Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a 1ª dum é a 10ª do outro

Eu hoje levantei-me para este lado. (*)

Basta ouvir um qualquer andamento da 5ª (ou qualquer outra das nove) do Ludwig Van para perceber porque precisou um admirador obsessivo do Van, como Brahms, 14 anos para terminar a sua 1ª sinfonia que, na paródia, os críticos da época escreveram que era a 10ª de Beethoven.

(*) Quase-plágio do Bomba - espera-se uma acção por ofensa dos direitos de autor.

29/04/2005

CASE STUDY: o homo sinister é o homo neanderthalensis contemporâneo

Tenho um amigo que, desde que me lembro, jura que a esquerda é troglodítica. Por uma questão de princípio, costumava temperar aquela certeza apologética dele com um «nem toda» ou «nem sempre».

Não mais o farei. Agora está demonstrado. Jason Shogren da universidade do Wyoming vai publicar no Journal of Economic Behaviour and Organization um paper citado aqui com o resultado das suas investigações.

A principal conclusão dessas investigações é que o comércio e a divisão do trabalho foram os factores críticos de sucesso que proporcionaram vantagens competitivas ao Homo sapiens sobre os outros hominídeos concorrentes, nomeadamente sobre o Homo neanderthalensis. O Homo sapiens adoptou a divisão de trabalho: os bons caçadores caçam, os maus caçadores fazem as tangas, as lanças, os machados e outros artefactos necessários na época. E deu o passo seguinte com o comércio: os caçadores e os artesãos trocavam de seguida os respectivos produtos. Onde é que já ouvimos esta estória?

O insucesso do cavernícola encontrado em Neanderthal não se deve à sua estupidez, como durante muito tempo se pensou - está provado que até era capaz de falar, como de resto o Homo sinister contemporâneo. O Homo neanderthalensis não só não era estúpido, como teve imenso sucesso durante 200.000 anos, até à chegada do Homo sapiens vindo de África, através da Ásia Central, e disputando-lhe parte do mesmo habitat na Europa central. Porém, o cavernícola só resistiu à concorrência 10.000 anos. Foi estrondosamente derrotado por Adam Smith, avant la lettre.

Mas porque razão o Homo sinister, uma subespécie do extinto cavernícola hirsuto, nas suas variedades Homo sinister sinister, Homo Sexualis e Homo Paedicator, sobreviveu até aos nossos dias, apesar de também abominar o comércio e o mercado? É uma boa pergunta a que o doutor Shogren ainda não respondeu, mas que eu vou tentar com a ajuda do meu amigo AB, antropólogo amador.

A resposta é simples: disfarçando-se e adoptando a estratégia oportunista do roubo criativo. Disfarçando-se de quê? De Homo sapiens, claro. Mas como? Cortando o cabelo e a barba e tirando a bóina. Que outra coisa poderia ser? Roubo? Qual roubo? Cópia duma das armas do inimigo - a divisão do trabalho que proporcionou ao Homo sinister uma especialização em oratória, de que vivem ainda hoje quase todos os espécimes sobreviventes.


espécime contemporâneo do Homo sinister exercitando o verbo

28/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: «a vingança do chinês»

«decidimos arranjar um novo culpado: a China. Como é óbvio, mais facilmente achamos os chineses uns patifes, que exploram mão-de-obra escrava e agridem a ecologia, do que levamos a mão à consciência.»

A vingança do chinês, por Sérgio Figueiredo no JN, uma leitura imperdível.

CASE STUDY: se carecesse de demonstração

Se carecesse de demonstração que não adianta torrar dinheiro para salvar empregos em empresas inviáveis, dinheiro melhor gasto em negócios viáveis, ficaria demonstrado com o caso MG Rover.

Há cinco anos, o governo britânico enterrou na MG Rover, em cima de milhões de libras que governos anteriores já haviam enterrado, mais 427 milhões num empréstimo sem juros que fez ao grupo Phoenix para tomar conta do moribundo que havia sido abandonado pela BMW. O grupo Phoenix, para além de abichar os 427 milhões de libras, não tinha a mais pequena ideia do que fazer com MG Rover.

Nessa altura o governo britânico, apavorado com as manifs para «defender os postos de trabalhos», preteriu uma outra proposta do grupo Alchemy que tinha uma ideia para o futuro da MG Rover e se comprometia a viabilizar parte do negócio, salvando 1/5 dos postos de trabalho e pagando 50 mil libras a cada um dos despedidos.

Cinco anos depois, o problema submerso debaixo dos milhões de libras emergiu num estado ainda pior e sem qualquer saída à vista. Ou melhor com a saída que à distância de 2 semanas das eleições se prevê que o governo britânico venha a adoptar: pagar 6,5 milhões de libras de salários por semana para o pessoal da MG Rover ficar sossegado.

Enquanto isso, projectos e planos do Rover 25 e do Rover 75 e equipamentos para a produção de outros modelos foram vendidos. Adivinhem a quem? Aos chineses, pois claro. Para continuar a produção nas fábricas ineficientes e inviáveis da MG Rover? Não queriam mais nada? Em Xangai, se não se importam.

«It is too big to be small and too small to be big»
Professor Peter Cook, Nottingham Business School.

(Mais pormenores aqui e aqui, ou ainda aqui)

27/04/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: se non e vero e bene trovato

«Vê-se logo que não conheces bem as mulheres. Para quê partir em cruzada se os americanos podem fazê-lo por nós», disse-me pelo telefone, a propósito disto, a minha filha mais velha que cultiva um feminismo desalinhado e desconforme.

