Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (32)

Separados à nascença
«La salida del secretario general del PSOE, Pedro Sánchez, forzado por la dimisión este miércoles de una mayoría de su comisión ejecutiva, es imprescindible. En circunstancias normales en la vida de cualquier partido político, el revés recibido por el PSOE en las elecciones autonómicas celebradas en Galicia y el País Vasco el pasado domingo, que se suma a las derrotas cosechadas en las dos elecciones generales del último año, donde el PSOE ha obtenido los peores resultados de su historia, deberían haber supuesto la dimisión automática de su líder. Cualquier dirigente político cabal lo hubiera hecho sin dudarlo. Pero Sánchez ha resultado no ser un dirigente cabal, sino un insensato sin escrúpulos que no duda en destruir el partido que con tanto desacierto ha dirigido antes que reconocer su enorme fracaso.»

«Salvar al PSOE», editorial de El País

El País escreveu sobre o PSOE e Pedro Sánchez. Mutatis mutandis, PSOE por PS, Sánchez por Costa e eleições autonómicas por legislativas, o chapéu fica perfeito na cabeça de Costa.

A maldição da tabuada (35) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (IV)

Episódios anteriores (I), (II) e (III)

E o que dizer da Pascaline criada em 1642 por Blaise Pascal, aos 19 anos? Pascal inventou-a para aliviar o trabalho do seu pai, um cobrador de impostos de Luís XIII e Luís XIV.


A Pascaline foi a primeira calculadora com um mecanismo de transporte automático, evitando que o operador esquecesse «e vai um» ou «e vão dois», etc. Certamente a Pascaline faria hoje um grande sucesso nas mãos do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais ajudando-o a calcular mais depressa os reembolsos de IRS e ter mais tempo disponível para aceitar o convite da Galp e ver mais jogos do Euro 2016.

29/09/2016

ACREDITE SE QUISER: Um homem poderoso

Já ouviu falar do senhor Mário David? Não? Eu também não. Foi secretário-geral adjunto, deputado do PSD, secretário de Estado dos Assuntos Europeus e vice-presidente do Partido Popular Europeu. Ah!, falta dizer, foi assessor de Durão Barroso, aquele sujeito que esteve em comissão em Bruxelas e agora se vendeu ao Goldman Sachs.

É também o homem mais poderoso para a eleição do futuro secretário-geral da ONU. Pelo menos para o Diário de Notícias, hoje, como no Estado Novo, o jornal do regime, pertencente ao grupo Global Media, presidido pelo Mefistófeles do regime, Dr. Proença de Carvalho, que publicou uma justificação antecipada para o eventual insucesso de outra figura do regime, Eng. Guterres, o legítimo picareta falante. Escreve o DN, uma peça intitulada significativamente «O português que ensombra candidatura de Guterres à ONU». ao que parece baseado na página pessoal na Internet do senhor Mário David:
«Mário David, ex-eurodeputado do PSD e ex-assessor de Durão Barroso, tem feito campanha pela búlgara Kristalina Georgieva».
Anda o país empenhado, como um só homem, na candidatura de um patrício ao mais alto cargo do planeta e vem esta ovelha ranhosa usar os seus poderes para comprometer tudo. Felizmente os patriotas deste país estavam atentos e as nossas televisões não se cansaram de denunciar o salafrário e sublinhar a sua ligação ao ignóbil Barroso - quem sabe o mentor.

Um governo à deriva (27) – Socialismo é o que o Costa precisar

Um governo socialista sustentado por comunistas e uma caldeirada de trotskistas, maoístas et al. que anulou a concessão de transportes públicos a empresas privadas e espolia os contribuintes para sustentar um sector empresarial público inútil e decadente em nome do socialismo, «vai concessionar 30 edifícios históricos abandonados a privados (…) para investimento turístico».

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (141) – Volta José. Estás perdoado. É uma honra estares connosco (II)

A primeira vez estranha-se. A segunda vez entranha-se.

«Ver Sócrates a falar sobre leis de enriquecimento ilícito num encontro institucional do PS até podia ter piada. Ou melhor, ver Sócrates a falar em público de hipotéticas leis sobre enriquecimento ilícito é tão surreal que só pode ser encarado como um exercício de stand-up de uma pessoa inimputável. Sucede que esse show cómico foi realizado num evento do PS. A comédia passa assim a tragédia. Como é que o PS se permite a isto? Com a exceção de Ana Gomes, ninguém naquele partido está disponível para ver que um primeiro-ministro não pode receber milhares e milhares de euros em dinheiro vivo de um construtor que recebeu contratos do governo do primeiro-ministro que recebeu as malas de dinheiro? Como é que isto pode ser um tabu dentro do PS? Este facto já foi admitido por Sócrates, e chega e sobra para uma condenação pública, política e moral desta figura que devia estar coberta de vergonha e debaixo de uma pedra algures na Mongólia interior - mas está a ser reabilitado pelo PS, o tal partido que se julga a essência do regime.»

Henrique Raposo, no Expresso

28/09/2016

Títulos inspirados (60) – Da fúria dos manifestantes até à maratona de Guterres que afinal pode ser uma corrida de 3 mil metros obstáculos

«Secretária de Estado da Educação evita fúria de manifestantes»

Como escreveu aqui um blasfemo, «isto não vai abrir nenhum telejornal». Abriria se fosse antes de 26/11/2015. Por isso, o melhor é ver o vídeo publicado pelo JN, estranhamente ou talvez não (afinal o jornal é um esteio do animal feroz).

Ainda do JN, mais três títulos inspirados:

«Noiva cai no casamento e fica paraplégica» 

Na Bolívia.

«Português subiu de empregado de limpeza a dono de multinacional»

Claro que não foi no Portugal do inbreeding.


Solidário? Porquê solidário? Brr...

E agora títulos afectuosos:


Não será. 2011 foi uma tragédia e 2017 será uma comédia.


Talvez S. Exa. esteja a confundir a maratona com uma prova de 3.000 m obstáculos.

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Si vis pacem, para bellum

Shimon Peres

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (48) O clube dos incréus reforçou-se (XIII

Outras marteladas.

Aparentemente estamos a viver um momento de viragem em relação à doutrina predominante sobre as políticas monetárias e o papel dos bancos centrais. Depois de 8 anos de pensamento miraculoso, começa gradualmente a emergir uma visão crítica. Só nos últimos dias demos conta dos sinais da mudança de paradigma do lado da OCDE e do FMI a que acrescentamos hoje a Economist cujo apoio ao alívio quantitativo e às taxas de juro evanescentes também tem dado sinais de esmorecer. Leia-se, por exemplo, o artigo «The low-rate world», de há dias, de onde respigo dois parágrafos numa tradução semi-automática:

«No entanto, cresce a evidência de que as distorções causadas pelas taxas estão a crescer ao mesmo tempo que os ganhos estão a diminuir. Os défices dos fundos de pensões das empresas e dos governos locais têm aumentado porque é muito mais difícil cumprir as pensões garantidas quando as taxas de juros caem. Os bancos, que normalmente lucram com a diferença de taxas de curto prazo e longo prazo, têm dificuldades quando as taxas são nulas ou negativas. Isso prejudica a sua capacidade de emprestar e até a sua solvabilidade. A persistência de taxas baixas têm distorcido os mercados financeiros, garantindo vendas maciças se as taxas começarem de repente a subir. Quanto mais tempo durar, maiores serão os riscos acumulados.

Para viver em segurança num mundo de taxas baixas, é tempo de ultrapassar a dependência dos bancos centrais. As reformas estruturais para aumentar as taxas de crescimento subjacentes têm um papel vital. Mas os seus efeitos só se realizam lentamente e as economias ainda precisam de ajuda. A prioridade mais urgente é usar a política fiscal. A principal ferramenta para combater as recessões tem de passar dos bancos centrais para os governos.»

É claro que no (Im)pertinências não se subscrevem as políticas comum e inadequadamente chamadas keynesianas prescritas na parte final do último parágrafo citado. Como as últimas 4 décadas em Portugal evidenciam, essas políticas estão condenadas ao insucesso em pequenas economias endividadas com um mercado interno limitado e com problemas de competitividade decorrentes de défices de inovação e de produtividade.

Pro memoria (319) - Uma espécie de jornalismo normal

Numa leitura original do polémico livro de José António Saraiva «Eu e os políticos» (que não li), Pedro Tadeu escreveu no DN uma peça interessante sobre a prática do que chamamos jornalismo em Portugal (que inclui o que nós no (Im)pertinências costumamos designar por jornalismo de causas), de onde destaco:

«(...) o que lemos a maior parte do tempo são descrições detalhadas de uma forma de praticar o jornalismo que parece estar incorporada como "normal" pois ninguém, no meio de tanta indignação pelos "segredos" publicados, pareceu importar-se com isso.

Segundo este entendimento da minha profissão é natural jornalistas e políticos percorrerem juntos os mais caros restaurantes de Lisboa para negociarem notícias, traficarem timings de publicação, emporcalharem reputações, congeminarem manobras, conceberem planos governamentais, ajudarem a eleger líderes partidários, interferirem noutros media.

