Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: So far not so good (8)

Com as nomeações para a Caixa, seria difícil o governo fazer pior. Escolhas inadequadas de gente que não tem nenhuma experiência de gestão de bancos, a começar pelo presidente José Agostinho de Matos e a continuar com Nuno Fernandes Thomaz ou Pedro Rebelo de Sousa. Óbvios conflitos de interesse, como por exemplo o segundo e o terceiro citados, ou Nogueira Leite, saído do grupo José de Mello interessadíssimo na compra do negócio dos hospitais da Caixa. Violação grosseira das regras de independência dos reguladores, com a nomeação de José Agostinho de Matos saído directamente de mais de 20 anos de Banco de Portugal. Modelo de governação que não faz sentido para um grupo financeiro com um accionista único e que já deu fiasco na Caixa com outros protagonistas.

PS: Não são admissíveis críticas feitas por novos situacionistas ou pelos restos da guarda pretoriana de José Sócrates. Quem silenciou a maioria das nomeações dos governos de Sócrates durante 6 anos, não tem moral para criticar seja o que for antes de se retratar publicamente pelo silêncio e/ou pelo manteiguismo.

30/07/2011

Estado empreendedor (50) – Sindicatos querem que os contribuintes continuem a suportar o custo da ineficiência dos transportes públicos

«A Federação Nacional dos Transportes e Comunicações ... [acha] que a dívida das empresas públicas de transportes é um problema estrutural, e que “só se resolve se for o Estado a pagar”».

Lost in translation (116) – Pergunta mais parva. Ele julga-me imbecil?

- «É um miúdo normal?» - perguntou o jornalista ao Miguel de Alcanena, acabado de ganhar um prémio nas Olimpíadas da Matemática em Amesterdão, que resolve problemas «por gosto».

- «Espero bem que não», respondeu prudentemente o Miguel de Alcanena.

[Lido algures]

29/07/2011

ESTADO DE SÍTIO: Conflito de interesses? Qual conflito? Tá tudo legau.

aqui se tinha comentado o acontecimento extraordinário da demissão do chefe dos espiões Jorge Silva Carvalho em plena cimeira da Nato e a sua contratação pela Ongoing onde foi trabalhar ao lado de Soares Carneiro, ex-administrador da PT. O mesmo Soares Carneiro que decidiu sozinho aplicar o dinheiro das pensões da PT em fundos geridos pela Ongoing, e também ao lado de José Dirceu, gestor do Mensalão e cabeça-de-turco de Lula da Silva, e da sua namorada (dele Dirceu).

Talvez por coincidência, o jornal Expresso do grupo Impresa de Balsemão, em guerra surda com a Ongoing também accionista da Impresa, divulgou ter Silva Carvalho transmitido à Ongoing informação confidencial, ainda antes de pedir a demissão de chefe dos espiões.

Vão-se conhecendo mais pormenores e sabe-se agora que a transmissão dessas informações à Ongoing foi autorizada, nos termos da lei, pelo chefe do chefe dos espiões: José Sócrates.

Entretanto, o advogado de Silva Carvalho, por acaso Nuno Morais Sarmento, ministro do governo de Durão Barroso onde foi responsável pela RTP, em cuja putativa privatização está por acaso interessada a Ongoing, apresenta queixa-crime contra desconhecidos (a designação que deu aos hackers que podem ter actuado por conta do Dr. Balsemão) por violação da conta pessoal de email do chefe dos espiões. Ontem Morais Sarmento comparou na televisão este caso com o do jornal NOW, agora encerrado, elevando assim o Dr. Balsemão às alturas de Rupert Murdoch. É bom para o ego lusitano amachucado pela Moody's, pela Sr.ª Merkel e até pelo jornal Der Spiegel que nos convida a vermo-nos ao espelho e nos lembra termos prantado no Cabo da Roca uma tabuleta premonitória: «O fim da Europa».

Como diria a namorada de José Dirceu, consultora da Ongoing no Brasil: tá tudo legau.

28/07/2011

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Para que serviu a golden share do governo na PT?

[Sobre a PT como rameira do regime, ver também este e este posts]

Agora que chegou ao fim a golden share do governo na PT é oportuno fazer um balanço da serventia dessa participação. Uma das serventias foi o nepotismo endémico que contaminou a PT e se manifestou de diversas formas, como o emprego oferecido ao longo dos anos às luminárias e sobretudo à descendência e familiares das luminárias do regime.

O inventário feito pelo Correio de Manhã há 6 anos está certamente desactualizado, mas é um bom ponto de partida para identificar alguns políticos e luminárias diversas do regime com sinecuras no grupo PT ou com familiares a quem as mesmas foram concedidas.

27/07/2011

Lost in translation (115) – Rigor? Já fizemos engenharia orçamental no passado. Voltaremos a fazê-lo no futuro, queria ele dizer (XXVII)

[Mais engenharias orçamentais: pesquisa Google]

Serão necessários anos para identificar todas as falsificações orçamentais da dupla Sócrates-Teixeira dos Santos. Já depois das eleições ficaram a conhecer-se mais trafulhices e agora ficou a saber-se de mais uma: o montante de facturas por liquidar do SNS foi estimado pelo actual ministro Paulo Macedo (tenho sérias razões para pensar que domina a tabuada) em 3 mil milhões de euros, ou o equivalente a 35% do orçamento do SNS - em consequência o prazo médio de pagamento anda pelos 4,2 meses. Os jornais falam em dívida do SNS induzindo na mente dos inocentes estarem esses montantes incluídos na dívida pública. Não é assim, porque a dívida pública é constituída apenas por instrumentos próprios (OT, BT, etc.).

Estas facturas por pagar são quase 2% do PIB a adicionar aos mais de 172 mil milhões de dívida no final do 1.º semestre, provavelmente mais de 100% do PIB de 2011 e ainda estamos a meio do ano.

26/07/2011

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Em estado de negação

Secção Musgo Viscoso

O Pertinente no seu último Lost in translation apontou o dedo acusador a Santos Ferreira pela sua revelação tardia sobre as consequências do que andou a fazer nos últimos 6 anos, primeiro na Caixa e depois no BCP, emprestando dinheiro ao governo.

Para sermos justos e rigorosos temos que colocar na fotografia pelo menos mais 3 criaturas, a saber: Ricardo Salgado (o banqueiro do regime), Fernando Ulrich (o enfant terrible - diz os que os crescidos deixam para ele dizer) e Faria de Oliveira (diz aquilo que não pode deixar de dizer).

E porquê temos de fazer este retrato de família? Ora, porque não é só Tavares Moreira, eu também «não me recordo de uma posição destas dos bancos nos últimos anos, em especial nos últimos 6 em que eles foram especialmente pródigos em conceder crédito ao Estado, enchendo os seus balanços com “toneladas” de dívida pública, crédito a empresas públicas e a parcerias público-privadas... Houve mesmo alguns que ainda não há muito tempo elogiaram publicamente a política de grandes obras públicas, dizendo que era benéfica para o desenvolvimento do País – e que, a ter continuidade, teria levado o Estado a endividar-se ainda mais pesadamente junto da banca...».

E agora queixam-se da troika, como faz o enfant terrible, que lhes vai espiolhar as carteiras de crédito infestadas de mal-parado disfarçado e concluir ser preciso provisioná-lo. E não há dinheiro para capitalizar os bancos, nem mesmo dividendos suficientes para os accionistas pagarem as suas dívidas. Como aqui conclui Pedro Santos Guerreiro, «a banca … está agora em negação. Vai ter de perder dinheiro. Vai ter de tirar as pequenas e médias empresas do espremedor. Vai ter de deixar de achar que a troika é idiota

Por tudo isto, debita-se ao quarteto um total de 15 chateaubriands, por ainda não terem percebido a força dos factos ou em alternativa 16 pilatos por terem percebido bem demais, e 13 bourbons por terem esquecido muito e aprendido pouco. Tudo a distribuir proporcionalmente ao mal-parado.

25/07/2011

Lost in translation (114) – esta manhã acordei e senti-me um homem novo, terá dito ele com os seus botões

«Descobri esta manhã ter andado 6 anos a
emprestar dinheiro a um Estado insolvente»
«O Estado deve à banca 61 mil milhões. O Estado que pague o que deve. Se pagar às empresas, elas pagam aos bancos; se pagar às câmaras, elas ficam felizes e nós também. E já nem falo das regiões autónomas, afirmou o líder do BCP no Fórum Banca, organizado pelo Diário Económico

Depois de vários anos à frente da Caixa, participando depois no assalto do complexo político-empresarial socialista ao BCP, Santos Ferreira descobre uma bela manhã ao acordar o montante absurdo que ele, o banqueiro do regime e outros emprestaram directa ou indirectamente ao governo de José Sócrates e dá o seu grito de Ipiranga. Terá tido uma revelação? Ter-se-à o homem convertido ao liberalismo?