SERVIÇO PÚBLICO: eu sabia que alguém iria escrever isto

«A maior parte dos críticos (de Bento XVI) parece acreditar que não há tolerância sem relativismo. Errado. É exactamente ao contrário. Só pode haver tolerância se existirem princípios comuns perenes que não podem ser postos em causa por mero capricho. Não pode haver tolerância numa sociedade onde a própria tolerância é considerada um valor relativo. Uma sociedade em que cada um tolera aquilo que lhe apetece e em que cada um define tolerância como lhe apetece é uma sociedade intolerante.»
Escreveu João Miranda do Blasfémias

CONDIÇÃO MASCULINA: e pur se muove

Se eu fosse um adepto do multiculturalismo, esqueceria continentes inteiros onde predominam culturas e religiões que aceitaria à pala da doutrina, e que por isso não seriam para aqui chamados. No remanescente (Europa, EU, Canadá, Austrália) pode dizer-se que o mulherio se saiu razoavelmente bem da emancipação da secular tutela masculina. Mérito delas? Sem dúvida. Sem esquecer a preciosa ajuda da indústria farmacêutica, que inventou a pílula e fez mais pela causa do que todas as Andreas Dworkin juntas. Sem esquecer, também, o capitalismo que lhes deu oportunidades no mercado de trabalho e lhes assegurou a independência económica.

Pois bem, em vez de partir em cruzada para as longínquas regiões ainda sob o jugo do macho, as legiões feministas preferem investir sobre o inimigo derrotado nas regiões libertadas e quase pacificadas, salvo uma ou outra guerrilha impertinente.

Na versão soft, como é o caso da escritora Inês Pedrosa, a investida faz-se pastoreando o inimigo com o bordão da «filosofia feminista».

Na versão hard são incontáveis os exemplos. Cito um deles relatado por um Lobo do mar, o da megera que dá pelo nome de Susan Darker-Smith. Nas palavras do Lobo do mar, «já não se trata de igualdade de sexos no plano simbólico, mas de aniquilação do sexo no plano metafórico: só sem diferenças sexuais se pode matar Adão e o predomínio capitalista-sexista».

E, no entanto, as diferenças existem. Já aqui relatei as teses politicamente incorrectas de Lawrence Summers que provavelmente levarão à sua demissão pela matilha do PC.

É agora a vez dos investigadores heréticos do Laboratório de Neuropsicologia do Instituto da Inteligência correrem o risco de serem perseguidos por concluírem que «os rapazes são melhores no raciocínio matemático, na filosofia e na leitura de mapas e as raparigas vêem melhor no escuro, têm mais habilidades verbais e maior persistência e capacidade de concentração», só para citar algumas das diferenças.

Outros heréticos da University of East London concluíram que «gay men adopt male and female strategies (and) their brains are a sexual mosaic". Quer isto dizer que são cada vez mais as evidências da diferenciação no hardware da bicharia, que partilha componentes dos dois géneros.

HERESIAS TERMINAIS:
Se levarmos até ao fim as conclusões dos heréticos do Laboratório de Neuropsicologia, voltaremos a adoptar a separação de sexos, pelo menos até ao final do ensino secundário, para potenciar o desenvolvimento óptimo do software mental de cada género a partir de hardware diferenciado. Sejamos modestos e esqueçamos potenciar seja o que for. Cuide-se apenas de evitar a colonização por estratégias pedagógicas, talvez adaptadas ao hardware mental feminino, mas completamente inadequadas para o masculino. Eventualmente essas estratégicas explicam o crescente fracasso escolar do género.

Se levarmos até ao fim os resultados das pesquisas dos heréticos da University of East London, vamos talvez concluir que o sucesso da solução final do feminismo radical será o hermafroditismo universal.

26/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (7)

Depois de (1), (2), (3), (4), (5) e (6) , mais perguntas fáceis de resposta difícil.

Projecto de lei do PS sobre o aborto
Artigo 142.º Interrupção da gravidez não punível (redacção proposta para este artigo do Código Penal )
«1 - Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico ou sob a sua direcção, em estabelecimento oficial ou oficialmente reconhecido com o consentimento da mulher grávida, nas seguintes situações:
c) Caso se mostre indicada para evitar perigo de morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, designadamente por razões de natureza económica ou social, e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez;»


Em que circunstâncias as «razões de natureza económica ou social» podem provocar «a morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida»? Pobreza extrema causa de inanição? Discriminação da mulher por ter ficado grávida?

Prevendo o projecto de lei do PS (lei que se pretende aprovar após o referendo), um limite de 16 semanas por vagas e inverificáveis razões, porque refere a pergunta proposta para o referendo somente 10 semanas? Como classificar esta manipulação grosseira? Como um insulto à inteligência dos eleitores?

um perigo de morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mãe, com 16 semanas

25/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: 25 de Abril? ah, pois

Portugal será uma democracia madura quando os dinossauros cretácicos comemorantes do 25 de Abril igualarem em número os trilobites paleozóicos (não comemorantes) do 28 de Maio e ficarem, literalmente, a discursar uns para os outros.

24/04/2005

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Lasciate ogni speranza o voi che entrate

Depois de nos ter descrito as delícias da universidade de Berkeley, nos dois episódios anteriores das suas Crónicas Femininas na Única do Expresso, a escritora Inês Pedrosa mostra-nos neste último que não há bela sem senão. Os senões são, entre outros últimos resquícios do macho opressor que ainda existem por aquelas bandas, os estudantes suicidas «sempre do sexo masculino» .

Mas não desespereis. Há ainda esperança. Aliás, a «única esperança de sobrevivência para o sexo masculino»: «a filosofia feminista».

Permito-me discordar. A única esperança de sobrevivência para o sexo masculino é manter ao largo a filosofia feminista. Se o Senhor na sua infinita sabedoria, para uns, ou, para outros, o processo evolucionário durante milhões de anos de tentativas e erros, tivesse concluído que a indiferenciação dos géneros era a melhor solução para a espécie humana, certamente seríamos hoje caracóis hermafroditas.


macho ex-suicida convertido à filosofia feminista por uma assistente do doutor Mengele

Em boa hora o Impertinências, premonitoriamente, criou a área temática La Donna e un animale stravagante, para acolher estes deliciosos delírios.

23/04/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: beija-mão e lava-pés

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
A acreditar na última página do Expresso, que merece mais crédito do que a primeira, que costuma ser desmentida na semana seguinte, o doutor Freitas não vai a Washington só ao beija-mão. Vai também ao lava-pés.

