Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/04/2009

SERVIÇO PÚBLICO: É mais o que os une do que aquilo que os divide

«A nova lei do financiamento dos partidos políticos, das campanhas eleitorais e dos grupos parlamentares, ontem aprovada na especialidade em tempo recorde, sobe em mais de um milhão de euros — de 22.500 para 1.257.660 euros — o limite das entradas em dinheiro vivo nos partidos.

O texto final foi aprovado, na esmagadora maioria dos artigos, por unanimidade, o que prenuncia o consenso que hoje deve ser conseguido no plenário em votação final global
.» (Público)

Espera-se que o Ministério das Finanças relance a campanha PEÇA FACTURA.

O senador do queijo limiano


[no Oje de hoje]

29/04/2009

«Uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral» (2)

«Gordon Brown’s budget is a dishonest piece of pre-election politicking»
[Desperate measures, Apr 23rd 2009, The Economist]

Não há notícia de que Gordon Brown tenha processado a Economist. Sorte a deles. Se escrevessem a mesma coisa sobre as trapalhadas do nosso primeiro não se livravam dum processo.

«Uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral»

«O orçamento é uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral. As previsões fiscais são como aquelas desculpas infantis que começam com um pequeno exagero e se transformam numa completa falsidade. É insuportável que, para emagrecer o défice, as Finanças assumam que a economia voltará a crescer no final do ano. Um primeiro-ministro prudente não poderia autorizar tal coisa.

A curto prazo, um módico de guerra de classes pode ajudar. Mas, por cada eleitor que aprecia a ideia de apertar os ricos, pode haver vários que se lembram da promessa de não aumentar os impostos durante a legislatura.»


Desafio: quem escreveu (aproximadamente) isto, sobre quem e quando?

Irá o primeiro-ministro em causa accionar o jornalista ou o jornal que publicou tais diatribes?

28/04/2009

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: País em vias de subdesenvolvimento

«Portugal deverá cair este ano para a 33ª e última posição no "ranking" de riqueza criada por habitante das economias avançadas, revelam as últimas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre 2000 e 2008, Portugal recuou da 18ª para a 32ª posição. Este ano, arrastado pela crise, tocará no fundo, ultrapassado pela Eslováquia.» (JdeN)

É um país em vias de subdesenvolvimento.

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: Quando for crescido quero ser deputado

- Avô sabes onde fui ontem, numa visita de estudo?
- ?
- À Assembleia da República.
- Hum. E que tal?
- Um deputado falava e os outros dormiam ou navegavam na Net.
- Todos?
- Só os do palanque é que tomavam notas ou jogavam à batalha naval. Não tive a certeza.
- E então?
- Quando for crescido quero ser deputado.

27/04/2009

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Abissus abissum invocat

Deve haver uma atracção dos portugueses pelo abismo. Só isso pode explicar que num contexto duma década de queda relativa da produtividade e consequente perda de competitividade, défice estrutural no comércio externo, crescente endividamento do Estado, do sector financeiro, dos particulares e das empresas em geral, contexto agravado por uma conjuntura internacional desfavorável que torna ainda menos atractivas as exportações portuguesas … (pausa para respirar) num contexto e numa conjuntura assim, à beira duma deflação, acentue-se, depois de o Estado ter aumentado os salários dos funcionários públicos em 2,9%, o sector privado acordou com os sindicatos aumentos médios de 2,6%, presumivelmente o «maior ganho de poder de compra desde 2000».

É um país em vias de subdesenvolvimento.

Nobody would have the balls today

«Salman Rushdie publicou os “Versos Satânicos” há vinte anos. Os líderes religiosos do Irão consideraram que o livro ofendia o Islão e condenaram-no à morte.

Muçulmanos britânicos queimaram cópias da obra em fogueiras públicas. No entanto, as elites políticas, intelectuais e os meios de comunicação ocidentais defenderam o escritor, mostrando a sua perplexidade e indignação. Não passou pela cabeça de algum ocidental condenar Rushdie ou o livro.

