Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/04/2015

Dúvidas (93) – Se é assim, porque não propõe o PS uma redução generalizada dos impostos para acabar com o desemprego?

Segundo o documento dos 12 economistas socialistas (ou serão socialistas economistas?) de resposta às 29 perguntas de Marco António Costa, o fim da sobretaxa de IRS criaria 15 mil postos de trabalho a partir de 2018.

O substrato científico da coisa parece-se bastante com os estudos de viabilidade das auto-estradas, do Novo Aeroporto e do TGV, cujo efeito multiplicador transformaria o país num espécie de Suíça à beira-mar. Mas admitamos que sim, que a coisa tem pernas para andar. Então, nesse caso porque não acabar com o desemprego reduzindo todos os impostos?

DIÁRIO DE BORDO: Uma vida que fazia um filme

Um exemplo de que as qualidades dos pais não são necessariamente transmitidas aos filhos é o caso de Catarina Salgueiro Maia que se prestou a servir de idiota útil para os tambores do jornalismo de causas declarando que «deixou Portugal em 2011, ano em que a troika chegou a Portugal e "em que o primeiro-ministro aconselhou as pessoas a ganhar experiência no estrangeiro", ironizou, recordando os apelos do Governo à emigração». Foi assim que o jornalista de serviço na Lusa descreveu as patetices autocomplacentes da criatura, prontamente circuladas em vários jornais (Público, jornal i, Expresso, entre outros).

Lembrei-me esta manhã desse episódio de exaltação dos direitos adquiridos pelas Conquistas de Abril ao ser abordado por alguém que me ofereceu a sua autobiografia em troca de um donativo para a construção do Centro Comunitário Senhora da Barra, uma obra social que a Paróquia de S. Julião da Barra em Oeiras está a levar a cabo. Eis o resumo da vida, pelas suas próprias palavras, desse alguém a quem não aconselharam a ganhar experiência no estrangeiro e que foi para fora cá dentro:


«Hermínia Ribeiro Nobre nasceu a 29 de Janeiro de 1940, filha de um casal de camponeses, a mais nova de nove irmãos, quatro rapazes e cinco raparigas, órfã de pai aos seis anos de idade. Casada há 39 anos, tem três filhos e três netos.

Licenciou-se em Estudos Superiores Especializados em Segurança Social. Fez todos os seus estudos em adulta, em horário pós-laboral, pois em criança só frequentou a escola durante um ano.

Aos cinco anos já trabalhava na agricultura, a desbastar e a colher milho. Aos dez era empregada doméstica; aos 14 obteve um Diploma de Corte e Costura e Bordados à Máquina. Foi costureira por conta própria, modista num atelier, mestra e encarregada-geral de um pronto-a-vestir, e modista por conta própria. Aos 37 anos entrou para a função pública, como auxiliar numa escola primária. Actualmente, é técnica superior no Ministério da Educação.»



Actualização:
Afinal Catarina Salgueiro Maia deu o dito pelo jornalismo de causas da Lusa por não dito e esclarece que as suas palavras eram «ironia» e que antes de ser «convidada» por Passos Coelho já tinha emigrado em Março de 2011 sem convite de José Sócrates que por essa altura ainda estava encalhado no PEC 4.

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (82) – Um bicho-papão, exagero e intriga, dizem eles que por lá andam

«The White House might be the seat of American and world power, but for the press, it can be a bugaboo of a beat: “All hype and spin.” “Restrictive in every sense of the word.” “Cramped and windowless.” “Locked.” That’s how just four reporters described the job in Politico Magazine’s second annual survey of the White House press corps, with nearly 70 journalists weighing in on what it’s really like to on the presidential beat.»

Foi o que escreveram os jornalistas do Politico sobre as conclusões de um inquérito aos jornalistas acreditados na Casa Branca. Registe-se que apenas 8 em 67 desses jornalistas acham que Obama ficou mais aberto aos mídia no segundo mandato, enquanto 51 em 65 acham que ele (50 em 63 no caso da presidenta Michelle) não gosta dos mídia.

29/04/2015

Chávez & Chávez, Sucessores (29) – A revolução bolivariana subiu a um novo patamar

Venezuela reduz horário de funcionários públicos para poupar eletricidade

«Os funcionários públicos venezuelanos vão passar a trabalhar apenas até à uma da tarde. É uma das medidas anunciadas face aos problemas de fornecimento de energia ocorridos após o aumento do calor.» (Expresso)


Recorde-se que a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo e mesmo com toda a incompetência, nepotismo e compadrio que o chávismo introduziu na Petróleos de Venezuela ainda é o 9.º maior produtor mundial.

SERVIÇO PÚBLICO: As corporações protegem-se umas às outras

Um tribunal de Lisboa aceitou uma providência cautelar da ANTRAL, em nome da corporação dos taxistas, para suspender a actividade da Uber, uma empresa tecnológica que proporciona o acesso a uma rede de transportes públicos via uma aplicação de smartphone .

Pode assinar a Petição Pública «Queremos a Uber em Portugal».

Dúvidas (92) – Em que país?

«Em que país do Mundo foi praticado o crime de que me acusam?», pergunta inquieto o preso 44 numa carta ao seu correligionário António Campos.

É uma dúvida pertinente. Arriscaria uma resposta: em Portugal, na Venezuela, no Brasil, em França, nos EU, em Angola, pelo menos.

Dúvidas (91) – O PS já é governo?

Foi o que pensei quando li a carta de Marco António Costa, aquele grande estratego vice-presidente do PSD, ao secretário-geral do PS a sugerir-lhe que submeta «o cenário macroeconómico que acompanha o relatório “Uma Década para Portugal” desde logo à UTAO mas também eventualmente ao Conselho de Finanças Públicas» e, sem mais delongas, lhe apresenta duas dúzias de perguntas.

Pensei também que, sem eu dar por isso, o PS já era governo e o Dr. Costa o nosso primeiro-ministro, sendo o outro Dr. Costa líder da oposição e “Uma Década para Portugal”, que eu pensei serem elucubrações encomendadas pelo Dr. Costa a uma dúzia de economistas, seria afinal o programa do governo socialista.

Foi por isso, surpreendentemente e pela primeira vez, salvo erro, que me encontrei de acordo com os Drs. Galamba e Brilhante Dias ao concluírem «para o PSD o PS já é Governo e este documento já é o Orçamento do Estado» e «é o PSD já portar-se como partido da oposição», respectivamente.

Dei comigo a murmurar para os meus botões que a iniciativa do outro Dr. Costa deve ter sido a concretização dos sonhos mais húmidos (para usar um lugar comum bastante idiota mas na circunstância muito apropriado) da direcção do PS em geral e do Dr. Galamba em particular.

28/04/2015

Títulos inspirados (41) – Asas cortadas

«Greece Just Clipped Varoufakis’s Wings» titulou a Bloomberg para noticiar a substituição do ministro das Finanças na coordenação da equipa de negociação com a troika as instituições pelo ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros, uma criatura com reputação de competência e low profile, ou seja uma espécie de negação de Varoufakis. Não se esperam milagres mas, em todo o caso, pelo menos o fim do show off já é um progresso.

Mitos (194) – O capital já não é o que era (2)

Uma continuação de (1).

Apesar do instantaneidade que a Web proporciona, sobretudo com as redes sociais, ter vindo a diminuir o nosso atraso secular a aderir às modas, as coisas continuam a levar o seu tempo a chegar cá. Até Thomas Piketty, o economista francês autor do celebrado «O Capital no Século XXI», só cá chegou depois de um longo périplo.

Esteve ontem a perorar na Gulbenkian depois do circuito incontornável pelas luminárias do socialismo doméstico, a saber: António Costa e a revelação do século Sampaio da Nóvoa, culminando com um almoço (uma inevitabilidade doméstica) com João Afonso, vereador e ajudante de Costa, acompanhado pelo também cada vez mais incontornável Rui Tavares, aquele rapaz do Livre que está a promover a unidade da esquerda criando mais um partido.

Infelizmente para as teses de Piketty, multiplicam-se os exemplos da sua falta de aderência à história económica. Já no final do ano passado aqui assinalámos um desses exemplos e no mês passado o Impertinente referenciou aqui o reconhecimento pelo próprio Piketty no paper “About Capital in the 21st Century” a publicar em Maio que as suas teses foram abusivamente interpretadas.

Enquanto entre nós as luminárias veneram as suas teses, noutras paragens até os estudantes as refutam. É o caso de Matthew Rognlie (estudante do MIT) que, depois de ter publicado em Junho do ano passado o paper «A note on Piketty and diminishing returns to capital» evidenciando falhas das teses de Piketty, publicou o mês passado um outro (ver aqui uma referência) concluindo diferentemente de Piketty que o principal factor no aumento da desigualdade é o aumento dos preços das casas.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XXI) – Um cartune de KAL vale um post

Economist

27/04/2015

De boas intenções está o inferno cheio (29) - A lavagem de Mortágua

Acredito que Mariana Mortágua, talvez o único deputado berloquista com bastante competência e algum senso, estivesse apenas a elucubrar sobre as suas teorias sistémico-colectivistas quando em entrevista ao Negócios, falando sobre o caso GES - o maior escândalo financeiro desde o caso Alves dos Reis há 90 anos -, se descaiu com «o maior erro é achar que isto é culpa do Ricardo Salgado».