Segundo este entendimento, é natural jornalistas irem aos palácios do poder ouvir "confidências" de presidentes e governantes, darem "conselhos" aos poderosos, aceitarem publicar notícias de veracidade duvidosa e verificação impossível, transformar palpites adivinhatórios em factos, assegurar - nos tempos difíceis - mútuos empregos e colaborações bem remuneradas.

Segundo este entendimento, é portanto natural políticos e jornalistas de topo, proclamando independência e separação de águas (é mesmo cego quem não quer ver), trabalharem juntos, horas ao telefone, para, em primeiro lugar, perpetuar o estatuto das respetivas castas e, em segundo lugar, gerir a luta entre fações que, conjunturalmente, divide essas castas.»

27/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (31)

Outras coisas que outros escreveram.

Na 5.ª feira passada durante o debate parlamentar António Costa definiu o que para ele seria uma «sociedade decente» nos seguintes termos:
«é uma sociedade onde cada um contribui para o bem comum de acordo com as suas capacidades, e cada um recebe de acordo com as suas necessidades»
Por alguma razão, porventura um curto-circuito nas suas sinapses atafulhadas de ideias mal assimiladas e pior arrumadas, mas mais provavelmente pela necessidade de pagar tributo a comunistas e bloquistas dos quais depende, Costa usou quase ipsis verbis a definição de Karl Marx de uma sociedade comunista.

Sobre este episódio, remeto para o que escreveu José Manuel Fernandes, sobre o enquadramento histórico, e para o artigo pedagógico de João Carlos Espada que explica o significado da escolha de Costa, de onde respigo a passagem seguinte:

«Observemos a frase de Karl Marx. Se as pessoas devem contribuir de acordo com as suas capacidades e receber de acordo com as suas necessidades, isso implica que alguém terá de deter o poder para determinar as capacidades de cada um e o poder para determinar as necessidades de cada um.

Sabemos qual foi a resposta prática fornecida pelo comunismo e pelo nacional-socialismo a esta questão: esse alguém é o Estado. Mas, este não é sequer o problema mais fundo. Podia, por hipótese, não ser o Estado. Podia ser o “colectivo” — que era em rigor o que Marx tinha em mente naquela frase. E, também em bom rigor, o poder absoluto que o nazismo e o comunismo deram ao Estado foi dado em nome do “colectivo” — a “Nação”, no caso do nazismo, o “proletariado”, no caso do marxismo (o Terceiro Estado, no caso da revolução francesa)

Lembrando que este episódio se segue à declaração de Mortágua sobre a espoliação dos «ricos», a partir de agora só se engana quem quer ser enganado.

A maldição da tabuada (34) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (III)

Episódios anteriores (I) e (II)

Ainda outra oportunidade, ao nosso dispor ainda em vida de El-Rei Dom Filipe II "O Pio", para superar a maldição da tabuada foi a calculadora «Bones».


A «Bones» foi inventada em 1617 por John Napier, um matemático escocês, que se inspirou num sistema de multiplicação de matriz popularizado pelo matemático otomano Nasuh. O zingarelho de Napier podia fazer as 4 operações básicas e ainda extrair raízes quadradas e seria certamente muito apreciado pelo Doutor Centeno para as suas previsões de crescimento do PIB, que por falta de um zingarelho adequado deram o que estão a dar.

26/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Sobre o (ig)nobel Stiglitz

«O americano Joseph Stiglitz, economista e Nobel do ramo, elogia portugueses, gregos e espanhóis por, cito o DN, "terem melhores noções de economia do que a troika" e derrotarem nas urnas "os governos defensores da austeridade depois de 2008".

Em primeiro lugar, convém explicar ao homem que, Grécia discutivelmente à parte, Portugal elegeu um governo alegadamente "austeritário" em 2011 - e, descontadas moscambilhas parlamentares, voltou a elegê-lo em 2015 -, e a Espanha continua, na medida do possível, sob um governo do PP. Em segundo lugar, acredito que portugueses, gregos, espanhóis, guatemaltecos e curdos tenham melhores noções de economia do que o sr. Stiglitz.

Em 2007, este portento andava por Caracas a prever a irreversibilidade do "sustentável" (sic) crescimento local, a admirar o nível de vida vigente e a declarar irrelevante a elevada inflação. Em 2016, enquanto vende utilíssimos conselhos ao Sul, assegura ainda que a Alemanha está aqui, está na miséria.

Para a semana, aposto que o sr. Stiglitz vai anunciar que a Irlanda, que cresceu 26% em 2015, não sai da cepa torta. Esperem lá: já anunciou, em Janeiro passado. Ou seja, em economia, história, actualidades e no que calha, o sr. Stiglitz é bem capaz de ser o indivíduo mais à nora e menos esclarecido do mundo. Aparentemente, o homem só é óptimo a esconder de uns tantos a sua prodigiosa incompetência. E isso, sim, merecia um Nobel

Alberto Gonçalves no DN

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (50)

Outras avarias da geringonça.

É difícil de acreditar. Até o consumo que era a poção mágica da geringonça para o crescimento parece estar a cair de acordo com a  Síntese Económica de Conjuntura do INE. Do investimento nem vale a pena falar, continua a diminuir desde Abril de 2015 (quando o governo PSD-CDS começou a preparar as eleições...).

É claro que a estimativas de crescimento do PIB só podem ser revistas em baixa. De acordo com as previsões do painel de economistas da Bloomberg voltaram a diminuir: de 1,2% para 1% em 2016 e de 1,5% para 1,2% em 2017. Recorde-se que o crescimento de 2016 foi sucessivamente previsto pelo PS em 2,4% (documento dos 12), 2,1% (geringonça 1.0) e 1,8% (geringonça 2.0).

25/09/2016

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (18)

Por razões que não será preciso explicar aos leitores atentos, vou retomar esta série de posts iniciada em Novembro de 2009, nos tempos do saudoso par José Sócrates-Teixeira dos Santos, com as metas e previsões do défices do OE 2016. Aqui ficam os links para uma retrospectiva: (1 em 05-11-2009), (2 em 26-11-2009), (3 em 27-01-2010), (4 em 01-02-2010), (5 em 17-05-2010), (6 em 28-10-2010), (7 em 09-01-2011), (8 em 31-03-2011), (9 em 24-04-2011), (10 em 26-04-2011), (11 em 30-04-2011), (12 em 04-07-2011), (13 - 03-10-2011), (14 em 29-11-2012), (15 em 13-11-2015), (16 em 11-02-2016) e (17 em 12-02-2016).

Síntese até 20-06-2016


26-07-2016 - «o défice orçamental ajustado da sazonalidade do primeiro trimestre de 2016  (...) o défice português foi de 0,8% do PIB, metade da média da zona euro que foi de 1,6%».

25-08-2016 - «a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (CGD) é “uma boa solução” e que “não atinge défice nenhum”» (António Costa)

31-08-2016 - «O défice de 2016 ficará “confortavelmente abaixo de 2,5%”» (António Costa)

01-09-2016 - «Pela primeira vez nesta década a meta orçamental do défice para 2016 será cumprida» (Ana Catarina Mendes)

20-09-2016 - «O secretário de Estado Adjunto do Tesouro das Finanças, Ricardo Mourinho Félix, admitiu esta terça-feira que o gabinete europeu de estatística, Eurostat, venha a considerar a injeção de capital público na Caixa Geral de Depósitos (CGD) no défice deste ano»

23-09-2016 - «Mário Centeno afirmou hoje que a execução orçamental de 2016 está “no bom caminho”, havendo uma “redução muito significativa” do défice face ao ano anterior, o que constitui um fator de credibilidade da economia portuguesa (...) após o Instituto Nacional de Estatística (INE) ter estimado que no primeiro semestre deste ano o défice das administrações públicas foi de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) – uma diminuição face aos 4,6% registados no período homólogo.»

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (47) O clube dos incréus reforçou-se (XII)

Outras marteladas.

Depois da inesperada entrada da OCDE para o clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo (ver este post), também o FMI no «Overview of the ECB’s Asset Purchase Program» publicado no IMF Country Report No. 16/301 manifesta uma grande falta de entusiasmo quanto aos resultados do Asset Purchase Program (APP) em Portugal que se terão limitado ao crédito para habitação e pouco ou nenhum impacto tiveram no investimento devido ao elevado nível do crédito empresarial malparado. Ora leia-se:

«The impact of the APP (Asset Purchase Program) is most clearly visible in the fiscal sector, where it has alleviated financing constraints and facilitated a slower pace of fiscal adjustment than had been envisaged previously. The APP, together with the ECB’s expanded refinancing operations, has similarly helped improve access to financing for banks and put downward pressure on lending rates, but transmission to lending appears constrained by the high level of NPLs (Non-Performing Loans). The impact on bank lending appears to have been primarily on household mortgages, where NPLs are relatively modest, with corporate lending continuing to contract. As a result, the macroeconomic effect thus far appears most evident on consumption, rather than investment, with little impact on headline growth.»