Quase duas décadas depois, em 2005, muitas vozes nos mesmos países ocidentais condenaram os jornais dinamarqueses por publicarem as caricaturas de Maomé. O governo turco quis impedir o então Primeiro Ministro dinamarquês de ser escolhido para Secretário Geral da NATO, simplesmente por não ter criticado a liberdade de imprensa dos jornais do seu país. No ano passado, uma das maiores editoras norte americanas, a Random House, não publicou um manuscrito por, na opinião de um académico, ser "ofensivo" para a religião muçulmana. Em 2009, os autores ocidentais são menos livres e têm mais medo do que em 1989. Cito (sem traduzir) o que disse recentemente um outro escritor britânico muçulmano, Hanif Kureishi: "nobody would have the balls today to write The Satanic Verses, let alone publish it".
»

[João Marques de Almeida, Retrocesso na liberdade, DE]

26/04/2009

CASE STUDY: To be born as a gentleman is an accident. To die as a gentleman is an achievement. (2)

Não sendo a genética determinística, valerá a pena o estado fazer alguma coisa para proporcionar oportunidades aos filhos dos pobres, ou pelo menos aos melhores entre eles? Interroguei-me a semana passada aqui.

No decurso da semana, o estado, pela boca do primeiro-ministro durante o seu comício quinzenal no parlamento, anunciou que iria ser aumentada a escolaridade obrigatória de 9 para 12 anos e concedidas bolsas aos alunos com aproveitamento escolar no ensino secundário cujas famílias se enquadrem nos dois primeiros escalões do abono de família. Sendo inquestionável que estas bolsas constituem uma medida (insignificante – a bolsa mensal não chega para comprar um jogo da Playstation) para melhorar as oportunidades dos filhos pobres escaparem ao determinismo social, podemos concluir que o aumento da escolaridade é uma medida importante no mesmo sentido?

Só por milagre. A extensão para 12 anos, com a inevitável transposição do facilitismo reinante no ensino básico, levará à extensão da mediocridade aos 12 anos de ensino. Dito de outro modo, os padrões do ensino secundário, que já de si deixam a desejar, como o reconhecem as universidades que recebem legiões de alunos mal preparados, degradar-se-ão ao nível do ensino básico. O resultado será os melhores ficarão pior e os piores ficarão na mesma. No final, é provável que mais filhos dos pobres cheguem ao 12.º ano, mas pior apetrechados e com um diploma cujo valor de mercado se deteriorou. Se a isto somarmos a previsível migração dos filhos dos ricos para o ensino privado em resposta à degradação do secundário, o nível médio dos alunos decairá ainda mais.

Com esta incursão pelo terreno das medidas para encher o olho dos eleitores, fica por responder a mesma pergunta.

[Continua talvez]

25/04/2009

DIÁRIO DE BORDO: 25 de Abril? ah, pois (REPUBLICADO)

Portugal será uma democracia madura quando os dinossauros cretácicos comemorantes do 25 de Abril igualarem em número os trilobites paleozóicos (não comemorantes) do 28 de Maio e ficarem, literalmente, a discursar uns para os outros.

[4 anos depois continuam quase todos os dinossauros cretácicos e ainda restam uns quantos trilobites paleozóicos]

ESTADO DE SÍTIO: o crime compensa

«Otelo Saraiva de Carvalho foi o líder operacional das FP-25 de Abril. Este facto foi julgado e provado em tribunal. Entre os crimes de que foi acusado, estavam o assassinato de 17 pessoas, de uma forma fria, brutal e cobarde. Apesar disso, Otelo foi promovido a Coronel por despacho conjunto do Ministro da Defesa e das Finanças.»

[O crime compensa no 31 da Armada]

24/04/2009

Os verdadeiros independentes vão nas listas partidárias e os falsos nas listas sem apoio partidário

«Enfim, as voltas que temos que dar para justificar o injustificável. Os verdadeiros "independentes" vão nas listas partidárias enquanto os falsos independentes apresentam-se em listas sem apoio partidário!

