Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/07/2014

BREIQUINGUE NIUZ: Estiveram à espera de quê?

O BdeP anunciou ontem a «suspensão, com efeitos imediatos, dos membros dos órgãos de administração com os pelouros de auditoria, compliance e gestão de riscos, bem como os titulares do órgão de fiscalização». Já ontem era tarde, diz o povo.

Enquanto isso, a Espírito Santo Financial Group (ESFG) que detém as participações no BES e na Tranquilidade contratou como assessores de imagem a Brunswick, uma multinacional de lobbying. Perder o dinheiro sim, mas não a face.

Pro memoria (186) – O partido invisível visto por António José Seguro. Se ele o vê…

"Há, em Portugal, um partido invisível, que tem secções sobretudo nos partidos de Governo, que capturou partes do Estado, que tem um aparelho legislativo paralelo através dos grandes escritórios de advogados e influencia ou comanda os destinos do País."

"A esquerda precisa de mostrar que é rigorosa com a despesa e as finanças públicas. E Costa está a dar um espaço enorme para a direita dizer que os socialistas são irresponsáveis."

"Muita gente, logo no início, disse: "com o Costa é que a gente lá chega". Não interessam o projeto, as ideias, o que as pessoas fizeram durante três anos, a disponibilidade...Para algumas pessoas, no interior do PS, interessa é aquele que dá poder e o distribui."

"Gostaria que toda a verdade [no caso BES] viesse ao de cima. Doa a quem doer. Se isso acontecesse, o tal partido invisível seria...mais visível. Não podemos ter um País de meias-tintas, meias-verdades, de "uma mão lava a outra". Isso adensa o clima de podridão. Não seremos o centrão político nem o centrão dos negócios".

Excerto da entrevista da Visão a António José Seguro

¿Por qué no te callas? (13) – Depois de 10 anos em Bruxelas parece um ministro da I República a anunciar aos conterrâneos dinheiro para um pelourinho

«Durão Barroso diz que os 26 mil milhões de euros de apoio que serão atribuídos até 2020 constituem "uma pipa de massa", que deve calar "aqueles que dizem que a União Europeia não é solidária com Portugal".» (Expresso)

ARTIGO DEFUNTO: Afinal reduzir o desemprego é tão simples

Bastará prolongar os estudos. É o que descobriu o DN que benevolentemente nos revela num artigo com um título que é um achado: «Fim dos estudos é o motivo que mais sobe no desemprego do IEFP». Ficamos a saber que «ao longo do primeiro semestre, os centros públicos de emprego anotaram mais de 27 mil idas de ex-alunos ou formandos aos serviços, que culminaram na classificação dessas pessoas como "desempregadas"».

Espera-se que o candidato a candidato a líder do Partido Socialista e futuro primeiro-ministro em estágio na CML tome a devida nota e ataque o problema logo depois de resolver o problema prioritário da cultura.

30/07/2014

Pro memoria (185) – A engenharia das obras camarárias é financeira

Uma auditoria realizada pela PwC às contas da câmara de Braga de 2012 e até Outubro 2013, sob a gestão de Mesquita Machado, um dos dinossáurios autárquicos do PS, verificou que faltava contabilizar 111 milhões de euros de passivos, as despesas de manutenção do estádio de Braga multiplicaram-se pelo rácio de derrapagem 5 (também conhecido como multiplicador socialista), entre outras trapalhadas. A mais divertida de todas essas trapalhadas será a doação pela câmara de lugares de estacionamentos comprados à Bragaparques ao Sporting de Braga e a um outro clubelho local, lugares que estes clubes venderam à… Bragaparques por 70 mil euros. (Negócios e ionline)

ACREDITE SE QUISER: Fim do Ramadão, 28-07-2014, 08:30

Belleville, Paris? Largo do Martim Moniz, Lisboa.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O patriotismo é um poderoso factor de motivação no futebol mundial


A equipa francesa:
  • Patrice Evra, nasceu no Senegal, pai originário de Cabo Verde 
  • Mamadou Sakho, pais originários do Senegal 
  • Yohan Cabaye, avô de origem vietnamita 
  • Mathieu Valbuena, pai de origem espanhola 
  • Karim Benzema, avós de origem argelina 
  • Rio Mavuba, nascido em Angola 
  • Eliaquim Mangala, avós originários da RD Congo, cidadania belga 
  • Blaise Matuidi, pais oriundos de Angola e RD Congo 
  • Bacary Sagna, avô do Senegal 
  • Moussa Sissoko, pais originários do Mali 
  • Paul Pogba, pais da Guiné 
  • Laurent Koscielny, avós da Polónia 
  • Rémy Cabella, pai de Itália 
E agora a equipa da Argélia :
  • Cédric Si Mohamed, nascido em França 
  • Madjid Bougherra, nascido em França 
  • Faouzi Ghoulam, nascido em França 
  • Carl Medjani, nascido em França 
  • Hassan Yebda, nascido em França 
  • Nabil Ghilas, nascido em França 
  • Sofiane Feghouli, nascido em França 
  • Yacine Brahimi, nascido em França 
  • Medhi Lacen, nascido em França 
  • Nabil Bentaleb, nascido em França 
  • Liassine Cadamuro-Bentaïba, nascido em França 
  • Saphir Taïder, nascido em França 
  • Aïssa Mandi, nascido em França 
  • Riyad Mahrez, nascido em França 
  • Mehdi Mostefa, nascido em França 
  • Raïs M'Bolhi, nascido em França 
Enviado por JARF, nascido em Portugal.

29/07/2014

Pro memoria (184) – a nacionalização do BPN não custou nada e o nada vai já em 4,5 6,5 7 mil milhões (VIII)

Posts anteriores (I), (II), (III), (IV), (V), (VI) e (VII)

Teixeira dos Santos, co-autor com José Sócrates do desastre da nacionalização de um banco que valia 2% do mercado, ainda em 2012, decorridos 4 anos da sua decisão fatídica, justificava a inevitabilidade da sua decisão porque a falência do BNP, segundo ele, levaria à quebra do PIB em 4%.

Vamos esquecer que, para quem a nacionalização não custaria nada aos contribuintes e veio a custar 7 mil milhões and counting, a sua previsão de queda do PIB de 4% vale o que vale, isto é nada. Vamos apenas, com a ajuda do «Com jornalismo assim, quem precisa de censura?...», recordar que o mesmo Teixeira dos Santos face à bomba potencial que representa o BES, maior banco português, diz esta coisa assombrosa: “claro que isto é um caso que está devidamente confinado, que não há riscos de contágio, [deve-se] garantir que "a solução do caso é estritamente privada, isto é, que não haverá intervenção de dinheiros públicos".

Um módico de pudor levaria esta gente a imitar o mítico Conrado e guardar um prudente silêncio. Mas, conceda-se, não há razão para a criatura ficar calada se o seu chefe José Sócrates perora todos os domingos num púlpito pago pelos contribuintes a defender a sua obra – a bancarrota do Estado, com alguma ajuda dos seus antecessores, conceda-se também.

Chávez & Chávez, Sucessores (23) – Poderia ser uma piada do dia das mentiras, mas não é (II)


A imagem refere-se à primeira aparição no dia 1 de Abril do ano passado. Um ano decorrido, Nicolás Maduro jurou outra vez que o pajarito apareceu garantindo que o coronel «está feliz e cheio de amor pela lealdade do seu povo».

