Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/05/2015

ACREDITE SE QUISER: Much Ado About Nothing

«O dia 31 de Maio de 2010 é a data que colocou Portugal do “lado certo da história” dos direitos humanos. Essa é a convicção da ILGA, mas cinco anos e 1591 casamentos depois “ainda há um longo caminho a percorrer”», escreve o jornal i.

Para a «comunidade» gay, com décadas de casamentos em atraso, mil e seiscentos casórios em 5 anos deveria ser uma decepção, sobretudo nestes tempos em que os casais normais no sentido gaussiano já quase deixaram de se casar, convencidos por décadas de propaganda politicamente correcta que o casamento era uma instituição burguesa decadente e não significava nada, a mesma propaganda politicamente correcta que convenceu os gays que o casamento significava tudo.

Apesar disso, nos últimos 5 anos ainda houve 172.403 casamentos heterossexuais ou cem vezes mais do que os homossexuais, mas muito menos do que os 457.665 casamentos nos 5 anos seguintes à queda do fascismo. O que me leva a prever que uma vez esgotada a excitação da novidade, cada vez menos gays optarão pelo casamento, preferindo a ligação informal «libertária», aliás muito mais adequada à precariedade das ligações homossexuais.

Vivemos num estado policial? (8) - Ainda não, mas demos mais um passo

Recapitulação:

Segundo os números da UNODC, com 444,1 chuis (inclui PSP e GNR) por 100.000 habitantes, somos o terceiro estado mais policiado da Europa, apenas ultrapassados por Malta e pela Irlanda do Norte.

Segundo os números divulgados pelo SOL, 10% dos 21 mil polícias são sindicalistas de 13-sindicatos-13 diferentes e faltaram o ano passado 23 mil dias por actividades sindicais. 600 dos 2.100 sindicalistas são dirigentes e cada um tem direito a 4 dias de folga por mês, os restantes 1.500 são delegados sindicais e podem ter 12 horas de folga por mês. As folgas não usadas acumulam-se como «créditos» para o mês seguinte. Dirigentes e delegados sindicais não podem ser transferidos de local de «trabalho» sem acordo expresso.

Entre esses 13 sindicatos encontra-se o Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia (SNOP) que representa os oficiais da PSP com licenciaturas. O seu presidente fez declarações a vários jornais (incluindo uma entrevista ionline de ontem) expondo a roupa suja e abriu uma guerra com os outros sindicatos. O SNOP é agora um sindicato traidor.

Capitulação:

«Tranquila e sorriso no rosto. Foi assim que a ministra da Administração Interna recebeu ontem o maior sindicato da PSP. A promessa da admissão de 500 novos polícias por ano, a partir já de 2016, até 2019, para compensar e as saídas, o horário de trabalho manter-se nas 36 horas semanais e a cedência a uma das principais e mais difíceis reivindicações sindicais: a pré-aposentação aos 55 anos, sem cortes e sem necessidade, como agora, de autorização superior do diretor nacional da PSP, sempre moroso.

"Algo de impensável há uns meses e que contraria tudo o que tem sido a linha política dos Governos, nos últimos anos", reconhece o presidente da Associação Sindical de Profissionais de Polícia (ASPP)». (DN)

Outros casos de polícia: (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7).

ARTIGO DEFUNTO: Os protestos não são todos iguais. Há uns mais iguais que outros (2)

Recordando:
Primeiro PSD, CDS e PS puseram-se de acordo em obrigar todos os mídia a submeterem «planos de cobertura dos procedimentos eleitorais» a uma comissão mista que inclui a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), «numa espécie de visto prévio».
Depois, os directores editoriais protestaram com atraso e só fizeram o comunicado depois de ter caído a primeira iniciativa de «visto prévio», co-autorada pelo PS, e ter surgido uma segunda proposta do PSD-CDS sem o PS (por agora). Percebe-se. Ficaram muito mais à vontade.
Finalmente PSD e CDS, por um lado, e PS, por outro, apresentaram novos projectos. O projecto do PSD e CDS reflectia ainda a preocupação de controlar os danos provocados pelos mídia. Sendo esse desígnio  inaceitável, percebe que estejam a lutar pelas suas vidinhas num meio hostil.

Em contrapartida, «no projeto apresentado pelo PS, o grupo de vinte responsáveis editoriais encontra maior proximidade aos princípios que tem vindo a defender e uma resposta às preocupações que tem transmitido aos grupos parlamentares», escreveram no seu comunicado os vinte directores de informação.

Talvez um marciano pudesse concluir desta história que o amor do PS à liberdade de imprensa é maior do que o do PSD-CDS. Porém, qualquer observador mais próximo da realidade mediática doméstica e conhecendo o passado de interferência desavergonhada do PS nos mídia percebe que o seu projecto resulta da mais da confiança na boa vontade do jornalismo de causas e na boa imprensa de que desfruta do que do seu limitado desvelo pela liberdade de imprensa.

Um só exemplo: compare-se o tratamento benévolo pelos mídia das medidas sobre Segurança Social previstas nos documentos programáticos do PS recentemente tornados públicos e dos ziguezagues de Costa para não perder o comboio com o que as câmaras de eco do jornalismo de causas fizeram das constatações inócuas de Maria Luís Albuquerque - veja-se a este respeito o post «A inestimável contribuição dos Media para a resolução dos grandes problemas do País…»

30/05/2015

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (27) – Aliviar, alivia, de momento alivia o crescimento dos Estados Unidos

Outras marteladas.

Dizem os optimistas que se trata dos ajustamentos sazonais e/ou de factores conjunturais como um Inverno rigoroso e greves nos portos da costa oeste. Pode ser.

Fonte: MarketWatch
Garantido é que 8 anos depois e triliões de dólares entornados pela Fed na economia americana, com grande gáudio dos operadores nos mercados de capitais e nos mercados imobiliários, a economia americana continua a coxear e no primeiro trimestre deste ano o PIB caiu 0,7% (anualizado). Para o segundo trimestre há estimativas para todos os gostos: desde 1% até mais de 3,2%.

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (7)

Paranóia: «ocorrência de pensamentos delirantes, geralmente persecutórios, que levam o paciente a adoptar uma atitude de permanente desconfiança em relação aos que o rodeiam.».

(*) Promotor do célebre Professor Doutor Baptista da Silva e admirador do preso 44

29/05/2015

ACREDITE SE QUISER: A FIFA, a banca e o czar Putin

Num país que onde o futebol se chama soccer e é menos popular do que o ping-pong, porque diabo a justiça americana se deu ao trabalho de investigar e acusar 14 dirigentes da FIFA, alegados corruptos (o alegado é por razões legais), a maioria deles não americanos?

A procuradora Loretta Lynch explicou que os suspeitos planearam os seus crimes nos EU (só nos EU é que se «planeiam» crimes), usaram o sistema bancário americano e «planearam» ganhar dinheiro através de esquema visando o «mercado americano de soccer em crescimento». Vladimir Putin, a quem a FIFA adjudicou o campeonato do mundo de 2018, não concorda e defende que se trata de uma intromissão ilegítima do imperialismo ianque que persegue ilegalmente pessoas acima de qualquer suspeita.

Num país que tem o sistema bancário maior e mais sofisticado do mundo, a justiça americana não se deu ao trabalho de investigar e acusar nenhum dos executivos de 6 dos maiores bancos do mundo (Bank of America, Barclays, Citigroup, JPMorgan Chase, RBS e UBS) por crimes de manipulação dos câmbios dólar-euro (crimes admitidos por 5 dos 6 bancos) e deixou o problema para as autoridades reguladoras americana e inglesa que fizeram com esses bancos acordos de pagamento de pesadas multas totalizando 5,6 mil milhões de dólares, as quais serão pagas pelos accionistas desse bancos, sem uma única acusação aos 20 banqueiros envolvidos nesses crimes. Vladimir Putin ainda não se pronunciou.