Depois do que aconteceu em Lisboa com os maus resultados do PS e do PSD em detrimento das candidaturas independentes, o destino ficou traçado. Nem independentes, nem partidos regionais, nem círculos regionais que coloquem em perigo a hegemonia dos velhos partidos, nem qualquer tipo de flexibilidade que facilite a formação e financiamento de novos partidos. Nem mesmo a possibilidade de listas abertas ou voto preferencial consegue ter aceitação. Mas também não surpreende. O segundo pilar do nosso sistema político é a centralização de todas as decisões nas lideranças nacionais. Para isso, temos de ter listas fechadas e escolhidas a dedo pelas direcções nacionais dos partidos. Evidentemente que graças a 35 anos desta prática, temos a Assembleia da República que temos, incompetente, inútil, ineficaz. Na verdade, o Governo transformou-se em poder legislativo e executivo enquanto a Assembleia da República tem uma função decorativa que, quanto muito, permite algum que outro espectáculo nas sessões plenárias. A introdução de qualquer influência dos eleitores na escolha dos deputados irá naturalmente prejudicar as lideranças partidárias, e dificultar a distribuição de sinecuras entre os "apparatchiks".»


[Nuno Garoupa, Os pilares do nosso sistema político e a conversa da treta, no JdeN]

23/04/2009

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: uma estratégia para a vida

Não seria preciso os rapazes do ISCTE terem torturado as suas meninges e construírem o Índice de Consciência Reforma (ICR). Todos nós já sabíamos o que os portugueses pensam do futuro (a Deus pertence) e o que esperam do Estado (tudo), em particular o que esperam em matéria de pensões de reforma (que custem pouco, cheguem cedo e com suficiência). Já que os rapazes fizeram o estudo, infelizmente pouco frequente entre nós, praticantes do palpite, convém dar-lhe alguma utilidade.

A primeira conclusão é que numa escala de 0 a 100 o bendito ICR apresentou um valor médio na amostra de 10,4, e um máximo de 53,1 pontos percentuais. Registe-se que entre os 1.000-mil-1.000 inquiridos o melhor classificado, se este fosse um exame do secundário, teria passado à tangente.

É também extraordinário que, apesar de só 26% dos inquiridos confiar no sistema de segurança social, 72,5% conta com ele. Os 58,8% que também contam com o apoio da família esquecem que 72,5% das respectivas famílias está a contar com o sistema de segurança social.

Como se escreve no estudo, é «uma estratégia para a vida» ou, se preferirem, como se titula no DE «70% dos portugueses espera depender do Estado»

22/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (27) cada vez menos, cada vez mais

É fácil enganar todos durante algum tempo. É fácil enganar alguns durante toda a vida. Não é possível enganar todos toda a vida.


[Fonte: Daily Presidential Tracking Poll, Rasmussen Reports]

21/04/2009

ESTADO DE SÍTIO: a pergunta que não vai ser feita logo à noite

Senhor primeiro-ministro, porque processou vários jornalistas que escreveram sobre o seu alegado envolvimento no caso Freeport e não processou Charles Smith pelas acusações de corrupção que lhe fez, tornadas públicas com a divulgação do vídeo pela TVI?

Há uma luz no fundo do túnel da economia portuguesa

Portugal pode seguir o exemplo da Grécia, que em 2006 reviu as contas nacionais e teve um crescimento de 25% do PIB, e aproveitar o Sistema Europeu de Contas para incluir no cálculo do PIB a economia paralela, incluindo todas as actividades ilegais, como a prostituição, a droga e, porque não, as “luvas”.

20/04/2009

Mais vale um fim horroroso do que um horror sem fim

Foi o que disse Tom Enders, CEO da Airbus alemã, numa entrevista à Der Spiegel, sugerindo um fim mais aceitável para o projecto iniciado há 6 anos do A400-M, um sofisticado avião militar de transporte que deveria ter começado a ser entregue o mês passado. O projecto que tem sido um exercício de arrogância e má gestão já torrou 2 mil milhões de euros acima do orçamento e ninguém sabe quando terminará nem quanto custará.

Ao que parece as FA francesas e britânicas, que precisam desesperadamente dum avião de transporte, admitem comprar ou fretar uns quantos C-17 e C-130 à Boeing - o grande concorrente da Airbus.

[Uma dica de TM]

CASE STUDY: To be born as a gentleman is an accident. To die as a gentleman is an achievement. (1)

Está desde há muito bem estabelecido que os filhos dos pobres têm uma elevada probabilidade de serem igualmente pobres. Faltava perceber porquê.