Acreditar, acredito, mas que para a justiça neste país a coisa é muito perigosa, é. E é uma bênção para o tio Ricardo que certamente do seu exílio no Estoril, ou na Comporta, sei lá, terá apreciado esta operação involuntária de lavagem, com transferência de responsabilidades e culpas para uma qualquer entidade mítica.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XX) – À beira do abismo, só falta dar o passo em frente

Com a reunião do Eurogrupo em Riga a ser mais do mesmo em relação à Grécia, com cada vez mais países a perderem a paciência com Varoufakis, sobretudo os países de leste, com o ministro das Finanças da Eslovénia a acusar Yanis de ser um aldrabão (enfim, por outras palavras), com os cofres do governo vazios e os cofres das instituições públicas a serem aspirados e a esvaziarem-se rapidamente, com o governo Syriza-Anel a ver a sua taxa de aprovação reduzida para metade em 3 meses, a Grécia encaminha-se para beira do abismo. Resta-lhe fazer nas próximas semanas tudo o que não fez em três meses ou dar o passo em frente e entrar em bancarrota.

Como escreve Alexis Papachelas, o editor do jornal online ekathinerini (que deveria ser leitura obrigatória para a legião de radicais chic que se babam com as «varoufakisses» - assim as baptizou apropriadamente o camarada Santos Silva), num artigo titulado «Denialism», «no one can question its deft communication tactics. They are unprecedented and, from a technical viewpoint, admirable. But there comes a point when you cannot invert reality any longer; doing so will only cause you more harm. Greeks have always punished those who played with the truth in the end.»

26/04/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (108) – As paixões volúveis do PS

A flecha de Silva no calcanhar de Yanis
«Três meses e acabou paixão grega do PS. Até já chama nomes ao herói de ontem», escreveu Helena Matos a propósito do vilipêndio por Santos Silva (o homem de mão de José Sócrates que gosta de «malhar na direita») de Varoufakis, o muito celebrado ministro das Finanças do até recentemente admirado governo grego, ridicularizando as «varoufakisses» de Yanis.

Vamos esperar que o PS verdadeiramente socialista se levante en masse contra o vilipêndio.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (36) – O «visto prévio» ressuscitado

Recentemente os partidos do governo e da oposição (ou parte dela) deram ao mundo duas lições de cooperação nas questões fundacionais do regime.

Primeira lição: todos os partidos concordaram em atribuir ao Tribunal de Contas a fiscalização de contas da Assembleia da República, como aqui salientou o Impertinente.

Segunda lição: PSD, CDS e PS puseram-se de acordo em obrigar todos os mídia a submeterem «planos de cobertura dos procedimentos eleitorais» a uma comissão mista que inclui a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), «numa espécie de visto prévio».

A coisa parece não vir a resultar porque, incompreensivelmente, os mídia resolveram não colaborar - por boas razões e, talvez, por más razões: afinal o resto da oposição, nomeadamente os comunistas e os radicais chic, estão tão bem representados nos mídia que já dispõem do visto prévio.

25/04/2015

ACREDITE SE QUISER: Se o TC não sabe fazer as suas próprias contas é melhor atribuir-lhe a fiscalização das contas do parlamento


aqui se fez referência à auditoria do Tribunal de Contas (TdeC) às contas do Tribunal Constitucional (TC) que detectou várias ilegalidades – algumas delas caracterizáveis como golpadas no estilo mais manhoso que o regime nos proporciona. É, por isso, sem surpresa, que o parlamento aprova em tempo recorde e por unanimidade uma lei que transfere do TdeC para o TC a fiscalização das contas dos grupos parlamentares.

Lei Orgânica n.º 5/2015
Diário da República n.º 70/2015, Série I de 2015-04-10
Data de Publicação: 2015-04-10
Sumário: Atribui ao Tribunal Constitucional competência para apreciar e fiscalizar as contas dos grupos parlamentares, procedendo à sexta alteração à Lei n.º 28/82, de 15 de novembro (Organização, funcionamento e processo do Tribunal Constitucional), e à quinta alteração à Lei n.º 19/2003, de 20 de junho (Financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais)

Quem disse não ser possível o acordo entre partidos do governo e da oposição sobre as grandes questões do regime?

CASE STUDY: Uma década para Portugal, segundo o PS (2)

«Comparar o programa dos economistas do PS ao apresentado pelo ministro grego das Finanças ao Eurogrupo para endireitar a Grécia é de uma maldade atroz mas irresistível. Porque ambos dependem enormemente do que outros façam ou deixem fazer, e apresentam contas que nos trazem à memória o velho ditado de que quando a esmola é grande o pobre desconfia.

(...)

E já que os economistas do PS esperam que "os movimentos políticos de esquerda democrática da Europa" contribuam "activamente" para encontrar uma "solução política que ponha termo à instabilidade vigente", talvez fosse também útil chamar o ministro Varoufakis ao Largo do Rato – para pedir-lhe que ganhe juízo e coragem para falar, o quanto antes, verdade aos gregos.»

«Varoufakis e o Largo do Rato», Eva Gaspar no Negócios

CASE STUDY: Uma década para Portugal, segundo o PS (1)

«De qualquer maneira, o PS nem nesta sua versão respeitosa se consegue libertar dos seus velhos vícios. Primeiro, o de tratar o dinheiro do contribuinte como se ele nascesse do chão: falando muito do “capitalismo de casino”, o que ele propõe é um “socialismo de casino”. Aumenta as despesas e corta as receitas, e a diferença pagará — com a maior facilidade — se por acaso as coisas correrem bem. E, se não correrem, quem puder que se arranje. Entretanto, os funcionários públicos irão recuperar rapidamente os seus privilégios, como compete; o funcionalismo não diminuirá; a TSU desce tanto para trabalhadores como para patrões; o emprego precário vai diminuir (“penalizando” as empresas com excesso de “rotatividade”); e, em homenagem ao igualitarismo da seita, o imposto sucessório ressuscita para perseguir os “ricos”, como eles merecem, e presumivelmente para ajudar a classe média e animar o investimento. Deus nos perdoe.»

«Muito barulho para nada», Vasco Pulido Valente no Público

24/04/2015

Títulos inspirados (40) - Vá lá a gente percebê-los

«PS encosta à esquerda e assume rutura absoluta com políticas de Passos» no DN

«Propostas económicas dos peritos encostam PS mais ao centro» no Económico

«Economistas de esquerda e de direita com reservas sobre a “década para Portugal”», no jornal i

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A substituição da família pelo Nanny State

Uma medida de engenharia social em linha com esta outra.

«O padrão é comum a outras políticas: fomentar o mal para depois o denunciar e ganhar com isso. Sendo a denúncia um passo necessário para justificar novas loucuras. Numa trama que combina a decadência moral, económica e demográfica da Europa com o apego à causa dos animais. Multiplicando males - da corrupção ao ódio e ao crime - para a seguir iludir as consequências. Mas exigindo sempre mais recursos para obter resultados positivos. O caso da proibição de bebidas alcoólicas até aos 18 anos é disso exemplo. Responsabiliza-se quem vende, não quem bebe ou arranja forma de comprar.

A bem da desresponsabilização dos pais: não interessa por onde andam os filhos. Importa é saber por onde ainda não anda o Estado. Menos educação e mais ASAE parece ser o lema das elites que reclamam da falta de fé dos jovens na política e em políticas que obrigam à crença no Estado fiscal. Um monstro que fica com metade do que se ganha e controla o resto. Mesmo assim os peritos do regime de saque insistem no gasto público por conta de nova bancarrota. Como se não aprender com os erros fosse o nosso fado

José Manuel Moreira, no Económico

Pro memoria (231) – TAP, uma máquina de destruição de valor (2)

Continuação de (1)

Completando esta radiografia com mais quatro indicadores a miséria da operação da companhia de «bandeira» e das suas «caravelas» fica tão patente que não precisa de explicação.


O que precisa de explicação são as políticas erradas, o poder dos lóbis tapistas e a negligência e incompetência de 6 (seis) governos provisórios e de 19 (dezanove) constitucionais.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (XIX) – Empurrando as reformas com a barriga

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Quando se compara a taxa de ocupação dos gregos no escalão etário 55-64 com a de outros países, e em particular com Suécia, Alemanha e Holanda, temos de concluir que 2/3 dos gregos se reformam e querem continuar a reformar bastante mais cedo do que os trabalhadores dos países que financiam a sua dívida.