Na audiência que a ajudante de George W. Hitler lhe concedeu em Vilnius, um doutor Freitas grato por finalmente merecer alguma atenção do pessoal da Casa Branca, inventou um convite para Condy vir fazer «repouso» a Portugal. Até aqui nada de especialmente relevante, apenas genuflexões avulsas.

Grave foi o doutor Freitas se propor «estudar uma solução constitucional que permita a extradição de cidadãos de Portugal para os EUA, interdita desde 1908», pela existência da pena de morte.

Estamos perante mais um exemplo de que o doutor Freitas não se rege por princípios, mas por considerações. Por considerações que ele acredita que o seu pesado ego deve merecer.

É por isso que, no curto espaço de um mês, o Impertinências lhe atribui, outra vez, 5 ignóbeis e 5 bourbons.

22/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: parem, escutem e olhem

Vem aí um comboio, poderia ter dito Rupert Murdoch, o patrão mais poderoso dos média, para quem o quisesse ter escutado na conferência da American Society of Newspaper Editors.

Disse-o por outras palavras, explicando que o pessoal com menos de 40 anos não tem saco para aturar a «god-like figure from above to tell them what's important and they certainly don't want news presented as gospel». O Impertinências acrescenta que mesmo o pessoal com mais de 40 anos também já lhe custa ler as pesporrências, aleivosias e opiniões disfarçadas de factos dos artigos defuntos com que nos empanturram.

Vale a pena ler aqui o que provavelmente a melhor revista de economia e finanças tem para nos dizer sobre este tema. Em particular sobre o papel dos blogues na radical transformação da comunicação tal como a conhecemos hoje.

Não é preciso muito imaginação para perceber a ameaça que tudo isto representa para o exército de incompetentes, preguiçosos e ideólogos desperdiçados que pululam no jornalismo. Correm o risco de perder o emprego e serem obrigados a ter um blogue (ah, ah, ah).

Parem, escutem e olhem. Vem aí um comboio.

BLOGARIDADES: sucumbindo às foleiradas

Não fosse achar uma foleirada botar música à entrada do blogue, como tem sido moda a que submeteram, em certa altura, espíritos da maior elevação, se não fosse isso, dizia eu, que já me ia perdendo, se não fosse isso, botava a Nessun Dorma! da Turandot com Franco Corelli a seduzir os duros ouvidos da meia dúzia de almas penadas que visitam o Impertinências.

Sucumbindo à foleirada, AQUI fica a «voz de tenor mais impressionante do mundo, provavelmente de todos os tempos», a seduzir as almas privilegiadas que em 1965 estiveram sentadas no Teatro dell'Opera di Roma.

21/04/2005

TRIVIALIDADES: engolir uns sapitos

O doutor Freitas vai a Washington ao beija-mão à ajudante do George W. Hitler. Ficará Condy invejosa e esmagada pelo peso do grande estadista?

Desculpe lá menina Condy, só disse aquelas coisas para os anacletos me deixarem entrar nas manifs

20/04/2005

ESTÓRIA E MORAL: o que a greve da RTP nos fez perder

Estória
Os trabalhadores da RTP, que explora os canais de TV da vaca marsupial pública, indignaram-se pela administração se ter congratulado com o aumento das audiências durante os dias em que fizeram greve. Criticaram ainda a administração por «não (ter) apresentado qualquer reportagem sobre a actualidade» (Público). Queriam, possivelmente, referir-se àquelas peças sobre trivialidades fabricadas pelas estagiárias em que nos são mostradas, durante infindáveis minutos, megeras desdentadas, aos berros, envergando o seu uniforme oficial - a bata. [*]


(as reportagens sobre a actualidade, que perdemos por causa da greve do pessoal da RTP, vistas pela Vitriolica)

Moral
Quando tudo o que se tem é um martelo, tem-se tendência para ver tudo como pregos (lei de Maslow)

[*] Não é machismo, não senhora. É simplismo.

NÓS VISTOS POR ELES: joaninha avoa, avoa que o teu pai foi para Lisboa

Que o portuga é um ser obcecado pela importância que julga ter aos olhos da estranja é coisa que todos nós, os portugas, sabemos. Foi por isso que o Impertinências criou a área temática Nós vistos por eles.

Até agora só se tratou do que pensaram de nós alguns estrangeiros que por cá passaram: Nadim Habib, gestor líbano-dinamarquês, Alfred Doeblin, romancista alemão e Albert Einstein, físico alemão.

É a vez de tratar do que pensam os estrangeiros que não precisaram de passar por cá, porque fomos nós lá. Os polacos, por exemplo, parecem pensar bem, pelo menos da Jerónimo Martins que oferece às vítimas do colapso do socialismo real (o único existente, porque todos os outros são imaginários) os benefícios da sociedade de consumo em 730 lojas em 400 cidades.

Os polacos, mas nem todos. Bozena Lopacka, uma ex-gerente duma loja da cadeia da Jerónimo Martins Bierdronka (joaninha em polaco, diz quem sabe), reclama com grande estridência 2.600 horas de trabalho extraordinário não pago. Reclamação que parece excitar os sindicalistas, que já a comparam a Lech Walesa, vendo nela uma santa padroeira capaz de conduzir a «Associação das Vítimas da Jerónimo Martins» (sic), por si criada, ao assalto dos grandes retalhistas - quem sabe tendo em mente a ressureição dos armazéns do povo com as suas prateleiras vazias.

Ainda vamos assistir à formação duma brigada internacional do Bloco, comandada por um anacleto, para apoiar a luta da «Associação das Vítimas da Jerónimo Martins».


Anacleto apontando o caminho às vítimas no combate à joaninha

19/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (6)

Na sequência de (1), (2), (3), (4) e (5), continuando a fazer perguntas com respostas difíceis.

  • Supondo que a pergunta do referendo refere um limite de 10 ou 12 semanas, ou outro qualquer, não seria razoável que os eleitores tivessem acesso à informação que lhes permitisse distinguir entre um embrião e um pólipo? Por exemplo, imprimindo no boletim de voto uma foto dum embrião com a idade correspondente ao limite máximo proposto?