Não se sabe se por via de alguma imunidade de que têm desfrutado os banqueiros ou por outra razão, no caso FIFA nenhum dos 14 acusados é banqueiro, apesar de a investigação da justiça americana ter apurado que o pagamento das «luvas» aos dirigentes da FIFA foi feito através de 4 daqueles 6 referidos bancos (o Barclays e o RBS não foram citados) e de outros como HSBS e Julius Baer,

Pro memoria (235) – A escala de partidarização do PS é muito sui generis

Recordando este post:

Se há uma figura do regime que se pode considerar paradigma dos conflitos de interesses é o Dr. Vítor Constâncio, a quem em tempo foi bem dado o cognome de «ministro anexo» pelo professor Louçã, o mesmo a quem foi dado o igualmente apropriado cognome de «tele-evangelista». O Dr. Vítor Constâncio de governador do Banco de Portugal de 1985 a 1986 transitou neste último ano, para secretário-geral do PS, cargo que abandonou em 1989. Entre 1995 e 2000 foi administrador do BPI e com o habitual à-vontade transitou em 2000 do banco supervisionado para o BdeP supervisor onde se mantive até 2010, aí ganhando merecidamente o cognome de «ministro anexo» pelos seus inestimáveis serviços ao governo PS e aos bancos e banqueiros do regime. Para conhecer retrospectivamente uma parte da sua obra clique na etiqueta «ministro anexo».

Passados 5 anos, Pedro Nuno Santos, vice-presidente do grupo parlamentar do PS descreveu como «a mais partidarizada de um governador de sempre» a renovação do mandato de Carlos Costa que tinha sido nomeado em primeiro lugar pelo governo de José Sócrates, com grandes encómios do então ministro das Finanças Teixeira dos Santos.

Lost in translation (241) – there is no such thing as flag carrier (V)

A sublinhar a singularidade no concerto das nações da companhia de bandeira das caravelas dos Descobrimentos (d'après Costa), uma das vacas sagradas do regime, singularidade já aqui mostrada e agora outra vez reproduzida, registe-se que o governo irlandês decidiu vender a sua participação na Aer Lingus à IAG, a holding que detém a British Airways e a Iberia.


É claro que o governo irlandês não vai pagar à IAG para lhe ficar com a Aer Lingus, como eventualmente o governo português terá de fazer, porque para começar a Aer Lingus não tem o passivo da TAP nem está tecnicamente falida.

A Aer Lingus tem capitais próprios positivos de 660 milhões mais do que o buraco da TAP de 400 milhões and counting. Ou seja, em termos contabilísticos simplistas a Aer Lingus vale mais mil milhões do que a TAP. Em termos de resultados operacionais os 44 milhões da TAP comparam com os 72 milhões da Aer Lingus. Isto apesar da Aer Lingus transportar apenas 10 milhões de passageiros/ano com um staff de 4 mil contra 28 milhões da TAP com um staff de 11,5 mil. É claro que se metermos nos pratos da balança os mil pilotos da TAP, o seu sindicato e o seu consultor é o fim da conversa. (ver relatório de 2014 da Aer Lingus)

É por isso que o governo irlandês poderá arrecadar uns 1,4 mil milhões de euros vendendo a um consórcio que incorpora dois grandes operadores (British Airways e Iberia), enquanto o governo português se tem de contentar com os candidatos que apareceram (oremos para que seja adjudicado à Azul, porque quanto ao Sr. Efromovich estamos conversados).

28/05/2015

ARTIGO DEFUNTO: Os jornais de referência também têm ejaculações precoces

Uma vez mais, o Expresso sofreu uma ejaculação precoce - é resultado de muita excitação nos preliminares. Para ilustrar a ejaculação, socorro-me da imagem publicada pelo Insurgente porque o jornal de referência parece ter censurado a notícia.


Já agora, por falar em ejaculações (não necessariamente precoces, desta vez), recordo mais uma histórica já aqui citada.


Estado empreendedor (95) – A visão de António Costa, mais do mesmo

Só hoje reparei que o futuro primeiro-ministro de Portugal defendeu publicamente a tese da necessidade de «recuperar o Estado como empreendedor», atribuindo-lhe «um efeito catalisador e motor».

É bom que o faça para que ninguém fique enganado. As consequências do «efeito catalisador» nas empresas do sector público, desde a TAP e todas as empresas de transportes públicos até à RTP, são bem visíveis, sem esquecer a profusão de outros casos de todos os tamanhos e importâncias que deram pretexto à quase centena de posts que por aqui se escreveram com exemplos desse «efeito catalisador».

Dúvidas (100) – E se, de repente, um cliente da Uber saltasse do carro em andamento…

… porque o motorista se desentendeu com outro condutor, começando a conduzir de forma errática ... com ameaças de colisão de parte a parte que fizeram o jovem temer pela vida, receando mesmo estar a ser alvo de uma emboscada. O motorista destrancou as portas do veículo, o cliente abriu a do lado direito e saltou para a estrada com o carro em andamento, tendo caído desamparado. Ao bater com a cabeça no asfalto, ficou inanimado e acabou por morrer horas depois. O motorista continuou e só parou um km mais à frente para deixar sair o outro cliente.

Seria certamente um levantamento nacional, com o futuro presidente da Nóvoa e o futuro primeiro-ministro de Portugal a juntarem as suas vozes ao coro dos indignados, os tambores do jornalismo de causas a rufarem, todos exigindo a prisão do motorista, a expulsão da Uber e o mais que lhes aprouvesse.

Como tudo aconteceu num táxi devidamente licenciado, conduzido por um motorista devidamente dotado dos conhecimentos técnicos e devidamente dotado dos requisitos de urbanidade indispensáveis para lidar com o público, «a PJ identificou e localizou o taxista mas o processo deverá ser arquivado por não existirem indícios de crime».

27/05/2015

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (4)

Continuação de (1), (2) e (3)

Segundo as conclusões do relatório de inquérito da Inspecção-Geral de Finanças corroboraram a conclusão da Comissão Nacional de Protecção de Dados confirmando que a tutela política ignorava e não tinha dado instruções para criar a bendita lista. Acresce que a existência dessa lista não foi informada ao secretário de Estado pelo director-geral da Autoridade Tributária que entretanto se demitiu.

Sem surpresa, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, que estava cansado de saber da existência de tal lista e por isso protestou há meses pelos processos disciplinares por acesso indevido, considerou que o relatório «não é isento, nem idóneo» e pediu outra vez a demissão do secretário de Estado - afinal ele está lá para isso e o jornalismo de causas está cá para lhe dar voz. Também sem surpresa, as conclusões do inquérito são irrelevantes para alterar seja o que for dos hectolitros de tinta e de cuspo que foram gastos a instilar nas meninges dos sujeitos passivos a culpabilidade da criatura.

No final, a questão mais importante que é assegurar a confidencialidade dos dados de todos os sujeitos passivos ficou soterrada debaixo de toneladas de detritos mediáticos.

CASE STUDY: Os amanhãs que cantarão, segundo o PS, ou o triunfo da fé e da esperança sobre a experiência (1)


Não fiz até agora nenhum comentário às três produções programáticas recentes do PS, a saber: «Uma década para Portugal», «Resposta do Grupo de Trabalho às questões colocadas acerca do Relatório “Uma década para Portugal”» e «Projecto de Programa Eleitoral do PS». Não o fiz pela prosaica razão de ainda os não ter lido – em boa verdade, suspeito que esta razão não impediu um rancho de comentadores de terem comentado abundantemente. Os posts desta série que agora se iniciam serão ilustrados com uma foto de António Costa, o santo milagreiro que nos trará o maná da abundância (não, não é uma montagem, é uma foto real publicada no Negócios).

Começo por ordem cronológica – e talvez não a mais lógica – de divulgação, ou seja pelo relatório dos 12 sábios «Uma década para Portugal». Para abrir os comentários, vou referir alguns equívocos mais óbvios que ressaltam da leitura das quase 100 páginas do relatório.

O «Estado Social» prevalecente na UE deve ser em Portugal uma criatura eminentemente socialista a que se costuma chamar Nanny State. Note-se que o equívoco não reside em concluir que o Estado português na sua configuração actual é um Nanny State, porque o é de facto, ainda que a Nanny seja bastante incompetente. O equívoco reside em concluir que assim deve ser para bem de Portugal e dos portugueses.

Entre as várias consequências desta visão, destaca-se o papel que os sábios reservam ao Estado de ser uma espécie de mecânico de uma oficina de reparação do que eles consideram avarias dos mercados. Porém, nuns casos o problema não são as falhas dos mercados é a sua ausência e noutros as falhas resultam do desconserto que o Estado introduziu com o seu intervencionismo.

Um outro equívoco contamina quase todas as avaliações críticas que os sábios fazem da execução do Memorando de Entendimento. Para os sábios o PAEF não era um programa com medidas de emergência para evitar a bancarrota e algumas outras medidas que abririam caminho a uma reforma profunda do Estado. Para eles o PAEF destinava-se a corrigir os desequilíbrios estruturais acumulados durante décadas - alguns deles directamente resultantes da medicina que o relatório agora receita. Por isso, as suas críticas à governação pela coligação PSD-CDS poderiam comparar-se a alguém gordo, flácido, de pelancas caídas, pulmões entupidos de nicotina e músculos atrofiados que depois de uma dieta de 2 semanas esperava ficar parecido com o Cristiano Ronaldo.