O estudo de Martha Farah (ver aqui um resumo), publicado há alguns anos, permitiu compreender os mecanismos neurológicos que afectam sobretudo a memória e explicam o menor desempenho dos filhos das classes baixas. Recentemente o estudo de Gary Evans e Michelle Schamberg (citado aqui e aqui) permitiu compreender esses mecanismos movidos pelas causas relacionadas com o stress quotidiano associado às posições sociais baixas.

Enquanto os filhos dos ricos herdam um património, os filhos dos pobres herdam um handicap. Aqui no nosso país talvez devêssemos chamar-lhes direitos adquiridos hereditariamente. Igualdade de oportunidades nestas circunstâncias é uma pura falácia. Se o colectivismo tem uma "solução" (a ditadura do proletariado, a economia de direcção central, o estado social, o estado assistencialista, etc., conforme a corrente), qual é a solução do liberalismo? Serão os mercados? Ou talvez, antes disso, será esta desigualdade de oportunidades um problema para o qual se deva procurar solução?

Devemos procurar solução por duas ordens de razões. Uma moral e outra utilitária. A razão moral não tenho tempo para explicar – nem precisa de grandes explicações. A razão utilitária é que, mesmo admitindo que os pobres são pobres porque o seu património genético é pobre e isso explica, dizem os especialistas, cerca de metade do desempenho (deve ter sido o consenso possível na polémica secular nature versus nurture), a genética não é determinística (graças a Deus, digo eu, que sou agnóstico). Que não é determinística é fácil de comprovar: basta ver a quantidade de idiotas que tiveram a sorte de nascer no sítio certo e não conseguem um módico de realização durante as suas merdosas vidas e os filhos de pobres que apesar disso conseguem desempenhos notáveis.

Não sendo a genética determinística, valerá a pena o estado fazer alguma coisa para proporcionar oportunidades aos filhos dos pobres, ou pelo menos aos melhores entre eles?

(Continua, talvez)

19/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (26) e disse-o sem chorar

Quase me esquecia. Descobriu-se mais um emérito obamófilo arrependido ou pelo menos dubitativo. Jorge Sampaio diz que o «Presidente dos EUA tem muitas limitações» e que tem havido «uma obamania exagerada».

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: não enterrem os mortos e dêem berlinas aos vivos

O meu jardineiro deixou de aparecer. Procurei-o em sua casa, mas não obtive resposta. Indaguei junto dos vizinhos e fui informado que tinha falecido no fim de Janeiro, no Hospital. E como não se lhe conhece família nenhuma que custeie o funeral, este ainda não se fez, porque, ao contrário do que acontecia há uns anos atrás, em que as Misericórdias se encarregavam disso, agora é o Ministério Público o organismo encarregado destas acções. E como o MP não tem orçamento há que aguardar, mantendo-se o corpo à guarda do Hospital. Estamos em Meados de Abril. Estão escandalizados? Não estejam! Porque, segundo o mesmo informador, só este ano é que foram feitos os funerais dos indigentes falecidos em 2006 e 2007. Tudo porque não havia orçamento. Entretanto, ouço hoje no telejornal, que foi gasto um milhão de euros para renovar a frota do Presidente, Vice-Presidentes e mais uns tantos, poucos, da Assembleia da República. Equipados com BMW, topo de gama, tendo o do presidente custado 150.000 euros».

[Lamento de JB]

A berlina do presidente

18/04/2009

"Never ain't here yet"

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Aleluia. O homem de Belém ressuscitou.

Secção Assaults of thoughts

Contrariamente ao que eu próprio pensava, havia um certo exagero sobre o passamento do professor Cavaco Silva. O homem falou ontem na abertura do Congresso da Associação Cristã de Empresários e Gestores e disse coisas que até eu percebi, entre as quais definitivamente destaco
«Empresários e gestores submissos em relação ao poder político não são, geralmente, empresários e gestores com fibra competitiva e com espírito inovador. Preferem acantonar-se em áreas de negócio protegidas da concorrência, com resultado garantido»
Relutantemente, concedo-lhe à consignação 2 ou 3 afonsos.

17/04/2009

SERVIÇO PÚBLICO: "Cabem todos no Campo Pequeno"

«A sugestão de que se pode combater a crise criando um novo escalão de IRS, como propõe a CGTP, é tão idiota como inútil. Existiam, em 2006, 3666 agregados cujos rendimentos eram superiores a 250.000 euros anuais. Cabem todos no Campo Pequeno (*) e ainda sobram lugares. Estes agregados correspondem a 0,08% da população, têm 2,12% do rendimento total nacional tributável em sede de IRS e os seus pagamentos deste imposto correspondem a 7,59% do bolo total.»

