Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/07/2006

CASE STUDY: filantropia compulsiva

A pianista Maria João Pires vai «descansar de Portugal» para o Brasil. «Sofri fisicamente todos os anos que me dediquei ao projecto» (Belgais), explica.

Percebe-se o cansaço e o sofrimento, porque não é fácil fazer filantropia com o dinheiro dos sujeitos passivos, sempre a refilarem e a lamentarem cada cêntimo dos Eur 1.820.000 extorquidos pelo fisco para o ministério da Educação atirar para cima do projecto em 6 anos, para pagar, entre outras fantasias, 2 professores para 5 alunos.

Os Bill Gates, os Warren Buffet e até o nosso Champas teriam muito a aprender com Maria João Pires em matéria de empreendedorismo filantrópico.

Declaração de desinteresse:
Tenho contribuído regular, voluntariamente e com gusto para os rendimentos da pianista, comprando muito da sua produção.

ARTIGO DEFUNTO: a star is born

A foto (um plano americano), do senhor Joe Berardo, com ar satisfeito, pousando para a campanha do cartão American Express (daí tratar-se dum plano americano), ocupa 1/4 da 1.ª página do caderno Economia do Expresso.

Qual é o interesse jornalístico da coisa perguntarão os cépticos? Aquele ar maroto revela, mais do que esconde, uma satisfação íntima de quem se imagina admirado por uns cem mil sujeitos passivos, parte de um vasto universo de tansos que não lêem o tablóide formato standard de Paço de Arcos, mas que lhe pagam o museu e lhe arredondam a colecção. Não chega?

29/07/2006

CASE STUDY: o hacking é a continuação da política dos motherfuckers por outros meios

Por falta de tempo, não tenho acompanhado a pirataria ao Abrupto. E, por falta de ciência, ainda não percebi se é hacking, blogger identity theft ou outra qualquer coisa. Como quer que seja, acho razoável especular que tem propósitos políticos. Pois se até a insignificância do Impertinências mereceu em tempos o interesse de motherfuckers a quem dediquei a seguinte oração:
To all those motherfuckers who have sent me emails with virus, I wish they burn in the hells of theirs and be expelled from their shitty trade unions, get knocked to death in antiglobalization demonstrations, be left behind by their Elbeegitee companions, get the needle with the shot be buried into their eyes, be no more invited by the other snobbish creatures, or get sodomized with a dynamite cartridge by the Jihad militia.
Amen.
(oração e o relato no post «To whom it may be concerned – the motherfuckers», onde os principais motherfuckers estão identificados)

27/07/2006

SERVIÇO PÚBLICO: É isto surpreendente? Não de todo. (3)

Já não se trata apenas de não encontrar as soluções, trata-se de não saber qual o problema.

Não só os utentes da vaca marsupial pública com lugar cativo não dão mostra de diminuir em número e custo, como os aspirantes ao lugar cativo aumentam assustadoramente. Diz o Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado que as despesas com os temporários aumentaram 46,8% em 2005 para 45,8 milhões de euros e as com os avençados ou atarefados terão aumentado 12,6% para 40,2 milhões. E queixam-se os aparatchiks sindicais que as despesas com o pessoal do lugar cativo só «aumentaram apenas 2,1% – um valor inferior ao aumento salarial de tabela que foi de 2,2% – para 5.553,4 milhões de euros». Convém lembrar que este «apenas 2,1%» se segue a um aumento das aposentações e a um suposto congelamento de progressões automáticas. (Fonte JN)

É a lei de Parkinson. Ainda hoje a patroa ficou 3 horas numa repartição de finanças à espera que os sistemas desentupissem. Não tem remédio. Não há simplex que nos valha.

BREQUINGUE NIUZ: não foi à tropa devido ao pé chato, mas nunca é tarde

26/07/2006

ESTÓRIA E MORAL: tão amigos que eles eram

Estória










(visto n'O Insurgente)

Moral

Les bons esprits se rencontrent.

BREIQUINGUE NIUZ: nós por cá

«Um antigo analista da casa de investimento Robertson Stephens foi condenado a pagar dois milhões de dólares após ter sido considerado culpado de enganar os investidores com opiniões demasiado optimistas sobre alguns títulos na época da bolha dotcom.» (JN)

Nós por cá temos o gato por lebre.