Nestas alturas, recordo Albert Einstein que garantiu que havia pelo menos duas coisas infinitas no universo: o próprio universo e a estupidez humana. Contudo, quanto ao primeiro, não tinha a certeza.

28/07/2014

Lost in translation (209) – O efeito Lockheed TriStar nos submarinos, queriam eles dizer

Sob o surpreendente título de «Submarinos permitem investimentos em eólicas», o Expresso noticia que em resultado das contrapartidas negociadas com o consórcio alemão GSC pela aquisição de dois submarinos - que nos faziam tanta falta como as pirâmides de Gizé no Terreiro do Paço - a Ferrostaal que fabricou os submarinos participará em 50% no consórcio Ventinveste para construir quatro novos parques eólicos que nos permitirão oferecer a Espanha energia eléctrica de borla e nos obrigarão a construir mais barragens para armazenar a energia em excesso e a pagar mais custos de compensação às centrais térmicas para produzirem energia quando não há vento.

O título adequado seria «Submarinos obrigam investimentos em eólicas». É o efeito Lockheed em todo o seu esplendor.

ACTUALIZAÇÃO:

«O ex-ministro da Economia Álvaro Santos Pereira assumiu hoje, no parlamento, que as contrapartidas negociadas pelos vários governos em nome do Estado português na compra de equipamento militar eram "imaginárias", devido ao seu grau de incumprimento generalizado.
O antigo membro do atual Governo da maioria PSD/CDS-PP admitiu ainda, durante o inquérito parlamentar, em sede de comissão, ter sido aconselhado a "não mexer no dossiê" por se tratar de um assunto com um grande "passivo reputacional".
"O modelo das contrapartidas foi desenvolvido para convencer a opinião pública de que a compra de material militar era neutra", justificou, classificando-as de "imaginárias"

(Fonte: Lusa, via MSN Notícias)

DIÁRIO DE BORDO: Criaturas bizarras (2)

Lucernaria quadricornis; podem ter várias cores: branco, verde leitoso, rosa ou salpicada.
Vivem no Mar Branco, Rússia (Fonte: flickr)

27/07/2014

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O culto do status e a falta de gosto pela iniciativa e pelo risco dos Donos Disto Tudo e Disto Tudo

«Não por acaso, a palavra “indivíduo" é quase um insulto em Portugal, "ali vai o indivíduo", "aquele indivíduo tem a mania que é esperto". Também não é por acaso que os Espírito Santo não são conhecidos pelo risco aplicado em novas indústrias. Não são empresários, não são homens livres no sentido clássico e liberal do termo. São, isso sim, membros da corte. Para quê arriscar na economia real quando se pode fazer uma PPP com o Dr. Paulo Campos?

Quando se lê as memórias da geração anterior (Alçada Baptista, Filomena Mónica) percebe-se que o tal "empreendedorismo" sempre foi o anátema desta velha direita. Criar riqueza com projetos novos não fazia sentido. O jovem de boas famílias só tinha de "viver dos rendimentos". Até podia ser médico ou advogado, mas só por lazer. O pai de Alçada, por exemplo, nunca cobrou dinheiro pelo seu trabalho como médico. Viver dos juros e das rendas era o modo de vida dos grandes. Os rendeiros que empreendessem. Os pobres que empreendessem, sujar as mãos na realidade e na produção de riqueza não era próprio das grandes famílias. A propósito, diga- se que os empreendedores eram vistos como inimigos, porque abanavam a sociedade e colocavam em causa as relações de poder entre os senhores e os humildes que se desbarretavam. Os Espírito Santo ainda são herdeiros desta glorificação da inércia social. Ao contrário do velho Champalimaud, não gostam de fazer coisas, não gostam da trepidação da fábrica ou do cheiro estrumado da herdade. Este desprezo pela produção de riqueza diz muito sobre o nosso "capitalismo" e sobre as nossas grandes famílias.
»

Henrique Raposo, «A redenção dos Espírito Santo», Expresso

ESTÓRIA E MORAL: The Morality of Dishonesty

A few years ago robbers entered a bank in a small town. One of them shouted: "Don't move! The money belongs to the bank. Your lives belong to you.” Immediately all the people in the bank laid on the floor quietly and without panic. This is an example of how the correct wording of a sentence can make everyone change their view of the world. One woman lay on the floor in a provocative manner. The robber approached her saying, "Ma'am, this is a robbery not a rape. Please behave accordingly." 

This is an example of how to behave professionally, and focus on the goal.

While running from the bank the youngest robber (who had a college degree) said to the oldest robber (who had barely finished elementary school): "Hey, maybe we should count how much we stole.?" The older man replied: "Don’t be stupid. It's a lot of money so let's wait for the news on TV to find out how much money was taken from the bank." 


This is an example of how life experience is more important than a degree.

After the robbery, the manager of the bank said to his accountant: "Let's call the cops and tell them how much has been stolen."

"Wait”, said the Accountant, "before we do that, let's add the 800,000 dollars we took for ourselves a few months ago and just say that it was stolen as part of today’s robbery." 


This is an example of taking advantage of an opportunity.

The following day it was reported in the news that the bank was robbed of 3 million dollars.

The robbers counted the money, but they found only 1 million dollars so they started to grumble. "We risked our lives for 1 million dollars, while the bank's management robbed two million dollars without blinking? Maybe its better to learn how to work the system, instead of being a simple robber." 


This is an example of how knowledge can be more useful than power.

Moral: Give a person a gun, and he can rob a bank. Give a person a bank, and he can rob everyone.

26/07/2014

DIÁRIO DE BORDO: Criaturas bizarras (1)

Chaetopterus cautus, um verme dos mares do Japão e da Rússia (Fonte: flickr)

25/07/2014

SERVIÇO PÚBLICO: É possível a paz em Israel?

Uma conversa inteligente e informada de Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, moderada por José Manuel Fernandes, no Observador, sobre o conflito entre as facções armadas palestinas e o Estado de Israel.

Pro memoria (183) – O défice estrutural de memória das luminárias nacionais (IV)

Continuação de (I), (II), (III) e aqui.

Teixeira dos Santos, ministro das Finanças durante 6 anos de dois governos de José Sócrates, e nessa qualidade um dos maiores responsáveis pela bancarrota que esses governos nos deixaram, bancarrota que tornou inevitável a venda maciça de activos públicos e privados e a consequente e inevitável alienação do poder de decisão, fez algumas perguntas às quais ele seria um dos mais qualificados para responder:

«E os grandes grupos de referência nacional, que se reconstituíram com as privatizações e foram grandes grupos no passado, perguntem e respondam a vós próprios: onde é que eles estão, o que é que lhes aconteceu?»

«Eles a pouco e pouco foram-se esfumando. O que é feito de Champalimaud? Os Mello ainda estão na Brisa mas tiveram de reconfigurar. O Espírito Santo é o que estamos a ver. Reparem que todos esses grandes grupos de referência, que eram os tais centros de decisão e de capitais nacionais, de facto estão a mostrar grandes debilidades em poderem financiar e capitalizar o país.»

24/07/2014

Estado empreendedor (87) - o aeroporto que só abre abria aos domingos (7)

[Continuação de outras aterragens: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui]


Finalmente o aeroporto de Beja está próximo de cumprir o seu destino: «unidade de desmantelamento de aviões».

