Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/01/2004

CASE STUDY: Talvez arrumadores de carros?

Li aqui:
«Os mais de 116 mil alunos do 6º ano que, em Maio de 2002, realizaram as provas de aferição não conseguiram mais do que uma média de 33,5 por cento, numa escala de 0 a 100
Como se isto não fosse já um desastre, em matemática as coisas são muito piores (o Público não refere números) .
Estamos condenados a ser o sudeste asiático da Europa? Nada disso. Eles afastam-se rapidamente do ponto para onde nós caminhamos. Lembrei-me de ir reler o artigo «Banking on education to propel a new spurt of growth» do Economist de 13 Dez para confirmar que a percentagem de alunos matriculados em relação ao grupo etário no ensino secundário e no ensino superior é, para a maior parte dos países da região, superior a 70% e 30%, respectivamente.
E por falar em ensino superior, o gráfico aqui mostra como gastamos com as universidades uma percentagem do PIB muito maior do que a da Grécia e praticamente igual á de países que têm um ensino terciário de muito melhor qualidade, como Suíça, Japão, Alemanha e Grã Bretanha. Não vale refutar com o argumento que estes países têm um PIB per capita superior, porque o que conta nos custos com a educação são as despesas com o pessoal docente e administrativo e é evidente que um professor universitário português não pode ganhar pela bitola suíça.
Ou somos capazes de reformar o sistema educativo rapidamente ou cumpriremos o destino que nos reserva o doutor José Manuel de Mello - «talvez arrumadores de carros».

30/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A semiótica da inesquecível socióloga

Secção Perguntas Impertinente
Escrito no Público pelo doutor Eduardo Prado Coelho e lido no DN:
«Não deixa de ser sociologicamente significativo que entre os anúncios da secção 'Relax' de um grande quotidiano português apareça esta sugestiva proposta: 'Inesquecível socióloga, 26 anos, exótica, elegante, corpo perfeito, convive distinto cavalheiro'
Escrito isto, o doutor PC faz as perguntas que todos gostaríamos de ter feito, mas só ele é capaz:
«Será inesquecível enquanto socióloga? Será inesquecível apesar de ser socióloga?»
Enquanto o doutor Eduardo se corrói com a semiótica da inesquecível socióloga, o Impertinente oferece-lhe, para o consolar, 2 chateaubriands pela confusão do «apesar de ser», que nada tem a ver com o caso, como se as sociólogas não fossem tão capazes como as antropólogas, por exemplo, de proporcionar momentos inesquecíveis, a um praticante da semiótica ou mesmo a um ser humano normal. E ainda 3 bourbons, não por continuar a ser praticante, que disso não tenho a certeza, mas por continuar a ser um bonzo.

DIÁRIO DE BORDO: Maiêutica do aborto (nº. 1).

É tempo de trabalhos de parto socrático.
Segundo um estudo do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, citado pelo DN aqui, «uma em cada cinco mulheres do Porto ... já teve uma interrupção voluntária da gravidez» e «nas idades inferiores a 30 anos, uma faixa etária em que o acesso aos métodos contraceptivos orais está generalizado e facilitado, as inquiridas admitem uma média superior a três abortos».
Este estudo será fiável?
Se não for, porque será tão fácil falsificar estudos em Portugal?
Se for, como explicar que mulheres jovens não usem os meios anticoncepcionais?
Se não usam por não conhecer, porque não conhecem? Não se fala disso em todo o lado, nas escolas, na televisão?
Se conhecem, porque não usam?
Não encontram? Porque não encontram? Não são vendidos preservativos à porta das farmácias, nos WC das discotecas, bares, et alia?
São impedidas de usar anticoncepcionais pelos parceiros? Os anticoncepcionais intrauterinos podem ser impedidos de usar pelo parceiro? E a pílula convencional? E a pílula do dia seguinte?
Algum meio anticoncepcional não está ao alcance das suas bolsas, no país que tem a taxa de penetração de telemóvel mais alta da Europa (95%) e onde é maior a percentagem da despesa privada em comunicações, que é tripla da educação? (A propósito, ver a ESTÓRIA E MORAL: Comunicar é preciso).
Porquê as mulheres jovens que fizeram um primeiro aborto, não usaram o dinheiro gasto com o segundo aborto, ou o terceiro, ou o quarto, ou o quinto, etc. (recorde-se que a média é 3), para comprar anticoncepcionais para o resto da sua vida fértil poupando os abortos seguintes?
(Continua)