SERVIÇO PÚBLICO: simplex e reforcex

Sob o lema "Simplificar e reforçar direitos" a Unidade de Missão (que bonito nome!) apresentou hoje ao ministro da Justiça o anteprojecto da revisão do Código do Processo Penal. «Entre as principais alterações, inclui-se a redução dos prazos de prisão preventiva ... O limite máximo de quatro anos e nove meses passa para...», passa para, passa para, passa para?

15 dias? Gelado. 3 meses? Muito frio. Um ano? Frio. Última tentativa: dois anos? Morno. Quatro-anos-quatro.

Lá terei que actualizar o Glossário das Impertinências, onde prisão preventiva (Juridiquês), estava assim definida:
Medida prevista na lei e aplicável aos putativos arguidos, que consubstancia uma regalia dos investigadores, dos juizes e dos funcionários judiciais, permitindo-lhes prosseguir e documentar, cuidadosamente e sem pressas desnecessárias, uma investigação. Em certos casos pode atingir 4,5 anos.

25/07/2006

CASE STUDY: a falta que faz um plano tecnológico

Ray Ozzie, o cinquentão a quem a Microsoft comprou a Groove Networks, actual chief technical officer da Microsoft, escolhido o mês passado por Bill Gates para o substituir gradualmente como chief software arquitect, escreveu há 20 anos as primeiras 3.500.000 (três e meio milhões) linhas de código do Lotus Notes, uma solução absolutamente inovadora de software «cooperativo».

O que teria feito nos seus trintas o bom do Ozzie se andasse por aqui na paróquia lusitana por essa altura? Escreveria ele, como empresário das TI, nem que fosse umas linhazitas de código, fosse do que fosse, mesmo de vapourware? Não estou a ver. Provavelmente nem seria capaz de reconhecer o mais banal dos comandos da mais banal de linguagens de programação. Ficaria aliás desqualificado no meio se soubesse fazer alguma coisa de aproveitável. Seria em contrapartida um conhecedor do sistema de incentivos, dos fundos estruturais e dos restaurantes in da época (hoje quase todos fechados), usaria um lencinho no bolso, talvez, seria portador dum double windsor, quem sabe?, e falaria políticonomês, certamente.

A falta que faz um plano tecnológico.

23/07/2006

SERVIÇO PÚBLICO: É isto surpreendente? Não de todo.(2)

Não tem solução? Tem sim senhor. Tem a solução que as organizações com sucesso aplicam. Perguntem a quem sabe. Terminava assim o post de há dias sobre a pletora de utentes da vaca marsupial pública que o governo do engenheiro Sócrates vem alimentando, enquanto entretém a imprensa com anúncios dos amanhãs que cantam.

Se há organizações que pouca gente considera de sucesso aqui no burgo são as seguradoras, o patinho feio dos serviços financeiros. Enquanto a banca resplandece de eficiência e lucros, as seguradoras empalidecem na sombra do seu cinzentismo e dos seus lucros medíocres. Por isso, se comparasse as resplandecentes organizações bancárias geridas por mediáticas luminárias com o monstro do doutor Cavaco, o estado napoleónico-estalinista, todos os que me lessem não me levariam a sério (ainda me levariam menos a sério).

Ilustre-se o crescimento do monstro desde 1986 usando o gráfico seguinte do doutor Frasquilho publicado recentemente no Jornal de Negócios:


Compare-se com a evolução do mercado segurador português no mesmo período. Qual era a situação em 1986? Um pouco parecida com a do monstro: uma maioria de empresas paquidérmicas, com destaque para as empresas públicas que controlavam 80% do volume da facturação. O volume dos prémios brutos emitidos era então de PTE 114 mil milhões, o que a preços correntes de 2005 valeria hoje Eur 1,7 milhões. Para atingir esse volume de produção, as seguradoras precisaram nesse longínquo 1986, ano da entrada na comunidade europeia, de cerca de 14.000 trabalhadores, incluindo songamongas parecidos com os seus homólogos utentes da vaca.