24/07/2011

Exemplos do costume (4) - miscelânea

O PS prepara-se para votar contra uma medida que parece ser indispensável para cumprir os objectivos orçamentais assinados pelo seu governo, depois de 6 anos de embriaguez orçamental da sua inteira responsabilidade.

Apesar de não ter aprovado praticamente nenhuma das medidas concretas de redução da despesa pública previstas no MoU, o governo PSD cria duas estruturas de acompanhamento da execução do MoU: uma comissão parlamentar comandada por um dos co-responsáveis pelo estado das finanças públicas (Vieira da Silva) e uma equipa governamental (ESAME). No total é mais de uma centena de técnicos e políticos a acompanhar o que não está (ainda?) a ser executado.

Ao mesmo tempo que não executa (ainda?) o MoU, o governo começa a guarnecer a sua central de manipulação com jornalistas de causas e bloguistas amigos (ver exemplos citados pelo Abrupto aqui). Provavelmente não chegará aos calcanhares da excelência da central socialista, mas poderá ser mais por falta de competência do que falta de vontade.

Uma ideia da excelência alcançada pela central socrática de manipulação é-nos dada, mesmo em pleno recuo das posições no governo e seus apêndices, pela capacidade de inventar e explorar sem escrúpulos num perfeito sincronismo entre as câmaras de eco na mídia e os restos do aparelho socrático, a estória do «desvio colossal» que afinal era «o trabalho que o Governo vai ter que fazer para recuperar o desvio que existe quanto as metas orçamentais que estavam previstas é colossal». É paradoxal que para repor a verdade falsificada pela central socrática o governo tenha tido que recorrer a um canal público que diz pretender privatizar (ver vídeo aqui)

23/07/2011

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: A capação do cabra debochado

«SENTENÇA DO JUIZ MUNICIPAL EM EXERCÍCIO, AO TERMO DE PORTO DA FOLHA – 1883.

SÚMULA: Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus boxes e faz gogas de suas víctimas desejando a mulher do próximo, para com ella fazer suas chumbregâncias.

Vistos, etc.

O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Senhora San´Anna, quando a mulher de Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu dela de sopetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume e como ella, recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimônio porque ella gritoue veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja pêijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.

As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a pervesidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluuemos. Dizem as leises (sic) que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de avaluemos e assim:

Considero-que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar porque eram casados pelo regime da Santa Madre Igreja Cathólica Romana.

Considero-que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.

Considero-que a paciente estava pêijada e em consequência do sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto.

Considero-que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou mãe falecesse.

Considero-que o cabra Manoel Duda é um suplicado deboxado, que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer coxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.

Considero-que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo que elle desejou.

Considero-que sua Magestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e as sem vergonhesas por elle praticados e apara as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.

Considero-que o Cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga da incomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.

Posto que:

Condeno o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malifícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.

A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o Carcereiro solte o cujo cabra para que vá em paz.

O nosso Prior aconselha:

Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pote.

Cumpra-se a apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-officio desta sentença para juiz de Direito deste Comarca.

Porto da Folha, 15 de outubro de 1833.

Assinado: Manuel Fernandes dos santos, Juiz Municipal suplente em exercícios
»

[Recebi do detractor JARF um texto parecido com o transcrito cuja fonte citada (Instituto Histórico de Alagoas) parece ser mais confiável.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. No pós-modernismo já não temos sentenças cruéis. No máximo expõem-se os cabras no perp walk e recorre-se à justiça por medida. Sorte a de DSK por não viver no Brasil do século XIX e por Anne Sinclair não ter usado a faca e o triturador.]

22/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: Dois pesos e duas medidas?

São ilegais e certamente ilegítimos os processos de produção jornalística usados pelo News of the World e possivelmente outros mídia do grupo de Rupert Murdoch. São matéria de polícia, cadeia e ponto final.

Portanto, a indignação da esquerdalhada tem fundamento? Tem sim senhor. E tem fundamento a indignação de quem se indigna com a indignação selectiva da esquerdalhada que, por sua vez, não se indignou nada e até exultou com a obtenção por Julian Assange de informações usando meios ilegais e pondo em risco a vida de muita gente? Não tem fundamento esta segunda indignação e passo a explicar porquê.

Em primeiro lugar os processos de Murdoch fazem parte de um negócio, o que, por princípio, quaisquer que fossem esses processos, seria preciso provar a sua legitimidade. Sendo o que são, tem razão a esquerdalhada em condená-los por serem usados por quem são e para os fins que foram.

Em segundo lugar, os processos de Julian Assange e da WikiLeaks não fazem (aparentemente) parte de um negócio, pelo que seria preciso provar a sua ilegitimidade. Prova que nunca poderia ser feita pela razão simples desses processos se justificarem pelo seu propósito ser uma boa causa: expor os abusos de poder dos governos que abusam do poder, ou seja, nomeadamente, os governos democraticamente eleitos. E quem classifica a causa como boa e os alegados abusos como ilegítimos? A esquerdalhada, evidentemente. E tem a esquerdalhada legitimidade para o fazer? Tem sim senhor, pois foi para tal ungida pela História.

Em resumo, as coisas não são boas nem más per se. Depende de quem as faz e com que propósito, sendo que os fins (causas boas) justificam os meios necessários. E quais são os meios necessários? São os meios que a esquerdalhada usar.

21/07/2011

A tradição ainda é o que sempre foi ou tudo como dantes, quartel-general em Abrantes

Segundo um levantamento feito pela associação Transparência e Integridade, 70 dos 230 deputados da legislatura que agora terminou «eram simultaneamente administradores, gestores ou consultores de empresas que tinham directamente negócios com o Estado».

150 chefes da polícia com direito a carro e motorista.

Desde Março, com a tesouraria seca, o governo cessante deixou de transferir centenas de milhões de euros para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social.

O défice na óptica da contabilidade nacional (a que interessa para os compromissos do MoU e tem como objectivo 5,9% em 2011) apurado pelo INE no 1.º trimestre é de 7,7%.

Governo vai aprovar orçamento rectificativo.

O ISEG contou 408 empresas municipais mais 127 do que a Direcção-Geral da Administração Local. No conjunto essas empresas têm activos de mil milhões e passivos de 2,5 mil milhões. Fernando Ruas, presidente da Associação Nacional de Municípios diz que «as autarquias não podem ser bodes expiatórios de erros da Administração Central». Tem toda a razão – já será suficiente serem as cabras expiatórias dos erros da Administração local.

O Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos classifica de «escandalosa» e «inadmissível» o aumento anunciado de 15% dos transportes públicos, em coro com a Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações que o considera «um assalto aos bolsos dos portugueses». Nem o Movimento nem a Federação esclarecem como classificam a extorsão dos contribuintes que não são utentes nem trabalhadores das empresas públicas de transportes para suportar o sistemático prejuízo dessas empresas.

O Bloco de Esquerda apresenta um projecto de resolução ao parlamento para suspender a introdução de portagens na Via do Infante com o surpreendente argumento da «perda de competitividade».

Pela boca do seu presidente - um empresário de sucesso – o ACP defende, também surpreendentemente, o tabelamento do preço dos combustíveis. E porque não tabelar também o preço dos jornais?

CASE STUDY: Mota-Engil e a auto-estrada mexicana

Em Portugal a simbiose entre o governo de serviço e os grandes empreiteiros de obras públicas já deu muito e ainda teria muito para dar (*), se houvesse dinheiro em abundância, mas, não sendo esse o caso na presente conjuntura, já tem pouco, Por isso, a Mota-Engil, onde pontifica o emérito estradista Jorge Coelho, foi aplicar o seu refinado know-how no México, tendo conseguido aumentar para 45 anos o prazo de concessão da auto-estrada Perote-Xalapa e um reforço da grana a torrar de 165 milhões de euros para aumentar para 2 faixas.

O aumento do prazo da concessão é genuíno know-how português (Terminal de Contentores de Alcântara). O aumento para 2 faixas pode vir a ser uma manifestação do know-how local. Pelo menos se acreditarmos na estória já aqui contada da auto-estrada que o governo mexicano teria inaugurado com pompa e circunstância pelo facto de dispor de 3 (estreitíssimas) faixas. As faixas, de tão estreitas, originaram inúmeros acidentes, forçando o governo passado pouco tempo a reduzi-las para duas, com o argumento que da redução de pouco mais de trinta por cento do número de faixas resultaria um maior acréscimo de segurança. Talvez o resultado tivesse sido mais segurança, mas o que resultou, sem margem para dúvidas, foram enormes engarrafamentos que levaram o governo a voltar ao número original de faixas anunciando entusiasticamente que o número de faixas iria ser aumentado de cinquenta por cento.

(*) Descobre-se agora que os encargos com as PPP rodoviárias devem atingir este ano 1,2 mil milhões quase triplicando os 470 milhões que o governo socrático orçamentou.