(Continua)

ACREDITE SE QUISER: Separadas à nascença (2)

Além dos casos notórios das Alemanhas e das Coreias (este recordado aqui), temos ainda os casos da Polónia e da Ucrânia que após a queda do muro de Berlim tiveram sortes diferentes. A Polónia aderiu à UE, faz parte do mercado comum, recebeu um montante considerável de ajudas, tem desde então um regime democrático e vive em paz. A Ucrânia permaneceu na órbitra russa, teve um regime cleptocrático e só recentemente tentou sem grande sucesso libertar-se da tutela russa e vive em guerra provocada pelas milícias a soldo do vizinho Putin. Estas diferenças mostram que não é só o ADN, nem só a escola soviética que contaram - é também a vizinhança e os amigos. No fim do dia tudo isto têm enormes consequências, incluindo a do diagrama aqui ao lado.

26/05/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (111) - O Dr. Soares não é responsável pelo que escreve ou diz. A responsabilidade é de quem não o corrige

Entendamo-nos: por muito que o Dr. Soares tenha sido o pai da democracia (não foi) e por muito que tenha combatido a tomada do poder pelos comunistas (é verdade porque ele deixara de ser comunista três décadas antes e procurava então a tomada do poder pelos socialistas), devemos reconhecer que algures há uma meia dúzia de anos deixou de ser imputável. Para se ter um resíduo de respeito por ele é indispensável reconhecê-lo.

Quando ele escreve coisas como «o governo (…) vendeu empresas públicas estratégicas a estrangeiros, como a EDP e a REN, ou empresas privadas de duvidosa credibilidade, como sucedeu com a PT» alguém do Partido Socialista deveria vir a público lembrar aquilo que o Insurgente recordou: governos do PS intervieram nas principais privatizações, incluíram nos seus programas quase todas as privatizações e last but not least o último deles foi responsável e agente da compra pela PT da Oi, compra que como no (Im)pertinências se explicou pacientemente durante anos foi a génese da derrocada da PT (ver a longa série de posts «Um minotauro espera a PT no labirinto da Oi».

Exemplos do costume (31) - Exercícios de vacuidade gongórica do candidato Sampaio da Nóvoa (3)

«Serei prudente e rigoroso no uso dos poderes presidenciais, mas não farei da omissão o meu estilo, da ausência um método, do silêncio um resguardo

«Um Presidente pode ser muito mais do que tem sido, pode ser um de nós, pode ser alguém que junta, que une, que abre o futuro quando caminha ao lado das pessoas».

Citando Eugénio de Andrade: «A independência tem um preço, sempre o soube, e nunca me recusei a pagá-lo» e «ser poeta também é isso, essa inabilidade para o mundo do lucro e da usura». Da Nóvoa não esclareceu em que se funda a sua independência e se pretende presidir a um país do prejuízo e da liberalidade – ou seja o país onde a doutrina que partilha nos trouxe.

CASE STUDY: A Escócia à luz da tudologia (2)

A propósito deste post onde zurzi a ignorância arrogante e militante do tudólogo Miguel Sousa Tavares a respeito da suposta maior prosperidade da Escócia relativamente ao «colonizador» inglês, faltou acrescentar que o «Estado Social» escocês financiado pela Inglaterra (custa mais £ 1.300 por pessoa do que a média no Reino Unido) tem nos próximos anos mais um sério desafio.

Devido a ineficiência e falta de concorrência entre os produtores, os custos de extracção de gás e petróleo no Mar do Norte duplicaram nos últimos 15 anos. A 100 dólares o barril um oitavo da produção é inviável e a 55 dólares é metade. Acresce que como o custo dos terminais e pipelines é partilhado entre os diversos produtores a falência inevitável de alguns aumentará os custos dos sobreviventes e poderá levar a falências em cadeia. (Fonte: The Economist Espresso)

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (26) O clube dos incréus reforçou-se (V)

Outras marteladas.

O subtítulo «O clube dos incréus reforçou-se» talvez não seja aplicável ao caso da Economist que tem feito do alívio quantitativo (AQ) uma receita quase universal para fazer reviver a economia abalada pelos ajustamentos que se seguiram à eclosão da crise financeira de 2008.

Na verdade, trata-se mais de um equívoco do que falta de fé no AQ, fé que parece inabalável na Economist. O lead do n.º de 16 de Maio - «The great distortion» - são os incentivos ao endividamento resultantes dos subsídios implícitos nas bonificações fiscais atribuídas em quase todos os países aos juros dos empréstimos às famílias e às empresas. Vou transcrever dois parágrafos que dizem o essencial:

«People borrow more to buy property than they otherwise would, raising house prices and encouraging over-investment in real estate instead of in assets that create wealth. The tax benefits are largely reaped by the rich, worsening inequality. Corporate financial decisions are motivated by maximising the tax relief on debt instead of the needs of the underlying business.

Debt has many wonderful qualities—allowing firms to invest and individuals to benefit today from tomorrow’s income. But the tax subsidies have tilted the economy in a woeful direction. They have created a financial system that is prone to crises and biased against productive investment; they have reduced economic growth and worsened inequality. They are a man-made distortion and they need to be fixed.»

Chegado aqui, procurei avidamente a conclusão de que se as bonificações fiscais associadas aos juros ao baixarem o custo do endividamento empurram a economia na direcção errada, distorcendo a avaliação do risco e as decisões de compra e de investimento, o mesmo ainda mais intensamente se passará com as taxas artificialmente baixas que os bancos centrais têm vindo a praticar, em conjunto com a inundação de liquidez gerada pelo AQ, as quais empurrarão igualmente a economia na direcção errada, como o (Im)pertinências há anos vem concluindo.

Procurei em vão. Aparentemente, para a Economist as taxas de juro (líquidas de impostos) artificialmente baixas só são nocivas para a economia na parte que resulta da redução de impostos.

25/05/2015

Dúvidas (99) – Porque gostam os poderes socialistas de intimidades com os poderes fácticos dos futebóis? (II)

Continuação desta dúvida.

Que pena o «Futuro Primeiro-Ministro de Portugal» já não estar na CML e ainda não estar em S. Bento

DIÁRIO DE BORDO: A vitória dos amanhãs que cantam é mais pífia do que trágica a derrota dos ontens que choram

Há vários ângulos para olhar para os resultados das eleições autonómicas e municipais em Espanha. Comparativamente com as eleições anteriores o Partido Popular perde 2,5 milhões de votos equivalentes a 11% e tem uma derrota sem remissão, após 4 anos de governação impopular a tentar consertar o desconserto deixado pelo PSOE - o partido irmão do nosso PS.

Fonte: El País
Comparativamente com as projecções da esquerdalhada que previa (sonhava) uma hecatombe dos partidos tradicionais que seriam submersos pela maré do Podemos foi um flop. Basta comparar o parágrafo seguinte escrito há 6 meses no Pravda Público com o diagrama.

«O novo partido Podemos, nascido há oito meses e que com três meses de vida elegeu cinco deputados nas eleições Europeias, surge numa sondagem como o que reúne mais intenções de voto: 27,7%, o que são 1,5 pontos à frente dos socialistas do PSOE e mais 7% do que o Partido Popular do Governo de Mariano Rajoy. Aconteça o que acontecer, a formação de Pablo Iglesias, escreve o jornal El País, “já provocou um sismo sem precedentes na política espanhola e está em condições de rebentar com o tabuleiro eleitoral”»

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (110) – «Fúria privatizadora imparável», disse ele

Programa de Estabilidade e Crescimento 2010-2013 (PEC 4)
Reveja-se o quadro acima que fazia parte do famoso PEC 4 de José Sócrates, a cuja reprovação os socialistas em geral e os acólitos do animal feroz em particular ainda hoje atribuem a intervenção de troika e o ror de desgraças, e confronte-se com as acusações de «fúria privatizadora imparável».

Exemplos do costume (31) - Exercícios de vacuidade gongórica do candidato Sampaio da Nóvoa (2)


O candidato é mais um caso de paixão serôdia pela educação fazendo recordar o picareta falante que desistiu da candidatura. Perorando na conferência «Pensar a Educação Portugal 2015», da Nóvoa disse que «neste consenso de futuro há necessidade de uma enorme revolução no espaço da escola» e profeticamente anunciou amanhãs que cantarão: «a escola vai mudar brutalmente nos próximos 20/30 anos, mais do que mudou nos últimos 300 … o modelo escolar fixo, fechado na sala, com determinada política e currículo, com um professor para um grupo de aluno, tudo vai estar em mudança, em revolução». Será uma escola onde «todos tenham sucesso na escola», e aí encontrem «o espaço de felicidade e realização». Quanto à felicidade é difícil superar a escola actual. Quanto à realização é preciso ter cuidado para não comprometer a felicidade.