Em 2005, menos de 20 anos depois, com as empresas públicas representando um pouco mais de 20% do mercado (1), cerca de 10.500 trabalhadores, incluindo ainda os songamongas sobreviventes, produziam Eur 13,6 mil milhões. Dito de outro modo, a produtividade medida por PBE/trabalhador a preços de 2005 aumentou de Eur 118 mil para Eur 1,3 milhões, isto é 11 vezes, a um ritmo anual superior a 10%.(2)

Imagine-se os serviços do estado a serem geridos pela cinzenta mediocracia seguradora, a enfrentarem a concorrência, a lutarem pela sobrevivência e a prestar contas a accionistas. É preciso acrescenter mais alguma coisa?

Notas soltas:
(1) Já tinha sido menos, mas com as manobras dos governos do engenheiro Guterres e do doutor José Manuel, a Mundial Confiança, primeiro, e a Império e a Bonança, depois, foram re-nacionacionalizadas e empurradas para dentro do paquidérmico grupo Caixa.
(2) Os puristas poderão dizer que as coisas não são comparáveis, o que é verdade, porque o ramo Vida, que aumentou a sua quota de menos de 10% para quase 70%, com as suas operações de capitalização, PPRs, etc., é muito menos mão-de-obra intensivo e o recurso ao outsourcing aumentou. Poderão dizer, mas deverão calar-se perante o aumento de 11 vezes da produtividade e da redução drástica do rácio de despesas.

22/07/2006

TRIVIALIDADES: 'retratos do trabalho' na edp

O "toque" de Mexia, segundo o Diário Económico, visto pel'O Independente.
('Retratos do trabalho', Copyright Abrupto)

20/07/2006

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: o que é grave é fingir que se faz o lugar do outro e não fazer o lugar próprio

A propósito do «É isto surpreendente? Não de todo.», escreve um detractor acidental que «o grave não é isso (o aumento dos utentes da vaca), que até contribui para diminuir o desemprego, o grave é o Governo (com maiúscula) não conseguir o crescimento da economia».

Peço licença para discordar. Não é grave o governo (com minúscula) não conseguir o crescimento da economia, porque os «200 palhaços que vão à televisão falar de economia» (professor João César das Neves) a única coisa que conseguem é fazer crescer a economia mediática. Não é grave o governo não fazer o que compete às empresas, aos empresários, aos trabalhadores e aos gestores. É grave o governo não fazer o que lhe compete.

SERVIÇO PÚBLICO: É isto surpreendente? Não de todo.

O monstro, segundo um dos seus pais (o doutor Cavaco, recorde-se), o Moloch, segundo a Joana do Semiramis, ou o estado napoleónico-estalinista encarnado na vaca marsupial pública não pára de crescer. Se o ano passado a vaca teve um ganho líquido de (apenas) 4.401 utentes isso ficou a dever-se ao facto do governo do engenheiro Sócrates só ter tido pouco mais de meio ano de exercício do período de borla.

Este ano, já com a máquina aquecida, o governo do engenheiro Sócrates começou a mostrar do que é capaz. Nos primeiros seis meses do ano, enviou para a reforma (com 90% do último salário) 12.254 utentes da vaca e pendurou nas suas enfezadas tetas 22.420 outros utentes efectivos e um número desconhecido de utentes clandestinos (fonte Diário Económico). Em duas penadas, o objectivo de reduzir «pelo menos 75 mil efectivos (que) ao longo dos quatro anos de legislatura» metamorfoseou-se num objectivo de reduzir 89.567 efectivos em 2,5 anos.

É isto surpreendente? Não de todo. Será para os sujeitos passivos que, além de passivos, sejam distraídos. Esquecendo as teorias conspiratórias (o propósito secreto do governo é arruinar definitivamente o monstro para vender o ouro ao bandido - os espanhóis, por exemplo), deixando de lado outras teorias igualmente especulativas, a explicação verosímil é pura e simples incompetência. Nesta área vê-se definitivamente melhor do que, por exemplo, no éter do plano tecnológico e das outras fantasias com que o governo tem entretido o povo.