Fonte: Economist
Se a isto adicionarmos o facto de, apesar das reformas da Segurança Social introduzidas depois da intervenção das «instituições» anteriormente chamadas troika, que reduziram a taxa de substituição e aumentaram a idade da reforma, a Grécia é o país da UE que mais gasta em pensões (17,5% do PIB, contra 12,3% da Alemanha, o seu maior credor) percebe-se a pouca pachorra que ainda resta na maioria dos países da Zona Euro para aturar as birras e as chantagens do governo Syriza-Anel.

Entretanto enquanto chuta para a frente a apresentação das reformas indispensáveis, o governo Syriza-Anel para pagar a dívida a vencer-se prepara-se para extorquir dinheiro dos fundos de pensões, depois de ter publicado um decreto obrigando empresas e organismos públicos, incluindo hospitais e universidades, a entregarem as suas reservas de caixa ao governo.

23/04/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (107) – A inconstitucionalidade já chegou à Câmara de Lisboa…

… não sem antes ter passado pelo Tribunal Constitucional.

O caso é o seguinte: uma das últimas medidas do António Costa presidente da Câmara em part time antes de se transfigurar em líder do PS em full time foi a criação de uma taxinha a pagar pelos passageiros que chegam ao aeroporto da Portela. Ficaram isentos os passageiros com domicilio fiscal em Portugal. É aqui que a porca torce o rabo porque a legislação da UE proíbe a discriminação em razão da nacionalidade e, por força dos tratados comunitários, essa legislação prevalece sobre a nacional. Ou, dito de outro modo, a taxinha de Costa é assim a modos que inconstitucional.

Vamos esperar que o PS en masse se levante para exigir a apreciação da taxinha pelo TC.

BELIEVE IT OR NOT: The Clinton connection

The Clinton Connection to Russia’s Claims on Uranium

«As Russia’s atomic energy agency gradually took charge of a company that controls one-fifth of all uranium production capacity in the United States, a stream of cash made its way to former President Bill Clinton’s charitable organization. Whether the donations played any role in the United States government’s approval of the uranium deal is unknown, but the episode underscores the special ethical challenges presented by the Clinton Foundation.» (NYT)

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (106) – Quem é quem no desastre da TAP – João Cravinho

[Retrospectiva dos posts do (Im)pertinências sobre a TAP]

«No dia em que o acordo [entre os pilotos da TAP e o governo socialista de Guterres] foi assinado, 10 de Junho de 1999, Portugal estava a três dias de ir às urnas numas eleições europeias. O PS apostara forte, candidatando como cabeça de lista Mário Soares, procurando ganhar balanço para, em Outubro, chegar à maioria absoluta nas legislativas. Havia no ar a ameaça de uma requisição civil (o governo de então, de António Guterres, já tinha decretado uma, em 1997), mas com o acordo tudo se resolveu, tudo se acalmou, o PS ultrapassou os 43% nas Europeias e o vento pareceu ficar de feição para a desejada maioria mas legislativas – a maioria que falharia por um único deputado, levando ao “pântano” que levou ao pedido de demissão do primeiro-ministro dois anos depois.

(…) ainda antes de receber o texto do acordo, João Cravinho dava força à via negocial que estava em curso e permitira evitar a incómoda greve em tempo de eleições. Mais tarde, a 14 de Julho, reforçaria em novo despacho a orientação anterior, escrevendo muito precisamente: “manifesto a minha concordância quanto à atuação referida no ponto VI da carta de 99.06.29 do Senhor Presidente do Conselho de Administração da TAP”. Era nesse ponto que se dava conta de intenção de preparar o decreto-lei necessário para permitir cumprir o acordo com os pilotos, nele prevendo a famosa cláusula de participação no capital de empresa entre 10% e 20%.

Os pilotos vieram agora recuperá-lo [ao acordo de 1999]. Aparentemente, só para causar ruído: um parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral de República, de 2012, considera esse acordo “inconstitucional e ilegal”. Repito: não só ilegal, como inconstitucional. Ou seja, não há nenhuma possibilidade de a actual administração ou o actual Governo o considerarem legítimo. É, por isso, uma reivindicação fútil e que os pilotos sabem ser fútil.

João Cravinho, que sempre se apresenta como uma espécie de consciência moral da República mas que não só assinou os dois despachos já citados, como não pode ter deixado de dar instruções à administração durante o processo negocial, veio agora dizer que as exigências dos pilotos são um “acto de má-fé e um dolo”, procurando fazer crer que as negociações com os pilotos ocorreram “à sua revelia” e que, para o seu resultado ser válido, era preciso ter submetido o acordo a conselho de ministros, o que nunca aconteceu.»

Excertos de «Os suicidas e os hipócritas: a política nas greves da TAP», José Manuel Fernandes no Observador

Por falar em TAP, suspeito que aos tapistas nunca lhe passará pelo bestunto a dúvida para que servirá uma companhia de «bandeira» operando «caravelas», como lhes chamou António Costa, quando foi preciso uma companhia low cost  começar a voar para os Açores por 1/3 (um terço) do preço da TAP e assim passar o turismo açoriano para outro patamar.

Bons exemplos (93) – Avis rara

É tão raro um político dar conta do recado com competência que devemos celebrar o deputado Pedro Saraiva – um sujeito com uma vida para além da tristeza da vida «paralamentar» como os outros – pelo seu relatório sobre os trabalhos da comissão de inquérito ao BES que foi geralmente apreciado pelo seu profissionalismo e parece cumprir os três critérios de qualidade dos dados: precisão, completitude e pertinência.

22/04/2015

Pro memoria (230) – Inconstitucionalissimamente

«TC foi auditado pela primeira vez: carros para uso pessoal, dinheiro recebido a mais pelos juízes, avaliação dos funcionários por fazer» escreve o Observador.

«A primeira auditoria alguma vez feita ao Tribunal Constitucional (TC) revelou um descontrolo financeiro nas contas daquela instância superior» informa o Público.

«Juízes do Constitucional acusados de receber ajudas de custo ilegais» titula o DN que ainda nos informa que «os juízes-conselheiros do TC têm à sua disposição 20 automóveis, sendo dois usados pelo presidente e pelo vice-presidente, 11 para uso pessoal pelos 11 restantes juízes-conselheiros, cinco para serviços gerais do TC e dois estão ao serviço da Entidade das Contas e Fiscalização dos Partidos. Segundo a auditoria, a atribuição dos 11 carros aos juízes infringe a lei».

Não admira que esta gentinha que por lá se acoita tenha como primeira e talvez única preocupação a preservação dos seus «direitos adquiridos».

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O direito à aldrabice

«E, sobretudo, indigno-me que se questione o direito de uma entidade patronal pedir à sua equipa médica para verificar se uma mulher que pretende trabalhar menos duas horas por dia, mas de ordenado intacto, de facto amamenta.

Só pode obstar a isto quem, no fundo, defende que um trabalhador tem o direito de mentir e defraudar o empregador. Este direito à aldrabice foi, quem sabe, mais uma conquista civilizacional dos tempos do PREC.»

Subscrevo o «Espremer direitos» de Maria João Marques no Observador, exceptuando as indignações porque há anos que não dou para tal peditório.

Dúvidas (90) - A culpa é do homem branco?

O apartheid na África do Sul terminou há duas décadas depois de uma campanha internacional que se prolongou por outras tantas. Catorze anos depois em 2008 num surto de xenofobia foram mortos dezenas de imigrantes de países vizinhos. Esta semana, um novo surto nos subúrbios de Joanesburgo e no Natal causou mais mortes.

Estou à espera que os opinadores do politicamente correcto venham outra vez apontar o seu dedinho acusador ao homem branco.

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (24) Unintended consequences (V)

Outras marteladas.

Carlos Tavares, presidente da CMVM esteve terça-feira no parlamento a fazer um «alerta muito forte» chamando a atenção para «alguns dos remédios usados para combater a crise geraram eles próprios riscos que podem gerar uma nova crise [porque as] muito baixas taxas de juro ... têm efeitos colaterais bastante poderosos e também … o excesso de liquidez … tem levado a uma forte subida de preços indiscriminada … [e] algumas bolhas [no imobiliário]». E concluiu «pode ser uma tempestade perfeita».

Pergunto-me: não terá passado pelas cabecinhas do próprio Carlos Tavares e dos deputados que o ouviam - a maioria deles ainda com as mãos doridas de tanto aplauso ao alívio quantitativo - que a doença da «tempestade perfeita» resultaria predominantemente da mezinha aplicada pelo BCE para tratar a febre baixa da deflação?

Haja deus! Como é possível tanto alienação naquelas meninges?

21/04/2015

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (35) - Os amanhãs que cantarão

«E os portugueses que ainda vivem em Portugal, ou os milhares que saíram do país e gostariam de voltar, podem estar certos de que tudo vai mudar com a vitória de António Costa nas próximas eleições, no final de setembro. Não haverá necessidade de mais greves de comboios ou de quaisquer outros transportes, incluindo a TAP, que, com o Partido Socialista, não será privatizada. 