24/09/2016

A maldição da tabuada (33) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (II)

Episódio anterior (I)

Outra oportunidade ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada foi o «Sector» abaixo reproduzido.



O «Sector» supõe-se ter sido inventado por Galileo Galilei nos finais do século XVI e permitia realizar um certo número de operações matemáticas para fins militares. Quem diz militares diz para afinar o tiro e quem diz afinar o tiro diz afinar os défices orçamentais para evitar dar tiros nos pés. Este zingarelho teria feito as delícias do Dr. Teixeira dos Santos para calcular o défice de 2009 que começou por ser 2,2% e acabou em 10%.

23/09/2016

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (46) O clube dos incréus reforçou-se (XI)

Outras marteladas.

O clube dos cépticos nas propriedades milagrosas do alívio quantitativo acabou de ter ganhar um novo membro de peso. Nada menos do que a OCDE que acaba de publicar no Interim Economic Outlook, um «Global growth warning: weak trade, financial distortions» de onde respigo a seguinte passagem expressando a falta de fé nas políticas monetárias dos bancos centrais:

«Monetary policy is overburdened and, in the absence of strong fiscal and structural policy action, will not suffice to break out of the low-growth trap, while leading to growing financial distortions and risks. Current market-based expectations suggest that policy interest rates will remain zero or negative at least until end-2018 in the euro area and Japan and in the United States only slightlyhigher than at present. With past and current purchases of government bonds, central banks have become major holders and buyers of sovereign debt and are intervening in a wide range of other markets, including for corporate bonds and equities. The uneven policy response across countries and over-reliance on monetary policy adds to global imbalances and creates spillovers that can have disruptive effects on other countries through capital flows and build-up of financial risks.

Preparemo-nos, pois, para a emergência de um novo credo que receio seja também baseado nos supostos poderes miraculosos dos bancos centrais a manipularem o preço e a quantidade de dinheiro.

A maldição da tabuada (32) - Não saber a tabuada nunca foi uma desculpa para errar as contas (I)

O (Im)pertinências tem sustentado que os problemas com as contas, públicas e privadas, que afectam políticos, economistas, jornalistas e até, imagine-se, contabilistas, resultam da nossa falta de vocação para os números, sobre cuja origem aqui especulei. Falta de vocação que as luminárias que se têm dedicado a instruir a população nas últimas décadas pensaram superar eliminando a tabuada. Por isso lhe temos chamado a maldição da tabuada.


Acontece que essa falta de vocação não pode ser alibi para errar as contas pelo menos desde que existem dispositivos de cálculo. Ou seja desde 2.700 AC quando foi inventado na Mesopotâmia o ábaco, um zingarelho como o acima reproduzido. Nos próximos posts vou tentar demonstrar que, ainda que tivéssemos falhado o ábaco, tivemos muitas outras oportunidades ao longo da nossa história para superar a maldição da tabuada.

22/09/2016

Exemplos do costume (45) – As indignações selectivas (III)

Continuação de (I) e (II)

Ainda a propósito da transformação de Durão Barroso em bête noire da esquerdalhada e de alguns dos seus ocasionais compagnons de route (hoje a mão está a fugir-me para o francês, et pour cause) a pretexto da sua contratação pelo Goldman Sachs, é curioso registar que um dos detractores mais inflamados tem sido o Jean-Claude, o do comportamento «crescentemente errático». Juncker fez um intervalo nas suas palhaçadas e aproveitou a transformação de Barroso em bombo-da-festa embarcando na malhação com declarações que devem mais à demagogia do que a um sentido de Estado que uma criatura na sua posição deveria ter.

Antes de continuar, devo esclarecer que considero a decisão de Barroso mais imprudente do que eticamente questionável, porque ainda ninguém me explicou em que consistem concretamente os conflitos de interesse e quais os argumentos para a demonização da Golden Sachs que não são aplicáveis a uma dúzia de outros grandes bancos franceses, suíços, alemães e, claro, americanos.

Acontece que, além da demonstração da falta de sentido de Estado, as declarações de Juncker carecem de qualquer autoridade moral para censurar Barroso, e já agora, a Irlanda pela sua política fiscal, para quem como ele foi durante 18 anos primeiro-ministro de Luxemburgo e aprovou centenas de acordos fiscais secretos com multinacionais de vários países que lhes permitiam a evasão fiscal noutros países.

Recordo os «Luxembourg tax files», tornados públicos há 2 anos, a pretexto de mais um caso agora conhecido: a Comissão Europeia está a investigar um acordo fiscal entre Luxemburgo e a Engie, uma empresa francesa de energia, que lhe permitia evitar o imposto tratando transacções financeiras como dívida num país e capital em outro.

Carta de quem trabalha desde os 16 anos a quem tem o seu rabito pousado no Parlamento e quer tributar quem só dá um beijinho

Pousando «o seu rabito no Parlamento»
Notícias relacionadas:

«E é graças a eles TODOS que a Mariana, sem mérito algum, pousa o seu rabito no Parlamento. Porque não fossem eles, não haveria salário para nenhum de vós, que a bem dizer, é um desperdício. O país não precisa de parasitas que estudam meios para conseguir roubar mais a quem os sustenta. Precisa sim de gente como nós, mais ou menos “abastados” que produz, que investe, que cria postos de trabalho.
 (Carta de Cristina Miranda, antiga professora, de Viana do Castelo, publicada no Facebook e lida aqui)

«Mariana Mortágua quer investigar todas as pessoas que só dão 1 beijinho. Mariana Mortágua, a nova ministra das Finanças, está apostada em tributar mais impostos aos mais ricos em Portugal e apresentou um novo critério muito mais eficaz que a mera posse de património avultado.» (Piadas ao minuto)

21/09/2016

NÓS VISTOS POR ELES: Eles lá saberão porquê

«Portugal é bom para a vida amorosa mas não para trabalhar, dizem estrangeiros»

Segundo o estudo Expart Insider 2016, Portugal é o 5.º melhor em 67 países para manter uma relação amorosa. Para trabalhar também ficamos em 5.º lugar mas a contar do fim.

Lost in translation (278) – O que quer ele significar com a Rússia como exemplo de uma sociedade multicultural?

«Segundo a Sputnik (*), o candidato à liderança da ONU afirmou que a Rússia é um bom exemplo de construção de uma sociedade multicultural, com diversas nações a viverem juntas em paz.» (Fonte)

(*) Uma das agências noticiosas russas que funciona como câmara de eco do putinismo.

Comprar o voto do czar Vladimiro com manteiga rançosa não parece ser um obstáculo moral para o católico Guterres. É a realpolitik para fins pessoais.

20/09/2016

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LVIII) – A falsificação da realidade

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Um episódio recente mostra até que ponto o esquerdismo oportunista do Syriza está a corromper e instrumentalizar as instituições gregas e a comprometer a frágil democracia grega.

Andreas Georgiou, o responsável da ELSTAT, o equivalente ao Instituto Nacional de Estatística grego, um técnico respeitado e reputado com mais de 20 anos de experiência no FMI, está a ser acusado em tribunal de ter inflacionado o défice do orçamento de 2009 (15,4%), não obstante a confirmação da CE de que o défice estava correcto.

Segundo os seus detractores, foi a alegada falsificação do défice que levou ao resgate em 2010, isto apesar de Andreas Georgiou só ter sido nomeado para o ELSTAT depois do resgate. Perante o evidente falta de fundamento da acusação esta foi alterada para o responsabilizar por 171 mil milhões de euros de prejuízos devido às pesadas condições do resgate alegadamente resultantes das estatísticas apresentadas.

Os tribunais rejeitaram por 3 vezes estas acusações. Contudo, no princípio de Agosto o Supremo Tribunal decidiu reabrir o caso e em Dezembro Andreas Georgiou será julgado por recusar que a direcção da ELSTAT decida o nível do défice por... votação.

A Economist que relata o caso compara-o ao de Olimpiy Kvitkin que por ter divulgado resultados do censo de 1937 inferiores aos anunciados por Estaline foi por este mandado prender e fuzilar. E evoca também a Argentina onde Cristina Kirchner tentou perseguir o responsável pelas estatísticas e só desistiu depois da ameaça de expulsão do FMI.

É claro que, para quem usa estes métodos, é normal chantagear a CE para extorquir mais concessões com declarações como «o problema grego é um problema europeu».

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA / CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Socialistas aplaudem a ressureição do PREC

«Cabe ao PS pensar sobre o que representa o capitalismo e até onde está disposto a ir para constituir uma alternativa global ao sistema capitalista.

(...) do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro.».

Mariana Mortágua, muito aplaudida pelos socialistas presentes no debate "As Esquerdas e a Desigualdade", no âmbito da conferência "Desigualdade, Território e Políticas Públicas", organizada pelo Partido Socialista, em Coimbra

À medida que o BE sente um maior controlo da geringonça, por via da dependência de Costa, emerge o verdadeiro programa do berloquismo, do qual o aborto livre, as drogas livres, o casamento LBGTi e as causas fracturantes são apenas as primeiras páginas.