20/07/2011

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (45) – calam-se e falam a desoras (mais outro)

Com alguns anos de atraso, João Cravinho descobriu que teria sido «preciso reduzir esse endividamento absolutamente extraordinário... (e que) … a teimosia do primeiro-ministro foi altamente lesiva para o país». Ainda não descobriu ter sido o silêncio da gente honrada do PS altamente lesivo para o país, supondo, evidentemente, a existência dessa gente.

Os alemães devem estar loucos ou com medo de lhes faltar o gás…

A Werkstatt Deutschland, uma fundação alemã, preparava-se para atribuir ao Czar Vladimir Putin o prémio Quadriga na sua qualidade de «modelo exemplar e espírito iluminado que trabalha para o bem público e pelos direitos humanos». Apesar da incontestável justiça, o prémio não chegou a ser atribuído, mas foi preciso a Frau Merkel explicar ao Czar para ele não se melindrar.

Esclarecimento: o gás que constituiria hipoteticamente a preocupação dos alemães é o gás russo para os banhos. Nada de maus pensamentos.

19/07/2011

TIROU-ME AS UMAS QUANTAS PALAVRAS DA BOCA: Uma entrevista impertinente face ao pensamento oficial e à doutrina económica do regime

«É muito engraçado fazer agora o paralelismo entre este governo do Passos Coelho, que tem duas semanas, e as duas primeiras semanas do Sócrates [em 2005]: são praticamente iguais. Prometeram que iam reformar tudo. A única coisa que fizeram até agora foi subir impostos. Há uma coisa boa que os separa: é que agora não há dinheiro. Ponto. Agora vai ter mesmo de se cortar. A única questão é onde. Ou seja, se os tais lóbis que dominaram a política portuguesa nos últimos 15 anos vão continuar a ter força e não pagam ou se se vão poupar aqueles que deviam ser poupados?

Claramente, os últimos governos estavam no bolso de grupos – sobretudo o último, o que ficou evidente neste estertor final. Não é tanto uma questão de corrupção. Se eles enfrentassem os lóbis não eram políticos, eram postos na rua naquele dia. …São professores, médicos, construção civil, banca, funcionários públicos, uma data de câmaras. Existe um certo número de pessoas que capturaram os ministérios. Têm poder para isso, poder para impor o TGV.

Grande parte da fraude fiscal é uma coisa perfeitamente legítima, que a sociedade faz perante um imposto que é completamente predatório.

No caso da Grécia parece-me que é evidente que não há solução. A Grécia pediu dinheiro a mais. Isto é um erro que o país cometeu, mas também dos estúpidos dos credores que lhe emprestaram uma coisa que ele nunca vai pagar. Se continuarmos a insistir que a Grécia pague tudo o que pediu isto estrangula o país, que não produz nada, e também não paga nada. É uma perda para todos. A solução é substituir esta dívida por outra mais baixa – a dívida é inferior, o credor perde uma pipa de massa porque emprestou 100 e só recebe 50, mas essa dívida já é sustentável e vai ser paga. É para aí que a Grécia está a ir: a questão é saber se isto é feito de uma forma ordenada, arbitrada por uma terceira entidade, neste caso a Comissão Europeia, que o faça de maneira que haja acordo [entre Grécia e credores], ou se isto é feito em zanga e rebenta com tudo. Perdem os credores, que não recebem, e perde a Grécia, que perde acesso aos mercados.

Há dois anos disse que o FMI devia ser chamado, ainda ninguém sonhava isso. Estou convencido, embora sem prova, que ainda podíamos ter safo a nossa situação sem ter pedido ajuda. Mas tivemos algo que mais ninguém teve que foram dois anos e meio de negação. Dois meses e meio depois da falência do Lehman Brothers, a 14 de Outubro de 2008, a Irlanda apresentou um Orçamento do Estado que baixava os salários dos funcionários públicos, incluindo o do primeiro-ministro. No mesmo dia Portugal apresentou um Orçamento do Estado para 2009 em que fazia a maior subida dos salários dos funcionários públicos desde 1980. O ano de 2009 é um ano em que houve uma queda do produto de 2,5% e uma subida dos salários reais no país de 5%. Comparado com isto só 1975 com Vasco Gonçalves: a economia a cair e os salários a subirem. É de loucos.

A direita é aquela que acha que os mercados são óptimos e funcionam bem. E a esquerda é aquela que acha que funcionam mal e que temos de os substituir. De facto, o que acontece é que os mercados são excelentes e têm enormes defeitos. O exemplo que dou sempre é o do avião. O avião voa. E às vezes cai. As carroças não caem. A malta que vê cair os aviões fica horrorizada porque morre imensa gente. Mas não estão a pensar voltar a andar de carroça. Os da esquerda são aqueles que querem voltar a andar de carroça e que quando vêem o avião a cair dizem “eu bem disse que isto é uma coisa horrível que funciona mal”. Os outros ficaram horrorizados porque partiram do princípio de que os aviões nunca caem. Estamos numa situação em que estão a mostrar-se os defeitos que sempre existiram – e que nem sequer são raros. Os keynesianos e os de esquerda andam todos contentes. Só os liberais acéfalos que acharam que o mercado estava sempre a funcionar bem e que quanto mais mercado melhor, que nunca perceberam que é preciso ter um equilíbrio entre o mercado e o Estado, é que estão envergonhadíssimos. E depois fazem esta coisa completamente idiota que é renegarem o que andaram a dizer.
»

[Entrevista a João César das Neves no ionline]

Podia ser o parlamento português na véspera de um feriado com ponte

The hard Left is dead right 
Não é. É o parlamento europeu atafulhado de lugares vazios a não ouvir o deputado inglês eurocéptico Daniel Hannan.

18/07/2011

ARTIGO DEFUNTO: Dois pesos e duas medidas

Para qualquer jornalista seria sempre um expediente de baixo nível escrever um artigo tentando ridicularizar o estilo expositivo de alguém, por exemplo o ministro das Finanças e, talvez não por acaso, num jornal que se atribui independência e pergaminhos éticos tanto mais escassamente visíveis quanto mais escassos são os capitais do grupo a que pertence.

O expediente desce ainda mais de nível por se tratar de um pastorinho da economia dos amanhãs que cantam que gastou os últimos 6 anos a brunir as polainas de um outro ministro das Finanças co-responsável, com o primeiro-ministro mais mentiroso da história de Portugal, pelo maior desemprego dos últimos 90 anos, maior dívida pública dos últimos 160 anos, mais baixo crescimento económico dos últimos 90 anos, maior dívida externa dos últimos 120 anos, mais baixa taxa de poupança dos últimos 50 anos e segunda maior taxa de emigração dos últimos 160 anos.

Para memória futura, aqui fica o artigo de Nicolau Santos no caderno de Economia do Expresso de 16-07-2011.

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (51) – Obama aponta Portugal e Grécia como exemplos a não seguir

«We are not Greece, we are not Portugal. We have a chance to stabilise America's finances for a decade or 15 years or 20 years if we're willing to seize the moment» disse Barack Obama numa comunicação para tranquilizar os americanos (ver vídeo aqui).

Provavelmente os seus admiradores portugueses e gregos sobreviventes ficaram desapontados. Não é caso para menos. O que disse significa implicitamente Portugal e a Grécia não terem, ao contrário dos EU, nenhuma hipótese de estabilizarem as suas finanças durante uma década, 15 ou 20 anos, ainda que o quisessem.

O pior de tudo é Obama possivelmente ter razão. Pelo que sabemos da Grécia e de Portugal e, já agora, sabendo-se também a dívida pública total (federal e estadual) dos EU rondar ser inferior à portuguesa e menos de 2/3 da grega apesar do estado desastroso das suas finanças.

Sem esquecer que até o despesista Obama «apenas» quer aumentar o debt ceiling da dívida federal para USD 4 biliões ou seja menos de 30% do PIB.

17/07/2011

ESTÓRIAS E MORAIS: Os incentivos adequados

Estórias

Um dos negócios que mais parece prosperar em Atenas é a venda de coberturas de piscina simulando jardins vistos dos helicópteros do fisco, procurando sinais exteriores de riqueza indiciando rendimentos mais altos dos que os declarados.

Entre nós, continua a existir na tropa a regra do arrastamento não autorizando a promoção ou o aumento de vencimento de um militar em detrimento de outro militar mais antigo no mesmo posto.. a não ser que este último seja também promovido ou aumentado.

O que me fez lembrar – vá-se lá saber porquê - a conhecida estória do arquitecto começando a tentar sem conseguir uma licença camarária para abrir uma janela numa fachada, acabou a pedir a licença para fechar uma janela inexistente que lhe foi recusada e, portanto, …

Moral
Se queres obter um resultado só tens que usar os incentivos adequados.

