mundo, queria um protector e dispensador de benesses: não queria mais nada. A corrupção que se lixasse.»
A corrupção, 16-05-2003
Mais um excerto (neste caso uma crónica completa) de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«A devoção do povo de Felgueiras pela sra. Fátima espantou muita gente. Os felgueirenses começaram por a eleger, quando ela já andava a contas com a justiça, e, a seguir, na sua esmagadora maioria, aprovaram a sua fuga e até os delitos que alegadamente cometera. Quem estudou a história política do País não se deve espantar. No antigo regime, ou seja, na monarquia absoluta., o povo só conhecia o Estado por duas razões: porque lhe tirava o imposto (em dinheiro ou em espécie) e porque o mandava para a tropa. Uma vez por outra, embora raramente, também o enforcava ou metia na cadeia. A relação entre o soberano e os seus súbditos acabava quase sempre aqui: e os representantes de Lisboa na província eram inomináveis tiranetes, que exploravam e aterrorizavam os locais. Veio o liberalismo (um parto dificil) e, no momento em que o liberalismo conseguiu enfim estabilizar, os portugueses descobriram de repente que os políticos precisavam deles - pelo menos, do voto de alguns deles. Foi nessa altura que se estabeleceu o negócio que ainda hoje dura: os políticos davam qualquer coisa ao povo (estradas, pontes, fontanários, favores de carácter pessoal) e o povo dava em paga o seu voto aos políticos. Convém perceber a natureza eminentemente "democrática" desta transacção. A um povo pilhado e saqueado uma troca - mesmo unilateral - parecia o paraíso. Ninguém se interessava por saber se os políticos roubavam, desde que fornecessem a tempo a sua "parte". Uma "parte" choruda fazia um bom político; uma "pane" mesquinha um mau político. Tal qual como um pai remoto. A roubalheira, de resto, decorria em altas regiões, que o homem da rua ignorava. Coisas para poderosos. Contra Lisboa e contra o mundo, queria um protector e dispensador de benesses: não queria mais nada. A corrupção que se lixasse.»
A corrupção, 16-05-2003
15/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (10)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do Diário de Notícias de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia tem de se aturar - com conta, peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem ou, pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, urna ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em "pensar mal". »
Raspar um socialista…, 19-09-2015
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do Diário de Notícias de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia tem de se aturar - com conta, peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem ou, pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, urna ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em "pensar mal". »
Raspar um socialista…, 19-09-2015
12/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (9)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Só que tudo isto, que serve para sublinhar o óbvio, não esclarece a substância do anacronismo, que uma extrema-esquerda com 20 por cento do voto manifestamente é.
O isolamento de Portugal esclarece melhor essa estranha ressurreição. Ao contrário da Europa, a classe média indígena (a que pertence o que resta da velha classe operária) foi poupada à longa desilusão com o "socialismo real" e com as múltiplas variedades de marxismo-leninismo que o pretenderam corrigir e substituir. A Ditadura não permitiu que se visse a subserviência do PC à estratégia global da URSS, ou, por exemplo, que se vivesse Budapeste e Praga como se viveu em França ou em Itália. A brevidade do PREC salvou muita fantasia. A falência filosófica e doutrinal da "grande narrativa" da esquerda quase não se sentiu em Lisboa. O PC português (para não falar do Bloco, mais tardio e periférico) não sofreu o descrédito do PC italiano ou espanhol, nem fugiu, escorraçado e melancólico, para o refúgio patético do eurocomunismo. É nesse vácuo histórico, na ausência dessa decisiva memória, que assentam e alastram os 20 por cento de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa.»
A extrema-esquerda, 11-07-2009
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Só que tudo isto, que serve para sublinhar o óbvio, não esclarece a substância do anacronismo, que uma extrema-esquerda com 20 por cento do voto manifestamente é.