[Continue a ler este esclarecedor post de O Insurgente]

(*) Convoquem o general Otelo (o que queria usar o Campo Pequeno para acabar com os ricos)

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (25) Jimmy Carter Redux?

«Obama seems incapable of balancing the need to be a national leader and his childish desire to retain his image as the uber cool dude he so clearly believes that he is.
...
It's a little early to write off President Obama, and it's hard to imagine him failing as dramatically as did Jimmy Carter. But the mere fact that commentators, British as well as American, are making the comparison is not good news for the president, and his plans to turn America into a slightly less collectivist version of Europe.
»
[The American Spectator]

ACTUALIZAÇÃO:
Há contudo pelo menos uma diferença: Carter não nomeou tantos rafeiros como o cristo redentor. Ficou a conhecer-se mais um: Steven Rattner (*).

(*) Via Insurgente

16/04/2009

Algo incompreensível para os defensores da inflexibilidade dos mercados de trabalho

«Mais de metade (52,5%) dos 500 mil desempregados que se inscreveram nos centros de emprego ao longo do ano passado eram trabalhadores não qualificados dos serviços, do comércio e da construção civil, profissionais de segurança, vendedores ou empregados de escritório. Durante o mesmo período, 55,9% das ofertas que as entidades empregadoras fizeram chegar aos centros de emprego destinavam-se a estas profissões e 62% das colocações efectuadas também ocorreram nestas áreas.» (Jornal de Negócios)

ESTADO DE SÍTIO: o futebol e a desliteracia

«O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio à utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu. O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe. Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva

[Extracto do relatório do árbitro Carlos Xistra relativo à apresentação do cartão amarelo ao jogador Micolli do Benfica, enviado por JB]

15/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (24) L’exception française

Depois de tanta desilusão (23 and counting), já é tempo de conceder um módico de alegria aos obamófilos.

ARTIGO DEFUNTO: Experiência? Qual experiência?

Notícia” do Jornal de Negócios:
«O Brasil vai aproveitar a experiência portuguesa para construir o seu modelo de negócio para a introdução da alta velocidade no país. A primeira ligação será entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, num total de 550 quilómetros,devendo o concurso ser lançado ainda este ano.»
A notícia não especifica qual a experiência que o governo português tem para oferecer ao governo brasileiro. Será a experiência do TGV (ou trem-bala como lhe chamam no Brasil) de cujo projecto se fala há 16 anos e se arrasta pelas secretarias de estado desde 2000 (ano em que foi constituída a RAVE)? Ou será a mais banal experiência do projecto alfa pendular onde se torraram milhares de milhões, se consumiram múltiplos do tempo e custo previstos e ainda hoje não está completo?

14/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (23) uma excepção na praxis obamológica

A escolha do Bo, um cão de água português oferecido pelo senador Ted Kennedy, encerrou o grande dilema da Casa Branca. Na campanha o candidato BO prometeu que teria um rafeiro abandonado (rescued dog such as one from a shelter) e o presidente BO acabou a escolher um puro-sangue (Portuguese water dog purebread).

A escolha foi uma excepção na praxis obamológica que tem sido prometer aos americanos na campanha puros-sangue e dar-lhes rafeiros .

Offshore onshore

Há umas semanas atrás, a Economist (*) fez referência a uma pesquisa de Jason Sharman, um investigador de ciência política na universidade australiana Griffith, que com 10 mil dólares e o Google tentou constituir empresas-fantasma e abrir contas bancárias secretas, tendo sucesso em 17 das 45 tentativas, incluindo 13 em países da OCDE. Em muitos casos as empresas foram constituídas apenas com uma licença de condução, em contraste com os paraísos fiscais das Bermudas e da Suíça que foram muito mais exigentes. Alguns dos exemplos mais acabados de paraísos fiscais encontram-se precisamente nos EU: Delaware, Nevada e Wyoming.

Não deveria o G20, em particular a administração Obama, começar por arrumar a casa?