.........8 semanas..................................10 semanas

12 semanas

(mais informação aqui)

  • Supondo que o referendo aprova a despenalização dos abortos, deverá o Serviço Nacional de Saúde fazê-los gratuitamente ou com taxa moderadora?
  • Em qualquer caso, qual será a prioridade dos abortos praticados no SNS? Serão feitos nas urgências ou ficam na fila de espera das intervenções cirúrgicas?
  • Se o referendo rejeitar a alteração da lei do aborto, quando será o próximo referendo?
  • Se o aborto é eticamente aceitável para os seus defensores, porque usam o eufemismo «interrupção voluntária da gravidez»?

17/04/2005

TRIVIALIDADES: o período de graça não é de borla (2)

Ou muito me engano, ou continuam a encastelar-se as nuvens por cima do governo do engenheiro Sócrates. Uma vez mais, o Expresso, que havia sido um activíssimo patrocinador da campanha eleitoral do PS, é agora o lugar geométrico dos primeiros sinais de impaciência. A fé dos crentes cedo começa a vacilar.

Não é caso para menos. Decorrido um mês, 17 professores universitários acolitados pelas restantes luminárias, não produziram até agora mais do que duas ideias (a liberalização da venda dos medicamentos sem receita e o ensino do inglês no ensino básico), uma promessa inquietante [*] (não aumentar os impostos este ano) e três prioridades (Espanha, Espanha, Espanha).

É pouco? É demais e de menos. Para um governo que não produz nada, não investe nem vende nada em Espanha ou em qualquer outra parte do mundo, essas prioridades estão a mais e são claramente vazias de sentido. Em contrapartida, para um governo que cavalga a vaca marsupial pública que consome 50% do que o país produz, não ter ainda explicado como pensa cortar-lhe a pantagruélica ração é claramente de menos.

[*] Uma promessa inquietante? Sem dúvida. Não reduzir a despesa e não aumentar os impostos, que seria pagos pelos eleitores que contribuiram com as suas escolhas para eleger governos incompetentes, significará aumentar a dívida pública, que será paga no futuro, numa proporção maior ou menor, por outros eleitores.

16/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: se carecesse de demonstração

Se carecesse de demonstração que a entrega ao Moloch (copyright Semiramis) da exploração de qualquer negócio é pior que do entrega do ouro ao bandido, ficaria demonstrado com um só facto.

O facto de para extinguir uma empresa pública o Moloch precisar em média de 7-anos-7. Numa organização que o Moloch vampirizou, defunta apesar dos montes de dinheiro que lhe atirou durante anos para cima, são ainda necessários 7-anos-7 para emitir a certidão de óbito.

Durante esses 7-anos-7, uma comissão de extinção composta por extintores, assessores, secretárias, contínuos e descontínuos, devidamente municiada de veículos pretos e toda a parafernália habitual, torra mais uns milhões de euros.

Em média são precisos 7-anos-7. Em média. Mas há casos, como o jornal O Século, que já levam 24-anos-24 and counting.

Q.e.d.

15/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: fugiu-lhe a boca para a verdade

«Digo simplesmente que esta Constituição é essencial para ter uma Europa organizada e salvar os valores que são essencialmente os valores franceses e que se impõem na realidade da Europa desde há dois séculos», terá dito, segundo o Público, M. Chirac no debate de 5ª Feira à noite.

E que diabo queria ele dizer? Que ele acha, e com ele a classe política francesa e possivelmente um grande parte dos franceses, apesar discordarem dele no que respeita à constituição europeia, que a Europa serve para dar lastro à decadente fraqueza de la différence française e pode servir de procurador às obsessões de grandeur perdue de vieille putain. Onde fala de valores devemos ler interesses.

CASE STUDY: onde fica o paraíso dos capitalistas?

Nos EU? Talvez não. Passemos em revista as sevícias a que se tem sido submetidos nos últimos tempos os capitalistas naquele suposto paraíso.

aqui tratei, muito por alto, deste tema a propósito da tia Martha Stewart e de Frank Quattrone. Mais recentemente, há inúmeros exemplos que envolvem peixe mais graúdo. Passo a relatar alguns deles.

A família Greenberg está toda ensarilhada. Desde o pai, Maurice "Hank" (CEO e um dos maiores accionistas da AIG, a seguradora com maior capitalização bolsista em todo o mundo), até ao filho mais novo Evan (CEO da seguradora ACE), sem esquecer o mais velho, o primeiro a cair, Jeffrey (CEO da Marsh, o maior corretor mundial de seguros). A própria cara-metade de "Hank" e mãe dos rapazes não está livre de sarilhos.

Warren Buffet (CEO e grande accionista da Berkshire, a maior holding de investimentos mundial) também foi apanhado por ricochete no patriarca Greenberg.

Phillip Purcell (CEO do Morgan Stanley, um enorme banco de investimento) tem a cabeça a prémio.

Franklin Raines (CEO) e J. Timothy Howard (CFO) da Fannie Mae, uma instituição financeira especializada em crédito imobiliário, foram forçados a demitir-se.

Bernard Ebbers (ex-CEO), Scott Sullivan (ex-CFO) e vários outros dirigentes da WorldCom) foram julgados e serão condenados a longas penas de prisão.

Ben Glisan (tesoureiro), Andrew Fastow (CFO), são apenas dois entre os executivos condenados, que se seguiram a Kenneth Lay, Chairman e CEO da Enron.

A queda da Enron arrastou as de Daniel Bayly, James Brown, Robert Furst e William Fuhs, executivos dos corretores Merrill Lynch.

É certo que todos se portaram mal e estavam a pedi-las, mas temos que conceder que, para um paraíso dos capitalistas, a mão foi pesada.

E nós por cá?

Em matéria de prisões, podemos colocar no activo da luta anti-capitalista as dezenas de detenções que o Copcon efectuou durante o PREC. Quase todos os empresários domésticos mais bem sucedidos, Mellos, Espíritos e tutti quanti, foram malhar com os ossos em Caxias.