O isolamento de Portugal esclarece melhor essa estranha ressurreição. Ao contrário da Europa, a classe média indígena (a que pertence o que resta da velha classe operária) foi poupada à longa desilusão com o "socialismo real" e com as múltiplas variedades de marxismo-leninismo que o pretenderam corrigir e substituir. A Ditadura não permitiu que se visse a subserviência do PC à estratégia global da URSS, ou, por exemplo, que se vivesse Budapeste e Praga como se viveu em França ou em Itália. A brevidade do PREC salvou muita fantasia. A falência filosófica e doutrinal da "grande narrativa" da esquerda quase não se sentiu em Lisboa. O PC português (para não falar do Bloco, mais tardio e periférico) não sofreu o descrédito do PC italiano ou espanhol, nem fugiu, escorraçado e melancólico, para o refúgio patético do eurocomunismo. É nesse vácuo histórico, na ausência dessa decisiva memória, que assentam e alastram os 20 por cento de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa.»
08/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (8)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Ora, sem Salazar, a direita portuguesa fica num vácuo. Sá Carneiro não durou o bastante para lhe dar forma e a consolidar. O" cavaquismo", sendo um governo meritório, não deixou uma doutrina ou um método. O ensaio "populista" de Santana e Portas faliu na abjecção. Sobrou o quê? Sobrou um vago liberalismo, que se imagina esperto e na prática repete as banalidades da moda. O liberalismo, de resto, não é fácil num país como Portugal. A pobreza indígena sempre viveu da protecção do Estado e sempre desesperadamente a exigiu: a nobreza e a burguesia, o povo rural e o povo urbano, a Igreja e a Universidade, a agricultura e o comércio, a indústria e os serviços, o funcionalismo e, claro está, a arte. Toda a gente em Portugal espera tudo ou quase tudo do Estado, a começar pelos "liberais" de agora, que esperam do Estado negócios, privilégios, parcialidade e favores. Uma direita liberal portuguesa é uma contradição de termos.
Mas, se a direita não for conservadora, porque Salazar morreu e não há nada a conservar, e se não for liberal, por causa da eterna indigência do país, que será ela? Boa pergunta. Uma pergunta que, ao fim de 30 anos, já merece resposta. No fundo, a direita portuguesa não precisa de se "refundar", precisa simplesmente de se fundar.»
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Ora, sem Salazar, a direita portuguesa fica num vácuo. Sá Carneiro não durou o bastante para lhe dar forma e a consolidar. O" cavaquismo", sendo um governo meritório, não deixou uma doutrina ou um método. O ensaio "populista" de Santana e Portas faliu na abjecção. Sobrou o quê? Sobrou um vago liberalismo, que se imagina esperto e na prática repete as banalidades da moda. O liberalismo, de resto, não é fácil num país como Portugal. A pobreza indígena sempre viveu da protecção do Estado e sempre desesperadamente a exigiu: a nobreza e a burguesia, o povo rural e o povo urbano, a Igreja e a Universidade, a agricultura e o comércio, a indústria e os serviços, o funcionalismo e, claro está, a arte. Toda a gente em Portugal espera tudo ou quase tudo do Estado, a começar pelos "liberais" de agora, que esperam do Estado negócios, privilégios, parcialidade e favores. Uma direita liberal portuguesa é uma contradição de termos.
Mas, se a direita não for conservadora, porque Salazar morreu e não há nada a conservar, e se não for liberal, por causa da eterna indigência do país, que será ela? Boa pergunta. Uma pergunta que, ao fim de 30 anos, já merece resposta. No fundo, a direita portuguesa não precisa de se "refundar", precisa simplesmente de se fundar.»
A "refundação" da direita, 19-03-2005
05/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (7)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«O resultado da embaixada do Syriza ao mundo exterior foi, como não podia deixar de ser, a confusão geral. Jean-Claude Juncker, enternecido, deu um beijinho a Tsipras e, para o acalmar, lá o levou, de mão dada, para o seu escritório. Quem falou aqui em "crianças"?