19/09/2016

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (140) – Volta José. Estás perdoado. É uma honra estares connosco


O ex-primeiro-ministro, arguido na Operação Marquês, volta a ser convidado de honra num evento organizado pelos socialistas.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (49)

Outras avarias da geringonça.

As agências de rating, que nos tempos do governo socialista de Sócrates eram as grandes responsáveis pela subida dos yields, desempenham agora para a geringonça o papel de oráculos benévolos (selectivamente, bem entendido), como foi o caso da nota da Moody's considerando baixo o risco de resgate e confortável a posição de financiamento com uma almofada de liquidez de 12 mil milhões, cortesia do governo anterior, recorde-se.

Almofada de financiamento, equivalente a um ano, que segundo Daniel Bessa escreveu no caderno de Economia do Expresso, o governo pretende reduzir para o equivalente a 6 meses, expediente que mostra bem estar Costa disposto a tudo para prolongar a sua vida política.

18/09/2016

BREIQUINGUE NIUZ: Ainda vão ter saudades dela

«O partido da chanceler alemã, Angela Merkel, enfrentou uma derrota histórica nas eleições regionais deste domingo em Berlim, com apenas 18% dos votos, e com a direita populista a alcançar 12,5% dos votos, segundo as sondagens. (É) o pior resultado do pós-guerra, o que deverá resultar no fim da coligação regional com os Social-Democratas, que obtiveram 23% dos votos.» (TVI)

ACREDITE SE QUISER: O Homo economicus se algum dia tivesse existido já teria falecido

Entre as várias ficções criadas pelos economistas para darem algum sentido às suas elegantes equações, que só explicam o que não carece de ser explicado, encontramos o Homo economicus e as expectativas racionais.

Nenhuma destas ficções permite compreender que estando a economia americana a crescer há 3 anos, o desemprego historicamente baixo e a descer, tendo o rendimento das famílias crescido mais em 2015 do que em qualquer outro ano desde que existem estatísticas (o rendimento familiar mediano cresceu 5,2% em 2015 atingindo 56,5 mil dólares), um demagogo do calibre de Donald Trump consegue mobilizar dezenas de milhões de americanos com um ideário para retardados onde predomina a xenofobia e o proteccionismo.

Como nenhuma dessas ficções permite compreender que apresentando também a economia alemã uma boa saúde e sendo Alemanha o maior exportador mundial, beneficiando intensamente (e merecidamente) do comércio livre, centenas de milhar de alemães convocados por umas dezenas de lóbis esquerdistas anti-globalização se tenham manifestado ontem em sete cidades para protestar contra as negociações do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento entre a União Europeia e os Estados Unidos. E ainda menos permite compreender porquê o apoio aos acordos comerciais é mais baixo na Alemanha (49%) do que em média na UE (61%).

SERVIÇO PÚBLICO: Foi preciso esperar pela esquerda bem-pensante para desfazer os mitos criados pela esquerda sobre a governação da direita

«É muito comum ouvir-se dizer que nos anos da troika a redução do défice orçamental foi conseguida em dois terços à custa de aumentos de impostos e apenas em um terço com redução de despesa. Isto quando se sabe que o programa de ajustamento previa o contrário: uma redução do défice que fosse o resultado em três quartos de redução da despesa e em um quarto de aumento da receita.

Hoje, quando se discute o assunto, estas fracções são um dado adquirido. Por exemplo, há umas semanas, no relatório de auto-avaliação do FMI, Eichenbaum, Rebelo e Resende dão como certo que, na prática, dois terços do esforço orçamental foram feitos à conta da subida de impostos e que apenas um terço resultou de uma redução da despesa. Perante isto, membros e apoiantes do anterior governo sentem necessidade de se justificar e, tipicamente, desculpam-se com as decisões do Tribunal Constitucional.

Na verdade, este facto está tão enraizado nas nossas cabeças que tanto eu como os meus co-autores do livro Crise e Castigo ficámos admirados quando vimos os números da despesa e da receita pública. Entre 2010 e 2014, a despesa pública primária (ou seja, sem contar com os juros) caiu um pouco mais de 8 mil milhões de euros. A receita aumentou ligeiramente acima de 4 mil milhões. Fazendo as contas, a conclusão é imediata: o ajustamento orçamental feito nos anos da troika foi de dois terços do lado da despesa e apenas um terço por via da receita.

(...)

Portanto, na minha opinião, do ponto de vista orçamental, entre 2010 e 2014, dois terços do ajustamento foram feitos do lado da despesa e não da receita. Todos sabemos que uma mentira repetida muitas vezes se torna a verdade oficial, mas, ainda assim, tenho dificuldades em perceber por que motivo os apoiantes do PSD/CDS entregam de mão-beijada este pseudo-facto

«Não rezem o terço!», Luís Aguiar-Conraria no Observador

17/09/2016

Dúvidas (172) – Porquê só 10 anos depois se sabe que o «Governo de Sócrates trocou prevenção de incêndios por computadores Magalhães»?

«Ontem, dia 5, o secretário de Estado das Florestas disse que Portugal tem assistido a um défice de gestão da sua floresta e que “os sucessivos governos não conseguiram criar instrumentos que pudessem inverter essa tendência”.

Na verdade, parte desses instrumentos foram criados, mas não chegaram à prática porque, em 2006, o então ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, decidiu acabar com esse plano e canalizar o dinheiro para uma das bandeiras do executivo de José Sócrates: o Magalhães.

Foram, no total, cerca de 380 milhões de euros que se destinavam a investimentos em projetos de utilidade para a sociedade civil, entre os quais a vigilância florestal e o combate aos incêndios, utilizados, em 2008, para financiar os programas e-escolas e e-escolinhas.» (Revista Visão)

Possíveis respostas: incompetência dos jornalistas, controlo dos mídia pela clique socrático-socialista, mídia infestados pelo jornalismo de causas.

Conversa fiada (18) - É uma entrada por saída

«Portugal está a entrar numa fase de saída da crise», disse Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República em exercício, na embaixada de Portugal na Bulgária.

16/09/2016

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: A discriminação de género e o género de discriminação

Li algures que alguém (deveria ser uma mulher, mas não garanto) se queixava que das 18 empresas que integram o PSI 20 só uma é presidida por uma mulher e só uma tem uma CFO.

Tem toda a razão, mas menos do que alguém que se queixasse que o PSI 20 deveria ser rebaptizado para PSI 18 ou ainda menos razão do que alguém que se queixasse que as 18 empresas do PSI 20 são presididas por 17 marmanjos e uma marmanja pertencentes ao círculo das famílias do regime, círculo que no antigo regime se chamava de «boas famílias». Ou muito menos razão do que alguém que se queixasse que o antigo e novo regimes são pouco diferentes em matéria de mobilidade social, visto que em ambos os regimes o inbreeding foi e é o sistema por excelência de reprodução das elites. A perenidade do inbreeding assegurará certamente, mais tarde ou mais cedo, a igualdade entre sexos géneros. O que não é certo é que assegure a igualdade de oportunidades.

Três notas:
  1. Ao contrário do que possa parecer o título desta série de posts não menoriza o sexo género feminino. Ver aqui porquê.
  2. Para mais exemplos deste tipo ver a etiqueta inbreeding
  3. Recordo, a propósito de elites, um dos lemas de estimação do (Im)pertinências: «Os cidadãos deste país não devem ter memória curta e deixar branquear as responsabilidades destas elites merdosas que nos têm desgovernado e pretendem ressuscitar purificadas das suas asneiras, incompetências e cobardias.»

Exemplos do costume (44) – Há Galambas e Galambas

A propósito da confusão acidental entre o António e o João, ambos Galambas socialistas, neste comentário do leitor António Cristóvão, por coincidência, o Insurgente recordou as encomendas plantadas no princípio deste ano pelo Galamba João, emérito representante da Mouse School of Economics, sobre o alegado crescimento milagroso que haveria de florir no jardim da geringonça. Para melhor ilustrar a diferença entre um socialista sério que citei aqui e um socialista vendedor de banha da cobra, tomo a liberdade de reproduzir as citadas encomendas a partir de um link a este post:

15/09/2016

Bons exemplos (112) - Um socialista que não é estúpido nem desonesto

«Enquanto fervilha a tensão entre os dois blocos políticos, poder/oposição, e o Presidente da República continua a descomprimir a situação política, é cada vez mais evidente a dimensão soporífera da solução governativa junto de algumas entidades. Não é lamento, é constatação. Quem analisar a abertura do ano letivo constatará que houve trabalho político na preparação, mas persistem problemas que, em condições normais, seriam explorados à exaustão pela FENPROF e pelas forças políticas que apoiam o governo para criar agitação e casos políticos perturbadores do ambiente na comunidade educativa. Esta deriva anestesiante, bipolar, só permite concluir que muita da contestação a que assistimos não tem a relevância que gera nos media e condiciona os decisores. Faz sentido o PCP gerar um movimento de utentes de uma autoestrada que defende a abolição de portagens quando não coloca essa condição como pressuposto nas negociações para a viabilização do Orçamento do Estado? Isso só prova que as conveniências políticas são mais importantes do que os princípios e valores propalados nos discursos. Pena que esta deriva de amansamento não seja aproveitada para gerar convergências em matérias relevantes para a resolução de problemas estruturais em Portugal e na Europa. 