Aparte este mal-entendido, isto é, aparte o facto de terem sido presos os que não deviam e terem ficado em liberdade os milhares de crápulas que sugavam a mão-de-obra mal paga, fugiam ao fisco, etc., podemos levar este incidente à conta dos excessos que todas as revoluções sempre arrastam.

Depois disso, que me lembre, o único capitalista preso foi o pobre doutor João Cebola, por uma trapalhada qualquer ligada ao IVA. Trapalhada menos grave do que a praticada por milhares de crápulas que, por esse país fora, se exercitam todos os dias nas modalidades de factura falsa e falta de factura.

Nos tempos mais recentes, também já aqui citei os casos de Miguel Sousa Cintra e Carlos Magalhães Pinto que, por operações de inside trading foram condenados a pagar uma pequena fracção das mais-valias que realizaram com a sua batota.

No país em que os desportos mais populares são a evasão fiscal, o incumprimento das leis e a mais desavergonhada bandalheira contabilística, já teríamos metade da nossa classe empresarial atrás das grades pelos critérios ianques.

Em conclusão, vá lá a gente perceber o que querem os nossos empresários quando se queixam da falta de clima adequado aos seus negócios.

14/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: uma luz no fundo do túnel

Ainda sem o choque tecnológico, segundo o FMI já estamos a «convergir com a zona euro».

Com o diferencial de 0,2% temos garantido ao fim de 170 anos, mais ano menos ano, atingir o PIB per capita médio da UE. Por essa altura, a Irlanda se crescesse a uma taxa igual a metade da previsão do FMI para 2005 teria atingido 4 vezes o PIB per capita médio da UE. Bom, mas isto não passa de previsões. Claro.


Finalmente, uma luz no fundo do túnel. Não será um comboio?

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: também eu, se não adorasse uma camisinha lavada

A propósito do post «a coisa nunca está tão má que não possa piorar», refere por email uma detractora acidental que «o Impertinências só escreve sobre essa pseudo-ciência deprimente que é a economia. Só fala de dinheiro, ou melhor da falta dele, de défices, de produtividades, esquecendo que, como disse, e muito bem, o nosso Presidente, há vida para além disso tudo. Tenho pena de si. Deve ser muito infeliz.»

Obrigado pelas suas palavras. Não posso estar mais de acordo, mas nestas alturas ocorrem-me sempre duas estórias.

Uma, que ouvi há muitos anos, contada por um consultor da COPRAI e passada no verão escaldante de 1975. A pessoa em causa tinha sido nomeada, sem sequer ter sido ouvida nem achada, para um qualquer soviete duma qualquer dessas centenas de empresas «ocupadas pelos trabalhadores». Saiu, para não mais voltar, ao fim de 15 minutos da primeira reunião onde se discutia o poder popular. Acabou a estória explicando que ele gostaria mesmo, mesmo, era de ser hippy, mas, infelizmente, como adorava uma camisinha lavada, tinha que fazer pela vida.

A outra estória, contada por um amigo cujo filho, com mais do que idade para ter juízo, depois de lhe fazer os discursos habituais sobre a alienação paternal pelo trabalho e de como o que é importante é ser feliz, lhe pede invariavelmente dinheiro.

13/04/2005

TRIVIALIDADES: alguém me explica?

O que aconteceu no fim de semana passado em Pombal?
O que espera o engenheiro Sócrates ao querer que o mercado espanhol se abra?
Porque foi o doutor Sampaio, um adepto da não ingerência, ingerir-se nos negócios internos dos franceses recomendando-lhes que votassem sim?
A Casa da Música existe mesmo?

DIÁRIO DE BORDO: será o liberalismo um estado de espírito? (5)

Diferentemente do Bomba Inteligente, que costuma acordar assim (copyright BI), por exemplo como a Drew Barrymore, eu hoje vou adormecer assim. Assim? Assim como o Mario na «E lucevan le stelle». Não assim como o Mario do di Stefano dirigido pelo von Karajan em Setembro de 1962, que já ouvi prá aí uma centena de vezes. Mas como o Mario dum esforçado funcionário da Opera Estatal de Odessa. E assim a reler o post do Dissecting Leftism de John Ray «Why I am a Libertarian Conservative» .
«I normally mention my own political outlook only in passing. I am more interested in understanding what is happening in the world about me than I am in proposing my own grand theories. And in that respect I think I am a mainstream conservative. Conservatives don't like grand theories. I do however find libertarian ideas a very useful framework for thinking about problems. I think that most of society's problems are caused by governments usurping choices that could better be made by individuals and that government is just about the worst way of doing almost anything. So libertarians normally have a good answer to most social problems -- allow more freedom for individual choice. Libertarians have ideas and concrete proposals with a clear rationale and persuasive precedents. And that is a great contrast with the dismal Leftist reflex of solving everything via ever more pervasive coercion. And libertarian proposals in most spheres are normally congenial to conservatives too.

Where libertarians normally part company with conservatives is over moral issues. Conservatives want less regulation than Leftists but they do want some regulation. Exposing part of a black woman's breast at a major sporting event upsets some conservatives dreadfully, for instance. I am afraid that I remain a total libertarian on such issues. What people do with their own bodies seems to me to be supremely their business. And all arguments that some idea or claim should not be uttered or made known simply suggest to me that the idea or claim concerned is a powerful one that cannot easily be opposed. I would not go so far as to say that any censored idea or claim is automatically correct but I think there is a strong presumption in that direction. So the argument that sexual restraint should be fostered by censorship of sexual expression suggests to me that the arguments in favour of sexual restraint are weak.

Where I part company with many libertarians is that I find them too doctrinaire. I DON'T believe that there is one simple recipe that solves all problems. That to me is a Leftist outlook. As conservatives generally do, I see the world as infinitely complex and as not reducible to any simple rule. And in fact many libertarians agree with that. The extreme form of libertarianism is anarcho-capitalism -- the idea that NO government is needed for any purpose. I know all the arguments in favour of that view but see them as contrary to all human experience. Man is a social animal who has always throughout history felt at least some need for a government to perform certain tasks and I am perfectly confident that that will always be so. So as far as I can tell, most libertarians are not anarcho-capitalists. They are Minimal Statists. They believe that there are certain functions (such as defence) for which a government is needed. I am one of those.