Um tropo obrigatório desta esquerda neo-romântica é o pagamento da dívida de guerra da Alemanha, que a Inglaterra e a América indexaram ao aumento de exportações da República Federal. O exemplo não serve. Em primeiro lugar, o exército americano e o exército inglês ocupavam a Alemanha e queriam o apoio dela para resistir à expansão soviética que, naquele tempo, parecia ameaçar a Europa. Em segundo lugar, a Alemanha estava fisicamente arrasada pelos bombardeamentos de 1943-1945 e o Ocidente não tinha dinheiro para a reconstruir e a alimentar: esquecer a dívida de guerra era do seu interesse (e, ao mesmo tempo, um bom passo político). Já a América não perdoou um tostão da dívida da Inglaterra, que pontualmente a pagou. As pessoas crescidas sabem disto. E a sra. Merkel também. Por isso avisou que não receberia Tsipras (para não aturar a mistura de chantagem e choradeiras com que ele anda por aí a maçar o mundo) e mandou o ministro das Finanças comunicar ao jovem que, para ele, não estava em casa.»
A sra. não está em casa, 06-02-2015
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«O resultado da embaixada do Syriza ao mundo exterior foi, como não podia deixar de ser, a confusão geral. Jean-Claude Juncker, enternecido, deu um beijinho a Tsipras e, para o acalmar, lá o levou, de mão dada, para o seu escritório. Quem falou aqui em "crianças"?
Um tropo obrigatório desta esquerda neo-romântica é o pagamento da dívida de guerra da Alemanha, que a Inglaterra e a América indexaram ao aumento de exportações da República Federal. O exemplo não serve. Em primeiro lugar, o exército americano e o exército inglês ocupavam a Alemanha e queriam o apoio dela para resistir à expansão soviética que, naquele tempo, parecia ameaçar a Europa. Em segundo lugar, a Alemanha estava fisicamente arrasada pelos bombardeamentos de 1943-1945 e o Ocidente não tinha dinheiro para a reconstruir e a alimentar: esquecer a dívida de guerra era do seu interesse (e, ao mesmo tempo, um bom passo político). Já a América não perdoou um tostão da dívida da Inglaterra, que pontualmente a pagou. As pessoas crescidas sabem disto. E a sra. Merkel também. Por isso avisou que não receberia Tsipras (para não aturar a mistura de chantagem e choradeiras com que ele anda por aí a maçar o mundo) e mandou o ministro das Finanças comunicar ao jovem que, para ele, não estava em casa.»
A sra. não está em casa, 06-02-2015
03/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (6)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
Como dizia o outro, o género humano não suporta demasiada realidade. Ainda por cima, nesse ponto, as coisas pioraram. O Estado-providência transformou o cidadão vulgar num quase absoluto irresponsável e os dirigentes da democracia fazem uma carreira de lhe mentir.
Um adulto europeu espera, no mínimo, o seguinte: que o Estado lhe eduque os filhos, que o Estado o trate na doença e que o Estado lhe dê uma pensão para uma velhice decente e próspera. E espera também trabalhar pouco (em França, 35 horas por semana), um aumento de salário no fim do ano, que lhe paguem as férias, que lhe garantam o emprego e, muitas vezes, que lhe dêem uma casa ou uma renda barata. Só que esta fantasia, que assentava no domínio universal do Ocidente, na miséria da Ásia e na escravidão da Europa oriental, acabou - e acabou para sempre. Não serve de nada pôr um remendo aqui e um remendo ali. Mais tarde ou mais cedo, o edifício vem abaixo. E não virá abaixo em concórdia e paz. Nenhum regime político resiste à impotência e o que hoje têm de comum os governos da Europa, na Alemanha como em França, em Itália como em Portugal, é manifestamente a impotência. Da fraqueza não sai a ordem; e o inconcebível acontece.»
O inconcebível acontece, 23-09-2005
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
Como dizia o outro, o género humano não suporta demasiada realidade. Ainda por cima, nesse ponto, as coisas pioraram. O Estado-providência transformou o cidadão vulgar num quase absoluto irresponsável e os dirigentes da democracia fazem uma carreira de lhe mentir.