É incompreensível que, sustentando o governo uma narrativa de normalidade na gestão orçamental, confiança nas opções políticas e determinação para cumprir as metas do défice, o ministro das Finanças, Mário Centeno, vá uma televisão global afirmar em resposta à pergunta “vai fazer tudo o que for necessário para evitar que Portugal tenha um segundo resgate?” que “essa é a minha principal tarefa”. Como num ápice se transforma um ato de reforço da confiança num desastre comunicacional... É certo que o sentido das opções políticas adotadas motiva uma forte pressão sobre a governação e o país, mas tanta falta de tino e défice de solidez era dispensável. Como não é dispensável que se explique como é que, com um crescimento aquém do previsto, sem aumento de impostos, sem protelar concursos públicos lançados e adjudicados e sem adiar pagamentos aos fornecedores se conseguirá gerar recursos para aumentar o indexante de apoios sociais e as pensões e tomar outras medidas que, podendo ser de elementar justiça, acrescentam despesa pública. É sobretudo um dever de respeito para com os cidadãos e o país, mas também se inscreve na promessa eleitoral de previsibilidade e sustentabilidade das opções políticas. O tal “virar de página da austeridade”.»

«Sem tino», António Galamba, ex-deputado e ex-dirigente do PS, no jornal i

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (45) O clube dos incréus reforçou-se (X)

Outras marteladas.

«O papel dos Bancos Centrais é fundamental na estabilidade financeira de um Estado. Têm uma missão clara. Mas o que se observa hoje é algo nunca antes visto.

Os principais Bancos Centrais passaram, nos últimos anos, a controlar, ou melhor, a manipular os mercados financeiros. Com um justificativo de evitar um possível cenário de deflação e com o objectivo de reverter essa tendência e aproximar o valor taxa de inflação a 2%, implementaram uma política monetária de taxas de juro 0 ou mesmo negativas e o Quantitative Easing (QE).

No meu último artigo referi que estas políticas monetárias implicaram uma sobrevalorização generalizada dos activos financeiros, como consequência dos investidores procurarem retornos em activos de elevado risco que hoje já não conseguem obter em activos de menor risco.

Neste artigo gostaria de evidenciar que há outra consequência desastrosa destas políticas monetárias implementadas pelos principais Bancos Centrais. Além de não terem atingido o seu objectivo principal, ou seja, aproximar a taxa de inflação a 2%, não ajudaram, certamente, no crecimento económico. Bem pelo contrário, afirmaria mesmo que a estagnação ou fraco crescimento das principais economias é o resultado das políticas monetárias implementadas pelos seus Bancos Centrais.

Ao contrário do que se pensa, estas políticas monetárias não estimulam as economias, antes distorcem os mercados de crédito, visto a brutal injecção de capital barato verificada nos últimos anos só beneficiar os players que têm acesso aos mercados obrigacionistas. Assim, as políticas de QE fornecem crédito fácil e barato aos Estados e às grandes empresas mas não chegam às pequenas e médias empresas (PME) ou às startups, que são absolutamente essenciais na inovação e criação de emprego e, portanto no crescimento económico.»

«Os Bancos Centrais e a estagnação da economia», Tiago Moreira Salgado no Económico

Não é todos dias que se encontra na nossa imprensa uma posição lúcida contrariando a vulgata das políticas monetárias virtuosas do alívio quantitativo e dos juros nulos ou negativos. Felizmente vão-se ouvindo cada vez mais vozes e cada vez mais alto contra o intervencionismo dos bancos centrais alegadamente para espevitar a economia.

14/09/2016

CASE STUDY: O populismo alimenta-se do preconceito

Fonte: The Economist Espresso

Note-se que 58% dos adeptos de Trump se encontram no 1.º quartil do «ressentimento racial», um indicador de racismo, e 51.8% apoiariam uma emenda constitucional autorizando os estados da União a proibir o casamento gay. Não é que isso legitime o preconceito, mas a verdade é que em parte é uma reacção aos delírios do politicamente correcto.

13/09/2016

ARTIGO DEFUNTO: Dois pesos e duas medidas do Económico (por exemplo)

Quando o Senado brasileiro iniciou o processo de destituição de Dilma Rousseff, tratou-se de um “golpe”, “fraude”, “sabotagem”.

Quando «a Câmara dos Deputados do Brasil votou de forma favorável o afastamento do cargo de deputado de Eduardo Cunha, principal mentor da destituição de Dilma Rousseff», «Brasil derruba Eduardo Cunha»

A mentira como política oficial (22) - Até para Costa é demasiado

Costa em Braga a perorar aos jotas do PS disse esta coisa inacreditável até para um sujeito como ele que raramente se aproxima da verdade o suficiente para lhe infligir danos:

«O aumento do número de alunos no ensino superior representa a morte do modelo de desenvolvimento que a direita quis impor neste pais, de um país sem salários, sem direitos e sem Estado Social».

Factos segundo o Expresso:

12/09/2016

Um governo à deriva (26) - Azeredo Lopes pertence a outro governo

Azeredo Lopes a espreitar pela mira de um morteiro como
se fosse o binóculo do miradouro de S. Pedro de Alcântara
Nota da direcção do Expresso sobre o ministro da Defesa que foi dispensado do SMO por ter pé chato e entrou pela primeira vez num quartel depois de entronizado ministro:

«O ministro da Defesa Nacional disse este sábado de manhã que a notícia do Expresso de que o governo admite a extinção dos Comandos não é verdadeira. E que o Expresso só pode ter falado com "outro governo". Uma vez que foi o próprio Ministério da Defesa que, pelos canais oficiais, confirmou ontem (duas vezes!) a notícia ao nosso jornal, contamos aqui o sucedido para esclarecimento dos leitores de como o Ministério da Defesa recuou na sua própria informação, enganando-se ontem ou enganando hoje. E concluímos por silogismo que o ministro Azeredo Lopes pertence ao "outro governo"

Aditamento: não posso garantir que a criatura tenha pé chato mas não consigo imaginá-lo numa unidade militar.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (48)

Outras avarias da geringonça.

Como se fosse pouco o aumento constante da dívida pública, o reembolso antecipado de 6,6 mil milhões de empréstimos do FMI, que têm maturidades mais curtas e vencem um juro superior ao da restante dívida, vai ser reduzido de 2,6 mil milhões de euros para torrar na Caixa. Cristina Casalinho, presidente do IGCP, faz o frete e diz que não há sinais do défice de 2,5% não ser cumprido. Seja como for é dinheiro torrado por boas razões: entre outras coisas, rescisões por mútuo acordo e reformas antecipadas porque a geringonça já jurou que não despedirá nem um só utente da Caixa. Ainda assim, não desespereis porque o ajudante do ministro já garantiu que o «governo promete devolver aos contribuintes “mais do que” o dinheiro público agora investido». E não é que o rapaz disse isto sem se rir!

11/09/2016

CASE STUDY: Câmara de Lisboa – a obra feita pelo sucessor de Costa (2)

Rui Paulo Figueiredo, o deputado pelo PS que escreveu há tempos no Negócios um artigo vibrantemente apologético sobre a gestão da câmara de Lisboa, pouco mais de um mês depois reincidiu na graxa a Fernando Medina. No lugar do sucessor, botava-lhe um “+” na caderneta e metia uma cunha ao sucedido Costa para numa próxima vaga de secretário de estado reservar um lugar para o puxa-saco.