Que outra coisa seria esperar dum bando de gente que, na sua maioria nunca teve uma profissão, não faz a mínima ideia de como se gere uma organização, que imagina que transformar a horripilante monstruosidade da vaca em qualquer coisa que justifique a usurpação de recursos do país se possa fazer com discursos e ejaculações legislativas? Algum dia alguém viu uma organização monopolista com 750.000 empregados e com poderes soberanos de extorquir dinheiro à sociedade civil auto-refomar-se? Pode o governo coleccionar simplexes aos centos que a inelutável lei de Parkinson irá expandir a burocracia até encher o tempo disponível de 750.000 songamongas and counting.

Não tem solução? Tem sim senhor. Tem a solução que as organizações com sucesso aplicam. Perguntem a quem sabe.

18/07/2006

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: a vida está difícil para as gajas

- Ó pá, viste aquele gajo no domingo?
- Qual gajo? Porra. Explica-te.
- O gajo do rafting.
- O gajo do rafting? Qual gajo do rafting?
- Tás um bocado estúpido, meu. O gajo da quinta.
- Ah! Aquele merdas do dono da quinta?
- Té quim fim, mén.
- E quéque tinha o merdas?
- Que pergunta, pá. A gaja.
- A gaja?
- Sim, a gaja que andava com ele.
- Já percebi. Era boa cómómilho. Pra ti, meu. Não faz o meu género.
(Várias tribos no balneário. A tribo silenciosa dos bandulhos atafulhados, a tribo chilreante dos metrosexuais e BG, indistinguíveis a olho nu, mirando-se ao espelho, a tribo ruidosa dos grunhos e a tribo vulgar de Lineu, na circunstância essencialmente representada por moi e um outro infeliz. Percebo os sacrifícios que as gajas têm que se sujeitar para abarbatarem um gajo normal, por assim dizer.)

16/07/2006

DIÁRIO DE BORDO: provações de um «utente» da Telepac (2)

A provações, seguem-se sempre mais provações.

No 23.º (vigésimo terceiro) dia depois do 1.º pedido de transferência e 3.º (terceiro) depois do cancelamento da conta, face às minhas angustiadas perguntas, desincumbe-se o majestático operador incumbente: «se encontra em processo de activação desde o dia 13.07.2006 o novo serviço associado ao username xpto, sendo nesse mesmo dia cancelado o antigo».

Vede como tudo se explica. Qual é a pressa?

14/07/2006

DIÁRIO DE BORDO: provações de um «utente» da Telepac

No dia 22 de Junho comuniquei por email à Telepac que em 7 de Julho mudaria a minha oficina para outro local, mantendo o mesmo n.º de telefone e pedindo a transferência da ligação ADSL para esse mesmo número no novo local (por acaso a 1 km do antigo e na mesma área PT). Apesar do meu email identificar o nome do «utente», o n.º de telefone e o username ADSL, a Telepac responde-me pedindo o que já sabia pelo meu email e o que podia saber consultando a minha conta, como o n.º de contribuinte e outras informações reconhecidamente indispensáveis para transferir a ligação.

No dia seguinte enviei a informação pedida e recebo como resposta a sugestão de «ao contactar a PT Comunicações, deverá solicitar a mudança exterior do número telefone e de todos os serviços que se encontrem associados, onde inclui o ADSL». Obedientemente, assim fiz. No dia 7 de Julho a PT instala-me os telefones fixos na oficina e diz que a ligação ADSL seria feita pela Telepac nas 24 a 48 horas úteis seguintes. Nos dias imediatos (até ontem) fui telefonando, ora para a PT, ora para a Telepac, tentando salvar-me no naufrágio digital em que me afundava. Do lado da PT o assunto era empurrado para a Telepac. Do lado da Telepac faziam-me perguntas inteligentes como qual o sistema operativo, se os microfiltros bla bla, se não sei quê bla bla, e qual o modelo de modem. Face à informação de que o modem não era do modelo vendido pela Telepac, ouvia-se um ah!, pois claro do outro lado da linha. Ao segundo ah! tive que perder um pouco a compostura para explicar que a ligação não estava pura e simplesmente activada e que estavam a querer tratar a doença errada.