Para tal serão necessários mais professores que «foram dos grupos profissionais mais mal tratados e mais encostados à parede nos últimos dez anos ou mais. Os professores têm que estar no centro para nos dotarmos, como país das décadas que aí vêm». Da Nóvoa ainda não esclareceu se para realizar esta utopia está a contar com o apparatchik Mário Nogueira e a sua Fenprof.

24/05/2015

Mitos (196) - os socialistas são amigos dos pobres (V)

[Continuação de (I), (II), (III) e (IV)]

Já deveria ser do domínio público que os socialistas não são amigos dos pobres. Os socialistas querem perpetuar a sua clientela e por isso querem manter pobres os pobres e acabar com os ricos.

Mais um exemplo, a adicionar aos inúmeros já referidos nos posts acima, de que os amigos dos pobres não são os socialistas, são os capitalistas filantrópicos. Bill Gross, o lendário manager do fundo Pimco, que entretanto abandonou, depois de já ter doado uma quantidade inacreditável de dinheiro (600 a 700 milhões de dólares), revelou numa entrevista à Bloomberg que irá doar os restantes 2 mil milhões da sua fortuna.

Por falar em filantropia, Warren Buffet, um dos maiores capitalistas filantrópicos, se não maior de todos, defendeu recentemente que, em vez de aumentar os salários mínimos, o governo depois de receber a declaração de rendimentos deveria enviar um cheque de um valor regressivo aos trabalhadores com menores rendimentos. A ideia não é original - é uma espécie de imposto negativo. Vou pensar nisso.

ARTIGO DEFUNTO: Se ele o diz…


«Vou-lhe dizer uma coisa que eu aprecio: nunca houve tanta liberdade de imprensa como há hoje em Portugal. Governo nenhum desde o dr. Mário Soares… aliás, o dr. Mário Soares tem muito maus exemplos em matéria de liberdade (de imprensa). Isto é um mérito que tenho que reconhecer a este Governo. Há outros, como há outros defeitos.» (Marinho e Pinto em entrevista ao Observador)

Não é tudo mérito do governo. Há muito demérito do jornalismo de causas que infesta os mídia. A independência da parte desse jornalismo afecta às causas socialistas só se manifesta quando em S. Bento não mora um socialista. Quanto ao jornalismo de causas comunistas e berloquistas, esse ocupa-se a fazer cálculos para saber qual dos dois demónios é menos diabólico.

23/05/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (9)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015; 18-05-2015]

Segundo esta notícia do Expresso foram atribuídas pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC na sigla em inglês) 2 bolsas avançadas de 2,5 milhões de euros a investigadores portugueses a acrescentar a 15 outras relativas a 2014. Segundo a prosa apologética do MEC isso «revela a crescente qualidade e internacionalização dos nossos cientistas e representa um investimento de mais de 31 milhões de euros».

Peço licença para discordar. Por benignidade, vamos admitir a bondade dos critérios de atribuição de bolsas por parte do ERC, o que não é pouco, porque esses critérios avaliados à luz dos resultados da investigação na Óropa (ver o quadro neste post) estão longe de serem indiscutíveis.

Ainda assim, com essa bondade, a dúzia e meia de bolsas atribuídas desde 2014 representam o quê num universo de quase 10 mil «investigadores» ou seja mais de 50% da média europeia em relação à população? Zero vírgula dois por cento, o que torna ridícula qualquer exaltação a este respeito.

Quando leio tais exaltações, lembro-me dos sketchs «Portugueses extraordinários (passe o pleonasmo)» da série «Melhor que falecer» em que Ricardo Araújo Pereira ridiculariza esta mania de glorificar os feitos dos patrícios - por exemplo uma entrevista a um famoso cozinheiro português que cozinhava para o secretário do adjunto de um realizador famoso. Ou lembro-me daquelas ridicularias dos jornais que escrevem «o Real Madrid de Cristiano Ronaldo» ou «o Chelsea de Mourinho».

Dúvidas (98) – Porque gostam os poderes socialistas de intimidades com os poderes fácticos dos futebóis?

Durante mais de uma década os socialistas da câmara do Porto socializarem intimamente com a mafia do futebol. Até chegar Rui Rio e espantar o bando do FêCêPê. Só foi preciso esperar até que Rui Moreira - um socialista sem cartão - voltasse a acolher o mesmo bando.

Na câmara de Lisboa, também os socialistas de Costa trocaram gentilezas com a mafia dos lampiões – por exemplo perdão de dívidas e legalização de obras ilegais. Mais recentemente, as trapalhadas sobre as comemorações no Marquês de Pombal mostraram um tratamento de favor por parte do sucessor de Costa, autorizando a baderna contra o parecer da PSP com os resultados que se viram.

Por falar em baderna dos lampiões, tenho de rectificar postumamente o post onde escrevi «Não é a boçalidade dos lampiões. É a de alguns lampiões». Depois de conhecer a extensão do que se passou em Guimarães e mais tarde em Lisboa, sinto-me obrigado a escrever boçalidade de muitos lampiões e vandalismo de alguns. Não há desculpas.

22/05/2015

ACREDITE SE QUISER: Les bons esprits se rencontrent

Entre os 39 livros em língua inglesa da biblioteca de Bin Laden, há apenas dois autores repetidos: William Blum (Killing Hope: U.S. Military and CIA Interventions since World War II e Rogue State: A Guide to the World’s Only Superpower) e Noam Chomsky (Hegemony or Survival: America’s Quest for Global Dominance e Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies).

William Blum, começou por ser «um anti-comunista com desejo de se tornar um Foreign Service Officer» e acabou um adversário da política externa americana e, nessa qualidade, foi muito elogiado por Bin Laden e Chomsky. Este último, igualmente admirador de Bin Laden, não precisa de apresentação: «linguista, filósofo, activista político, fez casa cheia em Lisboa», para citar o Pravda Público.

Além desta literatura, Bin Laden possuía igualmente uma vasta colecção de pornografia cujo visionamento alternaria (especulo eu) com a leitura de Chomsky.

A maldição da tabuada (23) – Nem todas as operações aritméticas são comutativas

«As famílias portuguesas usam todos os meses mais de três mil milhões de euros de plafond de crédito - cartões de crédito, contas-ordenado e linhas de crédito autorizadas (crédito revolving). Um valor que reflecte gastos sistemáticos que ficam três mil milhões de euros acima do seu rendimento disponível.»

O parágrafo acima é o primeiro de uma «notícia» do Diário Económico, um jornal «especializado», com o título «Famílias usam três mil milhões de euros de plafond de crédito todos os meses». Se os gastos mensais das famílias ficassem três mil milhões de euros acima do rendimento disponível todos os anos o endividamento das famílias aumentaria 36 mil milhões de euros. Isto deveria ser suficiente para acender uma luzinha na cabeça do jornalista para perceber que está a confundir stocks (o plafond de crédito) com fluxos (consumo mensal acima do rendimento disponível).

Lost in translation (240) – O que queria ele dizer?

«Há medidas apresentadas pelos economistas do PS que são perfeitamente liberais – eu não as subscrevo. Mas são liberais.» Disse Passos Coelho, entrevistado pelo Observador.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (25) Unintended consequences (VI)

Outras marteladas.

Uma coisa parece estar acima de qualquer dúvida: multiplicam-se os sinais de que as injecções maciças de liquidez pelos bancos centrais, nomeadamente a Fed, o BoE, o BoJ e agora o BCE, estão, entre outros efeitos colaterais, a inchar as bolhas dos mercados imobiliários e de capitais, como já aqui, aqui e aqui referi.

Quanto aos efeitos sobre o crescimento económico as opiniões dividem-se. Vamos aos factos: no Japão, apesar a impressora do BoJ estar há muitos meses a trabalhar a todo o vapor, o crescimento continua anémico. O mesmo se passa na Zona Euro ainda que a impressora do BCE esteja há menos tempo a trabalhar. Quanto aos EU, depois de vários anos e triliões de dólares, a economia animou-se e o desemprego desceu significativamente. Contudo, nos últimos meses, o boom (que nunca tinha atingiu altas temperaturas) começou a esfriar, apesar da impressora continua a funcionar. Ora veja-se o diagrama seguinte.