É caso para dizer: Viva a República, o socialismo democrático, acabando de vez com esta austeridade que só tem feito e, até hoje, continua a fazer mal a Portugal

Pode continuar a ler os delírios de Mário Soares aqui.

SERVIÇO PÚBLICO: Serviço público? Qual serviço? Qual público? (3)

Outras dúvidas semelhantes: aqui, aliacolá e acoli.

«Foi com apreensão que comecei a ler a entrevista ao DN do novo administrador da RTP para os "conteúdos", que declara a televisão pública "irrelevante há muito tempo". Por instantes, cheguei a pensar que o Sr. Nuno Artur Silva fosse outro portador de uma visão "economicista" do mundo, esse vírus malévolo que faz depender o sucesso do lucro e o dinheiro que se gasta do dinheiro que se tem. Ou um daqueles cínicos que, fundamentados em simples factos, acham que a RTP não se distingue da concorrência excepto pelo meio de financiamento. Felizmente, nada estava tão longe da verdade.

Ao longo da entrevista, percebe-se que a irrelevância decretada pelo Sr. Nuno Artur Silva diz respeito à falta de investimento da RTP no "audiovisual português", no "cinema português" e na "produção de ficção". Não só é um alívio como calha bem. Em primeiro lugar, porque o Sr. Nuno Artur Silva vem de fundar e dirigir uma empresa especializada nos ramos acima - embora a ética decerto impeça confusões. Em segundo lugar, porque se há coisa que pode distinguir qualquer estação televisiva são as fitas e fitinhas nacionais: mais nenhum canal na Terra as transmite.

Terminei a entrevista em êxtase. Além de garantir a continuidade de O Preço Certo, o Sr. Nuno Artur Silva promete que "muita coisa vai mudar" na RTP. Até ver, mudaram os salários dos administradores. Adivinhem em que sentido.»

«O preço certo», Alberto Gonçalves no DN

SERVIÇO PÚBLICO: Situacionistas do Estado Novo e situacionistas do PREC, a mesma luta

«No dia 6 de Fevereiro de 1973, Miller Guerra causou um alvoroço no Palácio de São Bento com um mero discurso. Dois anos depois, a 17 de Junho de 1975, o mesmo deputado provocaria o mesmo efeito, no mesmo local – e com o mesmo discurso. Só tinham mudado duas coisas. A primeira: agora ele não estava na Assembleia Nacional, mas na Assembleia Constituinte. A segunda: agora quem o tentava silenciar não eram os deputados da Acção Nacional Popular, mas os deputados do Partido Comunista Português.»

Continuar a ler no Observador

20/04/2015

Lost in translation (236) – O bombeiro incendiário


«Qualquer pessoa que brinque com a ideia de cortar pedaços da zona euro, esperando que o resto sobreviva, está a brincar com o fogo», avisou Yanis Varoufakis, o ministro das Finanças da Grécia.

Dúvidas (89) - A culpa é do homem branco?

«Várias centenas de pessoas terão morrido no Mediterrâneo, quando um barco que transportava cerca de 700 migrantes se virou entre as costas da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. Durante as operações de salvamento foram resgatados apenas 28 sobreviventes». (Público)

Com este lamentável incidente o indignómetro atingiu novos máximos. A quem atribuir a responsabilidade por milhares de mortes de emigrantes clandestinos tentando chegar à Europa? Aos próprios emigrantes? Aos criminosos que os transportam? Aos dirigentes cleptocratas responsáveis pela miséria nos seus países de origem? Às elites extractivas desses países? Não, não, não e não.

Segundo opinativos de vários quadrantes, a responsabilidade é da Óropa que criou condições políticas, sociais e económicas para os seus cidadãos invejáveis para os povos dirigidos por esses cleptocratas e explorados por essas elites extractivas. Exemplos ao acaso:

«Não dá para engolir. O Mediterrâneo transformado em cemitério. A vergonha da política europeia» - André Macedo (Diário de Notícias)

«São os números da ignomínia europeia» - Eduardo Dâmaso (CM)

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Promessas

«Primeira promessa para não cumprir do Costa: comprometeu-se a não fazer promessas que não poderá cumprir

 AB

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um jornalista bom no género mau pode vir a fazer o upgrade para o género bom (II)

Já por diversas vezes [(1), (2) e (3)] fiz apreciações negativas de Ricardo Costa, apesar de o considerar um dos melhores jornalistas no mercado das causas, e pelo menos uma vez fiz aqui uma apreciação positiva. Agora é a segunda apreciação positiva, embora ensombrada pelas confusões que (ainda?) contaminam as suas sinapses, como se pode constatar no seguinte excerto do seu editorial do Expresso de sábado passado.

«Onde está então a economia próspera, libertada do Estado e dos seus subsídios, criadora de emprego e inovadora? Está seguramente em todo o sector exportador, obrigado a virar-se, e num ou noutro sector que vive em ambientes altamente concorrenciais e nunca pôde contar com a mão do Governo por baixo. De resto, não se encontra em quase lado nenhum. 

Mas se isto é um drama para o Governo - bem visível na dificuldade de reacção aos recentes números do desemprego - é um drama maior para o Partido Socialista. Porque o país que quer governar é o mesmo, com iguais desequilíbrios e falhas estruturais. Mas sem um programa que se conheça, uma ideia de fundo a que os eleitores se possam agarrar sem ser porque sim.»

Se não fora o «não se encontra em quase lado nenhum» desacompanhado de uma explicação como, por exemplo, «precisamente por falta de concorrência e excesso de mão por baixo no sector dos bens não transaccionáveis» e se não fora também o não ter percebido que os «recentes números do desemprego» foram muito provavelmente condicionados pelo aumento do salário mínimo, se não fora tudo isto, atribuir-lhe-ia cinco afonsos por se ter disposto, mas uma vez, a contrariar a doutrina Somoza. Assim, leva quatro afonsos e um chateaubriand.

19/04/2015

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (105) – O calote como política em todos os azimutes

Primeira página do Expresso de 18-04

Pro memoria (229) – O programa de emergência social do governo Syriza-Anel

Ajuda humanitária
«The leftist led Greek government has signed its first major armament deal with the U.S. contractor Lockheed Martin for the modernization of five aged naval support jets. The deal, worth 500 million dollars, is the first major deal in the last 10 years and was signed after the recommendation of Defense Minister and coalition government junior partner Independent Greeks (ANEL) leader Panos Kammenos. The agreement was also signed by Foreign Minister Nikos Kotzias, Alternate Minister of Citizen Protection Giannis Panousis as well as Alternate Economy, Infrastructure, Maritime and Tourism Minister Thodoris Dritsas». (See more)

18/04/2015

CASE STUDY: A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer (12)

Outras atracções.


Ponto de situação das inscrições para o concurso de Belém (disclaimer: não há garantias implícitas ou explícitas de que a lista esteja actualizada):
  • António Sampaio da Nóvoa, uma invenção de Mário Soares que ninguém sabe se será ou não apoiado pelo PS - nem o chefe Costa que andou com ele ao colo parece saber
  • Santana Lopes, estava escrito nas estrelas, já se chegou à frente e já se chegou atrás, tem dias - no dia 4 disse que «em princípio» não será candidato;  
  • António Capucho, já se mostrou disponível e para não haver dúvidas declarou que votará no PS
  • Francisco Louçã, o tele-evangelista, não se excluiu 
  • Durão Barroso, nega e talvez seja sincero porque já percebeu o que o esperaria
  • António Guterres, idem 
  • Marcelo Rebelo de Sousa, parece que sim - até porque estar a rezar a todos os seus santinhos para que o Nóvoa não desista - nunca se sabe 
  • Rui Rio admite candidatar-se se houver «muita gente que desejava mesmo e deposita muita confiança em mim», ou seja espera a famosa vaga de fundo
  • Bagão Félix, um socialista do CDS 
  • Carlos César, um socialista do PS 
  • Jaime Gama, um dos socialistas menos socialista do PS 
  • Carvalho da Silva, um dos ex-comunistas mais socialista e outra das reservas de Mário Soares
  • Marinho e Pinto, um cata ventos socialistas ou outros
  • Manuela Ferreira Leite, proposta por Pedro Adão e Silva, um guru de António Costa, como uma candidata do socialismo orgânico de evolução na continuidade 
  • Paulo Morais, proposto por si próprio como um candidato do Norte orgânico alternativo a Rui Rio
  • Maria de Belém, pelo nome é uma espécie de candidata natural e avant la lettre 
  • Luís Amado, mais outro dos socialistas menos socialista, a par de Jaime Gama - ambos, não por acaso, ex-ministros dos Negócios Estrangeiros; até agora nega
  • Helena Roseta, uma socialista natural, ainda na fase do peditório
  • Henrique Neto, um verdadeiro socialista (seja lá o que isso for), até agora talvez o único candidato por boas e confessáveis razões
  • Paulo Freitas do Amaral, já é presidente da junta de freguesia da Cruz Quebrada-Dafundo e quer ser de Belém; foi o último a chegar, é primo do outro e deve ser mais um socialista do CDS
  • Orlando Cruz, uma auto-proclamada figura pública, líder de um artefacto chamado Partido da Esperança Popular que nem sequer está registado
  • Cândido Ferreira, médico e antigo presidente da Federação Distrital de Leiria do PS, vai apresentar a candidatura no dia 25 de Abril, em Febres (belo nome).
Resultado a nove meses das eleições presidenciais: estão ou estiveram a concurso 22 candidaturas quase todas de uma das várias espécies de socialismo.