(*) Haven hypocrisy

12/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (22) uma espécie de longo intervalo publicitário [*]

«But at home Mr Obama has had a difficult start. His performance has been weaker than those who endorsed his candidacy, including this newspaper, had hoped. Many of his strongest supporters—liberal columnists, prominent donors, Democratic Party stalwarts—have started to question him. As for those not so beholden, polls show that independent voters again prefer Republicans to Democrats, a startling reversal of fortune in just a few weeks. Mr Obama’s once-celestial approval ratings are about where George Bush’s were at this stage in his awful presidency. Despite his resounding electoral victory, his solid majorities in both chambers of Congress and the obvious goodwill of the bulk of the electorate, Mr Obama has seemed curiously feeble.
...
The failure to staff the Treasury is a shocking illustration of administrative drift. There are 23 slots at the department that need confirmation by the Senate, and only two have been filled. This is not the Senate’s fault. Mr Obama has made a series of bad picks of people who have chosen or been forced to withdraw; and it was only this week that he announced his candidates for two of the department’s four most senior posts. Filling such jobs is always a tortuous business in America, but Mr Obama has made it harder by insisting on a level of scrutiny far beyond anything previously attempted. Getting the Treasury team in place ought to have been his first priority


[Learning the hard way, Mar 26th 2009, The Economist]

«All this means that Mr Obama’s first two months in office are difficult to evaluate. But a few things seem pretty clear. This is a strikingly ambitious president: he wants to be “transformative” in more than just the sense of being the first black president. But so far his presidency has been vitiated by a combination of incompetence and a willingness to fall back on the very tactics that he denounced as a candidate. Indeed, his desire to be “transformative” may be contributing to his problems, distracting him from the economic crisis.
...
Mr Obama is now enthusiastically engaged in something that he foreswore as a candidate: the art of the permanent campaign. ... In other words, Mr Obama is squandering his political capital doing exactly what Mr Clinton did so often in his presidency: justifying his mistakes, trying to get the better of the 24-hour news cycle, and demonising opponents.
...
The result is a downward spiral: the more Mr Obama fails, the more he resorts to the permanent campaign, and the more he resorts to the permanent campaign, the more he becomes just like any other president.»


[Coming down to earth, Mar 26th 2009, The Economist]

[*] Citando Manuela Ferreira Leite a propósito da governação de José Sócrates, o que faz de Obama Barak uma espécie de Sócrates mais competente

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: a defesa da monogamia por parte de Cicciolina parecer-me-ia muito mais convincente

Com a reserva contida no título deste post, aqui se reproduz o primeiro parágrafo do artigo de opinião do jornalista João Miguel Tavares:

«Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina. A intervenção do secretário-geral do PS na abertura do congresso do passado fim-de-semana, onde se auto-investiu de grande paladino da "decência na nossa vida democrática", ultrapassa todos os limites da cara de pau. A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral.»

Esclarecimento: a pedido do doutor Proença de Carvalho dirigido ao email do (Im)pertinências serão prestadas as informações necessárias à eventual propositura da acção.

11/04/2009

CASE STUDY: no perder está o ganho

«Hospitais com gestão empresarial tiveram um prejuízo de 130 milhões, mas o secretário de Estado afirma que os resultados são, ainda assim, “positivos”

Como os resultados resultam de proveitos baseados em "preços" artificialmente fixados pelo Governo, até poderia ser que pudessem ser ainda assim "positivos". Ou "nulos", ou "negativos".

A medicina irlandesa para atacar a crise

Face a uma crise financeira violenta e à subsequente queda de 8% do PIB prevista para 2009 o que vai fazer a Irlanda? Aumentar a sua diminuta rede de auto-estradas (uma pequena fracção da portuguesa)? Construir um aeroporto? Derramar dinheiro em cima dos problemas? Nacionalizar bancos?

Segundo Brian Lenihan, o ministro das Finanças, em entrevista à Bloomberg (ver aqui, aqui e aqui), o governo irlandês irá adoptar um plano inspirado no bem sucedido plano sueco de 1992, e criar um banco que irá aspirar os activos tóxicos do sistema bancário, cortar a despesa pública e reduzir o défice do orçamento.