Fonte: The Economist Espresso

21/05/2015

Bons exemplos (96) – Os estudantes portugueses não querem ser utentes da vaca marsupial pública

«Dois mil e quinhentos alunos portugueses dos cursos de economia, gestão e tecnologia responderam à pergunta: quais são as empresas ideais para trabalharem» (Observador). Entre as 20 mais atractivas só há 3 empresas públicas – TAP em 16.º, BdeP em 19.º e Caixa em 20.º. Das restantes 17, só 4 são privadas portuguesas (com a Sonae em 2.º lugar) e as restantes são multinacionais.

É bom saber que os estudantes portugueses (pelo menos estes 2.500) não têm a mesma preferência do que os jovens franceses que na sua maioria aspiram a ser funcionários públicos.

ESTADO DE SÍTIO: Votando com os pés

Fonte: The Economist Espresso
Nem a lavagem do regime castrista em curso com a ajuda do papa Francisco, nem a promessa de Raúl Castro de passar a frequentar a missa, parecem fazer mudar de ideias os cubanos que têm a desdita de viver na «democracia» da família Castro e do seu partido comunista – votam crescentemente com os pés, ou, para ser exacto, votam com os braços, os remos e os motores dos seus barcos.

ACREDITE SE QUISER: Esclavagismo, disse ele (talvez pensando no Gulag)

Enquanto o camarada Arménio Carlos, o apparatchik de serviço na CGTP, acusa o FMI de ser uma «organização esclavagista» por este no seu último relatório recomendar manter as 40 horas de trabalho nas autarquias e reduzir o número de funcionários da Administração Pública, a 10 mil km de distância na «República Popular Democrática da Coreia» (recorde-se que o camarada Bernardino Soares tem dúvidas se a quinta dos Kim não seria mesmo uma democracia), o governo norte-coreano comandado pelo Kim sobrevivente enviou entre 50 a 60 mil cidadãos para trabalhar em várias indústrias por todo o mundo retendo a maior parte dos salários. Por falar nisso, recorde-se que Cuba, outra «democracia» do mesmo tipo, tem esse hábito há décadas.

20/05/2015

Estado empreendedor (94) – A saga do «Atlântida» só podia acabar mal

Não vou recontar a estória do «Atlântida» já amplamente contada no (Im)pertinências (ver estes posts), vou apenas recordar que depois de várias tentativas falhadas para o vender – a mais célebre terá sido a tentativa de Sócrates fazer negócio com o coronel Chávez – acabou por ser comprado pela Douro Azul por 8,7 mil milhões de euros de onde resultou um prejuízo estimado de 70 milhões de euros desde que o governo socialista regional dos Açores rejeitou a encomenda por motivos pueris.

Exemplificando outra vez uma das leis de Murphy – o facto de uma coisa ter corrido mal no passado não significa que não possa correr ainda pior no futuro – soube-se agora que, apenas  8 meses depois, a Douro Azul vendeu o barco por 17 milhões de euros a uma empresa de cruzeiros da Noruega. De onde se pode concluir: ou bem o empresário Mário Ferreira da Douro Azul é um génio a vender chaços ou bem os noruegueses são tansos ou bem o ministério da Defesa é um vendedor incompetente ou bem … Fico por aqui para não entrar em teorias da conspiração.

BREIQUINGUE NIUZ: Há quem compre BTs por mais do que eles valem

«Durante a manhã de hoje, Portugal realizou duas emissões de Bilhetes do Tesouro, obtendo taxas de juro negativas pela primeira vez na história e juntando-se assim ao grupo dos países que se financiam com taxas negativas. 

Assim, nos títulos com 6 meses de maturidade, o país emitiu um montante de 300 milhões de euros com uma yield média de −0.002%, um valor que compara com os 0.047% suportados a 18 de Março. Na emissão com maturidade de 12 meses, a taxa de juro implícita situou se em 0.021%, para um montante de 1.2 mil milhões de euros, o que compara com uma yield de 0.094% na última operação comparável. 

O bom resultado alcançado ficou também patente na forte procura registada, com esta a superar a oferta em 4.61 vezes na emissão mais curta e em 1.97 vezes nos títulos a 12 meses.»

Newsletter do BPI

É claro que isto só é possível nesta conjuntura particular dos mercados de obrigações. Em todo o caso, veja-se a diferença para a Grécia governada pelo Syriza, em cujas políticas o Telegraph encontra «a striking similarity in some of the pre-electoral language and proposals» do PS de António Costa.

DIÁRIO DE BORDO: Eu diria mesmo mais

Também me sinto bastante assim. Livrai-nos de tudo isso, «mas sobre tudo, livrai-nos Senhor dos seniores que se transladam para as redes sociais e que poluem a net com uma mistura nauseabunda de trotskysmo e de “hippismo” requentado. Não seria preferível jogar às damas ou à sueca num jardim, a beber umas bejecas e a dizer mal da patroa?»

ARTIGO DE DEFUNTO: A arte de bem titular (8)

«Défice abaixo dos 3% já foi alcançado, não uma mas sete vezes» foi o título escolhido pelo jornalista de causas do Pravda Público para um artigo onde comenta a seguinte afirmação de Passos Coelho durante um jantar em Guimarães no sábado passado:
«Conseguimos também que o país pudesse ter em 2015, é isso que vamos conseguir, um défice inferior a 3% do PIB. É a primeira vez desde que nós integrámos a moeda única».
É um longo (600 palavras) e confuso artigo escrito com grande ripanço, dois dias depois do tal jantar, onde as 7 vezes a que se refere o título são contadas esticando o período de referência (até se concede a subtileza de considerar 01-01-1999 para a fixação dos câmbios em vez de  01-01-2002 para a entrada em circulação das notas e moedas) e considerando os défices antes das correcções do Eurostat - critério que, se o preso 44 e a sua engenharia contabilística ainda por cá andassem, permitiria ter os défices que o homem quisesse.

Finalmente, com má-fé quanto baste, socorre-se dos dados da Pordata para concluir que «há seis ocorrências de anos em que o défice esteve abaixo dos 3%. A primeira data do ano em que foi implantada a democracia, em 1974, as restantes cinco aconteceram nos últimos 20 anos». Não fora o seu presumível escrúpulo antifascista e até poderia incluir na contagem os défices do Botas e acrescentar mais umas dezenas de défices inferiores a 3% - excepto durante a guerra na maioria dos anos da «longa noite fascista» registaram-se superávits.

É claro que o facto de a referência de Passos Coelho ser ao período de vigência do euro e não aos últimos 20 ou 40 anos é irrelevante para a tese da criatura, como é ainda mais irrelevante o facto dos défices da Pordata serem em contabilidade pública e o que interessa em termos de UE é a contabilidade nacional (*). Ainda assim, desde 1999 há apenas 2 anos com défice em contabilidade pública inferiores a 3% - conferir aqui) e não há nenhum desde a entrada em circulação do euro em 2002 (provavelmente o período que Passos Coelhos teria em mente).

Eurostat
E, no entanto, seria tão fácil verificar se Passos Coelho teria asneirado de facto, o que tem acontecido, diga-se, com alguma frequência, mas isso está acima das competências do jornalismo de causas. Bastava ter consultado o Eurostat. Em seu benefício, e uma vez sem exemplo, poderá conferir o diagrama acima e concluir que se (um grande se) este ano o défice ficar abaixo de 3% será o primeiro desde a adopção do euro, seja lá o que isso for. Poderá aproveitar e confrontar-se com a sua incompetência/desonestidade (cortar conforme preferir).

(*) «Public deficit/surplus is defined in the Maastricht Treaty as general government net borrowing/lending according to the European System of Accounts. The general government sector comprises central government, state government, local government, and social security funds. The relevant definitions are provided in Council Regulation 479/2009, as amended» (Eurostat)

19/05/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (109) – Os socialistas rejeitam os seus próprios planos

Programa de Estabilidade e Crescimento 2010-2013 (PEC 4)

Muito oportunamente recordado no Insurgente.

Declaração conjunta: obrigado Observador


Faz hoje um ano que surgiu uma ilha de independência num oceano de jornalismo de causas.

                                         Impertinente                                                    Pertinente

Bons exemplos (95) – A lucidez ainda/já (cortar conforme o gosto) está em maioria

Fonte

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (2)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja. (2.ª parte)


Como Keynes combinou as qualidades do académico com as do homem de acção?