So the distinction between Minimal Statists and Conservatives is one of degree. Conservatives have always wanted to limit the size and power of the State (I document 1500 years of history to that effect here) but they still want a much bigger State than Minimal Statists do. And I am a pretty minimal Minimal Statist. I think the USA could abolish its whole alphabet soup of government agencies (FDA, EPA, DEA etc) to great net advantage (for instance).»
(o resto pode ser lido aqui)

12/04/2005

BLOGARIDADES: a boca no trombone

Mais um blogue que põe a boca no trombone. O Captain's Quarters do blogger americano do Minnesota Ed Morrissey «tem vindo a publicar detalhes explosivos de testemunhos supostamente secretos a comissão judicial em Montreal que está a investigar um enorme escândalo de corrupção política centrada no partido Liberal que está no poder».

(ver mais detalhes aqui e os posts do Captain's Quarters, por exemplo este)

11/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: a coisa nunca está tão má que não possa piorar

O Gabinete de Estratégia e Estudos do ministério da Economia estimou em 14,5 mil milhões de euros o défice da balança comercial em 2004 - um aumento de 24% em relação a 2003 que atirará o défice para cima dos 10% do PIB. Como já aqui se viu, trata-se, uma vez mais, do modelo do costume, com o consumo a puxar pelas importações.

Se nas famílias que gastam mais do que ganham o final da estória costuma ser triste, nos países o final pode ser uma verdadeira tragédia.

E quando os países consomem mais do que produzem será porque consomem muito? Não necessariamente. Pode ser porque produzem pouco. E, por falar em produzir, veja-se este interessante gráfico, que mostra Portugal na pior posição do jogo da apanhada: mais atrasado do que a Coreia do Sul ou a Grécia e a atrasar-se cada vez mais em relação ao benchmarking.

(publicado por The Economist; repare-se que os indicadores estão calculados com base na paridade do poder de compra)

Mas, ao menos, as coisas estão a melhorar? Desiludam-se. Estão a piorar. Segundo um estudo da CIP citado aqui, «os custos do trabalho em Portugal continuam a crescer acima da média europeia». Ao coro podemos acrescentar a OCDE (citada aqui), que estima que «em oito anos, o número de horas trabalhadas em Portugal caiu 6,0%».

10/04/2005

TRIVIALIDADES: o período de graça não é de borla

Desfrutando ainda do seu período de graça, talvez prolongado pela contenção verbal, que na melhor hipótese significa prudência e na pior significa que não tem nada para dizer, o engenheiro Sócrates começa a ver esgotar-se o suplemento de boa vontade que se segue aos completos descalabros, como aquele que assolou o santanismo no governo. Mas beneficia, ainda durante algum tempo mais, da crença do pior do que era, não poderá ser. Crença regularmente desmentida pelos factos.

Foi a vez dos empresários, representados pela CIP, começarem a provar a receita que o governo lhes tem reservada. Segundo o Expresso, a delegação da CIP «ficou muito desagradada com a atitude altiva e professoral de José Sócrates» que, segundo o mesmo semanário, foi classificada como «um sermão com missa cantada».

Numa economia em que os empresários estão tão carentes do colo estatal como os trabalhadores, as queixas, se sussuradas no recato dos gabinetes, significariam muito pouco. Trombeteadas para a primeira página do suplemento de economia do jornal que mais se empenhou na campanha pró-Sócrates querem dizer bastante.

Contudo, não deveria surpreender ninguém a pesporrência e a atitude ligeiramente agoniada perante os «privados», aquele departamento da economia com que o Moloch (copyrigth Semiramis) tem que conviver.

08/04/2005

CASE STUDY: será o liberalismo um estado de espírito? (4)

Fiquei a reflectir sobre a minha receita da contaminação dum partido «já existente transformando-o num partido (mais) liberal», admitindo que teria sido «o que se passou pela mão de Tony Blair com o partido Trabalhista».

Ao passear hoje por aqui e ler a resposta de Luís Aguiar Santos à sua própria pergunta «Porque é tão insignificante o liberalismo em Portugal?», relembrei a minha inocente receita de contaminação e ocorreu-me também uma outra pergunta: não seria mais fácil Tony Blair, ou alguém por ele, por exemplo Charles Kennedy, contaminar o próprio suposto bastião do liberalismo britânico - o Liberal Democrat Party?

Parece à primeira vista. À segunda vista duvida-se. Dando uma olhadela para as políticas dos Lib Dems colocam-se sérias dúvidas sobre o liberalismo destes liberais.

Quem não tiver pachorra, como eu não tive, para ler integralmente os 7 documentos - duas centenas de páginas é obra - pode ler uma avaliação honesta dessas políticas aqui.

Que liberais são esses que defendem o aumento da taxa de IRS para 50% acima de 200.000 euros? Que prometem assistência aos idosos ricos como aos idosos pobres? Que propõem o abandono das propinas nas universidades públicas? Que servem de megafone aos sindicatos de professores e dos profissionais da saúde e não têm uma única ideia própria sobre a reforma dos serviços públicos?

Por menos do que isso poderiam pedir admissão à Internacional Socialista.

(Continua. Eventualmente)

07/04/2005

BLOGARIDADES: a verdadeira posição liberal

«Em última análise só pode existir uma posição liberal sobre um determinado assunto
«Numa sociedade livre, as palavras e os conceitos são definidos de forma descentralizada e ninguém tem o direito de definir o que é o verdadeiro "casamento".» (palavras do blasfemo João Miranda)

Alguém tem o direito de definir o que é a verdadeira posição liberal sobre um determinado assunto, por exemplo se há a verdadeira posição liberal?

CASE STUDY: queremos ser uma Bélgica periférica ou uma Irlanda continental?

O tema da correlação entre tamanho do Moloch (copyright Semiramis) e crescimento económico já foi tão batido que é difícil escrever coisas que não tenham sido já escritas. Por exemplo, aqui pelo Jaquinzinhos.

Dois gráficos talvez falem mais alto do que as palavras. Aqui vão eles.