Parece mal ser o próprio a realçar as suas capacidades preditivas, mas o certo é que há 5 anos escrevo sobre este paradigma da economia socialista e há 3 anos ilustro os posts com a imagem aqui ao lado.

Dúvidas (46) – Só se toca nos intocáveis, quando perdem o estatuto?

Como explicar que num caso como a Operação Monte Branco que está a ser «investigado» há 2 anos, no qual Ricardo Salgado já foi ouvido várias vezes como testemunha, só agora a PGR se tenha lembrado de o mandar deter para ser ouvido como arguido?

Pode haver várias explicações, mas infelizmente a mais provável é a pior de todas: a justiça portuguesa só toca nos intocáveis quando eles perdem o estatuto. Há um ditado português que caracteriza muito bem esta cobardia atávica: quando um cão é raivoso todos lhe atiram pedras.

«Tinha mais graça ter alguns confrontos com o Dr. Ricardo Salgado quando vocês achavam que ele era dono disto tudo», disse contra a corrente Fernando Ulrich. É coisa de líder. Os carneiros bajulam os poderosos e quando estes caiem são os primeiros a apontar-lhes o dedo.

DIÁRIO DE BORDO: O caso GES parece estar semeado de «unknown unknowns»

«Reports that say that something hasn’t happened are always interesting to me, because as we know, there are known knowns; there are things that we know that we know. We also know there are known unknowns; that is to say we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns, the ones we don’t know we don’t know

Donald Rumsfeld, secretário da Defesa de Bush, o Tóxico, a propósito de os relatórios sobre as WMD não evidenciarem uma ligação com os terroristas

23/07/2014

Pro memoria (182) – O bloco central das trapalhadas

Recordam-se do caso de Maria de Lurdes Rodrigues? A ex-ministra da Educação do primeiro governo de José Sócrates que contratou de 2005 a 2007 João Pedroso, advogado, dirigente do PS, irmão de Paulo Pedroso o ex-ministro do Trabalho de Guterres. Contratou-o duas vezes para fazer o mesmo manual de direito da Educação, nunca acabado, e pagou pela segunda vez uma tença mensal de 20 mil euros mensais, mais de 13 vezes superior à primeira. O caso está agora a ser julgado e o Ministério Público pediu a condenação … com pena suspensa. Business as usual.

Pois bem, temos agora um caso comparável, desta vez de «seleção, eliminação e inventariação das fontes documentais existentes nos Governos Civis» objecto de um contrato de 2,5 milhões de euros com «Fernando Sousa, antigo colaborador de Pedro Passos Coelho na Tecnoforma, empresa em que o atual primeiro-ministro foi consultor». (DN)

22/07/2014

Colocando em perspectiva a intervenção israelita em Gaza

Segundo parece, da intervenção em Gaza, na sequência de mais de um milhar de mísseis do Hamas terem sido disparados contra cidades de Israel, já resultaram quase 600 mortos. Quase o mesmo número que resultou dos combates entre Hamas e Fatah, depois da vitória eleitoral da primeira sobre a segunda em 2006.

Em qualquer caso, será sempre mais fácil para as facções palestinianas em luta fratricida encontraram os alvos militares sistemática e deliberadamente escondidos em zonas habitacionais e hospitais, do que para os israelitas. Não espanta por isso que as vítimas civis dos ataques israelitas sejam mais numerosas.

Para citar Rui Ramos, num artigo cuja leitura é recomendável, «se não vemos tudo aquilo de que o regime intolerante e misógino do Hamas é capaz, é apenas porque não tem os recursos de Israel. Se tivesse, Israel já não existiria.»

É claro que tudo isso não afecta os direitos do povo palestino e do povo israelita a um Estado próprio, não legitima a ocupação de colonatos pelos israelitas e ainda menos legitima o terrorismo do Hamas.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Os ricos não têm dinheiro suficiente para pagar a crise

Lido no Expresso (aqui):

«[…] soubemos recentemente que uma parte significativa da riqueza do país está nas mãos de apenas 1% da população. Aponta-se para uma concentração de cerca de 25% da riqueza nacional, nos ditos 1%, qualquer coisa como 41.250 milhões de euros, com um PIB de 165 mil milhões de euros.»

Vou passar por cima do «recentemente» e do facto da frase, tal como está escrita, confundir fluxo com stock, riqueza com produto.

Um quadro sobre a repartição das remunerações médias mensais pelos escalões mais altos mostra os dados seguintes:


Vamos a umas contas.

Considerando que existem em Portugal 10.406.967 habitantes (Pordata) e que a família média portuguesa é composta por 2,6 pessoas (INE), existem 4.002.680 famílias.

O último escalão do quadro (99,9999%) corresponde a 4 famílias a ganharem (em 2009) € 173.155 por mês. Ou seja, esses sacanas custam ao país € 701.089 por mês em salários que de certeza não merecem pois sabemos que só quem ganha € 500 por mês merece um salário. A minha sugestão é mandar o bando dos 4 para Ekaterinenburg num comboio de gado e fuzilá-los. Dividiríamos depois a fortuna que eles roubam pelas 4.002.676 restantes famílias. Distribuiríamos assim 18 cêntimos por mês a cada família.

Bem, se calhar não é exactamente o que eu esperava. Vamos então alargar o leque para os 99,9%. Ou seja vamos considerar que os 0,1% das famílias que ganham mais (€ 9,768 em 2009, cerca de € 4.500 líquidos por mês, um insulto) mereceriam umas férias forçadas em Ekaterinenburg com direito a enterro grátis. Aí sim, já resolvíamos tudo. As restantes 3.998.677 famílias passariam receber mais € 9,78 por mês.

Faríamos quase 4 milhões de famílias felizes, expurgaríamos a nossa sociedade de 4.000 famílias parasitas e o país daria um passo em direcção à igualdade.

Por que é que não percebem que o problema da nossa pequeneza não está nos escalões à direita, mas sim nos míseros € 165.000.000.000?

AB.

21/07/2014

ESTADO DE SÍTIO: «Um dilúvio de palavras num deserto de ideias»


Se em vez de um jornalismo de causas dominante, tivéssemos um jornalismo profissional e independente, se o PS tivesse, em vez de gente ansiosa por uma sinecura, militantes e simpatizantes medianamente inteligentes e razoavelmente autónomos, se Portugal tivesse, em vez do peso desmesurado de analfabetos funcionais, uma opinião pública esclarecida:
  1. A entrevista do Público a António Costa de ontem teria sido uma certidão de óbito e não um manifesto eleitoral recheado de lugares comuns e de contradições - «um dilúvio de palavras num deserto de ideias»; 
  2. Os socialistas começariam já a procurar um líder alternativo ao secretário-geral eleito e ao putativo secretário-geral ungido por Mário Soares, os artistas, a «intelligentsia» corporativa e as câmaras-de-eco do regime;
  3. António Costa teria perdido com aquela entrevista quaisquer hipóteses de vir a ser primeiro-ministro.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O berloquismo que restará depois da emigração para PS

« O ódio aos ricos? Os líderes de Gaza passeiam-se em aviões de luxo e apascentam fortunas em contas offshore. Os direitos LGBT? Em Gaza a homossexualidade é punida por lei e os seus praticantes fogem da tortura rumo a uma certa nação vizinha. A igualdade de género? A islamização do território reduz as mulheres a um pechisbeque silencioso e reprodutivo. A violência doméstica? Calcula-se que mais de metade das mulheres locais sejam espancadas pelos maridos pelo menos uma vez por ano - tradicional e recatadamente. E há as restrições às artes e à internet. O racismo oficial. A imposição violenta da "virtude". As conversões forçadas de cristãos. E, numa prática que o BE lamentará não se usar por cá, o fuzilamento de dissidentes. 