29/01/2004

SERVIÇO PÚBLICO: (1) «Não lhe peçam para organizar um boteco» e (2) «Oil runs thicker than blood».

SERVIÇO (1)
O sempre atento repositório liberal de O Intermitente transcreve aqui um notável e bem humorado escrito, sobre o Fórum Social Mundial, de Percival Puggina que vai sofrer, pela segunda vez em Porto Alegre no próximo ano, a pesporrência da «elite da esquerda mundial» sorvendo «uísque e gelo ... nos hotéis cinco estrelas onde se instala», enquanto planeia a construção de um mundo novo alternativo que, em boa verdade, é o mundo velho que já existiu até à derrocada do muro de Berlim.

SERVIÇO (2)
O imprescindível Merde in France remete-nos para a denúncia, com base em documentos iraquianos, pelo Washington Times do petróleo que Saddam utilizou para comprar cumplicidades no governo francês.
Se (um pequenino se, dados os antecedentes criminais do Sr. Chirac na câmara de Paris e no governo) for verdade é, de facto, caso para dizer que o petróleo é melhor lubrificante do que o sangue.

BLOGARIDADES: Upgrade de O Meu Pêpê (4).

Para quem não se recorde ou para leitores acidentais, propus-me desde aqui construir o meu Abrupto virtual, baptizado de O Meu Pêpê. Já houve 3 números dedicados ao tema e é agora a vez do quarto, que não é bem um upgrade.
O Meu Pêpê seguiria definitivamente o paradigma do Abrupto no repúdio da «masturbação da dor», a propósito do acidente de trabalho do jovem futebolista e imigrante húngaro Fehér.
O Meu Pêpê também não hesitaria em classificar a coisa de «insuportável mediocridade... falta de respeito pelos mortos ... e ... falta de dignidade».
Correndo o risco de cruzar a fronteira do populismo e da demagogia, O Meu Pêpê acrescentaria ao que escreveu o Abrupto que faria mais sentido reservar as lágrimas para chorar a morte dum desgraçado licenciado em física pela universidade de Kiev, esmifrado pelas mafias que sobraram dos paraísos do socialismo, soterrado por toneladas de terra escorregada dum qualquer talude, duma qualquer obra às ordens dum qualquer empreiteiro, num qualquer buraco deste Portugal choramingas.
É claro que já nem comento quanto a dar voz aos detractores, como o Abrupto agora fez aqui - isso para O Meu Pêpê será tão natural como beber água (apesar de O Meu Pêpê só beber vinho tinto).

28/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Tony’s guts (Part 2).

Secção Res ipsa loquitor
Os factos falam por si mesmo: uma comissão independente liderada por um juiz independente, Lord Hutton, que durante a investigação não poupou o governo e em particular Tony Blair, concluiu, segundo as palavras da própria BBC, que «the suggestion in BBC reports that the government "sexed up" its dossier on Iraq's weapons with unreliable intelligence was "unfounded"».
O resultado normal num país normal é, e foi, o pedido de demissão do presidente da BBC Gavyn Davies, não sem se lamentar «that you cannot choose your own referee, and that the referee's decision is final», no que me fez lembrar os nossos treinadores e presidentes dos clubes quando levam uma abada do adversário.
Dois afonsos para Tony Blair (atingindo o máximo diário de 5) e 2 ignóbeis para Gavyn Davies (levaria 5 se não tivesse pedido a demissão).

ESTÓRIA E MORAL: La politique pragmatique.