(The Celtic Tiger: Secret of Success Unveiled; Hans Labohm; Tech Central Station - via Dissecting Leftism)

06/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: Atlântico

Saiu a semana passada (mais um exemplo de que o Impertinências não trata de breaking news) o primeiro número da revista Atlântico, dirigida por Helena Matos (já aqui citada algumas vezes) e com um naipe de colaboradores que qualquer cidadão, cujos neurónios não estejam irremediavelmente desactivados, apreciará ou espumará de raiva ao ouvir falar deles. Não é exagero. Basta ler o que sobre a Atlântico escreveu o doutor Daniel de Oliveira, porta voz da holding comunista BE, na sua coluna Choque e Pavor do Expresso.

Para quem aprecia as abordagens da praxis política sob o ângulo da psicanálise, merece destaque um interessante texto de Paulo Tunhas sobre o narcisismo das intelectualidades de esquerda.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: o fascismo do PC

Secção George Orwell
(uma secção onde se homenageia George Orwell, que terá dito que há ideias e opiniões tão obviamente idiotas que é preciso ser-se um intelectual para se acreditar nelas, como se conta no Glossário)

A estória já tem barbas - a especialidade do Impertinências não são breaking news. Em 14 de Janeiro, Lawrence Summers, presidente da Harvard University, e, entre muitos outros postos, antigo secretário do Tesouro do presidente Clinton, proferiu este discurso na Conference on Diversifying the Science & Engineering Workforce do National Bureau of Economic Research. Nesse discurso Summers explicou que não era um especialista mas via 3 razões possíveis para haver menos mulheres nas áreas de matemáticas e ciências. A discriminação e pressões sociais a que são sujeitas as mulheres; as tremendas exigências de disponibilidade que tornam menos atractivas estas carreiras para elas e, last but not least, a maior variabilidade das atitudes, face à ciência, nos homens do que nas mulheres.

Com aquela última, que considerou ser a possível causa mais relevante, Summers queria apenas dizer, como resulta claro no discurso, que, segundo a sua experiência nesta matéria, os piores homens tendem a ser piores do que as piores mulheres e os melhores tendem a ser melhores do que as melhores mulheres, sem prejuízo de, em média, os desempenhos não serem muito diferentes.

As reacções do bando do PC (politicamente correcto) não se fizeram esperar e dois meses depois a Faculdade de «Arts and Sciences» de Harvard aprovou por 218 votos contra 185, uma moção de desconfiança ao presidente da universidade, tendo ainda aprovado uma crítica ao seu estilo de gestão por 253 votos contra 137. Fora de Harvard, as reacções do bando exigindo a sua demissão foram igualmente histéricas - por exemplo esta da National Organization for Women.

Pode-se concordar ou discordar de qualquer dos argumentos, sendo certo que os duas primeiras alegadas causas parecem mais ou menos óbvias a quem tenha um módico de experiência de vida, e a terceira só será possível de confirmar ou refutar com base em dados objectivos. No final, é apenas uma questão que pode e deve ser tratada com neutralidade científica - uma abordagem impossível para quem na, linha do estalinismo, acredita que a ciência é uma arma na luta ideológica.

Tal como o terror do fundamentalismo islâmico não se combate de joelhos pedindo desculpas e misericórdia, numa escala bastante mais ridícula, também não se combate o fundamentalismo histérico do PC pedindo desculpas e protestando arrependimento, que é o que Summers parece inclinado a fazer.

Tal como no combate ao fundamentalismo islâmico, as mulheres também são essenciais no combate ao sexismo ao contrário que contamina os homens e as mulheres militantes do PC.

Cinco ignóbeis para o bando do PC que desta vez se superou. Por se ter excedido, leva apenas 3 bourbons dos cinco possíveis.

05/04/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: um profissional liberal é liberal?

A propósito das reflexões vagabundas, um detractor habitual do Impertinências questiona-me se o profissional liberal que eu me confesso será «um profissional, liberal ou não, que é liberal, ou, pelo contrário, um profissional liberal, que é liberal ou não».

Para responder com bons modos, tenho que dizer que, conforme se percebe no resto das reflexões vagabundas de O Comércio do Porto, o profissional em causa é, não por acaso, um «liberal-pragmático», apesar de ser, também não por acaso, um profissional liberal. Qualquer desses chapéus levaram-me anos a conseguir, não por acaso.

DIÁRIO DE BORDO: reflexões vagabundas dum bloguenauta anónimo

Por vezes interrogo-me como é possível ser bloguenauta, manter uma produção regular (mais ou menos) original, a alguém que não seja rico, desempregado, estudante, professor com horário zero, funcionário do ministério da agricultura, ou, como é o meu caso, profissional liberal semi-aposentado.

É uma trabalheira. Duas horas pela manhã para ler umas dezenas de posts dos indispensáveis, cheirar uns quantos links, ler alguns jornais do dia, criar o pique suficiente para vencer a preguiça de escrever, depois do jantar ou, se o pique é muito forte, e os deveres profissionais se podem adiar por mais uma hora, escrever a quente ainda nessa manhã.

Se fosse adepto dos subsídios, defenderia que o governo deveria recuperar as verbas com que subsidia os filmes com menos de 100.000 espectadores, que foram todos em 2004, e pagar um euro por visita/dia aos bloguenautas.

O bloguenauta mais anónimo (quase) pode aspirar a rivalizar com as luminárias da política ou dos média. Mas é claro que, tal como no caso do e-business em que quem já tinha um negócio bricks & mortars dispõe à partida duma vantagem competitiva decisiva, também quem já tinha um negócio como comentador político ou como intelectual dispõe da vantagem da notoriedade.

É também claro que existem barreiras à entrada, apesar de mais ténues do que no caso de outros negócios - quem chegou primeiro fidelizou os seus clientes e dispõe duma reserva de mercado. Finalmente, é óbvio que há estratégicas de marketing que podem e são usadas para potenciar as visitas - por exemplo o linking recíproco a que chamei, na paródia, o retro-link. Nem mesmo a blogosfera é um mercado perfeito.