Um adulto europeu espera, no mínimo, o seguinte: que o Estado lhe eduque os filhos, que o Estado o trate na doença e que o Estado lhe dê uma pensão para uma velhice decente e próspera. E espera também trabalhar pouco (em França, 35 horas por semana), um aumento de salário no fim do ano, que lhe paguem as férias, que lhe garantam o emprego e, muitas vezes, que lhe dêem uma casa ou uma renda barata. Só que esta fantasia, que assentava no domínio universal do Ocidente, na miséria da Ásia e na escravidão da Europa oriental, acabou - e acabou para sempre. Não serve de nada pôr um remendo aqui e um remendo ali. Mais tarde ou mais cedo, o edifício vem abaixo. E não virá abaixo em concórdia e paz. Nenhum regime político resiste à impotência e o que hoje têm de comum os governos da Europa, na Alemanha como em França, em Itália como em Portugal, é manifestamente a impotência. Da fraqueza não sai a ordem; e o inconcebível acontece.»
O inconcebível acontece, 23-09-2005
01/11/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (5)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Parece que há hoje, pelo menos segundo João Cravinho, novas teorias do desenvolvimento económico que atribuem uma importância decisiva à história e à cultura. Mais vale tarde do que nunca. Finalmente, alguém percebeu que Portugal ou o sul de Itália não são uma cópia com mais sol da Inglaterra ou da Alemanha. Claro que, no fundo, isto não traz nada de novo. A teoria sociológica de Montesquieu a Weber, e até o nosso caseiro Antero, já tinham dito o mesmo. Mas que a ideia penetre por acaso na cabeça de um economista não deixa de ser uma alegria. Cravinho, por exemplo, jura, com uma extraordinária fantasia, que se fôssemos mais parecidos com a Inglaterra estávamos com certeza num "patamar" 30 ou 40 porcento "superior". Infelizmente, não estamos. E porquê?
Em primeiro lugar, como viu Antero, por causa da religião (de que João Cravinho não fala). O catolicismo prescindia da leitura da Bíblia (e, portanto, da alfabetização), estabelecia a autoridade absoluta do padre e pedia em matéria de pensamento uma incondicional obediência. O iluminismo português, como verdadeiro movimento filosófico e científico, não chegou a existir e Coimbra nunca seriamente saiu da sua escuridão. Em segundo lugar, e depois da Igreja, o Estado abafou a sociedade e o indivíduo. O Estado fazia e desfazia as classes dirigentes que, dos pares do Reino ao último escrivão, dependiam dele. O Estado distribuía a sua justiça e os seus favores com um lendário arbítrio. E, pior que tudo, o Estado exercia um poder de facto, ilegítimo pelo exercício ou pela origem, universalmente ressentido e cobiçado. O liberalismo, a República e a Ditadura não mudaram, neste capítulo, nada de essencial.
A geografia, ainda por cima, não ajudou. Depois da perda do Brasil e do barco a vapor, Portugal ficou fora das grandes rotas comerciais do Atlântico e cada vez mais longe da Europa. Pouco a pouco acabou por se tornar um país sem destino, a que nem as colónias de África, por falta de dinheiro, ofereciam um papel. A pobreza e a velha consciência do atraso nacional acabaram por criar uma cultura de passividade e conformismo, subserviente e velhaca e, como seria de esperar, hostil ao indivíduo e ao risco. A democracia e a "Europa" caíram neste venerável pântano português. Ninguém que saiba um bocadinho de história se deve surpreender.»
O pântano português, 24-07-2005
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Parece que há hoje, pelo menos segundo João Cravinho, novas teorias do desenvolvimento económico que atribuem uma importância decisiva à história e à cultura. Mais vale tarde do que nunca. Finalmente, alguém percebeu que Portugal ou o sul de Itália não são uma cópia com mais sol da Inglaterra ou da Alemanha. Claro que, no fundo, isto não traz nada de novo. A teoria sociológica de Montesquieu a Weber, e até o nosso caseiro Antero, já tinham dito o mesmo. Mas que a ideia penetre por acaso na cabeça de um economista não deixa de ser uma alegria. Cravinho, por exemplo, jura, com uma extraordinária fantasia, que se fôssemos mais parecidos com a Inglaterra estávamos com certeza num "patamar" 30 ou 40 porcento "superior". Infelizmente, não estamos. E porquê?