Estória
Jacques Chirac garantiu ontem ao presidente chinês Hu Jintao, de visita a França, a sua oposição ao referendo marcado para 20 de Março em Taiwan, para os habitantes da ilha decidirem sobre o reforço da defesa no caso dos mísseis chineses continuarem apontados para a terra deles, e sobre eventuais negociações com vista a um acordo com Pequim.
O que tem isto de extraordinário? Nada. Business as usual. Chirac está apenas a jogar ao ataque, posicionando-se no mercado chinês – 1.300 milhões de consumidores e um PIB que cresceu na década de 90 à média anual de 11%.
Os grandes princípios são reservados para o Iraque, onde Chirac não joga ao ataque. Jogava à defesa para segurar o resultado: anos de colaboração com o regime de Saddam.

Moral
«A Inglaterra não tem nem amigos eternos, nem inimigos eternos, mas apenas interesses eternos», disse Lord Palmerston, ministro dos NE inglês que durante 40 anos defendeu os interesses ingleses contra a Rússia e a França. E a França também não.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Tony’s guts.

Secção Res ipsa loquitor
311 contra e 316 favor foi o resultado apertado da votação de ontem no parlamento inglês para aprovar a flexibilização das propinas das universidades inglesas. Uma vitória para Tony Blair que arriscou a sua cabeça por uma reforma do financiamento das universidades que vai no caminho certo.
Para mais pormenores é melhor comprar o Economist da semana passada, que trata do tema com a atenção que ele merece. Em alternativa pode ler excertos em O Intermitente.
Três afonsos para o Tony que mostra guts à altura da saudosa Margareth, que se desfez dos escombros do estatismo trabalhista e pavimentou a estrada para duas décadas de prosperidade.

27/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: «Falhamos na implementação» (felizmente, digo eu).

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
Segundo o Diário Económico, o doutor Diogo Vasconcelos, gestor da UMIC (Unidade de Missão Inovação e Conhecimento) anunciou no Wireless Communications Simposium que iria ser instalada em Portugal «a maior rede wireless académica do mundo».
Do mundo? Sim, do mundo. O homem poderia contentar-se com ser o maior da rua dele, ou da península, ou do sul da Europa, ou, vá lá, a sul do paralelo 42º Norte. Mas não. Não faz a coisa por menos do que o mundo.
A coisa é preocupante? Sem dúvida, e ainda não sabem tudo.
O doutor Diogo anunciou que vai «contaminar toda a sociedade a partir do estudante». Contaminar? Estudante? Quem paga as propinas? Agora, sim, será o fim. O doutor Diogo fará o que nem a pesada herança do fascismo, nem a revolução dos cravos chegaram a fazer, nem ainda os subsídios comunitários, nem o engenheiro Guterres, nem a Casa Pia.
A única coisa que nos resta é a esperança. «Em Portugal somos excelentes em estratégia mas falhamos na implementação», diz ele. Uhf! Afinal vai ser tudo vapourware.
Dois chateaubriands pela fantasia e 5 pilatos porque o homem nem as primeiras 20, das 200 anunciadas, zonas de acesso Wi-Fi vai conseguir instalar.

26/01/2004

DIÁRIO DE BORDO: Alguém descobriu como emagrecer a vaca marsupial sem matar os vitelos?

Não consegui cruzar-me com o Jornal de Negócios para ler a famosa entrevista completa do professor Valadares Tavares, onde ele deveria ter explicado como vai ser conseguido o milagre que anunciei aqui. Supõe-se que o prof deveria explicar como enxugar sem dor a bolsa marsupial da vaca pública reduzindo-a de 1/3.
Há por aí alguma alma que tenha lido e ficado iluminada?

SERVIÇO PÚBLICO: Jornalismo com aspas.