Como expliquei, Figueiredo não percebeu, ou fingiu não perceber, que a «saúde financeira que Lisboa respira» resulta de uma respiração assistida:
  • Em primeiro lugar, por 286 milhões pagos pelo governo PSD-CDS pela compra há mais de 70 anos dos terrenos do aeroporto, 20 anos antes de Costa ter nascido, e pela «compra» dos terrenos da Expo, uns 20 anos antes de Costa ter aterrado na câmara.
  • Em segundo lugar, pela venda de 500 milhões do património municipal;
  • Em terceiro lugar, pela extorsão de taxas e taxinhas aos lisboetas e empresas com sede em Lisboa que por habitante é mais de 80% superior à do Porto.
Ou talvez Figueiredo tenha percebido depois que, apesar da respiração assistida, se avaliada pela dívida por habitante que é de 1.338 € (2,7 vezes a do Porto), Lisboa respira mais doença do que saúde financeira, e por isso fez a agulha para outro domínio e cita agora o índice de satisfação dos lisboetas de 89%, segundo o Urban Europe. Como bom socialista, habituado a aldrabar estatísticas, esquece quatro coisas que modificam definitivamente a apreciação que nos quer vender:
  • Primeira, Lisboa tem o 22.º índice de satisfação em 28 capitais europeias;
  • Segunda, algumas capitais europeias como Helsínquia, Estocolmo e Londres, têm índices de satisfação mais baixos do que Lisboa, apesar de reconhecidamente terem uma qualidade urbana muito superior, o que significa que a expectativa dos lisboetas é tão baixa que ficam felizes com pouca coisa;
  • Terceira, o índice de satisfação dos lisboetas desceu de 91% em 2012 para 89% em 2015;
  • Quarta, como quer que seja, o índice não diz respeito apenas à cidade de Lisboa, mas à Grande Lisboa que incluiu 9 concelhos e câmaras com mais de 2,2 milhões de habitantes da qual Lisboa representa menos de ¼.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (139) – Um episódio esquecido dos tiques manipuladores dos socialistas

«O centro do livro de Fernando Lima é, claro, o chamado "episódio das escutas". Afinal foi a publicação em estilo "tablóide" como ele próprio considera (e eu concordo) da sua cara na primeira página do "Diário de Notícias", acompanhada de correspondência eletrónica onde o assessor afirmava suspeitar de vigilância dos "socráticos" sobre o pessoal de Belém, que ditou a sua desgraça - não só em parte da opinião pública, como na própria presidência.

Porém, o que ele conta desse episódio, e que me envolve de raspão, é - quero dizê-lo frontalmente - totalmente verdade! Esses mails tinham sido trocados pelo sistema interno do "Público" entre jornalistas do "Público". Num deles, um desses jornalistas contava a suspeita que Lima lhe tinha confidenciado. O mais interessante é que essa mensagem era velha de 18 meses e estávamos a semanas das eleições de 2009. O efeito pretendido era óbvio: trazer para cima da mesa uma conversa antiga como se fosse nova e aproveitar para a baralhar com outras histórias de suposta vigilância que por aí andavam. Pelo caminho, misturava-se vigilância e escutas, como se tudo fosse o mesmo.

10/09/2016

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (69) – Não esquecem nada e não aprendem nada

António Champalimaud foi um capitão da indústria, como então se chamava, que lançou a siderurgia e as maiores fábricas de cimento em Portugal e Angola e controlava vários bancos e seguradoras e criou a sétima maior fortuna da Europa na década de 70. As suas empresas foram expropriadas em Março de 1975 na sequência do PREC e o homem foi para o Brasil onde lançou novas iniciativas e reconstruiu a sua fortuna.

Voltou em 1992 a Portugal, readquiriu a seguradora Mundial e vários bancos, incluindo o Totta, que vendeu alguns anos depois, quando a cegueira progrediu impedindo-o de acompanhar directamente os seus negócios. Deixou um legado de 500 milhões de euros para a criação da fundação Champalimaud. Pouco antes da sua morte o presidente da República de então, Jorge Sampaio – um socialista que, recorde-se, foi secretário-geral do PS -, atribuiu-lhe em Abril de 2004 a Ordem da Liberdade que não chegou a receber por ter falecido entretanto.

Doze anos depois, o presidente em exercício, Marcelo Rebelo de Sousa, decidiu condecorá-lo a título póstumo. O PCP opôs-se à «reabilitação de alguém que acumulou uma fortuna colossal assente nas benesses do Estado, na brutal exploração do povo português e dos povos das colónias à custa de negócios obscuros, de um dos monopolistas que foi esteio do regime fascista». O BE opôs-se igualmente porque Champalimaud «nas vésperas do 25 de abril, era o capitalista mais rico de Portugal. Voltou a sê-lo depois, pela mão das privatizações cavaquistas. Sempre à sombra do Estado que agora lhe medalha os méritos».

Comunistas e bloquistas, os herdeiros das várias seitas marxistas (estalinismo, trotskismo e maoísmo, entre outras), mantêm o propósito que sempre tiveram: acabar com os ricos. Oloff Palm disse um dia, durante o PREC, a Otelo Saraiva de Carvalho, um militar com o mesmo propósito e as meninges contaminadas por uma mistura de tantos ismos que ficou perdido para sempre, que o propósito deveria ser acabar com os pobres.

CASE STUDY: O país mais orientado para o futuro

Uma equipa de investigadores liderada por Suzy Moat, uma professora de ciência comportamental da Warwick Business School, peneirou 45 mil milhões de pesquisas no Google Trends em 2015 para calcular a proporção número de pesquisas de «2016» comparado com o de «2014» em 45 países como forma de medir o interesse relativo do futuro face ao passado nesses países.

Concluíram duas coisas, uma expectável a outra nem tanto:
  1. uma correlação significativa entre o PIB per capita e a orientação para o futuro; 
  2. o país mais orientado para (ou preocupado com) o futuro é a Alemanha, seguido da Suíça e da Áustria.

09/09/2016

Pro memoria (318) - Read my lips leaps


Percebe-se que Costa manda-o dizer estas baboseiras para limpar a imagem desbotada do ministro. Deve ser para adiar a remodelação porque, a prazo, está a queimar a criatura.

CASE STUDY: É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (10.º capítulo). O burnout dos professores vulgaris Linnaeus

Outras doenças a que resistimos heroicamente

Eu sabia. Era apenas uma questão de tempo e foi mais cedo do que esperava. Não são só os médicos e os professores universitários a sofrerem de burnout.

Segundo um também utilíssimo estudo «As motivações e preocupações dos professores» da Fundação Manuel Leão, 13,5% dos professores gostariam de aposentar-se antecipadamente e entre os que dão aulas há 31-35 anos são 33% e os com mais de 35 anos de serviço são 43%. Além disso, 8,9% preferiam fazer outra coisa e 8,1% só continuam a dar aulas por não terem outra alternativa. Em suma, um em cada três professores preferia deixar de ensinar.

Afinal, onde está o burnout perguntarão? Ele está lá, só que, diferentemente dos professores universitários e dos médicos mais ilustrados a este respeito, os professores vulgaris Linnaeus apesar de sofrerem da maleita não o sabem por ainda não conhecerem o termo, assim como Monsieur Jourdain qui faisait de la poésie sans le savoir.

08/09/2016

CASE STUDY: É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (9.º capítulo). O burnout dos professores universitários

Outras doenças a que resistimos heroicamente

É preciso actualizar o estado de saúde da nação e acrescentar à multidão de sofredores mais uma classe: a dos professores universitários.

Segundo um oportuno e utilíssimo estudo da Universidade Portucalense, «mais de metade (62%) dos professores universitários estão com sintomas de stress e fadiga física, em burnout.»  E porquê, santo deus? Porque, explica o estudo, têm uma carga horária (16 horas) «superior à recomendada, acrescida da necessidade de conciliar as aulas com a investigação e orientação de alunos, podendo acumular funções burocráticas ou de maior responsabilidade». (fonte)

Se o burnout dos médicos se explica pela quantidade pantagruélica de doentes e pela variedade de doenças de que sofrem os portugueses, como se explica o burnout dos professores universitários? Pensando no assunto, encontrei uma explicação oposta à dos médicos. Se estes estão sobre a pressão do excesso de doentes e doenças, sabendo que dos milhares de licenciaturas, mestrados, doutoramentos, pós-doc, pré-Bolonha, Bolonha e pós-Bolonha, há inúmeras ofertas (parece que é assim que se diz) que têm um reduzido ou mesmo nulo número de alunos, imagino que os professores universitários delas encarregados ficarão em estado de angústia existencial, estado que ao fim de um semestre provoca o burnout.

Em tempo: a propósito das ofertas sem procura, segundo o jornal ihá 197 cursos de licenciatura e mestrado integrado que ficaram com 10 ou menos alunos colocados na 1.a fase de acesso ao ensino superior. Destes, em 45 não foi colocado nenhum aluno.

Lost in translation (277) – Dão-se alvíssaras a quem os encontrar

«Portugal perdeu 5,7 milhões de euros por dia em 2014 na fuga ao IVA, ou seja, em receitas que não chegou a receber. Ao longo de um ano, a perda chegou aos 2093 milhões de euros, segundo os números divulgados esta terça-feira pela Comissão Europeia…»

Portugal perdeu? Como traduzir em português corrente o parágrafo anterior do artigo com o título «Portugal perde €5,7 milhões por dia em IVA» do Expresso? Portugal perdeu? Para quem? Para os culpados mais à mão pela geografia, os espanhóis? Para culpados mais à mão pela ideologia, os alemães? Ou para a Comissão Europeia aproveitando terem feito as contas? Ou terão ido para um offshore ou pelo cano, o que quase é o mesmo? Ou para forrar as auto-estradas? Não, esta não pode ser porque teriam ficado em Portugal. Esquecendo os anos passados, para onde foram os 2 mil milhões de euros perdidos em 2015 que tanto jeito dariam agora à geringonça?