Não é preciso ser bruxo para antecipar que, provavelmente, dentro de 2 ou 3 anos, quando a economia irlandesa retomar o curso que em 20 anos a levou a aumentar o PIB per capita igual ao português para o dobro, estará a economia a começar a sentir os primeiros efeitos dos investimentos públicos improdutivos e a iniciar um novo ciclo de decadência.

Reveja-se, a propósito, este post do Impertinente e os mapas e gráficos seguintes que se reproduzem:

Clique para ampliar

09/04/2009

O Xis da questão

«… Enquanto dirigente político é-me relativamente indiferente que o cidadão Xis seja penalmente condenado. Acredito na força da justiça em Portugal, na prevalência do Estado de Direito e, portanto, sei que no quadro das regras jurídicas que orientam a nossa sociedade (e só nestas) não deixará de ser feita justiça. O problema é outro; - é claramente um problema de carácter e de ética política. O que nos deve preocupar é se, no quadro das suspeitas que recaem sobre o Xis (independentemente da sua futura comprovação e, consequentemente, adequado procedimento incriminatório) é legítimo nada fazer no plano estritamente político. Dou obviamente como adquirido que os políticos, porque têm as suas vidas mais expostas à devassa pública, estão obrigadas a regras de comportamento e de carácter mais rigorosas que o comum dos cidadãos.»

[Campanha negra muito a propósito recordada por jcd do Blasfémias]

Supondo que Xis é Paulo Portas, quem que disse tão justas palavras a propósito de Xis?

08/04/2009

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Um imenso Portugal

O mal dos outros

250 mortos no sismo no Abruzzo e ainda há uns desaparecidos.No meio do caos, já se apontam dedos, já há acusações, já ninguém tem culpa.

Exemplo: Hospital de San Salvatore na cidade de Aquila, capital do distrito. Projectado de 1967, começou a ser construído em 1972, com todas as técnicas anti-sísmicas. Nunca acabou verdadeiramente de ser construído. Camas previstas: 1100. Camas existentes (antes do sismo): 350. Orçamento inicial: Eur 5,7 Mio. Custo final: Mais de Eur 50 Mio (ninguém sabe ao certo). Pior ainda, para além da construção, obras adicionais no valor de mais de Eur 100 Mio ao longo de 20 anos.

Resultado: ruiu.

E em Portugal, como será no Dia T? Espero, egoísta, estar de férias longe.

P.S. No prédio de Setubal (construido no final dos anos 90) onde em Novembro de 2007 ocorreu uma explosão de gás o LNEC detectou que a construção não respeitava as normas anti-sísmicas.


[Enviado por AB]

£200 million aircraft meets wall. Walls wins.

07/04/2009

Getting a bit closer

«They are certainly getting a bit closer. Mr Obama is raising taxes on the rich, bailing out failed businesses, tackling climate change and dramatically increasing public spending. A decade ago American government spending stood at 34.3% of GDP compared with 48.2% in the euro zone, a gap of 14 points; in 2010 it is expected to be 39.9% of GDP compared with 47.1%, a gap of less than eight points, according to Newsweek.»

[Le vieux canard, Economist March 14]

06/04/2009

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: Ilhas Faroe, esse paraíso da civilização

Clicar para ver a coisa em todo o seu esplendor


While it may seem incredible, even today this custom continues, in Dantesque - in the Faroe Islands, (Denmark). A country supposedly 'civilized' and an EU country at that. For many people this attack to life is unknown– a custom to 'show' entering adulthood. It is absolutely atrocious. No one does anything to prevent this barbarism being committed against the Calderon, an intelligent dolphin that is placid and approaches humans out of friendliness.

[Enviado do Bahrain por FM]

05/04/2009

"The thing that haunts a guy is the stuff he wasn't ordered to do"

CASE STUDY: o taxímetro de Oeiras

Pleno de confiança na ineficácia do aparelho de justiça, o doutor Isaltino aquece os motores da campanha eleitoral e mete nas caixas de correio dos munícipes de Oeiras uma pantagruélica colecção de brochuras promocionais entre as quais o boletim municipal, o qual inclui uma extensa tabela de taxas que ocupa 8 páginas em formato tablóide. Reproduz-se parte do 1.º artigo duma colecção de 64 onde se fica a saber que numa pesquisa de documentos «não aparecendo o objecto de pesquisa» o doutor Isaltino manda cobrar 97 cêntimos, em vez de indemnizar as vítimas do desaparecimento.