Partindo daqui, passando por aqui, cheguei aqui.
Fiquei a saber (obrigado VALETE FRATES!), que só agora foi mostrada uma entrevista de David Kelly à BBC, dada vários meses antes da sua morte que está a ser objecto de investigação pela Comissão Hutton.
Nessa entrevista Kelly disse «even if they're not actually filled and deployed today, the capability exists to get them filled and deployed within a matter of days and weeks». Kelly disse, mas ninguém reparou. Talvez por distracção, a entrevista não foi incluida no programa Panorama para a qual foi gravada.
Talvez também por distracção, esta notícia da SkyNews onde a história é contada não foi aparentemente referida pela comunicação social cá da terra.

ESTÓRIA E MORAL: A profecia do doutor Mello e a troca do machimbombo da Xana por uma bela berlina.

Estória
A Xana Macedo é directora-geral da Best Models, nome que poderia ser de uma fábrica de aviões miniatura no vale do Ave, mas de facto é uma agência de manequins - aquelas meninas e meninos que desfilam com uns trapos pendurados que deixam entrever os seus órgãos mamários e genitálias, dizem os cínicos, ou a salvação do nosso têxtil, dizem os sonhadores. A Xana tem uma vivenda nas Antas e um Grand Cherokee.
O Grand Cherokee dela não é o Grande Chefe John Ross, que tentou manter a nação Cherokee fora da guerra dos brancos, mas acabou por escolher o lado errado – a Confederação. É um jeep da General Motors do tamanho duma diligência puxada por 6 cavalgaduras.
Possivelmente em resposta a uma audaciosa pergunta do semanário do saco de plástico, a Xana disse que queria o Grand Cherokee «para poder subir os passeios» da cidade invicta. Invicta não porque o FêCêPê ainda não perdeu neste campeonato, mas porque o Porto nunca foi conquistado pelo inimigo, ainda que isso tenha custado comer tripas durante umas semanas, o que explica muita coisa – os descendentes dos sitiados ainda hoje têm como maior ambição na vida ganhar aos mouros, prova definitiva que as tripas estavam contaminadas pela doença das vacas loucas.
O doutor José Manuel de Mello não precisa de apresentação. Não tem nem um Grand Cherokee, nem já tem pachorra para aturar a nação, no que é acompanhado por muito boa gente, até mais nova, como este vosso criado.
O que têm em comum a Xana e o doutor Mello? Aparentemente só facto de ambos terem falado para o caderno nº 432 do Expresso.
Aparentemente. Uma leitura mas cuidada mostra que é muito mais do que isso.
À pergunta metafísica do doutor Nicolau Santos, o senhor do lacinho, «qual é o nosso destino como país e como povo?», o doutor Mello, mostrando o profundo conhecimento da alma lusa, adquirido durante a sua prisão em Caxias sob a acusação de «capitalista monopolista», às ordens do Conselho de Revolução, respondeu «talvez arrumadores de carros».
Quer isto dizer que se os tugas cumprirem o destino profetizado pelo doutor Mello, a doutora Xana pode vender o machimbombo e comprar uma bela berlina, que será encostada milimetricamente ao passeio com a ajuda dum galdério munido duma carteira profissional e devidamente inscrito na associação dos arrumadores, em vias de se transformar na Ordem dos Gestores de Parqueamento.

Moral
Teremos o destino que merecermos (Albert Einstein).

25/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Como emagrecer a vaca marsupial sem matar os vitelos?

Secção Sol na eira e chuva no nabal
O presidente do Instituto Nacional da Administração, professor Valadares Tavares, deu uma entrevista ao Jornal de Negócios na 6ª feira, que vai ser publicada amanhã 2ª Feira, onde propõe os seguintes objectivos:

* abater 200.000 utentes da vaca marsupial pública, passando o número de funcionários públicos para qualquer coisa entre 500 a 550 mil, número ainda assim astronómico;
* manter o «ponto de honra do Governo (de) não haver despedimentos na Função Pública»;
* mas para fazer isso, «recusa a ideia de não substituir os funcionários públicos que entretanto se vão aposentando»;
* porque «necessitamos de uma Administração Pública com mais competência ... 30% a 40%, nos próximos cinco anos».