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público.»

Sob o verniz da trupe burlesca e as mesuras progressistas para consumo dos simples, o BE, o que parte e o que resta, é essencialmente isto: criaturas avessas à democracia que usam o sistema democrático para ganhar a vida. Darmo-nos ao trabalho de as distinguir é tão inútil quanto perguntar-lhes porque é que a indignação que Gaza lhes suscita não se estende à Síria ou ao Egipto. Ou porque é que só nas recentes implosões eleitorais descobriram intolerante um partido que nunca foi outra coisa. Ou porque é que, em suma, se confere relevância pública a declarados ou dissimulados inimigos do público
»

Alberto Gonçalves na sua crónica no DN

Dúvidas (45) – Pergunta retórica de João Galamba

«Como é possível que o caso Espírito Santo tenha surgido depois de três anos de troika?», pergunta retoricamente o jovem turco socratista João Galamba no seu manifesto no Económico.

É uma boa pergunta, à qual poderia adicionar outras mais pertinentes a respeito do mesmo e de outros casos, tais como:

  • Como foi possível o caso Espírito Santo depois de um mandato de Vítor Constâncio de 9 anos até 2009? 
  • Como foi possível o caso Espírito Santo depois de Teixeira dos Santos ter garantido durante 6 anos o estado de saúde da banca portuguesa? 
  • Como foi possível a nacionalização do BPN - que Galamba sorrateiramente tenta subtrair das responsabilidades da dupla Sócrates-Teixeira dos Santos - que era para não custar nada e o nada vai já em 7 mil milhões?

20/07/2014

Lost in translation (208) - «viveza criolla» em argentino é esperteza saloia

A Economist estabeleceu um paralelo entre as atitudes do jogador uruguaio Luiz Suárez que mordeu um italiano durante o jogo Uruguai-Itália e a do seu presidente José Mujica que a desculpou como uma brincadeira infantil, por um lado, e, por outro, as práticas políticas dos seus vizinhos argentinos que chamam a estas atitudes «viveza criolla» - o equivalente à nossa esperteza saloia.

«In colluding with Mr Suárez’s violation of the laws of football, the often sensible Mr Mujica was indulging in a practice that is far more common across the River Plate in Argentina than it is in law-abiding Uruguay: the exercise of a kind of teenage narcissism in which it is fine to break rules you don’t like, in the belief that you will get away with it. And if you don’t, well, it’s unfair because the world is against you. There is an Argentine term that captures at least part of this mindset: viveza criolla, or “native cunning”.

Viveza criolla has been a hallmark of Argentine economic policy under both President Cristina Fernández de Kirchner and her late husband and predecessor, Néstor Kirchner. The notion that Argentina could play by its own rules, rather than by those of economics or the rest of the world, was symbolised in the government’s denial of the inflationary impact of its expansionary policies by fiddling the consumer-price index. Meanwhile, the Kirchners heaped blame on the IMF for all the country’s problems

Ler o resto do artigo aqui.

TRIVIALIDADES: A Deutschland Mannschaft não deu só 7 ao Brasil…

... também deu um campo de futebol a Santa Cruz Cabrália na Baía e uma ambulância para os índios.

19/07/2014

Mitos (174) – Os citadinos são mais felizes, particularmente os de grandes cidades e, entre eles, os nova-iorquinos

Segundo tudo indica, esta é mais uma lenda desmentida pelos factos - ao menos nos EU. Segundo um estudo de Edward Glaeser, Joshua Gottlieb e Oren Ziv, os habitantes de NY são os mais infelizes à frente de todas cidades e as 5 cidades mais felizes com Lafayette à cabeça situam-se na Louisiana. Sem surpresa encontramos também Detroit no grupo das 10 menos felizes. Entre a infelizes encontramos ainda S. Francisco, Las Vegas, Los Angeles, Filadélfia, Boston, Seattle e Chicago, poe exemplo.

Como se pode visualizar no mapa seguinte, os estados mais felizes são os do interior de predominância rural e os mais infelizes são os mais urbanizados e, outro mito, a Califórnia não é exactamente o paraíso na terra a este respeito.

Fonte: WSJ


Votar Obama tornará os eleitores infelizes ou os eleitores infelizes preferem Obama?


Fonte: PoliticalMaps.org



18/07/2014

CASE STUDY: Um minotauro espera a PT no labirinto da Oi (13)

[Outras esperas do minotauro: (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12)]

Como repetidamente se escreveu no (Im)pertinências, a venda da Vivo em troca da parceria com a Oi foi um desastre para a PT e para o país. Foi o desastre que já se viu, o desastre que se está a ver e o que ainda se há-de ver.

Se quisermos um indicador das proporções do desastre que já se viu para a PT basta comparar a capitalização bolsista por alturas da OPA da Sonae – inviabilizada pela associação espúria entre o governo socialista de José Sócrates e o GES – e a actual. Pelo caminho ficaram quase 10 mil milhões de euros ou mais de 80% do valor da PT há 6 anos.

O desastre que se está a ver é apenas a continuação por outros meios das consequências da instrumentalização da PT pelo GES: compra pelo menos desde 2012 de papel comercial de empresas para adiar o reconhecimento da falência de empresas tecnicamente falidas do GES no valor de milhares de milhões de euros. Consequências que a Oi e os interesses igualmente espúrios que nela se acoitam não hesitaram em aproveitar para forçar a renegociação da participação da PT na CorpCo que resultará da fusão, a qual foi reduzida de 38% para 25,6%.

Às famílias do GES, e em especial a Ricardo Salgado, temos assim de imputar não apenas as responsabilidades pela falência do seu grupo, pelos danos reputacionais ao BES, pelo agravamento dos riscos do sistema financeiro português, pelos danos à economia portuguesa, mas ainda em particular pelos danos causados ao valor e à reputação da que em tempos terá sido a empresa portuguesa mais internacional e mais prestigiada.

E temos igualmente de imputar responsabilidades aos múltiplos factótuns que serviram os interesses do GES e muito em particular a Francisco Granadeiro com os seus despachos das quartas-feiras no gabinete de Ricardo Salgado.

17/07/2014

Lost in translation (207) – «Não corporativo», disse ela

Os advogados manifestaram-se à frente do parlamento protestando contra a reforma judiciária e o fecho de tribunais. A bastonária que recebeu o bastão do Dr. Marinho e Pinto infligiu a seguinte bastonada ao jornalista de causas do Expresso «foi o maior protesto de cidadania não corporativo de que tenho memória».

É interessante verificar, mais uma vez, que as corporações se travestem de associações cívicas  lutando por causas nobres e objectivos generosos para disfarçar a defesa dos seus interesses corporativos: os médicos juram lutar pelo SNS e os advogados pelo que chamam o «acesso à justiça» que consistiria em polvilhar com tribunais (e, claro, gabinetes de advogados) as mais remotas e desabitadas freguesias do país.