Lost in translation (113) – se Portugal não se chega à Alemanha, chegue-se a Alemanha a Portugal

É mais ou menos essa a premissa da tese do professor Cavaco Silva enunciada assim: «gostaria que o euro fosse mais fraco para que os países da Zona Euro fossem mais competitivos».

Tal original tese também podia ser enunciada assim: «gostaria que a Alemanha tivesse défices de 10% no comércio externo e no orçamento, torrasse biliões de euros em infra-estruturas inúteis e se endividasse 1,5 ou 2 vezes o PIB».

16/07/2011

Oportunidade única

O estado sucial está falido e o eleitorado pressente-o - uma percentagem próximo dos 50% aceita como bom um aumento de impostos que Passos Coelho prometeu não fazer.

O PS sofreu um rombo eleitoral e adquiriu sarna para se coçar nos próximos anos. O facto de nenhum «histórico» do PS, a começar em Mário Soares e acabar em Manuel Alegre, se apostar num dos dois candidatos mostra claramente que não acreditam na longevidade de nenhum deles. Seguro, o candidato favorito do aparelho, tem o carisma de uma alforreca e a confiança de apenas 1 em cada 5 eleitores (1/3 do score de PPC no estudo de opinião da Aximage).

A retórica da demonização do liberalismo, neo-liberalismo e ultra-liberalismo foi chumbada por um eleitorado maioritariamente colectivista e amante do estado mas cansado de demagogia e aparentemente consciente não ser possível mais do mesmo.

Por tudo isto, o governo de Passos Coelho tem a enorme responsabilidade de aproveitar uma oportunidade única na história recente do país para introduzir reformas e libertar a sociedade civil da tutela do estado omnipresente.

NOVA ENTRADA PARA O GLOSSÁRIO DAS IMPERTINÊNCIAS: Informalismo formal, Opinion dealers e PSRE

Informalismo formal
Uma prática que consiste em tornar tendencialmente compulsiva a substituição de regras convencionais de comportamento, tratamento, vestuário, etc., consideradas formais, por outras regras, igualmente formalizadas, consideradas informais por novas convenções. Exemplos: usar gravata por não usar gravata; não usar ténis por só usar ténis; não usar calças de ganga por usar jeans; Sr. Dr. Adalberto ou Sr. Ministro por camarada Adalberto, companheiro Adalberto ou só Adalberto.

Opinion dealers
Opinion makers cujo modo de vida consiste em vender opiniões por conta de outrem.

Processo Sócrates de recuperação de empresas
Apesar do nome, este processo não foi inventado mas apenas consideravelmente optimizado e intensamente aplicado por José Sócrates; é praticado há décadas e foi e poderá vir a ser usado por qualquer governo. Consiste em torrar o dinheiro necessário até o assunto morrer na comunicação social, afogado por mais falências, escutas, escândalos que envolvam a oposição ou o PR.

15/07/2011

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Mal informados andaram os portugueses

«A Moody's não tem credibilidade? Isso decidem os mercados internacionais e não as elites portuguesas aos gritos histéricos para consumo doméstico (e parece que os mercados internacionais acreditam mais na Moody's do que nas vozes portuguesas). A Europa apoia Portugal contra a Moody's? Só com conversa da treta porque na realidade ainda não fizeram absolutamente nada para reformar o papel e o poder das agências de "rating" (porque semelhante reforma não é tão fácil como dizem os nossos comentadores encartados). A Moody's anda mal informada sobre Portugal? Não, bem pelo contrário. Mal informados andaram os portugueses. Então acham que basta uma conversa bonita, um Governo jovem e uma medidas pontuais para inverter vinte anos de políticas públicas absolutamente irresponsáveis? Basta sair pela Portela e aterrar em qualquer parte do mundo para perceber que Portugal simplesmente não tem credibilidade.

É absolutamente ridículo ver grandes empresários, banqueiros e gestores portugueses falar de injustiça e moralidade neste contexto. Falamos de negócios, mercados financeiros, dinheiro, lucro; desde quando são a injustiça e a moralidade parte do assunto?

O mais triste de toda esta longa saga portuguesa contra a Moody's e as agências de "rating" é que não me lembro de todas estas vozes criticarem igualmente as políticas públicas que nos trouxeram até aqui. Estes poderes fáticos (*) são os primeiros responsáveis do buraco em que Portugal está metido, vivendo à sombra do Estado durante vinte anos como predadores dos recursos públicos, apoiando as loucuras do optimismo que faz bem a Portugal, defendendo o sobreendividamento do Estado e das famílias como modelo económico de futuro. E agora a culpa é da Moody's. Não, não é. A culpa é deles e só deles!
»

[Nuno Garoupa no Negócios online]

(*) Nem de propósito, um desses poderes fácticos com maior sucesso – os banqueiros do regime ou mais precisamente il capo di capi della banca di regimeestá em contacto com a Dagong, a agência de rating chinesa. É um upgrade no rating da reputação do BES.

CASE STUDY: Ainda o caso do downgrade da Moody’s seguido de histeria colectiva

Passos Coelho só na passada 3.ª Feira encontrou o «desvio colossal em relação às metas estabelecidas para as contas públicas», (*) mostrando assim:
Torsten Hinrichs, responsável dos serviços de rating da Standard & Poor’s na Alemanha explicou ao Die Welt, citado pela Bloomberg, que a avaliação do risco de crédito funciona como um termómetro para medir a temperatura dum paciente com gripe. Fará tanto sentido responsabilizar as agências pelas dificuldades financeiras dum país como responsabilizar o termómetro pela gripe. Uma parábola recomendável para acalmar a excitação dos adeptos das teses conspiratórias.

Mais de 2/3 das aplicações do Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social no final de 2010 eram em dívida pública portuguesa, em parte por venda de dívida de países solventes, como a Alemanha, França e Holanda. Essas aplicações fizeram o FEFSS ter perdas de 7,6%. Isto evidencia que o governo de José Sócrates usou, sem o menor escrúpulo, as contribuições dos trabalhadores portugueses para alimentar a decrépita tesouraria do seu governo mascarando as dificuldade de colocação nos mercados da dívida pública portuguesa. Ao fazê-lo confirma, uma vez mais, a justeza do downgrade da Moody’s.

Como aqui se explica (via Insurgente) a notação Ba1 atribuída pela Moody’s à dívida pública portuguesa está 9-níveis-9 acima do rating implícito nos mercados (Caa1). Assim se demonstrando a «benevolência» da Moody’s face aos desalmados mercados, e assim se confirmando ser a reacção de muitos portugueses, espicaçados por opinion dealers ignorantes e/ou intelectualmente desonestos, uma reacção de pobres e mal agradecidos.

(*) Afinal, segundo Vítor Gaspar, uma criatura merecendo mais crédito, até ver, do que os passadores de factóides do Conselho Nacional do PSD para os jornais, Passos Coelho terá dito uma dezena de palavras entre desvio e colossal: «foram detectados desvios e o cumprimento das metas orçamentais vai exigir-nos um trabalho colossal».

BREIQUINGUE NIUZ: Há médicos portugueses que fazem o juramento hipocrático hipócrita

«Mais de 70 polícias da esquadra do Bairro Alto, entraram de baixa médica, de ontem para hoje, como represália à condenação de um colega. Ainda tinha alguma, pouca, confiança na honradez da classe médica que até fazem (ou faziam) o célebre juramento quando se formam. Depois deste episódio não sei o que pensar

[De um email do detractor JB]

14/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: So far not so good (7)

Depois da demagogia histérica de José Sócrates combinada com a demagogia sonsa de Teixeira dos Santos, é refrescante ouvir o tom anti-histérico e levemente soporífico combinado com rigor expositivo de Vítor Gaspar. É assim como um almoço Jamie Oliver, por exemplo em Bath, após 6 anos de grande bouffe.

La grande bouffe

Estado empreendedor (49) – Aerosoles Investvar (V)

[Continuação de (I), (II), (III) (IV)]

A Aerosoles Investvar (com este ou outros nomes, como Investvar ou Move On) foi um modelo de sucesso do governo de sucesso de José Sócrates e dos pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam. Como outros modelos de sucesso, chegou à beira da falência e, em vez de um dos processos aceitáveis de lidar com a situação, foi-lhe aplicado o processo Sócrates de recuperação de empresas de sucesso: torrar o dinheiro necessário até o assunto morrer na comunicação social, afogado por mais falências, escutas, escândalos que envolvam a oposição, tiros nos pés do PR, etc.

Depois de 2 anos e vários milhões lá torrados, o IAPMEI conseguiu agora abandonar o barco do qual um terço foi vendido por tuta e meia aos indianos da Tata que vão ficar ao leme. Tratando-se de uma multinacional indiana presente com sucesso em várias áreas seria uma boa ideia entregar-lhe o leme de alguns dos chaços parqueados no sector empresarial do Estado.