Aguardo ansiosamente a leitura integral da entrevista, onde certamente o professor Valadares Tavares nos vai explicar como se realizará esta maravilhosa quadratura do círculo, num horizonte razoável de tempo – por exemplo na altura em que o George W. resolveu que um seu sucessor irá colocar homens (e mulheres, espera-se) em Marte.
Enquanto aguardo, atribuo-lhe 5 chateaubriands à consignação. Se ficar convencido da praticabilidade do milagre troco-os por afonsos e fico eu com os chateaubriands.

24/01/2004

DIÁRIO DE BORDO: Maiêutica do aborto (nº. 0).

De acordo com as minhas nebulosas recordações «maiêutica» significa em grego, mais coisa menos coisa, «arte de ajudar a parir». Sócrates, filho de uma parteira, aplicou as competências da mãe para extrair dos seus discípulos a verdade que, segundo ele, lá pré-existia nas suas mentes, soterrada nas profundezas. A essa operação chamou – ou alguém por ele - maiêutica.
Deve reconhecer-se que extrair seja o que for duma mente é um propósito que requer mais engenho, e, sobretudo, é bem mais perigoso, do que ofício de parteira. Talvez por isso, Sócrates sucumbiu à cicuta antes do tempo que lhe era devido, enquanto a sua mãe esperou por Thanatos na sua vez.
Lembrei-me de usar a maiêutica para tentar extrair alguma coisa da minha mente, verdade ou mentira, sobre o tema do aborto em que a minha única certeza são imensas dúvidas, a que acrescento mais esta: será a arte de ajudar a parir adequada para discorrer sobre o aborto?
À medida que os trabalhos de parto forem prosseguindo aqui prestarei a devida conta.

23/01/2004

SERVIÇO PÚBLICO: O mercado descomplicado.

O Serviço público é uma nova Área temática hoje acrescentada à oferta de serviços do Impertinências.

A estreia do Serviço público faz-se com o notável texto de Ubiratan Iorio, A emenda e o soneto, citado e comentado pelo inevitável O Intermitente aqui.
O texto é de uma simplicidade e clareza típicas do jornalismo brasileiro de qualidade, difíceis de igualar nas mentes pomposas deste lado do Atlântico. Poderia ser uma leitura obrigatória no 5º ano.

DIÁRIO DE BORDO: Questões impertinentes sobre a imigração.

Escreveu o Público aqui que a nova lei da imigração em preparação prevê que «o conhecimento da língua portuguesa deve ser tido em conta, podendo, nos casos de contingentação do número de vistos, constituir factor preferencial». Como o Público reconhece, esta preferência poderá fazer atribuir grande parte do contingente anual (6.500 para começar) a nacionais dos PALOPs.
Parece um gesto bonito para compensar as vítimas passivas duma colonização incompetente? Lá isso parece.
Quem pagará o preço desta preferência?
Em primeiro lugar, as vítimas do colapso do socialismo real (ucranianos, moldavos, russos, et alia), por sinal com um nível de literacia claramente mais elevado do que a maioria das vítimas do nosso sistema educacional, salvo na língua portuguesa, que aprendem rapidamente, e ao fim de um ano falam melhor.
Em seguida, nós os tugas, vítimas, sucessivamente, do fascismo beato, do colonialismo activo, das revoluções de pacotilha, e last but not least vítimas de nós próprios.

22/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O e-gov e a destruição da floresta.

Secção Res ipsa loquitor
Para estar ao corrente das ejaculações dos órgãos legislativos condenei-me a ser cliente (ou será utente?) do acesso ao Diário da República Electrónico, desde que foi criado. Recebi há dias da dinossáurica Imprensa Nacional, o novo preçário para 2004 e verifico que o absurdo se instalou irremediavelmente naquelas mentes.
Se quiser dar o meu contributo à desflorestação e subscrever uma assinatura para receber a I Série do DR impressa em lascas de árvores devidamente trituradas e lexivadas “só” tenho que despender 150 euros por um ano. Mas se eu quiser gastar a minha electricidade (pouca) e uma ligação internet barata (é cara, mas sou eu que pago e não a IN) e poupar um eucalipto por ano, tornando-o disponível para exportação, terei que desembolsar 500-euros-500 para ter acesso ilimitado.
Como é que isto se chama? O e-governo, claro.
Três chateaubriands e dois ignóbeis para o órgão de gestão da IN que ejaculou o preçário.