A leitura da tabela, sendo um exercício traumático, não deixa de ser instrutiva do que é a burocracia kafkiana das nossas câmaras. Onde se esperaria encontrar a excelência dos resultados miraculosos da descentralização, encontramos o lugar geométrico dos piores vícios da centralização.

Clicar para disfrutar

02/04/2009

Entre uma start up e uma falida, venha o capital de risco e escolha

«As sociedades de capital de risco públicas Aicep Capital, InovCapital e Caixa Capital têm desempenhado um papel fundamental na estratégia que o Governo tem vindo a levar a cabo no sentido de apoiar empresas em dificuldades.» Foi isto que escreveu o DE sob o título sugestivo «O longo braço que o Estado usa para salvar empresas».

Diz muito sobre a economia de mercado de direcção central na sua encarnação socialista (também há encarnações social-democratas e democratas cristãs) chamar capital de risco (venture capital) ao negócio de sociedades que praticam o bailout de empresas inviáveis.

Por falar em economia de mercado de direcção central, a avaliar pela agitação mais recente do ministro Pinho, a lista de João Miranda de atributos do Estado Empreendedor parece que precisa ser completada:

10. O Estado Empreendedor privilegia nos seus negócios as economias de estados irmãos (tais como: Rússia, Venezuela, Angola e Líbia).

Estalinismo tropical - as purgas, o mea culpa, o costume

Pelo menos por agora, o pragmatismo de Raúl Castro leva a melhor sobre os puristas e Chavéz.
[A análise de Jorge Castañeda na Newsweek.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: gato persa


[Enviado por RR]

Perguntas (ainda) sem resposta

«Porque é que o cidadão José Sócrates ainda não foi constituído arguido no processo Freeport? Porque é que Charles Smith e Manuel Pedro foram constituídos arguidos e José Sócrates não foi? Como é que, estando o epicentro de todo o caso situado num despacho de aprovação exarado no Ministério de Sócrates, ainda ninguém desse Ministério foi constituído arguido? Como é que, havendo suspeitas de irregularidades num Ministério tutelado por José Sócrates, ele não está sequer a ser objecto de investigação? Com que fundamento é que o procurador-geral da República passa atestados públicos de inocência ao primeiro-ministro? Como é que pode garantir essa inocência se o primeiro-ministro não foi nem está a ser investigado?»

[Mais perguntas de Mário Crespo aqui]

01/04/2009

SERVIÇO PÚBLICO: «receitar uma dieta com sal a um hipertenso»

A não deixar de ler: Dieta de sal de Vítor Bento no Diário Económico

BREIQUINGUE NIUZ: dia das mentiras

«A linha do Norte é um bloqueador do desenvolvimento», disse o estradista Jorge Coelho em entrevista ao Diário Económico no dia 1 de Abril de 2009.

CASE STUDY: palavras proféticas ou o que tem que ser tem muita força

Em 1999, com apoio da Administração Clinton, nomeadamente de Rubin e Summers (este último, que substitui o primeiro como secretário do Tesouro de Clinton, também integra a Administração Obama), o Congresso americano aprovou o Gramm-Leach-Bliley Act que revogou o Glass-Steagall Act e diversa regulamentação aprovada na sequência da Grande Depressão, nomeadamente a segregação da banca de investimento e da banca comercial, com as consequências agora claramente visíveis.
Nessa altura o senador democrata Byron Dorgan fez esta profecia durante um discurso no Senado:
«I think in 10 years time we will look back and say, ‘We should not have done that’, because we forgot the lesson of the past».
[Fonte: BusinessWeek]

Justiça a bom mercado, segundo Millôr

AIG, American International Group, quebrou, vocês perceberam. Mas uma AIG dessas quebrar de verdade não vai. Quem quebra de verdade somos nós, eu e você. Entendendo isso, o Governo (é, aquele mesmo!) entrou com uns trocados, 170 bilhões de dólares, e nos salvou a todos. Aproveitando a bonança, a grande empresa distribuiu, como bônus a seus gestores, 165 milhões de dólares.

Isso fecha a boca desses socialistas que vivem falando mal do capitalismo. No capitalismo até o prejuízo dá lucro.


(Millôr Fernandes, Veja de 1 de Abril))