16/07/2014

ESTADO DE SÍTIO: O putativo substituto faz o ponto da situação

Vale a pena ler a entrevista ao Público de Fernando Medina para se perceber como António Costa se esteve a preparar na presidência da Câmara de Lisboa para primeiro-ministro. Alguns excertos como appetiser:

"a alienação de activos será a estratégia prioritária para dar resposta à questão da dívida e para “tentar reganhar capacidade de investimento”.

"a situação financeira ... é sólida, mas comporta riscos, elementos futuros que têm de ser geridos e acautelados”.

"neste momento o serviço da dívida tem riscos de subida" a alienação de activos é “a forma de mais rapidamente de se gerir a situação da dívida”, pelo que será a estratégia a adoptar o passivo da câmara aumentou de 2012 para 2013. “É inequívoco que contabilisticamente aumentou. É verdade que invertemos o ciclo da descida”.

14/07/2014

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Chega de malandragem

"Isso representa mais que um simples jogo! Representa a vitória da competência sobre a malandragem! Serve de exemplo para gerações de crianças que saberão que para vencer na vida tem-se que ralar, treinar, estudar!

Acabar com essa história de jeitinho malandro do brasileiro, que ganha jogo com seu gingado, ganha dinheiro sem ser suado, vira presidente sem ter estudado!

O grande legado desta copa é o exemplo para gerações do futuro! Que um país é feito por uma população honesta, trabalhadora, e não por uma população transformada em parasita por um governo que nos ensina a receber o alimento na boca e não a lutar para obtê-lo!

A Alemanha ganha com maestria e merecimento! Que nos sirva de lição! Pátria amada Brasil tem que ser amada todos os dias, no nosso trabalho, no nosso estudo, na nossa honestidade!

Amar a pátria em um jogo de futebol e no outro dia roubar o país num ato de corrupção, seja ele qual for, furando uma fila, sonegando impostos, matando, roubando! Que amor à pátria é este! Já chega!

O Brasil cansou de ser traído por seu próprio povo! Que sirva de lição para que nos agigantemos para construirmos um país melhor! Educar nossos filhos pra uma geração de vergonha!

Uma verdadeira nação que se orgulha de seu povo, e não só de seu futebol."


Jô Soares

12/07/2014

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: A queda do GES é uma medida de higiene pública

«Já basta. Basta mesmo. Basta de uma vez por todas.

Na verdade, a escolha não é de todo o país. É de poucos homens. Um deles é Pedro Passos Coelho, que tem resistido a todas as pressões. Está a correr um risco enorme, como aliás Carlos Costa. Se o BES for intervencionado, ambos serão fritos, torrados e assados em cinco minutos. Mas se superarem a crise, Portugal terá tido a maior transformação da economia em décadas. Não foi a troika. Nem a palhaçada da reforma do Estado, a lei laboral ou a das rendas ou qualquer outra das falhadas reformas estruturais. Mas a queda do Grupo Espírito Santo e da aristocracia satélite.

A família já não interessa nesta história, é já claro que perderá quase tudo, incluindo o banco. A falência escandalosa do GES arrastará muitas empresas e fortunas. E o BES será outro banco, comprado (ou tomado). O que interessa agora é resistir ao medo, assumir e gerir os prejuízos. E fazer tudo para que a reputação de Portugal não seja arrastada nesta hecatombe de negócios onde os donos do poder fizeram o que quiseram. Foram eles que mentiram, foram eles que faliram. Que não sejamos nós as suas vítimas. E que desta vez nasça da destruição algo de novo e de melhor. Boa sorte, precisamos dela.»

Pedro Santos Guerreiro, no Expresso

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (89) – Uma voz corajosa quebra o silêncio

Daniel Bessa, economista e ministro da Economia de António Guterres, durante uns escassos 6 meses, registe-se, classificou de «terrorista» a política de José Sócrates, que «começara lá atrás com outro engenheiro», e apontou o dedo ao seu mentor, o ministro anexo Vítor Constâncio, actualmente descansando da sua obra na sede do BCE em Frankfurt, que «proclamou endividai-vos até à morte».



Ver este vídeo aos 32 segundos

PS: De quem esperou vários anos para se manifestar com alguma clareza, não se pode dizer que tenha grande coragem. Contudo, considerando a escassez deste atributo entre os economistas mediáticos (os «200 palhaços que vão à televisão falar de economia») tenho de relevar a manifestação tardia.

Bons exemplos (84) – Lá se fazem, lá se pagam

C. Ray Nagin, do partido Democrata, ex-mayor de Nova Orleães, foi esta semana condenado pelo tribunal a 10 anos de prisão por suborno pago por empreiteiros em concursos para obras municipais de recuperação dos danos causados pelo furacão Katrina. (NYT)

É ocioso lembrar a impunidade que reina entre nós a respeito dos concursos para obras municipais e públicas, entre muitas outras coisas. O aparelho judicial português tem mais do que fazer, desde garantir os direitos adquiridos até fazer o papel do executivo, impedindo o encerramento de serviços públicos.

ACREDITE SE QUISER: «O despesismo infrene (das PPP) não está na origem da crise». O que está na origem da crise das PPP é Cavaco Silva

Todos os governos desde Cavaco Silva contratualizaram parcerias público-privadas assim distribuídas:
Fonte: Pinho Cardão no 4R
No termo do 1.º governo Sócrates, «em 2009, ano de eleições, houve de facto um eleitoralismo orçamental muitíssimo forte, quer directamente – caso do aumento salarial da função pública e das prestações sociais –, quer indirectamente – é por essa altura que se lançam os grandes projectos, nomeadamente rodoviários, que tiveram um impacto enorme na imaginação pública», esclarece-nos o engenheiro João Cravinho.

Sabe-se hoje que muitos das PPP e nomeadamente as negociadas nesse ano foram um enorme desastre cujos efeitos se prolongarão durante décadas. Faria todo sentido identificar os principais responsáveis por esse desastre.

Já não é preciso. Para o engenheiro João Cravinho, ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território do XIII governo de António Guterres, e um dos grandes impulsionadores das PPP, o grande responsável não é obviamente ele próprio ou António Guterres ou o seu amigo Sampaio, presidente da República que promulgou 36 PPP, nem José Sócrates que lançou 50 PPP ou os seus ministros «especialistas na matéria» Teixeira dos Santos, Mário Lino, António Mendonça ou Manuel Pinho. O grande responsável é Aníbal Cavaco Silva, presidente da República, porque

«sendo ele especialista na matéria, como é que aceita, por exemplo, que as concessões só comecem a ter efeitos no termo da legislatura, n anos à frente? Uma coisa é não obstar, concordando ou não, as concessões. Outra são as condições concretas em que obviamente foram manipuladas as manifestações e os encargos financeiros correntes, pondo-os para além da conjuntura, sem que houvesse a menor razão justificativa. O despesismo infrene não está na origem da crise; não está exactamente porque as coisas estão muito diferidas no desenrolar da própria crise.»