E assim andei, até ontem. Apesar de tudo podendo ter acesso às minhas contas de email e à web através de GPRS e WiFi. No final da manhã, ao tentar aceder à minha conta recebo esta simpática mensagem «O seu acesso Internet encontra-se bloqueado para utilização, porque de acordo com os nossos registos existe(m) factura(s) cujo pagamento não foi ainda registado apesar de estarem ultrapassados os prazos limite.» Sendo a minha oficina de boas contas, saltou-me a tampa e agredi verbalmente a pobre operadora que me atendeu a seguir. Fiquei ainda pior quando a mocinha, dorida da porrada, se deu ao trabalho de procurar no buraco negro que são as BDs da Telepac e, após uma apneia de 10 minutos, facturada a Euro 0,3025/m, emergiu explicando que «o serviço tinha sido cancelado por mudança de morada e seria reactivado entre 3 a 5 dias úteis».

Entretanto, os clientes (não tenho «utentes») que me enviam emails recebem a resposta «... does not like recipient. Remote host said: 550 That e-mail address has been suspended (#5.7.1)» e ficam a saber que o gajo com quem fazem negócios não é apreciado pela Telepac.

Em resposta ao minha última mensagem (enviada por uma conta analógica de recurso) em que me interrogo «não sei se a Telepac consegue perceber que actuando com esta absoluta negligência está a destruir o seu activo mais importante que são os clientes» recebo a higiénica resposta «o processo de activação do serviço ADSL na linha telefónica com o número xpto se encontra em curso, pelo que solicitamos que aguarde a sua conclusão. Desta forma, esperamos ter contribuído para o esclarecimento da situação em causa, lamentando a situação verificada e os transtornos causados

E pronto, por hoje é tudo. Desejo as maiores felicidades ao doutor Paulo Azevedo na entrada na barbacã dos songamongas e na subsequente expulsão dos vassalos do Visconde Barão acoitados na torre de menagem, recentemente abandonada pelo doutor Horta e Costa, o dandy com o melhor aparelhado double windsor e o mais belo roupão de seda das telecomunicações mundiais.

12/07/2006

SERVIÇO PÚBLICO: a gravidez pode ser um acidente de trabalho?

«Se uma prostituta engravidar de um cliente, é um acidente de trabalho?», interrogou-se o doutor António Ferreira Ramos, advogado da noite numa entrevista à Única, mostrando a sua irremediável ignorância da Lei n.º 100/97 de 13 de Setembro (cujo conceito de acidente de trabalho também é aplicável aos profissionais liberais), que estipula no seu Artigo 6.º - Conceito de acidente de trabalho:

1 - É acidente de trabalho aquele que se verifique no local e no tempo de trabalho e produza directa ou indirectamente lesão corporal, perturbação funcional ou doença de que resulte redução na capacidade de trabalho ou de ganho ou a morte.
2 - Considera-se também acidente de trabalho o ocorrido:
a) No trajecto de ida e de regresso para e do local de trabalho, nos termos em que vier a ser definido em regulamentação posterior;
b) Na execução de serviços espontaneamente prestados e de que possa resultar proveito económico para a entidade empregadora;
c) No local de trabalho, quando no exercício do direito de reunião ou de actividade de representante dos trabalhadores, nos termos da lei;
d) No local de trabalho, quando em frequência de curso de formação profissional ou, fora do local de trabalho, quando exista autorização expressa da entidade empregadora para tal frequência;
e) Em actividade de procura de emprego durante o crédito de horas para tal concedido por lei aos trabalhadores com processo de cessação de contrato de trabalho em curso;
f) Fora do local ou do tempo de trabalho, quando verificado na execução de serviços determinados pela entidade empregadora ou por esta consentidos.
3 - Entende-se por local de trabalho todo o lugar em que o trabalhador se encontra ou deva dirigir-se em virtude do seu trabalho e em que esteja, directa ou indirectamente, sujeito ao controlo do empregador.
4 - Entende-se por tempo de trabalho, além do período normal de laboração, o que preceder o seu início, em actos de preparação ou com ele relacionados, e o que se lhe seguir, em actos também com ele relacionados, e ainda as interrupções normais ou forçosas de trabalho.
5 - Se a lesão corporal, perturbação ou doença for reconhecida a seguir a um acidente presume-se consequência deste.
6 - Se a lesão corporal, perturbação ou doença não for reconhecida a seguir a um acidente, compete ao sinistrado ou aos beneficiários legais provar que foi consequência dele.