O jornalês é uma língua muito difícil.

07/09/2016

ARTIGO DEFUNTO: A arte de bem titular (11)

Título de um artigo não assinado do Económico:

«Novo Presidente do Brasil já deu emprego à mulher»

Uma pessoa medianamente informada sobre o Brasil sabe que muitos senadores, deputados e membros do governo enchem os seus gabinetes com familiares e amigos a quem o Estado paga as tenças. Lendo este título, essa pessoa pressupõe desde logo que Michel Temer fez o mesmo.

Com o impeachment, de acordo com a constituição brasileira, Dilma Rousseff, foi substituída pelo vice-presidente Michel Temer.  É possível que Temer, tal como muitos outros políticos brasileiros, tenha telhados de vidro, porém, como em tempo já aqui escrevi, é um político de qualidade muito acima da média no Brasil: é uma espécie de negativo de Dilma, sujeito calmo, cordial, conciliador e eloquente (Dilma fala num patuá obscuro que os brasileiros chamam dilmês), foi eleito quatro vezes para a câmara dos deputados, foi seu presidente, e teve uma vida fora da política, como advogado, professor universitário com obra publicada sobre direito constitucional (um dos seus livros foi um best seller) e até poesia.

Porém, nada disso importa para o jornalismo de causa. O que importa é induzir nas meninges dos seus leitores que Michel Temer deu emprego à sua mulher e, portanto, é um corrupto - ainda que seja difícil ascender ao nível dos corruptos do PT que mobilizaram milhares de milhões em propinas.

Mas afinal qual o emprego da Michel Temer deu à mulher? «Marcela Temer atuará como embaixadora de um programa social voltado para a infância no novo governo. Batizado de Criança Feliz, o projeto será lançado ainda em setembro pelo Palácio do Planalto. (...) não terá função executiva e nem receberá remuneração». (Fonte)

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei a Marcelo a graça de dizer mais coisas sábias

Este é, talvez, o primeiro de uma série de posts que será uma espécie de contraponto desta outra. Não tenhais excessiva esperança porque, lembrai-vos, Marcelo é aquele «catavento de opiniões erráticas», que, sabe-se lá porquê, disse um dia destes na Cáritas em Setúbal:
«A saída da crise - eu disse sempre - não é nem rápida, nem fácil, nem igual para todos. Não é rápida, vai demorar anos a sair da crise. Em segundo, não é fácil, por razões que têm a ver com Portugal, com a Europa e com o mundo. E não é igual para todos: uns saem mais depressa, outros saem mais devagar (…) É uma ilusão a ideia de que se pode decretar um dia: acabou a crise. No dia seguinte passamos todos a ter emprego e somos todos felizes. Isso não existe».
Mas isso que o homem disse, direis, é o que qualquer pessoa informada, de bom senso e com honestidade intelectual diria. E se disserdes, direis bem. E é isso é que é notável neste caso.

06/09/2016

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A caminho de um país de dependentes do Estado Sucial

«António Costa promete restituir à função pública os salários com que José Sócrates ganhou as eleições de 2009. Eis a sabedoria política que resume a actual governação: é possível mandar no país desviando todos os recursos para os que dependem do Estado: quem tiver do seu lado os funcionários, os pensionistas, os subsidiados, os parceiros, os protegidos e os instalados, não precisa dos outros, dos jovens, dos activos, dos independentes, de todos os que em Portugal estão por sua própria conta. Primeiro, porque os dependentes do Estado são suficientemente numerosos e motivados para formar um bloco eleitoral decisivo, e previsivelmente inclinado para quem estiver determinado a sacrificar o resto da sociedade a seu favor, como se viu em 2009; depois, porque faz sentido esperar que, sendo as vantagens da dependência tão óbvias, esta se torne um ideal social, de modo que, para quem está de fora, o objectivo não seja mudar o sistema, mas um dia ser admitido nele.

Mas dir-me-ão: isso talvez seja assim, mas o governo faz questão do défice orçamental. Sim, é verdade: um governo e uma maioria parlamentar que se propunham ser julgados pelo crescimento da economia, esqueceram-se entretanto da economia e do seu crescimento, e esperam ser avaliados pura e simplesmente pelo cumprimento da meta do défice combinada com a UE. Uma contradicção? Só aparentemente. O valor do défice é uma questão de sobrevivência, na medida em que é a condição de acesso ao dinheiro europeu que, através da dívida pública, permite manter o sistema sem apertar ainda mais o garrote fiscal. O governo e a sua maioria parlamentar todos os dias maldizem a UE, mas dependem totalmente da Comissão Europeia e do BCE, e nada fazem para diminuir essa dependência. É este o mecanismo da dependência em Portugal: quanto maior a dependência da população em relação ao Estado, maior a dependência do Estado em relação às instituições europeias. (...)

Toda a gente já sabe que temos um problema económico. Mas quem sabe que também temos um problema político? Não é possível imaginar a liberdade política sem cidadãos independentes e uma sociedade civil forte.»

«O problema não é só a economia», Rui Ramos no Observador

ARTIGO DEFUNTO: A arte de bem titular (10)

Título do Observador do dia 25-08

«IEFP recebeu três queixas por alegada fraude em estágios profissionais»

Facto: O governo anterior lançou mais de uma dúzia de programas de estágio (ver aqui uma lista incompleta) que abrangeram centenas de milhar de estagiários. Já agora, foi evidentemente uma medida tomada durante o período mais difícil da crise para mitigar os efeitos do desemprego.

Título do Económico do dia 2-09 (artigo não assinado et pour cause)

"Patrões dizem aos estagiários: vai ali ao multibanco e levanta 35% do salário"

Se um jornalista de causas planta um título assim a propósito de 3 casos em centenas de milhar de estágios, qual seria o título que colocaria a propósito da dedução compulsiva (visto aqui) que todos os deputados comunistas fazem para o PCP? É só uma sugestão:

«Dirigentes do PCP dizem aos deputados: vai ali ao multibanco e transfere para o partido x% do salário». 

Chávez & Chávez, Sucessores (52) – Ainda vai acabar mal

Outras obras do chávismo.

Maduro se bajó del vehículo que lo transportaba durante el cacerolazo

Quando Maduro, o sucessor de Chávez, no dia seguinte às manifestações em Caracas por um referendo para o destituir, visitava um bairro popular onde ainda recentemente desfrutava de apoios (Villa Rosa, na Ilha Margarita), teve de fugir do cacerolazo (batida de panelas) com que foi recebido pelos habitantes.

05/09/2016

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (47)

Outras avarias da geringonça.

Começo pelo acontecimento mais notável da semana: o chorrilho de asneiras, mentiras e meias-mentiras de Costa na sua entrevista ao Financial Times aqui comentada. A mais notável de todas, até para Sócrates, foi a de que o programa de resgate fez recuar o «economic output» trinta anos, afirmação só compreensível para quem não faz a menor ideia do que seja o economic output, nem como se mede.

A desculpa dada no dia seguinte durante a viagem às Berlengas acerca da falta de investimento (que negara na entrevista ao FT) está também à altura do talento de quem prometeu fazer o investimento público crescer 4,9% e o pôs a cair 5,2%, e em conjunto com as despesas de capital a cair 11,5%.

Pro memoria (317) - O que o presidente do Portugal dos Pequeninos disse sem se rir

«Assim como em relação às sanções houve uma convergência nacional, tenho para mim que há uma convergência nacional no sentido de o défice ficar nos 2,5%»

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República em exercício, substituindo a falecida convergência nominal pela convergência nacional que parece ser um espécie de grande desígnio em que os portugueses rangem os dentes, fazem força e o défice fica nos 2,5%.

04/09/2016

CASE STUDY: O Labour alvo de um Management Buy-In pelo esquerdismo. E o PS?

Quem são os mais entusiásticos apoiantes de Jeremy Corbyn, o novo líder esquerdista do Partido Trabalhista? Os militantes esquerdistas do Labour, certo? Errado. São os militantes dos grupúsculos esquerdistas.

Corbyn, um admirador do Syriza, do chávismo e do Hamaz, com instintos fortemente anti-semitas, foi eleito graças à entrada maciça de registered supporters do Labour que pagaram 3 libras para votar o ano passado nas eleições para o substituto de Ed Miliband, um cognoscentum de boas famílias que face a Corbyn parece um social-democrata moderado. Entre esses registered supporters encontravam-se militantes e simpatizantes dos inúmeros grupúsculos esquerdistas, como o Socialist Party, o Socialist Workers Party, o National Executive Committee ou o Momentum, todos eles usando o «entrismo», uma táctica tipicamente trotskista para se infiltrarem nos partidos maiores, bem como uma multidão de gente radicalizada não ligada a partidos.

Toda esta gente apoia Corbyn, pressiona o «saneamento» dos deputados trabalhistas moderados (a maioria) e já conseguiu limpar o gabinete do governo-sombra, hoje completamente ocupado por corbynistas.