Para se perceber o porquê da pletora socialista leia-se «O PS e as presidenciais», um artigo de João Marques de Almeida no Observador. Para uma resposta de bolso: Belém é por direito propriedade do PS e, conforme as oportunidades, ora constitui um seguro de vida (de Sócrates por Sampaio), ora uma acção não consumada de despejo (de Cavaco por Soares) ora uma ordem de despejo (de Lopes por Sampaio) do ocupante ilegítimo.

SERVIÇO PÚBLICO: A ciência de causas ao serviço da doutrinação

«A fatal indefinição do estatuto epistemológico das ciências sociais permitiu e incentivou a transformação da Universidade num local de catequização ideológica, de que primeira vítima foi o que classicamente se chamava uma “educação liberal” (Léo Strauss, Liberalism, Ancient & Modern, 1968). Não só: permitiu a livre propagação de todos os desconchavos, com a consequente desfiguração de um curriculum universitário sério e consistente. Hoje em dia, quando se fala apologeticamente de “ciência cidadã” (???); quando se multiplicaram os mandarins académicos que entronizaram o radicalismo, fomentaram a politização do ensino superior e esfacelaram os vestígios de um cânone académico clássico que limitava a arbitrariedade, definia critérios de pertinência e imparcialidade e demarcava excessos de subjectivismo; quando os “estudos culturais”, a “teoria queer”, o “afrocentrismo”, os “estudos de género” e outras extravagâncias sem estatuto disciplinar definido transformaram a Universidade num espaço de militância, subversão e destruição do ethos académico que comandava o ideal da objectividade, da imparcialidade, do rigor intelectual e do saber desinteressado, a própria noção de “ciência” (quanto mais de “verdade”!) acabou ridicularizada, em prol do relativismo cultural, da diversidade identitária e do politicamente correcto.»

Continue a ler «Uma ou duas coisas que Carvalho da Silva devia saber» de Maria de Fátima Bonifácio, no Público, a propósito da manipulação pelo Observatório sobre Crises e Alternativas da taxa de desemprego para a «ajeitar» às teses dos cientistas de causas; manipulação já exposta por João Miguel Tavares.

17/04/2015

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (23) Unintended consequences (IV)

Outras marteladas.

Multiplicam-se os sinais de que as injecções maciças de liquidez pelos bancos centrais, nomeadamente a Fed, o BoE, o BoJ e agora o BCE, estão, entre outros efeitos colaterais, a inchar as bolhas dos mercados imobiliários e de capitais, como já aqui, aqui e aqui referi.

Segundo dados citados pelo Financial Times, globalmente o mercado imobiliário gerou uma rentabilidade de quase 10% no ano passado – a mais alta desde 2007 e a crescer pelo 5.º ano consecutivo - devido à rápida valorização dos imóveis e apesar do rendimento proveniente dos arrendamentos nos EU ser hoje o mais baixo desde 2008. O principal facto de valorização são os yields «excepcionalmente baixos» das obrigações (guess why) que tornam mais atractivo o investimento imobiliário.

Um investidor citado pelo FT, que poderia ser um La Palice das finanças, refere que «people are moving up the risk curve into riskier locations and taking on higher levels of debt and more challenging development activity». Faltou-lhe acrescentar que este «moving up the risk curve» foi exactamente o que antecedeu a crise de 2008, apenas com a diferença que a injecção de liquidez maciça passou da poupança chinesa para os bancos centrais, o que não deve alterar significativamente o desfecho.

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (3)

Continuação de (1) e (2)

aqui escrevi, com a tendência que nos é reconhecida de confundir a nuvem com Juno, conseguiu-se transformar um problema de violação da confidencialidade dos dados fiscais numa discussão sobre existência ou de uma lista de luminárias com o direito a não serem devassados, direito não reconhecido aos restantes contribuintes.

Volto a este tema porque este artigo da Visão é um dos melhores exemplos publicados dessa confusão. Nele o articulista desenvolve teorias da conspiração sobre os putativos criadores da putativa lista, sem por um só momento se interrogar sobre a violação sistemática da confidencialidade fiscal ficando a elucubrar sobre os obstáculos que a tal lista poderia criar a essa violação.

16/04/2015

Conversa fiada (13) - Se a minha avó não tivesses morrido ainda hoje estaria viva

«Se Áustria, Itália, Japão e Portugal conseguissem atingir um crescimento nominal [crescimento real mais inflação] de 4% em 2017, o seu rácio de dívida poderia cair até dez pontos percentuais até 2020», descobriu o Fiscal Monitor de Abril do FMI (citado pelo Negócios) que inclui um contributo do nosso Gaspar escrito no mais refinado economês onde anuncia a criação de mais um coeficiente com um curiosíssimo nome: FISCO (fiscal stabilization coefficient).

ACREDITE SE QUISER: Depois de décadas a promover o aborto e o casamento homossexual e a tentar substituir a família pelo Nanny State…

… era de esperar que quando percebesse que poderá não haver pensões para ninguém (*) dentro de uma geração, a engenharia social que afincadamente avariou os equilíbrios demográficos pretendesse consertá-los com medidas promotoras da natalidade, como agora engenheiros de diferentes escolas estão a tentar fazer.


As melhores propostas para aumentar a natalidade:
  • PS – A meia jornada dos funcionários públicos com filhos ou netos e a redução do horário para 35 horas para todos
  • Verdes – Distribuir gratuitamente tablets aos alunos.
Oremos para que a coisa não acabe com um diktat do Comité Central para a Procriação a determinar um número mínimo de filhos por cada cidadão.

(*) Actualização:
Segundo o secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, «desde 2012, até hoje foram já transferidos [para a Segurança Social] mais de 4,5 mil milhões de euros. No caso da CGA, o cenário é de igual forma preocupante… só em 2015 essas transferências elevam-se em 4,6 mil milhões». Dito isto, já não precisamos de esperar por uma geração porque hoje mesmo o sistema financeiro da Segurança Social já não é auto-sustentável e precisa de ser financiado.

15/04/2015

CASE STUDY: Salário mínimo e desemprego - unintended consequences (2)

Continuação de (1)

Sabendo-se que correlação não é causação e que, por isso, o facto de o aumento do desemprego, sobretudo do desemprego jovem, estar historicamente correlacionado com o aumento do salário mínimo não significa necessariamente uma relação causal, pergunto: não é impressionante o padrão evidenciado no quadro seguinte (roubado de O Insurgente)?


Como é possível, pergunto-me também, resmas de luminárias deste país efabularem sobre o aumento do desemprego, desde Setembro do ano passado quando aumentou o salário mínimo, sem por um momento penetrar nas suas coriáceas meninges a dúvida sobre se uma coisa não contribuiu para a outra? Sobretudo quando se sabe que o impacto desse aumento foi na faixa de salários onde são contratados a maioria dos jovens.

Pro memoria (228) – TAP, uma máquina de destruição de valor

Não vai ser isso que abalará a fé dos tapistas, mas a TAP acrescentou em 2014 mais 79 milhões de prejuízos aos capitais próprios negativos de 373 milhões.

Não sendo novidade, a administração tem mostrado uma louvável imaginação para explicar um facto recorrente sem se repetir. Desta vez foi: «O resultado apresentado pelo grupo situou-se abaixo das expectativas, largamente influenciado pelo impacto das greves na operação, pelo custo associado ao fretamento de aviões e, na vertente dos proveitos, pela redução de ‘yield' [receita média por cliente] no Brasil e na Europa, fenómeno transversal à globalidade da Indústria».

Para mim a explicação é bastante mais simples e está patente nesta radiografia (números de 2013):


Actualização: A Air Europa, um dos interessados na compra da TAP, acaba de anunciar a desistência porque «não é possível gerir ou sanear» uma empresa com um endividamento tão elevado. Lá teremos, nós os sujeitos passivos, de vender o mono aos tapistas. Alguém telefone para o realizador António Pedro Vasconcelos ou outro tapista qualquer para começarem a reunir fundos.