Eu diria que ele foi o arquétipo do intelectual público. Era sólido na teoria, mas também conseguia navegar com segurança entre os políticos e fazer com que suas ideias fossem economistas serviram de consultores a presidentes americanos e líderes europeus, mas nenhum teve papel semelhante ao que Keynes exerceu no período entre as Grandes Guerras. Ele liderou a delegação britânica na Conferência de Bretton Woods, em 1944, momento em que foram desenhados o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Vinha negociando e planejando a criação desses mecanismos globais desde o início da II Guerra, porque estava determinado a reduzir a instabilidade. as crises, o desemprego e os impostos colectados para financiar armas antes da eclosão do conflito. Para Keynes, muitas das razões que levaram a Europa de volta às trincheiras eram económicas, não políticas. E ele acreditava que, ao desenhar as bases para um capitalismo menos instável, seria possível evitar uma nova guerra como aquela que arrasava o mundo. Foi a figura intelectual dominante de Bretton Woods. Mais tarde contava, com ironia, ter agido durante o encontro como economista, financista, político, jornalista, publicitário, advogado, funcionário do governo - e profeta. Keynes passou muito mal durante a conferência. Havia sido diagnosticado pouco tempo antes com um problema cardíaco irreversível e sofreu vários colapsos. Mesmo assim, conseguiu sair de lá com seus planos aprovados.

O que levou Keynes à economia?

Acho que houve dois motores: um certo sentimento de nostalgia e a crença na necessidade de viver uma vida plena. Keynes descrevia os anos que antecederam a 1 Guerra como um paraíso perdido para ele e para os europeus. Queria uma nova belle époque, um mundo de prosperidade, elegância, segurança e valorização das artes. Keynes amava a beleza e o prazer. E desejava que todos tivessem acesso a essas coisas, tanto assim que dedicou um tempo precioso a conseguir dinheiro para criar o Arts Council e financiar a Royal Opera House, a National Gallery e a Portrait Gallery. O senhor está dizendo que o Tratado sobre a Moeda foi escrito para devolver o mundo à belle époque?

É mais ou menos isso se estamos falando das motivações profundas, da maneira como a obra de Keynes se relaciona com a sua história de vida e a sua personalidade. Keynes participou activamente do grupo de Bloomsbury, formado por artistas e escritores como Virgínia Woolf.

Qual foi a importância dessa convivência para Keynes?

Era um ambiente estimulante para ele, embora todos os artistas fossem menos inteligentes que Keynes. Eram criativos, não intelectuais. Creio que um elemento-chave que Keynes exercitou com o grupo de Bloomsbury foi a arte de flertar. Ele sempre se achou feio. Para compensar isso, foi charmoso e cativante. Gostava muito de flertar com todos, não necessariamente no sentido sexual. Ele desenvolveu a capacidade de dominar as conversas como nenhuma outra pessoa naqueles tempos. Nunca foi arrogante. Só na velhice surgiu nele um traço de impaciência. Não suportava mais conversar com pessoas de mentalidade lenta, convencionais demais, que lançavam mão de clichés para justificar tudo.»

A entrevista continua com questões relativas à vida sexual de Keynes o que para o caso é irrelevante (apesar do que possivelmente pensam os gays e os homófobos).

18/05/2015

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (6)


«Esquizofrénico é alguém que perde a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais».
«Houve uma batalha de senso comum que a esquerda perdeu completamente para a direita. As pessoas acham mesmo que viveram acima das suas possibilidades, que têm de pagar a conta, alimentar os mercados financeiros. (…)
Penso que já não vai lá com política, só com psiquiatria, parece-me um problema patológico.»
Excertos de uma entrevista do jornal i a Marisa Matias. A esquizofrenia já está a ser visível até para os berloquistas menos esquizofrénicos.

Dúvidas (97) – Finalmente a tão esperada revolta dos indignados?

Parece que não. É apenas a boçalidade dos lampiões. (DN)

Comentário ao comentário:

Tem Bruno Costa razão neste seu comentário. Não é a boçalidade dos lampiões. É a de alguns lampiões, como já foi de alguns dragões e de alguns lagartos. Julgo que os lampiões não são especialmente boçais. São mais os lampiões boçais porque os lampiões são em maior número. O meu ponto não era esse. O meu ponto são outros dois pontos. Ponto um: deve ser uma frustração para a esquerdalhada não conseguir excitar assim as massas; ponto dois: as emoções do futebol, aqui e noutros sítios, levam as massas excitadas à boçalidade.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (8)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014; 08-04-2015].

Com este já se contam 10 posts desmistificadores de mais esta fábula socialista agora chorosamente recordada por ocasião da morte de Mariano Gago que, para usar as palavras de Daniel Bessa, ocupou-se a comprar os ovos – com dinheiro fiado, acrescente-se – e agora só falta o mais difícil que é fazer as omeletes com os mais de 90 mil cozinheiros. O texto seguinte é uma ilha no oceano da verborreia do jornalismo de causas glorificando a torra de grana para criar um exército de investigadores que não investigam porra nenhuma (com as excepções que sempre houve e haverá). Ou, mais exactamente, investigar eles investigam, porém, na maior parte dos casos, ninguém, para além dos próprios e da sua claque de apoio, considera que isso seja investigação.

«Trata-se de uma grande questão política, com pê grande: deve o país continuar a investir em Ciência, como caminho para um dia, mais cedo ou mais tarde, melhorar a Economia (emprego, salários, condições de vida das pessoas)? Como em todas as grandes questões políticas, há lugar a opinião, mesmo ideologia, absolutamente legítimas; e parecer-me-ia conveniente que houvesse também lugar a informação factual, disponibilizada pela estatística, objetiva, sem opinião.

Portugal tem investigadores: 9,2 por mil habitantes em idade ativa, quando a média da OCDE é 7,2 e a da UE 6,8. Portugal gasta dinheiro em investigação e desenvolvimento: em percentagem do PIB, o Estado português está a 82% e as empresas a 50% da média da UE. Temos aqui um primeiro problema: empregamos mais investigadores do que os outros mas oferecemos-lhes piores condições de trabalho.

A coisa piora, e muito, à medida que nos aproximamos do final da cadeia de valor, dos resultados económicos: ainda em percentagem do PIB, Portugal (os investigadores, o Estado, as empresas, nós), submete patentes ao European Patent Office em apenas 18% da média da UE; e não tira dessas patentes, em receitas de exportação, tanto por venda como por licenciamento, mais de 3% da média da UE.

José Mariano Gago, cuja memória tão justamente homenageamos, ocupou-se de criar condições para que tenhamos os ovos. Falta fazer a omelete. Insistem, alguns, que precisamos de continuar a fazer ovos, mais ovos. Penso, pelo contrário, que temos de intervir na cozinha, onde se torna necessário mudar quase tudo (processos, no Estado, e nas empresas), para que, um dia, com a Ciência se faça Economia.
»

Daniel Bessa, no Expresso

SERVIÇO PÚBLICO: Keynes não era keynesiano e, se ainda fosse vivo, morreria de tédio ao ouvir os seus seguidores (1)

Entrevista a Richard Davenport-Hines na Veja (1.ª parte)


«O britânico John Maynard Keynes (1883-1946) é um dos titãs da história da economia. Para o historiador inglês Richard Davenport-Hines, contudo, isso é pouco para defini-lo. Com sua inteligência analítica, seu amor pela arte, sua habilidade social e sua capacidade para influir na política, ele foi um "homem universal". Esse é o titulo da biografia que Davenport-Hines acaba de publicar: The Universal Man: The Seven Lives of John Maynard Keynes. O autor explorou os vastos arquivos pessoais de Keynes, depositados na Universidade de Cambridge, para explicar os motores de sua obra. E afirma que Keynes é maior que as interpretações correntes de seu pensamento. "Ele anteviu os equívocos que viriam e disse: 'Chamo-me Keynes, mas não sou keynesiano'."

Quase setenta anos depois de sua morte, Keynes ainda merece um papel central no pensamento económico?

Sem sombra de dúvida. Houve um período, nos anos 80 e 90. em que se formou uma falsa imagem de Keynes como inimigo do capitalismo. Isso é um completo nonsense. Posso afirmar, pois li minuciosamente tudo o que ele escreveu, que Keynes dirigiu seus esforços para a melhora do capitalismo, não para a sua destruição ou '·superação.,. A crise de 2008 permitiu desfazer um pouco os equívocos e mostrou como os problemas que Keynes procurou abordar ainda são os problemas do nosso tempo. Porque aquela foi uma crise de excessos, de "exuberância irracional". como disse o ex-presidente do banco central americano Alan Greenspan, e Keynes empenhou-se no sentido de salvar o sistema de seus paroxismos de instabilidade. Ele disse, no início do século passado, que a regulação financeira tinha um papel importante a desempenhar, e que a regulação global era mais necessária para a estabilidade do capitalismo do que qualquer mecanismo nacional. E tudo o que aconteceu em 2008 mostrou a importância dessa discussão. Keynes é um autor fundamental.