BREGUINGUE NIUZ: Se a estupidez fizesse parte da matéria colectável não seria necessário o imposto sobre o 13.º mês


A campanha «Conquista El Alentejo» da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo lançada em Espanha para atrair turistas espanhóis parece estar a gerar fortes protestos patrióticos e tem já uma petição pública para a encerrar.
Acho bem. É a integridade da Nação que está em causa. Vencemos em Aljubarrota, venceremos em Tróia. Uma campanha estúpida combate-se com outra campanha estúpida.

Lost in translation (112) – o passado não interessa e o futuro é dos amanhãs que cantam

Vieira da Silva, ex-ministro da Economia e actual presidente da comissão de acompanhamento do programa do MofU, censurou o governo por estar a «usar o passado para justificar as suas acções», isto é estar a falar em «desvio colossal» para aplicar o imposto especial sobre o 13.º mês.

Fazendo coro com Vieira da Silva, o deputado do BE João Semedo censura igualmente o governo por «referir o passado para justificar medidas de austeridade no futuro».

Enquanto isso, o deputado socialista Vitalino Canas, armado com o know-how de 6 anos do governo socialista, denunciou «o Governo (que) está já a preparar terreno para não cumprir os objectivos».

13/07/2011

Bons exemplos (21)

Uma das pouquíssimas decisões acertadas (talvez por engano) do governo de José Sócrates foi a substituição do ministro anexo Vítor Constâncio, o zumbi estacionado durante anos no BdeP, por Carlos Costa.

Carlos Costa já teve a oportunidade de demonstrar a sua independência durante o mandato do anterior governo e agora fê-lo de novo com o actual, considerando nas projecções do Boletim Económico de Verão do BdeP apenas o impacto das «medidas de política já aprovadas ou com elevada probabilidade de aprovação, e especificadas com detalhe suficiente». Deixa de fora, nomeadamente os apenas anunciados cortes de mil milhões de euros de despesa pública, que ninguém ainda sabe onde, quando e como.

E não se pode exterminá-las?

«O Comissário Europeu para os Mercados Financeiros, Michel Barnier, propôs hoje o reforço significativo das regras aplicadas às agências de notação financeira, impedindo-as de avaliar o 'rating' dos países que beneficiam de um plano de ajuda internacional

O Comissário Europeu para os Mercados Financeiros quer impedir os mercados financeiros de terem uma informação técnica sobre os emissores de dívida soberana que, por natureza, apresentam maior risco de default. O Comissário Europeu para os Mercados Financeiros deveria mudar o nome para Leiter der Finanzmärkte.

12/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: Especulações politicamente incorrectas a propósito de DSK (4)

[Continuação de (1), (2) e (3)]

Depois de 4 posts sobre o mesmo tema, poderá parecer que o encontro sexual de Strauss-Kahn com a camareira do hotel me interessa per se. Só me interessa porque é extremamente revelador dos pré-conceitos e das projecções do politicamente correcto e porque o politicamente correcto representa hoje, depois da falência do marxismo-leninismo, o paradigma da doutrina que justifica a adulteração dos factos e da história em nome de uma «boa causa».

Podia apresentar inúmeros exemplos, mas limito-me ao da Pluma Caprichosa de Clara Ferreira Alves, que no sábado passado escreveu sobre o caso. À camareira guineense, com um namorado dealer preso com quem se aconselhou no dia seguinte para extorquir dinheiro a DSK, com um passado de mentiras e sobre quem existem fortes suspeitas de envolvimento em várias actividades ilícitas, concede-lhe o benefício da dúvida e a presunção de inocência por ser pobre (com 5 telemóveis e muitos de milhares de dólares a passarem pelas suas contas) e mulher (?).

A DSK, por ser homem, rico e poderoso, Ferreira Alves atribui-lhe o quase prejuízo da certeza e a presunção de culpa, por muito que os factos alegados levantem mais dúvidas do que certezas (por exemplo, qual o papel dos actores em causa - sexagenário desarmado e mulher de trinta anos – no filme do sexo oral forçado?). Apesar de tudo, DSK tem a sorte de ser socialista; imaginem-se as presunções do politicamente correcto tratando-se de um homem sem esse pergaminho.

Bons exemplos (20)

No meio do histerismo quase geral, com rebanhos de luminárias a competirem entre si pela maior baboseira do ano e pelo aplauso da populaça açulada, confundida e sedenta de encontrar culpados da sua miséria, a propósito do downgrade da dívida pela Moody’s, a aparente serenidade do governo merece um reparo positivo.
«Por maior que seja o risco envolvente que as agências de rating ponderem, a verdade é que a transformação que o país precisa de fazer para poder diminuir a sua despesa até um ponto em que os portugueses a possam pagar, colocar maior concorrência nas empresas, ter um sistema financeiro mais robusto, que possa fazer chegar o crédito às empresas e às famílias, tudo isso são transformações que nós precisamos de fazer qualquer que seja o ambiente externo»,
disse Passos Coelho, dando um exemplo de lucidez que já não víamos no governo há pelo menos 6 anos.

11/07/2011

SERVIÇO PÚBLICO: Afinal os conspiradores (também) são franceses

Quem é a Fitch? Uma das maiores agências de rating. O que fazem as agências de rating? Avaliam o risco de estados, empresas, fundos de investimento, títulos, etc. Ao serviço de quem estão as agências de rating? Aqui as opiniões dividem-se. Segundo a vulgata da esquerdalhada, actualmente partilhada por quase todos os governos europeus, as agências de rating estão ao serviço dos interesses anglo-saxónicos em geral e do neo-liberalismo em particular.

Quem são os accionistas da Fitch? Capitalistas anglo-saxónicos desejosos de comprometer a Europa em geral, a U.E. em particular e, muito especialmente, la France, l’exception française et tra la la la. Certo? Errado.

O maior accionista com 60% da Fitch é a Fimalac, uma holding francesa cotada na bolsa de Paris, criada e liderada por Marc Ladreit de Lacharrière, (*) un dirigeant d'entreprise (très) français, né au château familial de Lacharrière, enarque diplômé à l’École Nationale d'Administration. É caso para dizer que a ideia prodigiosa de Francisco Louçã (**) de «criação uma agência de rating europeia que diga a verdade» já está realizada avant la lettre.

REPUBLICAÇÃO do post de 12-09-2010.

(*) O que pensará M. de Lacharrière da ideia de Mme Viviane Reding, Comissária Europeia para a Justiça, de desmantelar as três majors incluindo a Fitch.

(**) Do Louçã do ano passado. O Louçã deste ano já só tem uma ideia: como continuar montado no cavalo do berloquismo, entretanto downgraded para uma mula cansada. Este ano o coro dos que reclamam a «criação uma agência de rating europeia que diga a verdade» ampliou-se com a chegada de solistas do PSD que imaginavam serem suficientes 2 semanas de declarações e promessas para transformar o chumbo em ouro.

CASE STUDY: A paranóia persecutória – «contra os canhões, marchar, marchar»

Uma criatura quando descobre ter um cancro passa por um processo psicológico com várias fases: negação, revolta, negociação, depressão e, finalmente, aceitação.

No nosso caso, a descoberta da insolvência do país e do estado falido a que costumamos chamar sucial foi retardada pelo governo de José Sócrates, acolitado pelos novos situacionistas e pelos 200 palhaços que andaram na televisão a falar de economia, incluindo os pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam.

Por alturas do pedido da ajuda ao FMI/CE/BCE, deixou de ser possível esconder a insolvência e a partir daí passámos gradualmente da fase da negação para a fase da revolta em que nos encontramos. No nosso caso, essa revolta coexiste com uma paranóia persecutória.

Ontem fui atingido por um email – uma espécie de granada que circula por aí disparada por um obus paranóico. É um paradigma dessa paranóia persecutória. Passo a transcrever as partes mais suculentas.

Primeiro, uns parágrafos à guisa de teaser:

«Se gostas de bacalhau na brasa, de sardinha assada, da praia num domingo de Agosto na Caparica, na Falésia ou em Moledo, se és fã do Porto, do Benfica ou do Sporting, se achas que a política é uma merda, se o dinheiro nunca te encheu os bolsos, nem com moedas de 10 cêntimos, então protesta. Chuta e segue e já agora passa ao vizinho!»

Depois, vem a artilharia IT:

«A ideia é simples... querem guerra? Pois não sabem com que povo se estão a meter... vamos retaliar como podemos, dentro das nossas capacidades!
Comecemos pela internet... Um servidor web tem uma capacidade máxima de resposta. Raro é um servidor web que suporta mais de 3000 conexões em simultâneo!
Posto isto, vamos provocar o que tecnicamente se chama de "Denial of Service (Dos)". Consiste …
Agora imaginem provocar uma inoperabilidade dos servidores web durante as horas de abertura da bolsa de nova iorque... em que a web, o e-mail e outras ferramentas asseguradas pelo servidor web são importantes!

Contra os canhões, marchar, marchar!»