Como concluía recentemente a Economist, tudo isto são excelentes notícias para Theresa May e o Partido Conservador e são péssimas notícias para o Reino Unido, e especialmente a Inglaterra, que precisa de uma oposição credível e responsável.

É indiscutível que as culturas, os protagonistas e as circunstâncias são muito diferentes, contudo o que passa com o Labour ilustra o risco de os partidos da esquerda moderada serem assaltados pela esquerdalhada radical. No caso português, na táctica do BE o «entrismo» (o tele-evangelista Louçã é um mestre nesse domínio) poderá ter algum papel, mas parece mais depender de fazer o PS governar com políticas inspiradas pelo BE, retirar daí os dividendos políticos e deixar a factura de um outro provável resgate nas mãos dos socialistas.

Costa e Marcelo, cada um procurando as suas conveniências, o primeiro a sobrevivência política a curto prazo e o segundo trabalhando para apear Passos Coelho, fazendo-o pagar a infâmia do «catavento» e conseguindo a unanimidade dos afectos, desempenham objectivamente para a esquerdalhada o mesmo papel que os chamados «idiotas úteis» tiveram no passado para o comunismo soviético.

O tigre celta e o tareco lusitano (8) - Os felinos são todos iguais mas há uns mais iguais do que outros

[Sequela de (1), por sua vez sequela de O rugido do tigre vs o miado do gato, de (2), de (3), de (4), de (5), de (6) e de (7)]

«Vamos supor então que um qualquer governo português recebia este bónus fiscal de 13 mil milhões de imposto por Bruxelas. Recusava-o, preocupado com a imagem no país perante os investidores e a pensar sobretudo nas próximas gerações? Ou aproveitava para aumentar ainda mais a despesa pública e gastar à tripa forra porque há clientelas para alimentar e eleições para ganhar? Sim, as questões estão já feitas de forma a induzir uma resposta porque, até pelo acima exposto, sabemos qual é o padrão a que os sucessivos governos sempre nos habituaram. Num país que adoptou o regime económico da ditadura fiscal, como o nosso, nenhum governo abriria mão de um cêntimo que fosse para alimentar o “monstro” e para os foguetórios habituais.

O nosso Estado não só tributa cada vez mais tudo o que mexe — agora vem aí o acesso automático às contas bancárias com saldos a partir de 50 mil euros — como tem um comportamento absolutamente canalha: persegue o mais pobre cidadão que deva um cêntimo mas demora anos a pagar aos seus fornecedores sem que alguém, alguma vez, seja penalizado ou pague sequer juros pelo atraso. Se isto não é uma ditadura, é o quê?

Aliás, não foi por acaso que as Finanças foram a correr verificar se também podiam ir cobrar alguma coisinha à Apple depois da decisão de Bruxelas. Então Dublin não quer receber e a nós não nos calha nada?

A competitividade dos países não acontece por acaso e a sua maior ou menor prosperidade também não. Além de um rigor estratégico que sobrevive às mudanças de governo, a Irlanda criou condições para poder recusar o jackpot fiscal em nome da sua reputação.»

«13 mil milhões. E se fosse consigo?», Paulo Ferreira no Observador

03/09/2016

ACREDITE SE QUISER: Votar contra, mesmo não sabendo porquê

Amanhã, domingo, haverá eleições para o parlamento do estado federal Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental no norte da Alemanha, um antigo território da Alemanha de Leste. Nas sondagens o AfD-Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha), o partido de direita anti-emigração, tem 20% de intenções de voto e com o voto de protesto pode vir a ser o mais votado.

O facto de Mecklemburgo ter apenas 23 mil refugiados numa população de 1,6 milhões (1,4%) não explica o voto de protesto, mas mostra que motivações dos eleitores não são explicadas pela contabilidade e pela aritmética. Talvez o bom aspecto da líder Frauke Pedry ajude.

A mentira como política oficial (21) – Costa aproxima-se perigosamente da mentira compulsiva que já tínhamos assistido com José Sócrates

Numa entrevista ao Financial Times publicada na 5.ª feira, Costa é citado como tendo dito rotundas mentiras e mistificações grosseiras como estas:
  • «Portugal is proving that there are successful alternatives to austerity for the eurozone’s struggling economies»
  • «Corporate investment was already up 13 per cent in the first half of 2016, compared with the same period last year, he added»
  • «the economy had started to grow again»
  • «Plans of German companies such as Volkswagen, Continental and Bosch, which were making new investments in Portugal»
  • «After a 2011-2014 EU-led bailout programme that had set Portugal’s economic output “back to where we were 30 years ago”» 
Como pode verificar-se no diagrama seguinte, esta última mentira é excessiva até para um mentiroso compulsivo. Talvez possa explicar-se também pela ignorância.

Fonte: Pordata
Esquecido do que tinha dito uns dias antes, na 6.ª feira, durante uma viagem às Berlengas, desmentindo tudo quando dissera ao FT, «Costa justifica quebra de investimento com "choque de empobrecimento brutal"», quebra que negara dias antes e empobrecimento que garantira ter sido revertido.

É demasiado insultuoso para a inteligência de quem o escuta ou lê, até mesmo para as pessoas (que são muitas) que preferem mentiras mas não são completamente tolas.

02/09/2016

Títulos inspirados (59) - Primeiro trataram do partido, agora aplicam a mesma receita ao país

PS nega falência mas admite "situação financeira complexa"


com·ple·xo

"complexo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 
Conjunto de ideias ou representaçõesgeralmente inconscientesque condiciona o comportamento.

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (16)

Outras preces.

Prosseguindo a sua missão de grossista de afectos e evaporador de crises, o presidente Marcelo fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala em qualquer altura e em qualquer sítio sobre qualquer assunto. Desta vez foi na Festa do Livro de Belém onde partilhou com o povo os seus pensamentos profundos acerca da economia e, ao mesmo tempo que nos tranquilizou sobre outra crise evaporada - a da nossa querida Caixa que tem a caminho mais uns milhares de milhões para juntar aos outros que já torrou -, iluminou-nos com as seguintes palavras mágicas e proféticas:

«Quanto ao PIB, a previsão do INE era de 0,2 para o segundo trimestre, que agora corrigiu para 0,3, o que aponta para a possibilidade de no final do ano (se os indicadores que existem se confirmarem), de poder estar no 1% ou acima do 1% (mais perto de 1,4, que é o que diz a Comissão Europeia) em vez de 0,8 ou 0,9 como se admitia.»

Sabemos da sua costela de «catavento de opiniões erráticas», ainda assim, que diacho, pode não ser fácil até para o presidente Marcelo descalçar a bota quando tiver de explicar o falhanço das suas profecias, mesmo levando a seu crédito que «serão sempre mais as pessoas que preferirão mentiras».

ESTÓRIA E MORAL: As consequências indesejadas do politicamente correcto

Estória

O governo americano e alguns governos europeus estão a tentar reduzir as populações prisionais libertando a um ritmo superior ao dos novos encarceramentos. Com esse propósito, lançaram programas para ajudar os ex-presidiários a encontrar trabalho, aumentando assim as possibilidades de não voltarem a ser presos.

Para evitar discriminação e com o propósito de melhor as possibilidades de obter emprego, activistas de todo o mundo pressionaram para ser proibido os empregadores questionarem os ex-presidiários sobre os seus antecedentes criminais nas entrevistas de emprego, impedindo os empregadores de os seleccionarem com base no seu passado. Tiveram sucesso, porque em 24 estados americanos os empregadores foram proibidos de fazer essas perguntas aos candidatos.

Jennifer Doleac da Universidade de Virginia e Benjamin Hansen da Universidade de Oregon, num estudo publicado no princípio de Agosto concluíram que essa prática incentivou os empregadores, impedidos de conhecer o registo criminal dos candidatos, a tratarem as minorias com sendo mais prováveis de terem antecedentes criminais, reduzindo a probabilidade de jovens negros e hispânicos conseguirem emprego. Estas conclusões forem confirmadas por outro estudo de Amanda Agan da Universidade de Princeton e Sonja Starr da Universidade de Michigan.

Moral

O inferno está cheio de boas intenções.

Um governo à deriva (25) - O crescimento segundo a geringonça

«Os números são teimosos em mostrar que não é com esta política que vamos crescer. Aliás os números mostram a desgraça que nos envolve. O consumo privado, que devia estar a crescer 2,4%, só sobe 1,7%. O investimento está a cair 3,1°/o quando devia estar a crescer, pelas contas iniciai: do Governo, 4,9%. As exportações sobem 1,5%, abaixo da meta de 4,%. As importações cresceram 0,9%, contra os 5,% estimados pelo executivo. O que até é bom pois esta quebra ajuda a melhorar os dados do crescimento. Só o consumo público está em linha com o projetado

Este flash de João Vieira Pereira é um retrato do estado em que as políticas da Mouse School of Economic aplicadas por este governo estão a deixar o país. É caso para perguntar: não ficaríamos melhor se, como os espanhóis, não tivéssemos governo?