Actualização n.º 2:
Entretanto, os pilotos convocaram uma greve de 10 dias em Maio, que se estima causará prejuízos de dezenas de milhões de euros, com o propósito de garantirem uma participação de 10% a 20% na privatização da TAP. Em vez de lhes oferecer uma participação de 100% numa empresa que segundo o Código das Sociedades Comerciais estaria falida, o governo queixa-se que os pilotos não estão a respeitar o acordo e, lamenta o ministro com melhor imprensa que gostava de poder ser simpático na governação, «os homens de palavra cumprem acordos, que resultaram de um processo de diálogo e de franqueza».

A metalúrgica do regime afunda-se com ele (8)

Actualização de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

Repetindo-me: A Martifer, dos irmãos Martins, em tempos um dos exemplos de sucesso de José Sócrates e uma das meninas dos olhos do jornalismo promocional (uma variante do jornalismo de causas), mesmo depois de ter sido acolhida em 2007 pela Mota-Engil, a construtora mais emblemática do regime, de que foi presidente executivo Jorge Coelho, teve mais 137 milhões de euros de prejuízos em 2014 e está agora a tentar vender 55% da Martifer Solar que contribuiu com metade dos prejuízos do grupo.

Assim continua a purga dos 6 anos do festim socrático.

14/04/2015

De boas intenções está o inferno cheio (28) – A governação simpática

Pires de Lima, o ministro da Economia com melhor imprensa desde dona Maria II, foi dizer a Espanha num fórum empresarial que «não é simpático governar com a intervenção directa dos credores, porque há uma presença permanente que é intrusiva».

Provavelmente Pires de Lima tem razão em pensar que ser simpático é o que os portugueses esperam dos ministros, sobretudo enquanto os credores não têm uma presença permanente intrusiva. Deve ser por isso que é o ministro da Economia com melhor imprensa desde dona Maria II.

Agradeçamos, pois, aos credores que durante 3 anos não deixaram o Dr. Pires Lima e os seus colegas do governo governar de forma simpática.

CASE STUDY: A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer (11)

Outras atracções.



Mais um. Chama-se Orlando Cruz, e é líder de um artefacto chamado Partido da Esperança Popular que nem sequer está registado. Diz que é uma figura pública.

Declaração de interesse a quem possa interessar:
Nenhum dos contribuintes do (Im)pertinências é candidato a inquilino de Belém. Enfim, pelo menos até agora - nunca se sabe se Cristo descerá à terra.

Dúvidas (88) - Costa com «obra feita» em Lisboa. Amanhã em Portugal? (9) - As entradas de leão e saídas de sendeiro de Costa e o momento chinês de Manuel Valls

Outras obras feitas de Costa.

Ao pequeno-almoço de sexta-feira passada, na embaixada francesa, Manuel Valls o primeiro-ministro francês que está a fazer reformas que António Costa costuma chamar neoliberais, disse em português referindo-se a Costa «somos amigos e socialistas». Costa, esquecendo-se do «sinal de mudança» que tinha visto com a vitória do Syriza na Grécia e das suas estratégias confrontacionais, e esquecendo as outras vacuidades que antes também disse sobre a falta de firmeza do governo PSD-CDS para negociar com as «instituições» anteriormente conhecidas por troika, concluiu que «como se tem visto, não é possível construir soluções nacionais de forma unilateral, nem em conflito com a Europa e com as instituições europeias».

Poucas horas depois desse pequeno-almoço, Manuel Valls num encontro no Centro Cultural de Belém promovido pela CIP e a Câmara de Comércio e de Indústria Luso-Francesa fez recordar o momento chinês de Costa na Póvoa do Varzim dizendo:
«O desemprego baixou, as exportações aumentaram, as finanças públicas melhoraram, Portugal beneficia da confiança dos investidores, resultados que advêm das reformas e são claramente fruto dos sacrifícios dos portugueses».

13/04/2015

CASE STUDY: A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer (10)

Outras atracções.


Ponto de situação das inscrições para o concurso de Belém (disclaimer: não há garantias implícitas ou explícitas de que a lista esteja actualizada):
  • António Sampaio da Nóvoa, uma invenção de Mário Soares que ninguém sabe se será ou não apoiado pelo PS - nem o chefe Costa que andou com ele ao colo parece saber
  • Santana Lopes, estava escrito nas estrelas, já se chegou à frente e já se chegou atrás, tem dias - no dia 4 disse que «em princípio» não será candidato;  
  • António Capucho, já se mostrou disponível e para não haver dúvidas declarou que votará no PS
  • Francisco Louçã, o tele-evangelista, não se excluiu 
  • Durão Barroso, nega e talvez seja sincero porque já percebeu o que o esperaria
  • António Guterres, idem 
  • Marcelo Rebelo de Sousa, parece que sim - até porque estar a rezar a todos os seus santinhos para que o Nóvoa não desista - nunca se sabe 
  • Rui Rio admite candidatar-se se houver «muita gente que desejava mesmo e deposita muita confiança em mim», ou seja espera a famosa vaga de fundo
  • Bagão Félix, um socialista do CDS 
  • Carlos César, um socialista do PS 
  • Jaime Gama, um dos socialistas menos socialista do PS 
  • Carvalho da Silva, um dos ex-comunistas mais socialista e outra das reservas de Mário Soares
  • Marinho e Pinto, um cata ventos socialistas ou outros
  • Manuela Ferreira Leite, proposta por Pedro Adão e Silva, um guru de António Costa, como uma candidata do socialismo orgânico de evolução na continuidade 
  • Paulo Morais, proposto por si próprio como um candidato do Norte orgânico alternativo a Rui Rio
  • Maria de Belém, pelo nome é uma espécie de candidata natural e avant la lettre 
  • Luís Amado, mais outro dos socialistas menos socialista, a par de Jaime Gama - ambos, não por acaso, ex-ministros dos Negócios Estrangeiros; até agora nega
  • Helena Roseta, uma socialista natural, ainda na fase do peditório
  • Henrique Neto, um verdadeiro socialista (seja lá o que isso for), até agora talvez o único candidato por boas e confessáveis razões
  • Paulo Freitas do Amaral, já é presidente da junta de freguesia da Cruz Quebrada-Dafundo e quer ser de Belém; foi o último a chegar, é primo do outro e deve ser mais um socialista do CDS.
Resultado a nove meses das eleições presidenciais: estão a concurso 16 candidaturas socialistas, algumas já retiradas - mas nunca se sabe, e 4 outras de quem ainda não fez o coming out.

Porquê 16-candidaturas mais ou menos socialistas-16? Porquê esta obsessão por Belém? Se quiser uma resposta elaborada recomendo a leitura de «O PS e as presidenciais»  um artigo de João Marques de Almeida no Observador.

Se se contentar com uma resposta simplificada (e, contudo, compatível com a elaborada) ei-la: Belém é por direito propriedade do PS e, conforme as oportunidades, ora constitui um seguro de vida (de Sócrates por Sampaio), ora uma acção não consumada de despejo (de Cavaco por Soares) ora uma ordem de despejo (de Lopes por Sampaio) do ocupante ilegítimo.

Lost in translation (235) – Iconografia

Este ícone não foi roubado pelos nazis
O primeiro-ministro grego e líder do Syriza, Tsipras – “o” Alexis para o radical chic – foi à Rússia manifestar o seu repúdio às sanções da União Europeia. O czar Vladimir não lhe emprestou dinheiro e nem mesmo em troca levantou a proibição de importação dos produtos agrícolas gregos.

Porém, Putin teve um gesto bonito ao devolver «o ícone roubado durante três anos pelos nazis alemães (1941 a 1944) [o qual] foi fielmente guardado entre 1944 e 2015 por Estaline, Malenkov, Khrushchev, Brejnev, Andropov, Chernenko, Gorbatchov, Ieltsin, Medvedev até que Tsipras foi eleito na Grécia e finalmente o ícone podia regressar a casa», como aqui recorda Helena Matos, esquecendo de incluir o próprio Putin na lista de fiéis depositários.

12/04/2015

Mitos (193) – Mitologia grega (III)

Outras mitologias gregas (I) e (II)

«O Syriza explorou o filão a que se chama “política do ressentimento”. Existe tanta raiva e insatisfação na Grécia desde a crise que se tornou claro que uma abordagem política populista como a do Syriza e dos seus aliados poderia tirar grande partido desse ressentimento. E foi exatamente isso que aconteceu.

Neste momento, o governo está a sentir as consequências da enorme divergência entre a realidade e o universo paralelo que criaram através da sua retórica, garantindo que “sair da crise seria tão fácil, basta livrarmo-nos destes traidores estrangeiros e a crise acaba e o emprego volta” e outros disparates. Isto está tão longe da realidade que existe um choque muito grande no governo. Não é muito fácil prever como é que esta dissonância cognitiva vai ser resolvida. Uma hipótese é que Alexis Tsipras tente marginalizar a ala mais extremista do seu governo e procurar um caminho mais moderado, talvez formando alianças com forças mais moderadas. Esse é o cenário benigno. O cenário menos benigno é que, perante esta dissonância cognitiva, podem escolher manter-se fiéis à retórica e caminhar para o abismo, ou seja, a saída da zona euro e, provavelmente, da União Europeia também.