«Oh, for God's sake... get a life, will you?», suspiro eu pela boca de William Shatner, o Captain Kirk do Star Trek.

10/07/2011

BREIQUINGUE NIUZ: Declaração presidencial (eventual) de desagravo

Segundo uma fonte não autorizada amiga do (Im)pertinências, o professor Cavaco, o Dr. Sampaio e o Dr. Soares poderão assinar uma declaração conjunta de desagravo intitulada:
Há vida para além do rating.

Bem hajam.

O melhor que o nosso jornalismo opinativo consegue produzir não é bom

«… as agências de rating nos perseguem como uma matilha enfurecida há muitos meses. O “lixo” é apenas mais um passo – o mais humilhante de todos -, nessa degradante corrida

Meia dúzia de linhas abaixo deste fragmento de retórica zoológica, Ricardo Costa, director do Expresso, escreve sobre «… a questão que PSD, o CDS e PS se recusam a encarar: neste momento, é muito provável que Portugal não consiga pagar tudo o que deve nos prazos combinados. É triste dizer isto? É, mas é verdade? … Com uma dívida enorme, juros estratosféricos, um crescimento endémico e um nível de fiscalidade absurdo, Portugal vai ser obrigado a renegociar a sua dívida

Se Ricardo Costa fosse analista em vez de director do semanário do regime, omitiria a lengalenga popularucha do jornalismo de causas do primeiro parágrafo citado e seria obrigado a circunscrever-se aos factos que objectivamente descreve no segundo, reconheceria como realistas as premissas da Moody’s, atrasadas em relação ao que os mercados já anteciparam, teria dispensado o termo «lixo» para açular a matilha (agora sou eu a usar a retórica zoológica) e poderia ter escrito o que a Moody’s escreveu para fundamentar o downgrade da dívida pública portuguesa de longo prazo de Baa1 para Ba2:

«Moody's acknowledges that its earlier concerns about political uncertainty within Portugal itself have been largely resolved. Portugal's national elections on 5 June led to the formation of a viable government, both components of which had campaigned on the basis of supporting the EU-IMF loan agreement negotiated by the previous government. Moody's also acknowledges the policy initiatives announced at the end of June demonstrate the new Portuguese government's commitment to the programme. However, the downside risks (as detailed above) are such that Moody's now considers the government long-term bond rating to be more appropriately positioned at Ba2. The negative outlook reflects the implementation risks associated with the government's ambitious plans

09/07/2011

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A vingança de Sócrates

Muita gente terá pensado ser a tese conspiratória das agências de rating uma mera invenção de Sócrates para alijar as responsabilidades pelos resultados do seu desgoverno: maior desemprego dos últimos 90 anos, maior dívida pública dos últimos 160 anos, mais baixo crescimento económico dos últimos 90 anos, maior dívida externa dos últimos 120 anos, mais baixa taxa de poupança dos últimos 50 anos e segunda maior taxa de emigração dos últimos 160 anos.

Se também achou isso, é melhor pensar outra vez. De facto, José Sócrates usou esse argumento com algum sucesso, beneficiando da proverbial falta de informação e discernimento do eleitorado. Porém, a partir de certa altura, o dilúvio de mentiras, a visível deterioração da situação económica e financeira, em contraste com o discurso optimista, descredibilizando o arguente descredibilizaram o argumento.

Descredibilizaram o argumento mas não o liquidaram e aí está outra vez. Agora, esgrimido não pelo governo que se limita a um conformado «murro no estômago», mas inevitavelmente pela esquerda e pela direita amante do estado, por corresponder à manifestação dos seus fantasmas (mercados, livre iniciativa, capitalismo, americanos) e das suas teses conspirativas de estimação. E o argumento, também inevitavelmente, é uma benção para uma população a passar do estado de negação, alimentado por José Sócrates durante os últimos 3 anos, para o estado de revolta. E na revolta é preciso encontrar um bode expiatório, para não enfrentar as responsabilidades próprias: endividamento insustentável para comprar a casita, o carrito, o plasma, os tabletes, os iPods, as férias no nordeste brasileiro, etc. Em breve, será o governo PSD/CDS, mas, por agora, até a gente mais burra hesita em elegê-lo como bode, decorridas 2 semanas da posse.

Que fazer enquanto se espera o fim do curto período de graça? Encontrar um substituto consensual aos principais interessados. Uma entidade que, para começar, permita ao situacionismo socialista endossar as responsabilidades por 13 dos últimos 16 anos. Se essa entidade, além disso, puder servir de argumento à esquerda troglodítica para demonstrar os malefícios do neo-coisismo, servir de desculpa antecipada às prováveis derrapagens do governo, de álibi aos 200 palhaços que andaram na televisão a falar de economia, em particular ao subconjunto dos pastorinhos da economia dos amanhãs que cantam, sem perceberem (ou a esconderem) o desfecho há muito visível, e se ainda puder concitar o rancor popular, então teremos a entidade perfeita.

Essa entidade perfeita terá de possuir várias características para servir propósitos tão díspares. Terá que ser estrangeira para afastar as culpas o mais possível dos responsáveis e concitar mais facilmente os ódios. Até aqui temos vários candidatos. Os alemães (querem-nos fazer trabalhar mais horas e reformar mais tarde) e os finlandeses (não queriam dar para o peditório) seriam há uns meses bons candidatos, mas ao abrirem os cordões à bolsa enfraqueceram a candidatura. O BCE não é consensual porque está a emprestar dinheiro aos bancos que emprestam ao estado que o torra para pagar as pérolas do estado sucial e de caminho a multidão de sinecuras.

Os americanos seriam uma boa aposta nos tempos do Bush Júnior. Agora com Barack Obama é muito mais difícil. Até a esquerda anti-americana (OK, eu sei. Por definição toda a esquerda é anti-americana e, já agora, uma boa parte da direita colectivista) tem agora mais dificuldades em vender a ideia. Se ainda fosse no segundo mandato, quem sabe.

Os mercados, a concorrência, os capitalistas, os especuladores, seriam bons candidatos, sobretudo para os intelectuais em geral e os políticos ou activistas de esquerda. Porém, são categorias abstractas dificilmente concretizáveis em inimigos visíveis para concitar o ódio popular. A não ser se capitalistas e especuladores fossem os nacionais e aí poderíamos ter uma segunda edição do PREC com eles a fugirem para o Brasil para escaparam a um coronel Tapioca a querer enfiá-los no Campo Pequeno. Isso já não é possível. Esses cartuxos já não têm pólvora. A plebe perdeu o nervo com a casita, o carrito, o plasma, os tabletes, os iPods, as férias no nordeste brasileiro, etc.

Não está fácil. Quem, portanto? O povo com a sua infinita sabedoria, inspirado por um coro de pitonisos e opinion dealers, já encontrou a resposta. A Moody’s.

08/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: So far not so good (6)

Este governo já meteu algumas vezes a pata na poça. Contudo, deve reconhecer-se-lhe, entre outras coisas, uma atitude acertada em relação aos sinais exteriores de austeridade. Dirão os teóricos destas coisas não interessar nada poupar uns milhares ou dezenas de milhares quando o moloch estatal devora mais de 50% da riqueza criada no país. Errado. Interessa imenso para quem conheça os portugueses sempre à espera um pretexto, um sinal «de cima», para se dispensarem de fazer o que devem e rosnar para o lado.

Deixar de usar viaturas oficiais nas deslocações pessoais e cartão de crédito para despesas de representação pode representar pouco dinheiro mas é um sinal forte para um bom número de portugueses a quem o governo assaltou o 13.º mês.

Mitos (48) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (III)

[Continuação de (I) e (II)]

Rendo-me. Afinal há mesmo uma conspiração. Quem o diz é o conhecido especialista em política e finanças internacionais e em intriga nacional e internacional Professor Doutor Marcelo.
«Para mim, é evidente que isto entra numa estratégia americana contra o Euro e contra a Europa, em que as agências de 'rating' têm um papel muito importante,são americanas, puxam pelo dólar, têm posições em momentos cruciais desfavoráveis ao Euro e a economias europeias
Espera-se que o Professor Doutor Marcelo, em tempos o líder das bandeirinhas do Euro 2004, inicie uma campanha de jantares de desagravo (vichyssoise será obrigatória), para mostrar ao mundo que os portugueses podem estar falidos e em estado de negação mas o seu viçoso ego resplandecente de auto-estima não se deixa humilhar pelas agências de rating. Ainda vamos assistir a um poderoso levantamento nacional contra o ultimato americano de 2011. Já o fizemos com o ultimato britânico de 1890, ainda sem o Professor Doutor Marcelo mas já com a ética republicana, voltaremos a fazê-lo ainda que Cristo não desça à terra.