11/07/2014

CASE STUDY: A atracção por Belém - a lista dos que não se excluem não pára de crescer (4)

Ponto de situação:
  • Professor António Sampaio da Nóvoa, uma invenção do Dr. Mário Soares, pode ser descartada a todo o momento 
  • Dr. Santana Lopes, está escrito nas estrelas, hesita entre 2016 e 2021 
  • Dr. António Capucho, já se mostrou disponível e para não haver dúvidas acaba de declarar que votará no PS 
  • Professor Francisco Louçã, o tele-evangelista, não se exclui 
  • Dr. Durão Barroso, aka José Manuel Barroso, tenta fazer-se desejado, já colocou o palito no bolo 
  • Eng. António Guterres, acaba de anunciar que em teoria nunca se sabe
  • Professor Marcelo Rebelo de Sousa, só será candidato se Cristo descer à terra, mas como já desceu uma vez... 
E ainda,
  • Dr. Rui Rio admite candidatar-se se houver «muita gente que desejava mesmo e deposita muita confiança em mim»

Recordando a teoria conspirativa que inventei há 10 anos: é mais barato e mais agradável ser presidente da República do que líder da oposição, que implica suportar a travessia do deserto do poder, aguentar uma cambada de potenciais traidores escondendo as navalhas da traição nas calças da pouca-vergonha e suportar uma infinita corja de medíocres ansiando por uma sinecura, tudo isto apenas mitigado pelo séquito de seguidores incondicionais, que vai minguando, na medida em que mingua a esperança do governo de serviço cair.

ESTADO DE SÍTIO: Um tribunal decreta a existência, a necessidade e a justeza do preço de um estudo que ninguém viu

«Rui M. Pereira, antigo diretor de cultura da Câmara de Lisboa, foi absolvido no processo em que era acusado de ter encomendado em 2009 um estudo inútil a Inês Amaral (sobre os direitos de autor do espólio do poeta Fernando Pessoa, que custou 27,8 mil euros à Câmara de Lisboa), sua cunhada e ex-colaboradora na autarquia. Os juízes da 2ª vara do Tribunal de Lisboa convenceram-se de que o estudo, que desapareceu e que nunca foi visto por qualquer pessoa além dos arguidos, "existe mesmo, era necessário e o preço pago era justo e proporcionado". Nesse sentido, o Tribunal optou pela absolvição.» (Expresso)

DIÁRIO DE BORDO: Murmúrios (4)

Bando de estorninhos («murmuration») fotografado por Alain Delorme

10/07/2014

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (88) - Pendurados na toalha de mesa do orçamento

Umas centenas de candidatos a uma tença da Cóltura subscreveram um manifesto de apoio a António Costa, que em troca lhes prometeu ministério da Cóltura, ministério sem o qual não há Cóltura, como se sabe.

Para citar Os Comediantes, «nos Estados Unidos, a malta da cultura normalmente reúne-se com candidatos políticos em campanha para lhes dar dinheiro. Em Portugal, a malta da cultura normalmente reúne-se com candidatos políticos em campanha a contar receber dinheiro. Cada país tem a “elite” cultural que merece. A nossa é a da mão estendida voltada para o Estado.»

É mais uma originalidade do socialismo tuga. Para ser exacto, não é nenhuma originalidade – é uma cópia de l’exception française.

ARTIGO DEFUNTO: A credibilidade da OCDE não depende do crédito do jornalismo de causas

Sob o título «Passos auto-elogia-se», um jornalista de causas anónimo (anónimo é o jornalista, as causas têm nome) desvaloriza a conclusão do relatório da OCDE que o governo «protegeu [da crise] a população mais desfavorecida» escrevendo que tal relatório foi «encomendado pelo próprio Governo».

Não sei se o governo encomendou ou não relatório, nem isso é relevante quando se trata de uma organização internacional como a OCDE dirigida por um Angel Gurría que fez várias vezes o backup às acções de agitprop orçamental do governo de José Sócrates (como aqui). Em contrapartida, sabemos todos os que queremos saber que o estudo «Rising inequality: youth and poor fall further behind», Insights from the OECD Income Distribution Database, certamente não encomendado pelo governo português, aqui comentado o mês passado pelo Pertinente, permitiu desmistificar vários mitos e concluir:

  • Em Portugal as desigualdades aumentaram apenas moderadamente e em relação aos rendimentos disponíveis (isto é, rendimentos depois de impostos e subsídios sociais) as desigualdade diminuíram;
  •  Os rendimentos disponíveis das famílias tiveram quedas maiores ou mesmo muito maiores na Grécia, Islândia, Espanha e México do que em Portugal; 
  • Em Portugal os mais afectados foram os ricos.

09/07/2014

Lost in translation (206) – O massacre do escrete canarinho perpetrado pelo pelotão germânico

Deixemo-nos de m€rd@s. Quem perdeu não foi o povo brasileiro ou o tropicalismo ou outra m€rd@ qualquer. E quem ganhou não foi o povo alemão ou a proverbial organização germânica ou outra m€rd@ qualquer.

Quem perdeu foram os onze marmanjos infantilizados pela psicóloga especialista em candomblé, adjunta do «técnico», que corriam como baratas tontas cumprindo uma «táctica» inventada por esse «técnico».

Quem ganhou foram os onze profissionais que cumpriram com competência a táctica de um técnico que não parece acreditar em ciências ocultas.

CASE STUDY: Um imenso Portugal (14)

7 - 1?

[Enviado por AB]

A atracção fatal entre a banca do regime e o poder (22) – Banqueiros de todos os regimes, literalmente

[Mais atracções fatais]

Ricardo Salgado, quando ainda nem sonhava vir a ser apeado do BES, corrigiu um jornalista, que lhe perguntava se o BES era o banco do regime, com um definitivo «o BES é um banco de todos os regimes».

Tinha razão, mas a boutade carece de actualização. Dados os acontecimentos recentes, onde está BES devemos ler Espírito Santo e onde está banco devemos pôr banqueiros. «Todos os regimes» continua perfeito a confirmarem-se os rumores da troca por uma participação no capital da Rioforte e da Espírito Santo International do papel comercial detido pela Petróleos da Venezuela, uma empresa estatal que é um dos instrumentos da política chávista. A ser assim, confirma-se ainda o entranhado pendor que o GES tem para os socialismos, incluindo o socialismo “revolucionário” bolivariano.

Quem sabe se o coronel Chávez ainda fará uma aparição sob a forma de pajarito ao Dr. Ricardo Salgado, que no mínimo terá um busto do defunto no seu gabinete.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível (5)

Quando se preparava para o julgamento exemplar dos Socialistas Revolucionários, Lenine escreveu ao Comissário do Povo para a Justiça (Maio de 1922):

Camarada Kurski ! Na sequência da nossa conversa, envio-te o esboço de um parágrafo suplementar para o Código Penal... O conceito de base, espero, é claro...: instaurar abertamente um estatuto que não esqueça os princípios mas seja politicamente fiel à verdade (e não apenas juridicamente rigoroso) para dar motivação à essência e à justificação do terror, sua necessidade, seus limites.

Em 1948 Estaline fez a seguinte adenda à sua biografia oficial, a Via Curta: «Nas várias fases da Guerra, o génio de Estaline encontrou a solução correcta que previa todas as circunstâncias... O seu saber militar revelava-se tanto na defensiva como na ofensiva. O seu génio permitia-lhe adivinhar os planos do inimigo e derrotá-los». Estaline fez depois uma adenda à adenda: «Embora desempenhasse a sua tarefa de chefe do Partido com consumada competência e gozasse do apoio incondicional de todo o povo soviético, Estaline nunca permitiu que a menor ponta de vaidade, presunção ou jactância manchasse o seu trabalho.»