Julgo que se nos afastarmos e olharmos para a situação atual de uma perspetiva histórica, constatamos que as forças económicas que poderiam ter apoiado uma iniciativa política moderada e modernizante têm um papel reduzido na sociedade. Vejamos: a maioria das empresas gregas não exporta. Prosperam quando têm relações especiais com o Estado. Não temos uma dinâmica de classe média burguesa que exporta, que poderia insistir em políticas diferentes. Não temos sindicatos que vejam que é do seu interesse que a economia grega obtenha uma maior proporção do seu rendimento com a venda ao exterior, para promover o crescimento de que dependem. Os nossos sindicatos pertencem ao setor público em setores nacionalizados. Estão no centro do problema e do clientelismo e da corrupção. E nós, como políticos progressivos, não temos conseguido ser convincentes e estamos, agora, a pagar o preço. É muito difícil concorrer com o populismo, que promete que os problemas se resolvem em cinco segundos

Excertos da entrevista do Observador a Manos Matsaganis, economista e professor da Athens University of Economics and Business.

ACREDITE SE QUISER: Nem todas as «ogias» são iguais

Do mesmo modo que, como disse em tempos Belmiro de Azevedo, «os empregos nascem em sítios que não estão ao lado de casa», também nascem para profissões para os quais os nossos cursos na maioria das «ogias», das «afias» e de ciências variadas não servem para nada - no caso de dúvida ver a série de posts «CASE STUDY: formação pós-graduada a la bolognesi». Por isso, faltam profissionais nas outras «ogias» para os quais há oferta de emprego, como nas tecnologias de informação onde se prevê faltem 15 mil até 2020.

11/04/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Os jovens eurocépticos

A União Europeia, uma senhora com algum passado, pouco presente e com um futuro incerto.

Fonte: «Young Eurosceptics. Will tomorrow belong to them?», The Economist

10/04/2015

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Cofres meio-cheios ou meio-vazios?

«Os nossos cofres não estão suficientemente cheios para que o PS volte a ser governo» (sic na SIC)

José Pedro Aguiar Branco, ministro da Defesa

Democracia e pena de morte

Não será por acaso que entre os 20 países com maior número de condenações à pena de morte apenas dois (EU e Índia e a Nigéria talvez a caminho) têm um regime democrático e ainda assim só figuram nesse grupo porque as suas populações (320 e 1.250 milhões, respectivamente) são muito superiores às dos outros, com excepção da China, e por isso têm naturalmente mais condenados. Entre os restantes 55 países do ranking da Amnistia Internacional encontramos apenas mais três ou quatro que se podem considerar democracias.

Fonte: Amnistía Internacional via El Mundo (parte de um quadro com 55 países)

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (34) - «Esse estranho lugar onde Le Pen e Louçã se encontram»

«O regresso de um discurso nacionalista radical não é hoje um exclusivo da extrema-direita, é também, e cada vez mais, uma normalidade para a esquerda radical. E não digam que exagero, pois já estamos a assistir a isso mesmo, ao directo e ao vivo, na Grécia. A aliança entre o Syriza e um partido nacionalista da direita radical não nem resultou de um acaso, ainda menos de uma necessidade, resultou de uma real coincidência de objectivos, de retórica e de métodos

A quem não leu, recomenda-se a leitura integral deste artigo de opinião de José Manuel Fernandes no Observador. Ao relê-lo, passadas 2 semanas, ocorre-me que talvez estas proximidades espúrias e imprevistas radiquem no papel central que ambas as correntes atribuem ao Estado como instrumento indispensável para impor ideologias que o jogo democrático em circunstâncias normais nunca consentiria.

09/04/2015

SERVIÇO PÚBLICO: Em intenção da inumeracia dominante nos meios jornalísticos e políticos

«Dívida teima em não descer, mas BCE protege Portugal dos mercados. Dívida pública chegou aos 130,2% do PIB e há risco de nova revisão em alta.» Com estas ou palavras parecidas, o jornalismo de causas teima em não compreender que cada défice tem fatalmente de ser financiado com dívida pública a qual acresce ao stock existente e se o crescimento do PIB nominal for inferior ao rácio do défice, como tem sido, o rácio da dívida pública só pode crescer.

Se àquela condição puramente matemática acrescentarmos as alterações do perímetro das administrações (por exemplo abrangendo certas empresas públicas, como aconteceu nos últimos anos) ou modificação de critérios da contabilidade nacional ou ainda uma reserva de liquidez nos «cofres cheios» de Maria Luís Albuquerque (equivalente a quase 10% do PIB), então fica explicado o mistério do crescimento do rácio de dívida pública.

Uma vez sem exemplo, num gesto de boa vontade em intenção da inumeracia dominante nos meios jornalísticos e políticos, vou explicar a coisa recorrendo à álgebra mais elementar.


Em conclusão, para o rácio da dívida pública diminuir a taxa de crescimento nominal do PIB terá ser superior à taxa de crescimento da dívida pública. Qed.

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (35) - A inclinação dos portugueses pelo «Socialismo de Estado», segundo o Botas citado pelo Ferro

«Esse Socialismo de Estado, que muitos apregoam e aconselham como um regime avançado, seria, na verdade, o sistema ideal para lisonjear o comodismo nato e o delírio burocrático do comum dos portugueses. Nada mais cómodo, mais garantido, mais tranquilo, do que viver à custa do Estado, com a certeza do ordenado ao fim do mês e da reforma no fim da vida, sem a preocupação da ruína ou da falência. O Socialismo de Estado é o regime burguês por excelência [ ... ].O Estado não paga muito mal e paga sempre. É-se desonesto, além disso, com maior segurança, com segura esperança de que ninguém repare. As próprias falências, os desfalques, as irregularidades, se há compadres na governação, são facilmente abafados e os défices cobertos - regalia única! - pelos orçamentos do Estado. As iniciativas, por outro lado, não surgem, não progridem, porque o patrão é imaterial, quase uma imagem. As coisas marcham com lentidão, com indolência, com sono. É possível que essa socialização tenha dado ou possa vir a dar óptimos resultados em qualquer outro país. Entre nós, os resultados não podem ter sido piores nalgumas experiências já feitas.»

António Salazar em entrevista a António Ferro em 1932 (a propósito da evocação de António Ferro na Revista E do Expresso do passado dia 3)

08/04/2015

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (7)

[Outros posts sobre a mesma fábula: 08-08-2010; 28-11-2010;28-11-2012; 08-12-2013; 16-12-2013; 26-12-2013; 17-01-2014; 25-02-2014; 11-03-2014].

Muito a propósito desta série já antiga de posts, não resisto a citar o professor José Ferreira Machado da Nova que ao arrepio da indignação mistificadora de muitos dos nossos «investigadores» escreveu no jornal SOL:

«A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) está sob fogo cerrado por parte de investigadores dos centros de investigação, descontentes com os resultado do último exercício de avaliação de qualidade e concomitante financiamento. É verdade que a FCT cometeu alguns erros (infantis, diria) neste processo. Por exemplo, não se entende porque não apresentar separadamente dois tipos de financiamento com que se havia comprometido: o de base- indexado à dimensão do centro - e o estratégico - reflectindo a sua qualidade. Mas este é um erro de forma ou, na pior das hipóteses, de segunda ordem. No essencial a FCT merece elogios: o exercício de avaliação foi inter• nacional, isento, credível e rigoroso. Ousou cortar o financiamento a alguns centros, e bem.

Quanto muito terá pecado por defeito: em Portugal muito do que se faz em nome da ciência não tem genuína qualidade internacional e o país ganharia se os recursos escassos forem concentrados onde maior impacto podem produzir.»

07/04/2015

Lost in translation (234) – «Ad infinitum» significa o quê exactamente?

Ao princípio era o verbo do programa do Syriza «write-off the greater part of public debt’s nominal value so that it becomes sustainable». Tradução: não pagamos, não pagamos.

Depois de várias involuções, a última versão de Varoufakis para Christine Lagarde é «Greece intends to meet all obligations to all its creditors, ad infinitum».

Parece que os credores ficaram aliviados, mas talvez sem razão. Na verdade «ad infinitum» pode significar «até ao fim» no sentido de integralmente - foi a interpretação optimista ou milagreira, chamemos-lhe assim. Mas até ao fim de quê? Do dinheiro ou das dívidas?

Porém, «ad infinitum» também pode ser traduzido por «without an end or limit» (Merriam-Webster), ou «again and again in the same way; forever» (Oxford) ou «for ever, without ending» (Cambridge) ou «without end; endlessly; to infinity» (Collins). E aqui a coisa vai mais no sentido de «não é para se pagar, é para se ir pagando ... até ao infinito» o que se aproxima perigosamente do «pois, pois, no dia de são nunca à tarde tratamos disso».