Mitos (47) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating (II)

[Continuação de (I)]

Usando as mesmas palavras de Santos Ferreira, insinuando a habitual tese conspiratória aplicada à Moody’s, «começo a acreditar que não se deve apenas à incompetência» o que diz a nossa banca do regime a propósito do downgrade da dívida portuguesa. Designadamente, o pensamento do decano dessa banca e presidente do BES ao brindar-nos com esta pérola do pensamento financeiro em linguagem naval:
«Foi mais um tiro certeiro no 'navio Portugal' da 'frota europeia' na guerra que se está a travar entre o dólar e o euro
Infelizmente para a reputação de Ricardo Salgado como banqueiro, a sua tese conspiratória não encontra suporte na realidade, a menos que ele quisesse concluir que, na «guerra que se está a travar entre o dólar e o euro», as agências estão do lado do euro. De facto, dando de barato as notações serem fabricadas para atacar o euro como divisa, significando enfraquecê-lo, isto é desvalorizando-o, o resultado é o inverso. É o dólar que se tem desvalorizado face ao euro, como se pode ver neste gráfico do BCE.


Se ainda não tivesse caído por terra, esta tese conspiratória do banqueiro do regime ruiria com estrondo quando se compara a evolução dos Credit Default Swaps (CDS) das OT portuguesas, o seguro de crédito da dívida pública, com as notações da Moody’s. Reflectindo as cotações dos CDS a percepção do mercado do risco de incumprimento, o que se assiste é ser a notação da Moody’s influenciada pela percepção de risco do mercado e não o contrário. Como aqui constatou o Insurgente, «o rating da Moody’s anda meio a “reboque” do valor dos CDS transaccionados no mercado».

07/07/2011

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O mundo real aí dentro

«Não deixa de ser sintomático, que os denominados ultra-liberais que trabalham na sua grande maioria por conta própria e nas suas empresas, sejam acusados, pelos que têm vivido encostados ao estado, de não conhecer o mundo real. Mas se calhar é isso: o mundo real não está cá fora, mas aí dentro
[André Abrantes Amaral no Insurgente]

Declaração de interesse:
Como denominado ultra-liberal, ou seja um sujeito que rejeita andar com o Estado às costas para que o Estado ande com ele ao colo, confirmo trabalhar há muitos anos por conta própria no mundo irreal cá fora.

Mitos (46) – as teorias da conspiração sobre as agências de rating

Cada vez que uma agência baixa a notação de Portugal ou de uma empresa portuguesa, o alarido de protestos eleva-se e os disparates multiplicam-se.

Vou dar de barato que as agências de rating: 1) falham clamorosamente nas suas avaliações; 2) escamoteiam conflitos de interesse (por exemplo accionistas eventualmente interessados em especular com a dívida pública ou privada ou as acções que sofreram downgrade – Nuno Guerreiro, um tanto surpreendentemente, insinua-o aqui) e 3) estão ao serviço dos americanos.

Alguns factos em que estas teorias da conspiração tropeçam:
  1. Se as agências não têm credibilidade, porque razão não se protestaram as notações A da dívida pública portuguesa até 2007 sistematicamente atribuídas à dívida pública portuguesa?
  2. Já agora, se o governo acha sobreavaliado o risco da dívida pública portuguesa, porquê também não acredita que o maior grupo não financeiro e maior empregador português (Sonae) «não tem idoneidade para ser fiador de uma dívida de quatro milhões de euros»?
  3. Se as agências não investem e se as suas avaliações não são credíveis porquê os investidores aparentemente as tomam em consideração?
  4. Pela mesma razão, porquê continuar a pagar às agências para nos darem «murros no estômago», como disse hoje o primeiro-ministro?
  5. Se as agências de rating estão ao serviço de interesses americanos, agora que os EU estão endividados à China e a perder influência, porque não exige o resto do mundo em coro a sua extinção?
  6. Considerando tudo isto, porquê os países europeus “amigos”, as instituições comunitárias e os seus sistemas financeiros, todos eles vilipendiando as agências, não desconsideram a avaliação a dívida portuguesa pelas agências e, em vez disso, tomam em consideração o “verdadeiro” risco de default?
  7. Dito de outro modo, why they don’t put the money where their mouths are?
  8. Por último, como deveriam as agências considerar os efeitos sobre o risco de default da dívida portuguesa do aumento constante e encadeado:
  • das despesas públicas 
  • do défice do OE (incluindo as últimas notícias sobre mais uma derrapagem na execução orçamental no 1.º trimestre) 
  • da dívida pública e privada e, consequentemente,  
  • dos juros
tudo isto num cenário de crescimento próximo de zero durante uma década e de recessão nos últimos e nos próximos anos?

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: The Wall

Em Jerusalém                                                     em Portugal             

[Enviado por AB, um notório GPI = Gajo Politicamente Incorrecto]

06/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Maria José Nogueira Pinto (1952-2011)

Mitos (45) - a saúde da banca portuguesa

Diagrama do Expresso
Proporcionalmente, entre as bancas europeias, a banca portuguesa é a que tem a maior exposição à dívida grega. Como se chegou aos 7 mil milhões de euros? Uns milhões de cada vez, empurrando o problema com a barriga para a frente. Consequência: o mais tardar com o desmoronamento da Grécia a lengalenga do bom estado de saúde da banca portuguesa cai por terra.

DIÁRIO DE BORDO: Especulações politicamente incorrectas a propósito de DSK (3)

O armário de DSK parece estar a transbordar de esqueletos femininos. Oito anos depois, Tristane Banon, um desses alegados esqueletos, indignada por ver imagens do «chimpanzé com cio» em restaurantes de luxo em NY (como o homem gosta de luxo, a jovem teve imensas outras hipóteses de se indignar durante os longos 8 anos) resolve acusá-lo de tentativa de violação em 2003.

Porquê uma jovem jornalista, emancipada, bem-pensante, rive-gauche, não o fez antes é um mistério insondável. Com esta cajadada pode matar dois coelhos: outra vez o ressuscitado DSK, alegado violador, e François Hollande, alegado encobridor, como por acaso também putativo candidato socialista à presidência.

Concedamos, por agora, a presunção de boa fé à menina Tristane, filha de boas famílias e aparentemente sem nenhum namorado preso e um só telemóvel, ao contrário da housekeeper. Liguemos, contudo, o desconfiómetro não vá ainda aparecerem alegadas vítimas de violação de Ségolène Royal (ex-mulher de François Hollande) e Martine Aubry (filha de Jacques Délors) também prováveis candidatas en attendant.

As eleições presidenciais francesas estão a ficar parecidas com Bollywood. «La chienlit, non», teria dito outra vez o general De Gaulle se ainda por lá andasse.

05/07/2011

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (44) – calam-se e falam a desoras (outra vez)

Depois de 6 anos dado como morto, António José Seguro, ressuscita com a frescura de um carapau com 3 dias de canastra, e aponta o dedo ao «primeiro-ministro (que) não honrou propostas eleitorais» de não aumentar os impostos. Tem toda a razão. E não fora o estado de coma político em que viveu durante os últimos 6 anos e teria gasto todos os dedos das mãos e dos pés a apontá-los ao seu camarada José Sócrates por não ter honrado propostas eleitorais e, mais do que isso, por se ter desonrado, e ao PS e seus militantes, com tanta mentira.

DIÁRIO DE BORDO: So far not so good (5)

Custa mais perceber enfiar a privatização da RTP para debaixo do tapete, empurrando-a para as calendas gregas por pressão do lóbi SIC/TVI, aparentemente representado por Paulo Portas, do que o imposto extraordinário de 50% do 13.º mês. Desde logo porque a privatização da RTP permitiria poupar quase um milhão de euros por dia e, last but not least, fecharia a principal câmara de eco dos sucessivos governos, limitando assim o papel do Estado na comunicação social e os meios disponíveis para a manipulação mediática.

Quanto ao imposto extraordinário, Passos Coelho tinha a obrigação de ter percebido da sua necessidade e, consequentemente, sendo assim, tinha a obrigação de não escamotear essa pressuposta inevitabilidade durante a campanha. Gastou alguns dos créditos que aqui lhe concedemos, ainda que não se esteja a ver como se atingiria sem isso o objectivo do défice do MofU. De facto, sabe-se (contas de João Duque no Expresso) que o acréscimo da dívida de Dezembro a Maio foi de 7,5 mil milhões ou seja quatro vezes a média de 10 anos para o mesmo período, acréscimo que fez a dívida até Maio ultrapassar o limite autorizado no OE para todo o ano de 2011.

Evidentemente que a privatização da RTP com a sua poupança de 300 milhões/ano não dispensaria encontrar outras medidas de redução da despesas e/ou de aumento da receita quando se sabe que o défice no primeiro trimestre derrapou quase 2% do PIB, o que a continuar representaria no final do ano um desvio superior a 3 mil milhões.