Cada vez mais, à medida que o Terror-Fome se agravava, os camponeses roubavam cereal para se manterem vivos. Uma nova lei politizou este crime, declarando que todos esses gatunos seriam tratados como inimigos do povo e receberiam a dezena ou a super. «No princípio de 1933», escreve Volkogonov, «mais de 50 000 pessoas, muitas delas esfaimadas, foram condenadas.» O uso da palavra «fome» incorria na mesma pena. Os «valentes ceifeiros», na espirituosa formulação de Estaline, não sabiam que estavam à fome por causa da política governamental. Mas sabiam que estavam à fome. E era crime capital reparar nisso. No essencial, as pessoas eram mortas rapidamente pelo crime capital de dizerem que estavam a ser mortas lentamente.

«Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million»

08/07/2014

Um dia como os outros na vida do estado sucial (18) - Não é greve é lockout

«A greve de hoje dos médicos é imoral em várias dimensões, desde logo porque nos faz aceitar muito melhor as greves em sectores com taxas de desemprego elevadas. Mas não só, esta greve é a demonstração do que seria, e será um dia destes, quando um Governo fizer de facto uma reforma do Estado, quando mexer na estrutura e nas competências, nos recursos humanos que afecta a cada função. Neste caso, o ministro da Saúde tem tido a habilidade política de cortar nas rendas do sector, e a indústria farmacêutica teria muito a dizer, e gerir um equilíbrio difícil com os médicos. Não conseguiu evitar a greve de Julho de 2012, mas, desde aí, pacificou a corporação. Com dinheiro. Foi o preço a pagar, financiado por todos os contribuintes

«As corporações e a reforma do Estado», António Costa no Económico

Pro memoria (181) – BES e BPN, descubra as diferenças

  • Gravatas de bom gosto dos Espíritos em vez de gravatas foleiras de Oliveira e Costa 
  • Carlos Costa em vez de Vítor Constâncio 
  • Maria Luís Albuquerque em vez de Teixeira dos Santos 
  • Pedro Passos Coelho em vez de José Sócrates 
  • 0 para os contribuintes em vez de uma nacionalização que era para não custar nada e já vai em 7 mil milhões 

[Leitura recomendada: «PS, um BES assado com arroz do mesmo»]

DIÁRIO DE BORDO: Joyce em Rovinj

A viagem de Stephen Dedalus e Leopold Bloom em Dublin começou no dia 16 de Junho de 1904. Um pouco mais tarde, James Augustine Aloysius Joyce, tornou-se persona non grata em Dublin, exilou-se e estava a ensinar inglês na Ístria, então parte do Império Austro-Húngaro, hoje Croácia. Há quem diga que foi em Pula mas parece que foi em Rovinj.


07/07/2014

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível (4)

Segunda. Há algo de inimitavelmente Estaline na observação que «tinha o hábito de repetir» depois da guerra, segundo Svetlana (filha de Estaline). Tinha hábito de repetir: «Etch, unidos aos Alemães teríamos sido invencíveis». Não é tanto o cinismo chocante (e o deboche ideológico) do sentimento; o que impressiona é a imensa Realpolitik contida nessas humildes, provincianas três letras da expletiva da gente das montanhas, Etch...

Terceira. Esta refere-se ao terrível caso de Pavel Morozov. Pavel («Pavlik») era um camponês de catorze anos que, no princípio dos anos trinta, denunciou o seu pai (por tendências kulaques). O pai foi fuzilado. E Pavlik foi morto pouco depois por um grupo de aldeãos que se disse incluir o seu avô e o seu primo. Estaline interrompeu por momentos os preparativos para enaltecer Pavlik como herói e mártir do socialismo (estátuas, canções, contos, entra para o «Livro do Heroísmo» do Pioneiro, o Palácio da Cultura de Moscovo recebe novo nome em sua honra), para comentar, em privado: «Que safado, denunciar o próprio pai».

Quarta. A 29 de Junho de 1941, com uma semana de invasão nazi, Estaline compareceu a uma reunião com os militares e foi informado da verdadeira dimensão do descalabro - e da verdadeira dimensão do seu próprio erro de cálculo, paralisia, miopia voluntária e falta de ânimo. «Lenine deixou-nos uma grande herança e nós, seus herdeiros», disse Estaline «alto», procurando a modulação apropriada àquele nó da história universal, «fodemos tudo».

«Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million»

(Continua)

06/07/2014

CASE STUDY: Um imenso Portugal (13)

Se Portugal torrou centenas de milhões na Expo e em estádios, o Brasil com aquele tamanho e aquela cultura («pobre gosta de luxo, quem não gosto de luxo é o intelectual») só podia torrar milhares de milhões. E foi o que fez, com o resultado cada vez mais evidente, como se conclui no estudo «2014 World Cup: more inflation than growth for Brazil» da Euler Hermes.


Talvez o exemplo terminal da elefantíase que atacou os governos do PT que construíram a infraestrutura para o Mundial seja o estádio Mané Garrincha em Brasília, onde não existe nenhum clube de futebol e acabado o Mundial será utilizado sobretudo para espectáculos. Segundo cálculos feitos, admitindo que a utilização do estádio seja em média a do primeiro ano (excepcional com 30 eventos), o estádio levaria mais de um milénio para recuperar o investimento, milénio durante o qual teria de ser evidentemente construído várias vezes.

Dúvidas (44) – Será o mesmo?

O Mário Soares reviralhista, que decreta a ilegitimidade de um governo maioritário saído de eleições livres, apela a levantamentos e revoltas é o mesmo Mário Soares que meteu o socialismo na gaveta em 1983 e trouxe a Portugal em 1987 Karl Popper, um filósofo social e político, defensor do liberalismo e de uma sociedade aberta? E, se for o mesmo, será também o mesmo Soares que visitou em 1993 a casa de Karl Popper pela mão de João Carlos Espada?

05/07/2014

DIÁRIO DE BORDO: Murmúrios (3)

Bando de estorninhos («murmuration») fotografado por Alain Delorme

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível (3)

Citando Robert Conquest («The Great Terror: Stalin’s Purges of the 1930s):

«Com efeito, entre 1 de Agosto de 1921 e 1 de Agosto de 1922, quinhentas mil toneladas de trigo foram efectivamente retiradas da Ucrânia para distribuir por outros lados.» Em toda a sua vida adulta Lenine foi um admirador da fome como «radicalizador» (e secularizador) do campesinato. E que outra coisa senão terror e fome poderia ter ele em mente quando, em 1922, avisou Kamenev: «É um grande erro pensar que a NEP acaba com o terror; teremos que voltar a recorrer ao terror e ao terror económico»? Portanto, uma vez mais, em 1933, Estaline apenas mostrava ser «O melhor discípulo de Lenine». A sua única novidade qua1itativa, à parte a purga do Partido, foi o julgamento fantoche. E podemos recordar o comentário de Soljenitsine ao julgamento «demonstrativo» dos Socialistas-Revolucionários, em 1922: Lenine «andava por perto».

«Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million»

(Continua)

04/07/2014

Lost in translation (205) - A discriminação positiva dá nisto

Há 7 anos John Browne, Lord Browne, o presidente da BP que inventou a marca Beyond Petroleum, uma etiqueta verde para as actividades da BP tão poluentes como as das restantes petrolíferas, demitiu-se ao serem expostos pelos tablóides ingleses os seus amores com um ex-prostituto gay.

Desde então reinventou-se com grande sucesso e criou a Riverstone Holdings, uma empresa europeia de fracking (como se sabe, uma técnica de extracção de gás e petróleo condenada pelo purismo ambiental). Também se dedicou a promover a causa gay.