Em conclusão, não restando dúvidas que no caso a coisa acontecida foi no local e no tempo de trabalho e que dela resulta redução na capacidade de trabalho ou de ganho, a gravidez de uma prostituta será acidente de trabalho se for considerada uma lesão corporal, perturbação funcional ou doença. Conclusão que deverá ter o acordo da esquerdalhada em bloco.

Declaração de desinteresse:
Não sou advogado (nem mesmo jurista) e não estou grávido.

10/07/2006

SERVIÇO PÚBLICO: ejaculação ilógica

Qual é a lógica que leva um governo que tem ejaculações do órgão legislativo banindo o fumo de locais públicos, a admitir que o ministério da agricultura tenha a seguinte ejaculação normativa?
Despacho Normativo n.º 36/2006. DR 121 SÉRIE I-B de 2006-06-26 do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas que estabelece as regras nacionais complementares para atribuição da ajuda directa à produção de tabaco.

Declaração de interesse:
Aqui no Impertinências não se fuma faz mais de 10 anos.

09/07/2006

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: oh my goodness, what a waste of time

- Então o que faz agora?
- Sou presidente da assembleia geral das Nações Unidas.
- Ah, que graça. Então substituiu aquele ... como é que ele se chama? Esta minha memória!
- !?
- Ó meu deus, que grande perda de tempo. Não sabia de nada, indeed.
(inspirado num putativo diálogo, ocorrido na ópera de Salzburgo, entre a dama de ferro e o professor gelatina mutante)

DIÁRIO DE BORDO: the game is over, back to business

aqui falei da OPA da Mittal sobre a Arcelor. Faltou dizer que o capitalismo do 3.º mundo (pardon, das economias emergentes) tem bastante imaginação e sentido de humor - pelo menos o senhor Mittal mostrou ter quando fez publicar na imprensa internacional vários anúncios como estes.

06/07/2006

BREIQUINGUE NIUZ: se ele o diz

"Ce fut le match le plus éprouvant depuis le début du tournoi, on a souffert pendant tout le match", a reconnu Domenech. (Le Monde)

Zizou 1 - Rapazes de Scolari 0

05/07/2006

CASE STUDY: torcida cobra do escrete

Esta é mais uma das contribuições recentes do Impertinências para mostrar aos incréus que olham a bola com ares superiores que o futebol é uma disciplina científica. É também uma advertência aos miúdos do mister Scolari para não tirarem o olho do senhor Se-dane e não darem descanso aquele pretão comprido, o Terrible Henry.
(enviado pelo amigo Edu de BH, MG)

04/07/2006

DIÁRIO DE BORDO: seria só herético, heterodoxo e homofóbico

Já estava sem pachorra para a atitude ingrata do povo incólto e das luminárias com mister Scolari. Estou a ficar sem pachorra com a atitude da intelligentzia face à bola. Enquanto a choldra rejubila com os sucessos dos rapazes do mister Scolari, a intelligentzia olha para o lado agoniada com a vulgaridade. Ainda se fossem só as luminárias obesas, movendo-se com dificuldade de uma vernissage para um colóquio, gemendo no entretanto sob as mãozinhas da menina do shiatsu. Se fossem só essas, eu compreenderia. É natural que lhes dê uma pontinha de mal disfarçada inveja ao verem uns miúdos cheios de virilina, idolatrados por umas miúdas já fora do seu alcance.

Até aí cheguei. É mais difícil de perceber a agonia das luminárias escorreitas, elegantes, bronzeadas, movendo-se com elegância de uma vernissage para um colóquio, gemendo no entretanto sob os aparelhos do ginásio. Só se for inveja. Outra inveja. Qual é o problema afinal? Se os rapazes do mister Scolari tivessem baqueado na fase de qualificação, seria por isso que os jovens ignorantes ficariam mas letrados, os professores mais proficientes, os funcionários públicos mais diligentes, os políticos mais competentes, os empresários mais afoitos, os trabalhadores mais produtivos e a intelligentzia menos pesporrente? Não? Então porque não deixam o povo incólto em paz, rejubilando com o êxito dos nossos únicos profissionais de sucesso? Porque não dão corda aos sapatinhos de pelica e começam a fazer pelas suas vidinhas?