21/01/2004

ESTÓRIA E MORAL: A dolorosa purga da vaca marsupial pública.

Estória
O Mar Salgado apontou, O Intermitente transcreveu e o Impertinências agradece e volta a transcrever a pergunta do Público de 2ª Feira e a resposta do doutor Victor Constâncio, um dos poucos economistas sérios que ainda resiste no PS e por sinal um dos professores mais apreciados pelo Impertinente :

P. - Mas com estes escassos 0,75 por cento em 2004 e 1,75 por cento em 2005, como é que se pode ser optimista?
R. - Pode-se ser optimista se olharmos para a fase em que hoje se encontra a economia. Este foi um período de inevitável ajustamento após muitos anos de forte crescimento, de forte expansão das despesas das famílias e empresas, associada a um crescimento do endividamento, e esse período tinha de interromper-se. Tínhamos de passar por uma fase de contenção e ajustamento. É isso que tem ocorrido e agora estamos a sair dessa fase, pelo que a inversão é em si mesma positiva. Por outro lado, se excluirmos da evolução da economia as variáveis que dependem directamente do Orçamento de Estado - o consumo e o investimento público - que terão evolução negativa em 2004, veremos que teremos essencialmente um crescimento da actividade económica produtiva, privada, de cerca de 1,5 em 2004 e quase três por cento em 2005. Estes números reflectem o facto de as empresas portuguesas terem capacidade instalada e poderem aproveitar o dinamismo da economia europeia que puxará pela economia portuguesa.


Donde se conclui que a medicina orçamental tinha que ser tomada, ainda que a purga daí resultante esteja a ser bastante timorata, ficando visível onde mora a crise – na vaca marsupial pública, por muito que os avestruzes da esquerdalhada o não queiram ver.

Moral
É possível enganar toda a gente durante algum tempo ou enganar alguns toda a vida. Não é possível enganar toda a gente toda a vida.

20/01/2004

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: «Cojones» é conversa de tasqueiro.

A minha amiga doutora Ana, licenciada em psicologia clínica pela Sorbonne, socióloga e antropóloga amadora, leu o Diário de Bordo de ontem via email (recusa-se a aceder à web por razões de princípio) e pergunta-me se eu dei uma de «macho velho e decadente». «Falta de "cojones" é conversa de tasqueiro», disse. Ainda lhe retorqui que ela me lembrava o professor Sousa Franco que, questionado sobre os então nascentes problemas orçamentais, respondeu que «buracos é linguagem de mineiro». Não me ouviu.
O nosso problema, segundo ela, é uma crise dos nossos valores, que foram contaminados pelo materialismo consumista e redutor veiculado pelo império americano através da mundialização. «Talvez tenhas razão - “cojones” é demais», concedi, tentando evitar o discurso da ruptura entre self identitário e o self narrativo, que se anunciava. Mentalmente fiz outro trocadilho: no nosso caso «não é demais», é de menos.
Prova-se mais uma vez que os melhores amigos são os piores detractores. Ou será o contrário?

19/01/2004

DIÁRIO DE BORDO: 2 days behind enemy lines?

Se o ianque do Merde in France que vive na Ripoublika Franska pode ter um moto como «more than 20 years behind enemy lines», será que o tuga Impertinente, que foi fazer um trabalhinho a Madrid, pode escrever o Diário de Bordo «2 days behind enemy lines»?
Poderia se achasse que o problema da transferência dos centros de decisão para Castela é um problema com os espanhóis. Não é. Poderia se não achasse que nós somos o nosso pior inimigo. Nós, quero dizer a nossa languidez, diletantismo, aversão ao risco, pavor da concorrência, negligência atávica. Nós, quero dizer as nossas elites merdosas, sedentas de sinecuras. Nós, quero dizer os nossos intelectuais afrancesados escorrendo pesporrência e tiques.
O que é que eles têm que a nós nos falta? Know-how? Frio - só se fosse now-how. Capital? Gelado – com as taxas correntes há capital sequioso de ser investido com um ROI decente. Cojones? Cojones.