Por mim acho óptimo o sucesso no fracking e não tenho nada contra a promoção da causa gay – quer dizer, tenho imenso, mas reconheço o direito da criatura promover a causa, como eu tenho o direito de a condenar. O que me leva a tratar do caso de Lord Browne não é pois a oposição à promoção per se, mas antes ter ficado a saber pela review da Economist ao seu livro «The Glass Closet», acabado de publicar, que a causa da promoção tem tido tanto sucesso que «Lord Browne says he has even heard of business students pretending to be gay in order to increase their chances of landing jobs at elite companies».

Sendo assim, teremos de sugerir aos jovens lobos carregados de mestrados que pretendem fazer carreira em «elite companies» incluírem na sua formação uma pós-graduação para mimar os tiques dos gays.

DIÁRIO DE BORDO: Murmúrios (2)

Bando de estorninhos («murmuration») fotografado por Alain Delorme

03/07/2014

Mitos (173) – A crise destruiu a economia

Este é um mito complementar deste outro. É um mito, não porque a crise não tenha de facto fechado milhares de empresas inviáveis e destruído centenas de milhar de empregos insustentáveis, mas porque, não só isso era inevitável e faz parte dos processos de ajustamento da economia, como a dimensão dessa destruição foi limitada e, para sermos rigorosos, insuficiente para eliminar o tecido económico morto.

Quanto à dimensão da destruição resultante da crise, a melhor forma de a medir não é através do aumento do desemprego, porque numa economia pouco competitiva o impacto no produto pode ser e é proporcionalmente menor. Em vez disso, é preferível medir esse impacto pela redução do produto potencial, isto é do nível do PIB sustentável a longo prazo com a oferta de trabalho, a estrutura produtiva, os recursos naturais, a tecnologia e as capacidades de gestão existentes.



O gráfico anterior (fonte: "Wasted potential", Economist) mostra a perda do produto potencial de vários países da OCDE. Portugal tem uma perda do produto potencial muito menor que os países com programa de ajustamento orçamental: 1/3 da Grécia, menos de metade da Irlanda e menos 30% da Espanha. E tem uma perda apenas ligeiramente maior do que a Itália e praticamente igual à da Grã-Bretanha, que tem uma moeda própria.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível (2)

Em 1921, com inteiro apoio de Estaline, Lenine reanexou a Geórgia (que tinha recebido a independência no ano anterior) invadindo-a. Estaline desceu ao sul para assistir a um plenário do novo governo: a sua primeira visita em nove anos. Falou a um grupo de ferroviários e foi remetido ao silêncio aos gritos de «renegado» e «traidor». Numa reunião posterior arengou aos dirigentes bolcheviques locais:

Galinhas! Asnos! Que é isto? Temos que rasar com um ferro em brasa estas terras da Geórgia!. .. Quer-me parecer que já esquecestes o princípio da ditadura do proletariado. É preciso quebrar as asas a esta Geórgia! Corra o sangue da pequena burguesia até que eles desistam de resistir! Empalem-nos! Cortem-nos aos bocados!»

«Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million»

(Continua)

02/07/2014

Bons exemplos (83) - O Chef, um filme que se come

Um filme feel good ou porno food, como costumam
ser classificados estes filmes pela bem-pensância.
A mim fez-me sorrir e fome.

SERVIÇO PÚBLICO: Na lavoura e na indústria agrícola, só a terra é comum

Quinta da família Jones em Palmyra, Indiana (Fotos de Lyndsey Gilpin/TechRepublic)

01/07/2014

Mitos (172) – Em Portugal trabalha-se mais horas do que na Óropa

Depende de qual Óropa estamos a falar. Não faz sentido nenhum comparar Portugal com países que têm uma produtividade dupla da portuguesa. Devemos comparar-nos com países com produtividades próximas e semelhanças na evolução histórica recente. Vejam-se os casos mais típicos.

Grécia: mais ou menos na mesma época em que o Botas tomava as rédeas do poder, um golpe de estado coloca no poder o ditador Ioannis Metaxas que por aí ficou até a invasão e ocupação pelo exército nacional-socialista alemão; segue-se uma guerra civil entre comunistas e anticomunistas e um golpe de estado em Abril de 1967 que colocou no poder os coronéis até 1973; nesse ano foram substituídos por um brigadeiro apeado no ano seguinte, depois da invasão de Chipre pela Turquia; desde 1975 a Grécia tem sido governada alternadamente pelo PASOK e pela Nova Democracia que conduziram à bancarrota o Estado e o transformaram em protectorado da troika.

Países da Europa do leste: logo a seguir à queda do nacional-socialismo foram ocupados pelo exército soviético, que colocou os partidos comunistas locais no poder; as economias foram estatizadas e instituídas ditaduras de partido único chamadas «democracias populares» que vieram a cair a seguir ao muro de Berlim; desde então a maior parte da economia voltou a ser privatizada e a democracia foi restaurada.

Jornal SOL de 27-06
Repare-se a semelhança com a história portuguesa: uma ditadura de partido único desde 1926, de inspiração vagamente nacional-socialista, um golpe de estado em Abril de 1974 que colocou no poder os capitães controlados pelo Partido Comunista e pelos esquerdismos que pretendiam instaurar uma «democracia popular» ou o «poder popular», respectivamente; um terço da economia foi nacionalizada; outro golpe militar em Novembro de 1975 restaurou a democracia e desde então Portugal tem sido governado alternadamente pelo PS e pelo PSD, sozinho ou coligado com o CDS; desde 1995, o PS no poder durante 13 anos, com a colaboração do PSD durante 3 anos, conduziram à bancarrota o Estado e o transformaram-no em protectorado da troika.

Recordado isto, não constituirá surpresa ver o quadro ao lado, de onde se poderia concluir adicionalmente que 45 anos de comunismo são piores do que 48 anos de corporativismo e ambos são superados pela mistura explosiva de comunismo com várias modalidades de socialismo, combinados em regimes ditatoriais militares e civis.

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Martin Amis recorda Koba, o terrível (1)

Há uma dúzia de anos, Martin Amis publicou «Koba the Dread: Laughter and the Twenty Million» um libelo contra o socialismo soviético e José Estaline, libelo que é também um ajuste de contas tardio com o seu pai o escritor Kingsley Amis, um membro do Partido Comunista inglês e admirador do socialismo soviético até à invasão da Hungria em 1956. É da versão portuguesa que vou respigar excertos que publicarei neste e em próximos posts para ajudar a não deixar apagar memórias do passado que nos ajudam a compreender o presente.

Lenine em 19 de Março de 1922

Agora e somente agora, quando, nas regiões afligidas pela fome, há canibalismo e as estradas estão cobertas de centenas, quando não milhares, de cadáveres, podemos (e portanto devemos) prosseguir a aquisição de valores [da igreja] com a mais feroz e impiedosa energia, e que nada nos impeça de suprimir qualquer resistência... Somente o momento da fome desesperada pode dar-nos esta disposição das vastas massas camponesas, as quais, ou nos garantem a sua simpatia ou, pelo menos, a sua neutralidade... É o momento de travarmos o mais decisivo e impiedoso combate contra o [clero] e de submeter a resistência com tal brutalidade que nas próximas décadas eles não esqueçam... Quanto maior o número de representantes da burguesia reaccionária e do clero reaccionário que conseguirmos executar nesta acção, melhor.

(Continua)