Keynes era um economista de esquerda?

Era um elitista que nutria uma admiração romântica pela aristocracia e por tudo o que o dinheiro podia oferecer. Sempre foi. na verdade. um antimarxista. Para ele, as ideias de O Capital eram rígidas e ultrapassadas. '.\os anos 1930, dizia: "Como posso aceitar uma doutrina que se impõe como bíblia acima de qualquer crítica. um livro de economia obsoleto sem nenhuma possibilidade de aplicação no mundo moderno?". Suas visitas à União Soviética deixaram nele uma impressão desagradabilíssima. Keynes acreditava no individualismo, na competição, na liberdade, nas artes. Não na burocracia, no comunismo e na regulação excessiva da economia, ou de qualquer outro aspecto da vida.

Keynes era um intervencionista?

Ele acreditava nos benefícios da política económica. Mas também dizia que ela deveria ser alterada a cada quinze ou vinte anos. Não achava que a política económica poderia ser permanente, porque as circunstâncias mudam e as expectativas das pessoas também. Ele não acreditava em pensamento estático em nenhum aspecto. Já no fim da vida, dizia: “Eu me chamo Keynes, mas não sou keynesiano”. Tinha consciência de que estava em curso uma interpretação equivocada de seu pensamento. E. após sua morte, isso de fato aconteceu. Na Europa e nos Estados Unidos, atribuem a ele a paternidade das políticas de expansão do défice público, algo a que Keynes se opunha de forma contundente. Ele era extremamente contra défices de longo prazo. Dizia que governos podiam se permitir um pouco de défice para combater uma crise pontual, em especial ao injectar dinheiro na economia para reduzir o desemprego. Pois ele acreditava que o desemprego era o grande mal, o grande inimigo do potencial humano. Então defendia défices de curto prazo em situações emergenciais. Mas definitivamente era contrário a governos, empresas e famílias contraírem dívidas que jamais conseguiriam pagar.

Keynes não foi só um teórico, ele se aproximou do poder. Keynes gostava de política?

Ele conviveu com políticos poderosos. Mas não se identificava com esse meio, não gostava do relacionamento com os políticos. Em muitas anotações e artigos, descreve-os como entediantes e intelectualmente desqualificados para o cargo que exerciam. Acima de tudo, achava a maior parte deles hipócrita e sem convicções reais. o que era muito incómodo para alguém que tinha uma paixão intelectual pela verdade. Curiosamente, Keynes conseguiu transitar num ambiente de hipocrisia sem se render a ela. Era de uma sinceridade implacável.


Continua

17/05/2015

Dúvidas (96) - Separados à nascença? Porque não fazem uma coligação? (2)

Recordando este post:

Há dois anos, o então líder do PS, António José Seguro, pretendia levar ao Congresso do PS a sua moção «Portugal tem Futuro» onde defendia uma «política europeia de progressiva mutualização dos sistemas de apoio ao emprego e de combate ao desemprego, em particular do subsídio de desemprego».

A coisa morreu logo ali porque Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, arrumou o assunto dizendo que o PS não deveria fazer promessas inexequíveis, como a mutualização do seguro de desemprego ou os eurobonds.
Não ser exequível já não seria pouco, mas além disso teria o mesmo inconveniente de quase todas as mutualizações europeias: em potência um meio de fazer pagar as políticas erradas pelos que têm as políticas certas, ou menos erradas, vá lá. Se, além do financiamento, ainda se quiser harmonizar as regras, então a coisa passaria a ser um desastre enfermando da mesma doença da moeda única: aplicar uma receita única a 28 economias com problemas distintos e, pior do que tudo, mesmo quando tem problemas parecidos, com causas bastante diferentes.

Morto politicamente Seguro, o governo PSD-CDS dito «neoliberal» agarrou a bandeira da mutualização do subsídio de desemprego e incluiu-a à calada num conjunto de propostas que vai apresentar ao Conselho Europeu de Junho. Digo à calada porque a coisa segundo o Expresso foi divulgada pela Reuters e publicada pelo New York Times.

Actualização:

Fonte: Economist
Em Março foi à calada. A semana passada Passos Coelho apresentou a ideia ainda de forma mais abstrusa ao incluir na sua proposta de criação de um Fundo Monetário Europeu, uma criação em si bastante discutível, um papel de «complemento europeu ou substituir parcialmente o subsídio de desemprego nacional». O saudoso António José Seguro não faria melhor. Alguém está a ver, nos tempos que correm, a Óropa a mutualizar o custo de reestruturação dos mercados de trabalho anquilosados dos outros países quando os próprios sofrem - quase todos, com excepção da GB e da Irlanda - da mesma doença?

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (5)

«Esquizofrénico é alguém que perde a capacidade de pensar de uma forma lógica e, consequentemente, de comunicar e de se relacionar, passando a viver num mundo paralelo e sem as normas pelas quais se regem as pessoas ditas normais».

«Mas, francamente, não distingo a diferença entre esta forma de fazer política (de Passos Coelho) e a do camarada Kim Jong-Un, da Coreia do Norte», escreveu Miguel Sousa Tavares na sua coluna do Expresso, excedendo a bitola habitual dos seus delírios, sem por um momento lhe passar pelas meninges que é por haver uma diferença abissal entre as duas formas de fazer política que ele poderá continuar a escrever estas baboseiras sem Passos Coelho o mandar passar pelas metralhadoras antiaéreas como o camarada Kim Jong-Un acabou de fazer com o seu ministro da Defesa.

16/05/2015

BELIEVE IT OR NOT: Baltimore riots - Put the black people in charge

Há quem atribua os incidentes em Baltimore nas zonas de maior densidade de pretos negros afro-americanos ao racismo das autoridades que se identificam com os brancos euro-americanos. Ou talvez não, porque, se me for permitido expressar opiniões não politicamente correctas, desde há alguns anos o presidente da câmara, o chefe da polícia e o procurador do Estado em Baltimore são todos pretos negros afro-americanos. Acresce que o presidente da câmara e o procurador são mulheres pertencem ao género feminino. Isto num país cujo presidente desde há 5 anos é também preto negro afro-americano e a bossy first-lady é também preta negra afro-americana.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais, por isso, já não precisam de ser escritas (17)

Outras coisas: «Para mim Costa não é um mistério», «Coisas que outros escreveram sobre Costa, as quais...»

«Ou António Costa não se prepara ou não se deixa preparar. Mas alguém tem de fazer os trabalhos de casa» escreveu Helena Matos no Blasfémias, comentando a seguinte barbaridade dita por António Costa
«Chamo a atenção que estamos numa circunstância política muito especial, já que em condições normais daqui a três semanas este Governo cessaria funções. Só por circunstâncias excecionais previstas na Constituição é que este mandato se vai prolongar por mais alguns meses»
e citando o n.º 2 do artigo 19.º da Lei Orgânica 1/99, de 22 de Junho
«No caso de eleições para nova legislatura, essas realizam-se entre o dia 14 de Setembro e o dia 14 de Outubro do ano correspondente ao termo da legislatura
Como de costume, o jornalismo de causas, sempre tão atento às asneiras de Passos Coelho, guardou de Conrado o prudente silêncio - talvez receoso de receber um irado SMS.

15/05/2015

Exemplos do costume (30) – A pequena intriga

Tullius Detritus
«Anabela Rodrigues foi a quarta escolha de Passos para ministra da Administração Interna. Ela é capaz de pensar que foi a primeira», Marques Mendes, antigo líder do PSD e comentador da SIC.

A maldição da tabuada (22) – A teoria dos números do emprego só tem números imaginários (II)

Continuação de (I).

A semana passada Passos Coelho disse no parlamento: «nos últimos oito trimestres [do segundo de 2013 ao primeiro de 2015], o número de empregos criados é já bastante sensível, anda muito próximo dos 130 mil postos de trabalho.» Não sei se e, se sim, não sei o quê, lhe terão ripostado os deputados da oposição a esta tontice num contexto em que o número de desempregados aumentou 2,1% e a população empregada diminui 0,3% no primeiro trimestre. Para o ridicularizar bastaria terem-lhe lembrado que a criação de postos de trabalho só diminui o desemprego se for em número superior ao da sua destruição – o que não foi o caso.