Em primeiro lugar, como viu Antero, por causa da religião (de que João Cravinho não fala). O catolicismo prescindia da leitura da Bíblia (e, portanto, da alfabetização), estabelecia a autoridade absoluta do padre e pedia em matéria de pensamento uma incondicional obediência. O iluminismo português, como verdadeiro movimento filosófico e científico, não chegou a existir e Coimbra nunca seriamente saiu da sua escuridão. Em segundo lugar, e depois da Igreja, o Estado abafou a sociedade e o indivíduo. O Estado fazia e desfazia as classes dirigentes que, dos pares do Reino ao último escrivão, dependiam dele. O Estado distribuía a sua justiça e os seus favores com um lendário arbítrio. E, pior que tudo, o Estado exercia um poder de facto, ilegítimo pelo exercício ou pela origem, universalmente ressentido e cobiçado. O liberalismo, a República e a Ditadura não mudaram, neste capítulo, nada de essencial.
A geografia, ainda por cima, não ajudou. Depois da perda do Brasil e do barco a vapor, Portugal ficou fora das grandes rotas comerciais do Atlântico e cada vez mais longe da Europa. Pouco a pouco acabou por se tornar um país sem destino, a que nem as colónias de África, por falta de dinheiro, ofereciam um papel. A pobreza e a velha consciência do atraso nacional acabaram por criar uma cultura de passividade e conformismo, subserviente e velhaca e, como seria de esperar, hostil ao indivíduo e ao risco. A democracia e a "Europa" caíram neste venerável pântano português. Ninguém que saiba um bocadinho de história se deve surpreender.»
O pântano português, 24-07-2005
30/10/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (4)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Desde o 25 de Abril que o Estado-providência tornou, com 30 anos de atraso, no fundamento do futuro da vida de milhões de portugueses. Directamente, porque lhes dá emprego, ou indirectamente porque, em teoria pelo menos, encarrega de lhes pagar a educação dos filhos, de os tratar na doença e de os sustentar na velhice. Bem sabemos que mal. Mas qualquer maneira o ponto está em que o Estado-providência substituiu a responsabilidade de cada indivíduo por si próprio e que hoje quase todos nós dependemos dele. O que, em princípio, não seria trágico, se ele fosse indefinidamente sustentável. Quando na Europa, depois da Segunda Guerra o começaram a organizar a sério, não passou pela cabeça de ninguém que as funções do Estado-providência crescessem como cresceram e que o preço dos seus serviços chegasse onde chegou.
O ensino "universal e gratuito" era sumário, a medicina primitiva e os reformados morriam economicamente por volta dos 70 anos. Ainda por cima, uma população jovem podia financiar facilmente tudo isso. Agora, não. A população envelheceu, os cuidados médicos são cada vez mais caros para cada vez mais gente e o ensino alastrou, sem lógica nem senso, do pré-escolar à universidade. O Estado-providência está virtualmente falido.
Só que a "Europa" e Portugal com ela, reconhecendo vagamente a realidade, se recusam a agir em consequência. Vivemos numa ficção política ou, se quiserem, numa grande mentira. Como Barroso e Sócrates, na Alemanha, em França e em Itália, vários governos tentaram pôr remendos por aqui e por ali para atenuar ou disfarçar as coisas. Não resolveram nada e ficaram a ser cordialmente odiados. Sempre alimentada pela irresponsabilidade e pelo medo, a grande mentira não se desfaz sem dor. A nossa história já é hoje a história da ruína do Estado-providência, que de medida em medida e de orçamento em orçamento irá desaparecendo. Não é a história de um acidente ou de um "mau bocado". É a história de um mundo que se extingue. Não sem desespero.»