Exemplos do costume (3) - «pedir à raposa para guardar o galinheiro»

É já um hábito. Em 2003 a Líbia foi eleita presidente do Conselho dos Comissão de Direitos Humanos da ONU e foi seu membro até recentemente. Na lista actual dos membros encontramos, além da Líbia, suspensa em 1 de Março passado, vários paraísos dos direitos humanos, como a China, a Arábia Saudita, a Rússia e, não podia faltar, Cuba.

Desta vez, porém, a ONU excedeu-se em zelo. A Coreia do Norte, várias vezes condenada pela ONU por desenvolver e testar armas nucleares, foi nomeada presidente da Conferência sobre Desarmamento.

04/07/2011

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (12)

[Actualização (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10) e (11)]

31-03-2011
Em consequência da inclusão no perímetro do OE dos défices das empresas públicas que cobrem os custos com menos de 50% de receitas próprias, segundo os critérios do Eurostat desde há vários anos não cumpridos pelo governo socrático, o INE corrigiu os défices de vários anos:
  • 2009 - 10,0%
  • 2010 - 8,6%
23-04-2011
«Défice de 2010 revisto em alta para 9,1 por cento do PIB»

Programa eleitoral do PS divulgado em 28-04-2011:
04-07-2011
«"No domínio das finanças públicas não estou muito preocupado. As metas de redução do défice serão atingíveis, foram no passado e não tenho dúvidas que serão nos próximos anos", garantiu o ex-secretário de Estado do Tesouro Carlos Costa Pina. … socorreu-se do exemplo do ano de 2010, em que era ainda secretário de Estado, para afirmar que o anterior Executivo partiu de uma meta inicial de 8,3 por cento do PIB, para 7,3 por cento e mais tarde terá atingido os 6,8 por cento

Moral da estória:
O tempo agrava os défices orçamentais e faz o mesmo aos défices de memória.

03/07/2011

Os malefícios da liberdade económica (ou do liberalismo)

Como todos sabemos, não obstante a presença cada vez mais asfixiante do Estado e o seu peso cada vez maior na economia e na sociedade portuguesas, a nossa presente miséria deve-se ao liberalismo, neo-liberalismo, ultra-liberalismo ou seja lá o que for consistindo na promoção da liberdade económica. Como todos sabemos, a solução para a presente miséria a que chegámos, é fortalecer a presença e a intervenção do Estado.

Por alguma razão desconhecida, no resto do mundo a liberdade económica parece estar associada ao progresso económico e social e à consequente qualidade de vida, como se pode ver no diagrama seguinte retirado do vídeo Economic Freedom & Quality of Life (via Insurgente).


Isso é no resto do mundo. Em Portugal não é assim. Nós portugueses somos diferentes. Nós não queremos liberdade, queremos igualdade. Preferimos ser todos pobres a ser ricos, remediados ou pobres, consoante o empenho. Não é fácil, mas estamos a fazer por isso há séculos. Grandes progressos foram feitos com a ajuda do Estado Corporativo - uma espécie de Estado Sucial avant la lettre, e nas últimas 4 décadas com a ajuda de quase toda a esquerda e de boa parte da direita, amantes do Estado. Chamamos a isso Estado Sucial que é o estado dum Estado que tira cada vez mais de nós e dá cada vez menos a cada vez mais, até ao ponto em que tirará quase tudo a quase todos e dará quase nada a quase todos. É veículo ideal no caminho para a insolvência.

02/07/2011

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (43) – ou se calam ou falam a desoras

«Para mim, a ética republicana acrescenta à lei, é mais do que a lei. Muitas vezes somos confrontados com leis injustas que até nos podem trazer uma pequena vantagem patrimonial, mas, confrontados com a nossa exigência e princípios, consideramos ser nossa obrigação não beneficiar dela, ainda que legalmente possa ser admitido», disse António José Seguro o candidato à liderança do PS, aparentemente saído duma clandestinidade que durou 6 anos.

Na mesma ocasião, Mário Soares confessou, com vários anos de atraso, que ao PS «faz bem uma cura de oposição», repetindo o que tinha dito aquando da fuga do engenheiro Guterres: «ao PS fará bem uma cura de oposição ... para livrar-se de um certo oportunismo interesseiro e negocista que o atacou, como musgo viscoso».

ESTÓRIAS E MORAIS: A coisa não está fácil

Estória

Como se tivesse passado uma década e não dez dias desde o fim do pior governo desde dona Maria II, a oposição socialista protesta as medidas anunciadas pelo governo neo-liberal, ou ultra-liberal, consoante as tendências, e pressupõe o 3.º ou 4.º fim da crise desde 2005.

Como se já tivesse consultado o oráculo de S. Caetano, a oposição interna nunca esteve iludida e sabe perfeitamente que a coisa só pode correr mal. Está tão certa disso que à míngua de ter um líder certificado está à beira de desejar en privé o regresso de José Sócrates ou do seu sucedâneo ou sucessor.

Como se a natureza profunda do colectivismo da alma portuguesa e o amor-ódio ao Estado entranhado nas vísceras dos portugueses tivesse por milagre desaparecido com a nomeação do menos mau entre os piores governos possíveis, o liberalismo académico já está desiludido com a falta de medidas com o selo da pureza liberal.

Moral

É muito difícil ser prior desta freguesia.

01/07/2011

DIÁRIO DE BORDO: Especulações politicamente incorrectas a propósito de DSK (2)

Na minha especulação anterior, DSK poderia ter sido vítima dos seus instintos e da sua falta de discernimento. Nesse caso, a estória poderia ser mais um exemplo dum princípio que fui inferindo ao longo dos anos: os pobres (*) não se distinguem dos ricos por terem mais escrúpulos em extrair dinheiro por processos ilegítimos, mas antes por terem menos talento para o fazer. Ou, vá lá, por também terem menos oportunidades.

Parece ser essa mesma a conclusão da polícia de NY depois de ter «uncovered major holes in the credibility of the housekeeper who charged that he attacked her in his Manhattan hotel suite in May». Nada de surpreendente, salvo para quem vê o mundo real com os óculos do preconceito doutrinário em geral ou do preconceito do politicamente correcto em particular.

(*) Concluo, provisoriamente, que este princípio pode não se aplicar inteiramente ao caso porque a housekeeper não parece ser o modelo de «pobre». Segundo o NY Times, «the investigators also learned that she was paying hundreds of dollars every month in phone charges to five companies

ESTADO DE SÍTIO: O estado do Estado de Sócrates (2)

[Continuação de (1)]

Os efeitos dos feitos de José Sócrates continuam a sentir-se:
  • A miraculosa execução orçamental do 1.º trimestre anunciada por Teixeira dos Santos antes de fechar a loja, deu lugar a um défice de 7,7%, claramente superior ao objectivo do MofU (5,9%);
  • Ficou-se a saber de mais uma multa de 122 milhões de euros de 2007 e 2008 devido a atribuição indevida de subsídios da PAC;
  • O governo de José Sócrates acrescentou mais 6 anos de prejuízos dos Estaleiros de Viana no Castelo aos 16 anos dos seus predecessores Cavaco e Guterrres;
  • Poucos dias antes de se ir embora (um Freeport renovável?), Zorrinho, o secretário de estado da Energia duplicou o limite para a instalação de energia fotovoltaica, cujo custo por kWh produzido é o triplo da energia convencional, numa área em rápida evolução tecnológica em que um investimento se arrisca a tornar-se obsoleto ainda antes de entrar em funcionamento

DIÁRIO DE BORDO: So far not so good (4) - o Alvarinho de Viseu

Está escrito nos manuais. Num país colectivista com uma grande distância hierárquica onde o respeitinho é muito bonito, uma estratégica de comunicação baseada num informalismo formal (*) só pode dar mau resultado. O que conseguiu Álvaro Santos Pereira com a sua obsessão mediática e esforço promocional para ser popular e reduzir distâncias (Senhor ministro? Tratem-me por Álvaro)? Conseguiu em poucos dias ascender ao 37.º lugar «mais poderoso da economia portuguesa», um ranking ridículo do Negócios, com o petit nom de «Alvarinho de Viseu» que «tem um super-Ministério nas suas mãos. Mas (não se sabe se) será um super-ministro

Arrisca-se a ninguém mais o levar a sério. E não me venham dizer que é a falta de experiência ou o perfil demasiado técnico. Vejamos um exemplo conhecido e politicamente incorrecto: António Oliveira Salazar, o Botas, com uma carreira exclusivamente académica chegou ao governo como ministro das Finanças com menos 2 anos do que o Alvarinho e a primeiro-ministro 7 anos depois. A falta de experiência política e até de vida não o impediu de perceber como funciona a alma portuguesa, nem o impediu de escolher as atitudes adequadas ao tempo em que vivia e ao seu propósito.

Renovo os votos para que ASP, passadas as excitações preliminares, se concentre nas externalidades que dependem do Moloch estatal.

(*) A definir no Glossário quando tiver pachorra.