Lembrei-me a propósito que já aqui no (Im)pertinências desmascarámos uma manipulação socrática semelhante com o programa do XVII Governo onde a recuperação de postos de trabalho perdidos se tinha convertido em criação de postos de trabalho (ver o post «SERVIÇO PÚBLICO: começou por ser saga, continuou como comédia e acabou como tragédia» e os links nele embutidos). E voltámos a fazê-lo com Passos Coelho (ver o post «AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O speechwriter de Passos Coelho meteu água em «termos líquidos»).

É de facto lamentável que os políticos deste país insultem invariavelmente a inteligência dos eleitores que não são imbecis (OK, não precisam de dizer-me que não são muitos). Só podemos escolher o grau de insulto e, desse ponto de vista, tenho de reconhecer que Sócrates foi imbatível e Costa vai no mesmo caminho.

14/05/2015

Um dia como os outros na vida do estado sucial (23) – Que a vida humana não tem preço já me tinha sido dito. Fiquei a saber que a morte também não

Cerca das 18 horas de ontem apercebi-me que um helicóptero da Força Aérea sobrevoava repetidamente a praia de St. Amaro de Oeiras. Movido pela curiosidade fui até lá (umas centenas de metros de minha casa) e vi, além do helicóptero, pouco depois substituído por um outro, dois barcos e 3 ou 4 mergulhadores e uma dezena de viaturas de todos os tipos desde ambulâncias do INEM e dos bombeiros, a viaturas de Polícia Marítima e outras.

Tratava-se de um adolescente desaparecido no rio à vista de vários dos seus companheiros (afogado com toda a probabilidade) no princípio da praia de Santo Amaro de Oeiras do lado de Paço de Arcos. Nos telejornais de ontem vários «responsáveis» no local enumeraram os extensos «meios» presentes sem que se percebesse a utilidade de todos eles, para além de um barco, mergulhadores e uma ambulância para transportar o cadáver quando fosse encontrado.

Esta manhã foram retomadas as buscas, e ao passar pela Marginal, lá vi novamente a mesma parafernália, incluindo, só no estacionamento por cima da praia, sete viaturas na maioria ambulâncias.

DIÁRIO DE BORDO: Tiro ao tendão, uma modalidade de tiro no pé

Os primeiros 100 dias de governo de Aquiles Alexis Tsipras vistos por Peter Schrank na Economist

Pro memoria (234) – A génese da espiral recessiva (actualização)

Uma actualização deste post.

«Economia portuguesa confirma tendência de retoma», título do Público de ontem para noticiar o crescimento homólogo no 1.º trimestre de 1,4% contra um crescimento da zona euro de 1% .

Recordando a espiral recessiva:

A propósito das «Projeções para a economia portuguesa: 2014-2016» do BdeP resumidas no quadro acima, divulgadas 4.ª feira, pareceu-me oportuno revisitar as previsões da «espiral recessiva» que percorreram um caminho que descrevo a seguir por ordem cronológica.

«Portugal corre o risco de entrar numa espiral recessiva» postulou em Outubro de 2011, Manuela Ferreira Leite, várias vezes ministra em governos anteriores, que parece ter sido a criadora da versão doméstica desta espiral, fazendo o papel de precursora das análises da Mouse Square School of Economics.

«Todos os indicadores económicos e financeiros apontam para que Portugal esteja numa clara e indiscutível espiral recessiva», disse em Janeiro de 2012 Carlos Zorrinho, nessa altura líder parlamentar do PS.

«É a espiral recessiva, estúpido!», titulou num artigo publicado em Novembro de 2012, João Maynard Galamba da Mouse Square School of Economics, talvez o maior teórico nestas matérias.

«Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego», prescreveu na mensagem de ano novo de 2013, Cavaco Silva, economista da escola do Maynard adoptando assim, com mais de um ano de atraso, o prognóstico da sua amiga MFL.

«Estamos mergulhados numa espiral recessiva», garantiu em Março de 2013 Eugénio Rosa, um especialista em economia soviética.

Passos Coelho colocou o país «nesta crise social e na espiral recessiva», disse em Abril de 2013 António José Seguro, o sucessor de José Sócrates que colocou o país na bancarrota.

«Urge uma inflexão das políticas do Governo porque mais políticas de austeridade agravam a espiral recessiva do país», advertiu em Maio de 2013 Carlos Silva secretário-geral da UGT.

«Portugal está numa espiral recessiva que leva à harmonização no retrocesso e só há uma forma de responder a isto, é vencer o medo, o que implica promover o colectivo e a coesão», vaticinou em Janeiro de 2014 Carvalho da Silva, ex-dirigente do PCP, ex-dirigente durante 35 anos da CGTP, putativo proto candidato a presidente da República e promotor do movimento 3D para as eleições europeias.

«Política de desastre nacional, que aumenta o desemprego, a exploração, as injustiças e desigualdades sociais, compromete a soberania e independência nacionais e mergulha o País numa perigosa espiral recessiva», escreveu-se no editorial do Avante em Fevereiro de 2014, com bastante atraso, que devemos relativizar porque ainda hoje, decorrido um quarto de século, os comunistas não se aperceberam do colapso da Pátria do Socialismo e continuam a prescrever a colectivização da economia que os seus homólogos em todo o mundo (excepto, por enquanto, da Coreia do Norte) já abandonaram.

Não é extraordinário que todos estes videntes, e ainda a legião que ficou por citar, tivessem antecipado uma espiral recessiva, que de facto poderia acontecer, e não tivessem antecipado a espiral progressiva da dívida pública e privada?

13/05/2015

BREIQUINGUE NIUZ: Not so fast

Numa manifestação de proteccionismo de vistas curtas, os democratas do Senado americano bloquearam ontem a aprovação proposta por Barack Obama de um processo negocial fast track do acordo Trans-Pacific Partnership com 11 países asiáticos. No slow track a coisa pode morrer depois de agonizar alguns anos afogada em red tape.

A defesa dos centros de decisão nacional (13) – Unintended consequences (IV)

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7),  (8), (9), (10), (11) e (12)]


Como seria inevitável (alô Dr. Pacheco Pereira) para um país endividado ao exterior e apesar da célebre declaração Mississipi (alô Dr. Vítor Constâncio), as empresas portuguesas continuam a ser vendidas ao capital estrangeiro. Desta vez é a seguradora Açoriana, uma participada da Rentipar com 52% (família Roque) e do Banif com 48% (Banif que deve estar na fila para ser vendido, se alguém o quiser comprar). Para variar dos chineses (Fidelidade) e dos americanos (Tranquilidade), desta vez os compradores serão muito provavelmente os espanhóis da Mapfre (já a operar em Portugal há muitos anos) ou os da Mutua Madrileña ou ainda da Santalucia.

Lost in translation (239) - «It is not worth the paper it is written on» (2)

Foi a expressão que Yanis Varoufakis usou para mostrar a sua apreciação pelo manifesto do Syriza antes de ser recrutado para o seu governo. A mesma expressão poderia ser usada para a apresentação «A blueprint for Greece’s recovery in a consolidating Europe» de Varoufakis a semana passada na European Business Summit em Bruxelas da qual o Politico extraiu o slide seguinte.


Comentários de alguns reputados economistas:

«Quite a hilarious document», Robert Barro, Professor de Economia na Harvard University;

«He is confused because he despises looking at the data … These people live in their Marxian clouds and it is a waste of time to try and reason with them», George Bitros, professor da Univerdade de Economia de Atenas;

«This is too broad to be informative», George Hendrikse, professor de Economia da Universidade Eramus de Roterdão;

«It’s a typical flow chart that shows the interlinkages between the different sectors, so at this stage I’m not sure what I should take from it. It’s quite clear that money flows in an economy, right?», Guntram Wolff, director think-tank Bruegel;

«It’s the old idea that you can somehow cure the old problems with new money from abroad, which is exactly the development model from before», Daniel Gros, director do Centre for European Policy Studies.

Porém, o comentário mais significante talvez tenha sido de um executivo financeiro: «For Varoufakis to be presenting this sort of chicken scratch diagram at this stage of the game with the clock running down and the coffers almost empty is beyond shocking».

Como se costuma dizer aqui no (Im)pertinências, o camarada Varoufanis, um exemplo de criaturas que vivem num mundo paralelo, pertence à espécie dos que proporcionariam o excelente negócio: comprá-los pelo preço que valem e vendê-los pelo preço que eles julgam valer.