A grande mentira, 17-07-2005
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Desde o 25 de Abril que o Estado-providência tornou, com 30 anos de atraso, no fundamento do futuro da vida de milhões de portugueses. Directamente, porque lhes dá emprego, ou indirectamente porque, em teoria pelo menos, encarrega de lhes pagar a educação dos filhos, de os tratar na doença e de os sustentar na velhice. Bem sabemos que mal. Mas qualquer maneira o ponto está em que o Estado-providência substituiu a responsabilidade de cada indivíduo por si próprio e que hoje quase todos nós dependemos dele. O que, em princípio, não seria trágico, se ele fosse indefinidamente sustentável. Quando na Europa, depois da Segunda Guerra o começaram a organizar a sério, não passou pela cabeça de ninguém que as funções do Estado-providência crescessem como cresceram e que o preço dos seus serviços chegasse onde chegou.
O ensino "universal e gratuito" era sumário, a medicina primitiva e os reformados morriam economicamente por volta dos 70 anos. Ainda por cima, uma população jovem podia financiar facilmente tudo isso. Agora, não. A população envelheceu, os cuidados médicos são cada vez mais caros para cada vez mais gente e o ensino alastrou, sem lógica nem senso, do pré-escolar à universidade. O Estado-providência está virtualmente falido.
Só que a "Europa" e Portugal com ela, reconhecendo vagamente a realidade, se recusam a agir em consequência. Vivemos numa ficção política ou, se quiserem, numa grande mentira. Como Barroso e Sócrates, na Alemanha, em França e em Itália, vários governos tentaram pôr remendos por aqui e por ali para atenuar ou disfarçar as coisas. Não resolveram nada e ficaram a ser cordialmente odiados. Sempre alimentada pela irresponsabilidade e pelo medo, a grande mentira não se desfaz sem dor. A nossa história já é hoje a história da ruína do Estado-providência, que de medida em medida e de orçamento em orçamento irá desaparecendo. Não é a história de um acidente ou de um "mau bocado". É a história de um mundo que se extingue. Não sem desespero.»
A grande mentira, 17-07-2005
27/10/2016
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: O Portugal dos Pequeninos visto pelo último dos queirozianos (3)
Outros excertos.
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Não é talvez necessário dizer que a irracionalidade, o patrocínio e o ócio sufocam o país. As Cortes de 1821 disseram o mesmo, sem qualquer resultado visível. Excepto, como é óbvio, 30 anos de uma guerra civil intermitente e brutal, que hoje a sra. Merkel não permitiria.
Precisamos de mudar de vida, como previnem os peritos? Claro que precisamos de mudar de vida. Só que a única maneira de mudar de vida é ganharmos menos, bastante menos, para não gastar o que não há; e desfazer depressa o Estado, que os privilegiados fizeram à sua medida. Mas, por um lado, esses privilegiados tomam conta, e boa conta, do Estado que os serve e não o largarão com facilidade e, por outro lado, não se vê quem possa, com a doçura a que os costumes obrigam, correr com eles. Nem o FMI e a "Europa'', se por acaso vierem, conseguirão reformar os portugueses. A herança é pesada.»
«A herança é pesada» 05-12-2010
Mais um excerto de outra das crónicas, compiladas em «De mal a pior» (D. Quixote), de Vasco Pulido Valente, o último dos queirozianos, não no estilo mas na substância, com a sua visão lúcida, por vezes vitriólica, deste Portugal de mentes pequeninas e elites medíocres.
«Não é talvez necessário dizer que a irracionalidade, o patrocínio e o ócio sufocam o país. As Cortes de 1821 disseram o mesmo, sem qualquer resultado visível. Excepto, como é óbvio, 30 anos de uma guerra civil intermitente e brutal, que hoje a sra. Merkel não permitiria.
Precisamos de mudar de vida, como previnem os peritos? Claro que precisamos de mudar de vida. Só que a única maneira de mudar de vida é ganharmos menos, bastante menos, para não gastar o que não há; e desfazer depressa o Estado, que os privilegiados fizeram à sua medida. Mas, por um lado, esses privilegiados tomam conta, e boa conta, do Estado que os serve e não o largarão com facilidade e, por outro lado, não se vê quem possa, com a doçura a que os costumes obrigam, correr com eles. Nem o FMI e a "Europa'', se por acaso vierem, conseguirão reformar os portugueses. A herança é pesada.»
«A herança é pesada» 05-12-2010
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