Se as luminárias de todos os quadrantes e especialidades estivessem ao nível dos rapazes de mister Scolari, já teríamos resmas de prémios Nobel, Francoforte ficaria coalhada de escribas portugueses autografando livros que se venderiam como pão quente, os departamentos de patentes de todo o mundo fariam horas extraordinárias para registar o produto das nossas criativas mentes, as nossas empresas estariam no Stoxx50, e eu não teria um blogue desalinhado, desconforme, herético, heterodoxo, homofóbico, fora do baralho e impertinente. Seria só herético, heterodoxo e homofóbico.

02/07/2006

ARTIGO DEFUNTO: «sofri muito»

É difícil imaginar mais manteiguismo do que tem regularmente demonstrado o Expresso pelo excelso professor Freitas do Amaral. A última demonstração de ontem é talvez a mais notória: uma mancha (na circunstância melhor chamada de nódoa) que ocupa 1/3 da primeira página e 2/3 da segunda, com duas fotos. Uma das fotos deve ter sido pensada para ficar na hagiografia do excelso: o professor assistindo «ao anúncio da sua demissão pelo porta-voz, António Carneiro Jacinto». O porta-voz, a quem deve ser creditada a boa imprensa de que dispôs o excelso, fica também imortalizado na hagiografia.

A estória contada, que inclui o relatório do neurologista para lhe dar mais credibilidade, é inconfiável, precisamente pelo visível esforço para a tornar confiável. A verdade costuma ser simples, não precisa de tanta manteiga. É por isso que é mais fácil acreditar na versão do Correio de Manhã: «Freitas do Amaral demitiu-se ontem do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros por motivos de saúde. Esta foi a versão oficial, mas, segundo apurou o CM, a demissão deveu-se a um acumular de situações, sendo decisivas discussões com o embaixador norte-americano e conflitos com um assessor diplomático de José Sócrates.» Acumular de tensões a que não deve ser estranho o desapontamento do excelso ao ver-se preterido, quando o senhor engenheiro aproveitou magistralmente o erro de cálculo do doutor Soares a chegar-se à frente para a presidência da República e, duma só cajadada, ceifou os dois coelhos - bem haja senhor engenheiro.

Declaração de interesse:
O Impertinências não gosta do senhor professor, do seu ar de luminária cansada, do seu enfatuado aspecto professoral, do seu papel de guru tardio do esquerdismo senil. Mas estes juízos sobre o excelso não impedem o Impertinências de constatar adicionalmente que o senhor professor nunca foi um aliado confiável, nem mesmo para o engenheiro Sócrates.
O desvelo do Impertinências pelo senhor professor está amplamente demonstrado em inúmeros posts que lhe foram dedicados - o último foi sobre a sua excelsa fadiga.

01/07/2006

DIÁRIO DE BORDO: e eu não disse?


«Leram o que o Impertinências escreveu esta manhã, seus bobos? Vítor Baía? Quem é esse aí? Ide fazer pelas vossas vidinhas.»

DIÁRIO DE BORDO: perscrutar a alma dos patrícios à procura do lugar do outro

O que levará um número considerável de portuguesas e portugueses, desde o povo incólto até às luminárias, a sofrer do síndroma do treinador de bancada (STB), a remoer azedume contra mister Scolari? Porque não sei quê, dizem, que deviam lá estar uns que não estão (o Quaresma, o garboso Baía et alia), e não sei que mais, que não deviam lá estar outros que lá estão (os cansados Costinha e Figo et alia), que com aqueles maravilhosos rapazes até um treinador coxo chegava aos quartos de final, para não dizer à final, que o homem é um bruto, que não aceita palpites, que ganha de mais, que os jornalistas se acagaçam de lhe fazer perguntas (*).

Desde quando os misters portugueses da selecção, incluindo aquele mister que fazia os jogadores passar fome de bola, ou aquele outro que pendurava alhos no balneário, não chegam onde o mister Scolari chegou no campeonato da Óropa e no do mundo? Há uns quarenta anos, ao que parece.

Sendo assim porque é que os misters de bancada andam a puir as calças na dita e a fazer o lugar do outro, em vez de darem corda aos sapatos e fazer pelas suas vidinhas?

(*) Isto é verdade. Porém, não significa nada: eles acagaçam-se com tanta coisa.