[reflexões vagabundas que, por falta de espaço, não couberam no «Liberal-pragmático» na Secção Política no Ciberespaço de O Comércio do Porto de 1 de Abril]

04/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o manejo da matriz comunista

No passado fim de semana os marxistas-leninistas-maoístas da UDP estiveram entretidos a mudar a classificação de partido para associação. Nas palavras dos próprios, a agora associação UDP é um projecto que «assume e maneja a matriz comunista». O camarada Carlos Santos resumiu a coisa assim: «Abandonámos Lenine? Não. Respondemos à vida e às necessidades».

Se por acaso o Bloco de Esquerda, onde esta «matriz comunista» se inscreve, tivesse a maioria, os anacletos instituiriam a ditadura do proletariado? Teríamos kolkhozes nos campos de golfe e sovietes no Tagus Park? Voltaríamos à «apropriação colectiva dos meios de produção e solos»? [ó doutor Nicolau isto garantiria que «algumas empresas em sectores estratégicos (ficariam) em mãos nacionais»?].

Good Bye Lenin! . See you soon.

03/04/2005

ARTIGO DEFUNTO: «a globalização está a dar cabo de nós» (ACTUALIZADO)

Na sua coluna «Cem por cento» no caderno Economia do semanário Expresso, o doutor Nicolau Santos descreve como descobriu a causa das nossas desgraças, sob um título que é um programa de vida: «A globalização está a dar cabo de nós». O que pode esperar-se que escreva um sujeito com aquele lacinho, aquele olhar de lado, turvo e fugidio?

Apesar de não explicar o porquê da causa da nossa desgraça fazer a alegria de irlandeses, ingleses, luxemburgueses, dinamarqueses, holandeses, finlandeses, até dos nossos vizinhos espanhóis, sem falar os chineses, indianos e toda imensa legião dos que anseiam ser vítimas da globalização, o doutor Nicolau não é um pessimista. Ele acha que a coisa não é inevitável.

A receita, sendo estupidamente simples, coloca-me algumas dúvidas.

Poção n.º 1 «Algumas empresas em sectores estratégicos têm que se manter em mãos nacionais»
Porquê algumas? E que mãos são essas que garantem que não as vendem aos espanhóis? Não seria mais seguro repor o artigo 80º da Constituição de 1976 e voltar à «apropriação colectiva dos meios de produção e solos» que tão bons resultados deu? (*)

Poção n.º 2 «Incentivar os investimentos estrangeiros em investigação e desenvolvimento»
Como irão os estrangeiros «deslocalizar» dos seus países de origem para Portugal a investigação e desenvolvimento, sem terem que ler os doutores Nicolaus domésticos a escrever nos seus semanários domésticos que a globalização está a dar cabo de nós (deles)?

Poção n.º 3 «Estimular o orgulho dos empresários nacionais em manterem as empresas nas suas mãos»
Como se estimula o orgulho dum empresário português a quem um empresário espanhol oferece 100 milhões de euros pela sua empresa?

Poção n.º 4 «Fazer compreender os sindicatos que o que agora está em jogo não são os aumentos para o mês que vem - mas saber se ainda teremos emprego daqui a 5 anos»
Como se faz compreender os sindicatos? (uma boa resposta aqui vale um almoço no Pabe)

Poção n.º 5 «O governo (deve simplificar) os processos»
Pois. Aqui não tenho dúvidas.

Poção n.º 6 «Choque tecnológico (que) cabe que nem uma luva no novo ... PEC»
Sem dúvida. O choque tecnológico, mais 50.000 funcionários públicos, a continuação das promoções automáticas, um comboio para chegar meia hora mais cedo às reuniões no Porto, etc. (um grande etc.)

(*)
ACTUALIZAÇÃO
Talvez não precisemos de ir tão longe. Se 500 acções que o governo têm na PT, uma empresa cotada na Euronext e em Nova Yorque, são suficientes para o ministro das Obras Públicas, um ex-comunista pouco arrependido, adiar por um mês a assembleia geral convocada, a pretexto de estudar melhor a agenda, para quê repor o artigo 80.º?

02/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: morre um homem corajoso

Karol Wojtyla, João Paulo II, RIP.

DIÁRIO DE BORDO: a pintura, o desconforto, a lama e as moscas

«Ele liberta-se da sua paixão através da sua pintura e, contra a sua vontade, também através dos que lhe são próximos. É algo que as pessoas normais nunca compreenderão. Querem desfrutar da obra do artista - como se fosse o leite da vaca - mas não conseguem suportar o desconforto, a lama e as moscas.»
[Matisse a propósito de um pintor, possivelmente ele próprio]

01/04/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: será o liberalismo um estado de espírito? (3)

Secção Óbvio Ululante
Não têm conto as vezes que aqui no Impertinências se clamou contra o evidente colectivismo da sociedade portuguesa e a inevitável rejeição pelo povo e pelas luminárias do liberalismo, em qualquer das suas múltiplas encarnações.

Alguns posts em que a maleita nacional é abordada (nem sempre à séria): O colectivismo em altura, Poderão os arrumadores de carros arrumar as elites?, Neo quê? / Neo-lib, a very rare beast, Ando há 10 anos a dizer isso e ninguém me ouve, Utilizador-pagador - o desperdício pedagógico, Perdei toda a esperança vós que esperais, Não é para me gabar, mas, A inveja e a ambição, e, por último, anteontem no Será o liberalismo um estado de espírito? (2).

Pois a partir de ontem a doutrina É Oficial, veio no Público, como escreveu a Joana do Semiramis que também tem batido a mesma tecla inúmeras vezes, como também a têm batido os blasfemos.

José Manuel Fernandes escreveu o seu editorial (continua hoje) defendendo a tese que «em Portugal a cultura político-económica dominante é iliberal»

Como é possível que algo tão óbvio custe tanto a ver? De que serve concluir isso? A verdade é que não é possível tratar a maleita se não soubermos do padecimento.

Pelo editorial, José Manuel Fernandes vence justamente 2 afonsos. O Semiramis e os blasfemos levam 3 bourbons por continuarem iguais a si próprios.