Em que ficamos? No lugar dos credores, pediria uma interpretação autorizada ou lá como se diz em juridiquês.

06/04/2015

ARTIGO DEFUNTO: A Alemanha à luz da tudologia

Wolfgang Kemper é um velhote alemão simpático que tive a oportunidade de conhecer brevemente durante um voo para Dusseldorf há uns 20 anos. Vive há 50 anos em Portugal e diz de si próprio «o meu coração e minha alma são portugueses. Contudo, sempre fui e continuo a ser um cidadão alemão». Foi director geral de Hoechst em Portugal e agora, reformado, dirige a Filkemp uma empresa comprada à Hoechst que fabrica e exporta fios de pesca. Já deve ter feito mais pelo país do que toda uma geração de tudólogos.

Kemper resolveu escrever uma carta ao Expresso, citando factos e números indesmentíveis, e protestando contra a parcialidade que um desses tudólogos - Miguel Sousa Tavares – tem mostrado em relação à Alemanha. Dos vários disparates que MST escreveu na sua resposta a Kemper, vou apenas comentar um – perfeitamente evitável – já que Kemper o ajudou a evitá-lo e escreveu na sua carta «dentro da UE, a Grécia recebeu, a valores actuais, verbas trinta vezes mais altas do que a Alemanha no âmbito do Plano Marshall».

Pois bem, apesar disso, MST não desistiu da ladainha e escreveu na sua resposta, entre outras asneiras, «a Alemanha foi ajudada pelo Plano Marshall a reconstruir-se, foi dispensada do esforço financeiro de defesa graças à protecção dos Aliados...»

Se MST tivesse um endereço de correio electrónico enviar-lhe-ia os posts do Pertinente sobre estes mitos na esperança de ele conseguir perceber os dislates que escreve. Se lesse esses posts, MST perceberia (enfim, esperaria eu) que em termos relativos (considerando que a Alemanha Federal tinha no fim da guerra quase 5 vezes a população da Grécia) as ajudas recebidas pela Grécia só no âmbito do Plano Marshall foram menos de 80% das recebidas pela Alemanha. Se a isto adicionarmos a ajudas no âmbito da UE referidas por Kemper então o disparate de MST é completamente inaceitável.

CASE STUDY: A atracção por Belém – Sampaio da Nóvoa, a vingança de Cavaco (9)

«A hora que passa mais se me arreiga esta certeza: Cavaco resolveu vingar-se das desfeitas, das críticas, e dos ódios e inventou o candidato presidencial Sampaio da Nóvoa. Claro que não podia ser um candidato qualquer. E Sampaio da Nóvoa não é um candidato qualquer. É um pleonasmo ambulante.

Conhecedor como ninguém das idiossincrasias da esquerda, que não resiste a uma prosa poética robusta, Cavaco convidou o reitor a discursar no 10 de Junho de 2012. Sampaio da Nóvoa não se fez rogado e foi tiro e queda: avançou pelo palanque e naquela prosa misto de Ary dos Santos e jogos florais com ressonâncias de Manuel Alegre, garantiu que “Chegou o tempo de dar um rumo novo à nossa história”, citou a torto e a direito, nomeadamente José Gomes Ferreira “penso nos outros logo existo” e atirou-se à austeridade

Continue a ler «Isto não está a acontecer», uma teoria da conspiração urdida por Cavaco Silva e revelada por Helena Matos

05/04/2015

CASE STUDY: A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer (8)

Outras atracções.


Da última vez a lista já tinha 17-criaturas-17, sendo que duas delas - Durão Barroso e António Guterres - poderão ter desistido de respirar o mofo de Belém depois de uma década a respirar ares de civilização:
  • António Sampaio da Nóvoa, uma invenção de Mário Soares, pode ser descartado a todo o momento mas ultimamente arrisca-se a ser incontornável
  • Santana Lopes, estava escrito nas estrelas, já se chegou à frente e ao contrário dos outros não esperou pela vaga de fundo - espera que a vaga de fundo vá atrás dele 
  • António Capucho, já se mostrou disponível e para não haver dúvidas declarou que votará no PS
  • Francisco Louçã, o tele-evangelista, não se excluiu 
  • Durão Barroso, nega, mas não resistiria a uma vaga de fundo (ou só talvez mais tarde)
  • António Guterres, diz que está livre 
  • Marcelo Rebelo de Sousa, só será candidato se Cristo descer à terra, mas como já desceu uma vez... 
  • Rui Rio admite candidatar-se se houver «muita gente que desejava mesmo e deposita muita confiança em mim», ou seja espera a famosa vaga de fundo
  • Bagão Félix, um socialista do CDS 
  • Carlos César, um socialista do PS 
  • Jaime Gama, um dos socialistas menos socialista do PS 
  • Carvalho da Silva, um dos ex-comunistas mais socialista e outra das reservas de Mário Soares
  • Marinho e Pinto, um cata ventos socialistas ou outros
  • Manuela Ferreira Leite, proposta por Pedro Adão e Silva, um guru de António Costa, como uma candidata do socialismo orgânico de evolução na continuidade 
  • Paulo Morais, proposto por si próprio como um candidato do Norte orgânico alternativo a Rui Rio
  • Maria de Belém, pelo nome é uma espécie de candidata natural e avant la lettre 
  • Luís Amado, mais outro dos socialistas menos socialista, a par de Jaime Gama - ambos, não por acaso, ex-ministros dos Negócios Estrangeiros.
Desde então surgiram mais duas candidaturas:
  • Helena Roseta, uma socialista natural ainda na fase do peditório
  • Henrique Neto, um verdadeiro socialista (seja lá o que isso for), até agora talvez o único candidato por boas e confessáveis razões.
Resultado a nove meses das eleições presidenciais: estão em gestação 16 candidaturas socialistas, entre verdadeiras, quanto baste e de ocasião, e 3 outras de quem ainda não fez o coming out.

04/04/2015

CASE STUDY: Salário mínimo e desemprego - unintended consequences


Apesar de ter reconhecido há dois anos a respeito do salário mínimo que «quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta, foi isso que a Irlanda fez no início do seu programa…», Passos Coelho não resistiu ao apelo das eleições, não obstante 3 anos antes ter dito «que se lixem as eleições», e aceitou o aumento de 485 para 505 euros desde Outubro do ano passado.

Não por acaso, desde então, o desemprego, que até aí vinha a descer gradualmente e atingiu o mínimo em Setembro, iniciou uma subida em Outubro e há agora mais 32 mil desempregados do que em Setembro. Mesmo que não se acredite que exista uma relação causal automática entre o aumento do salário mínimo e o aumento do desemprego – é o meu caso, que acredito isso depender de imensas coisas, a começar pela percentagem de trabalhadores abrangidos e pela relação entre salário mínimo e salário médio - neste caso concreto aquela percentagem e esta relação, bem como a fragilidade da recuperação da economia, indiciam que muito provavelmente o aumento de um impulsionou o aumento de outro.

ESTADO DE SÍTIO: «A bolsa VIP do fisco» (2)

Continuação de (1).

Com a tendência que nos é reconhecida de confundir a nuvem com Juno, conseguiu-se transformar um problema de violação da confidencialidade dos dados fiscais numa discussão sobre existência ou de uma lista de luminárias com o direito a não serem devassados, direito não reconhecido aos restantes contribuintes.

Evidentemente que os políticos da oposição e os jornalistas de causas – duas corporações frequentemente indistinguíveis – e ainda os sindicalistas das finanças não embarcaram nesta confusão por engano. As duas primeiras corporações visaram entalar o governo que segundo a tese em vigor pretenderia esconder do escrutínio público a sua fiscalidade duvidosa. A terceira corporação pretendia algo ainda menos confessável: evitar ela própria ser escrutinada pela violação sistemática da confidencialidade fiscal por razões de «curiosidade» ou outras não especificadas.

O que nos revela o relatório da Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgado na terça-feira é digno de um Estado Policial. Quase 10 mil funcionários têm acesso aos dados de qualquer contribuinte sob qualquer pretexto. Estagiários, tarefeiros, pessoal das empresas prestadoras de serviços têm igualmente acesso. No total 12 mil olheiros perscrutam os nossos dados fiscais. Sem surpresa, Passos Coelho foi o alvo preferido com 137 acessos aos seus dados por 41 olheiros diferentes. Não há notícia de acessos aos dados de Sócrates ou Costa.

Não é preciso ser-se um profeta para antecipar que passada esta tempestade mediática o business volta ao as usual e muito provavelmente tudo permanecerá na mesma até ao próximo escândalo.

03/04/2015

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.


José Silva Lopes, economista que defendeu sempre o que julgava certo, embora muitas vezes errado, como aqui nos tempos iniciais da intervenção da troika, até perceber que sendo nossa a doença teríamos de ser nós a engolir a poção e a pagá-la.