18/01/2004

CASE STUDY: O Garganta Funda era o copeiro – e assim começou mais um processo diabólico.

Fiquei mudo de espanto. Como foi possível o Expresso ter ficado a conhecer as conversas privadas num jantar privado de gente discretíssima como os casais Salgado Espírito Santo (anfitriões), Cavaco e Silva e Durão Barroso? É certo que também esteve presente o par Marcelo Rebelo de Sousa e Rita Cabral, mas, ainda assim.
Insisto, como foi possível saberem-se os entusiásticos incentivos ao professor Cavaco Silva para o convencer a abandonar as suas emocionantes actividades académicas e dedicar-se de corpo e alma à presidência da República, na escuridão mediática das catacumbas de Belém? Como se adivinharam os prudentes silêncios de Conrado de alguns convidados?
Embasbacado, comentei o caso com a minha amiga doutora Ana. Disse-me que havia várias teorias, sendo a mais interessante a que lhe foi contada por um dos seus pacientes (recordo que ela faz clínica psiquiátrica amadora pro bono). O homem trabalha na TSF e terá ouvido o doutor Emídio Ranger comentar para a doutora Margarida que o “lesma do casaquinho cor de merda” (é assim que o doutor Emídio costuma chamar ao arquitecto Saraiva) tinha infiltrado um jornalista como copeiro na Casa da Comida que tratou do catering do jantar nos Espíritos.
Tinha que haver uma explicação.
Como tinha que haver uma explicação para os jornais «de referência», segundo a explicação do arquitecto Saraiva (o «lesma», sempre segundo do doutor Emídio), publicarem «todos os disparates, mentiras, ataques pessoais, vinganças, difamações».
E qual é a razão? O arquitecto explica no editorial «O paradoxo dos “media”», de sábado passado. É porque as televisões vêm à frente (ele escreveu que os jornais de referência vêm atrás, o que não é exactamente a mesma coisa).
E porque o fazem as televisões? Porque os tablóides fazem-no antes.
E porque o fazem os tablóides? Porque «a partir do momento em que uma notícia aparece num “site” ou num “blog”, dá-se por vezes início a um processo diabólico».

BLOGARIDADES: Upgrade d’O Meu Pêpê (3).

Vi-me grego quando olhei para a floresta de símbolos do EARLY MORNING BLOGS n.º 117. Lembrei-me das minhas aulas de Matemáticas Gerais e Análise Matemática. Ele são alfas, betas, deltas, pis, etc. e omegas.
A coisa é mais grave porque se trata duma recidiva. Depois de reconhecer, humilde, no EARLY MORNING BLOGS n.º 115 que «recebe muitas vezes conselhos bem intencionados para ser "mais populista", e menos "elitista"» (note-se o uso das aspas) o Abrupto borrifa-se para os bons conselhos e volta a cair no pecado mortal da erudição sem causa.
Nunca, mas mesmo nunca, O Meu Pêpê publicará nada em línguas mortas. Pelo menos enquanto Cristo não voltar à terra, para usar a fórmula prudente do professor Marcelo.
Para ter um critério prático, serão consideradas línguas mortas as faladas por menos de 5 bloguenautas.

17/01/2004

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: «Semi-óptica» é ignorância impertinente, disse ela

Talvez inspirada pelo admirador do doutor Santana Lopes que detratou o Impertinências, uma admiradora do doutor Eduardo Prado Coelho, devidamente identificada, mas pedindo o anonimato, apresentou como credenciais uma provável presença de peças da sua lingerie na colecção particular do doutor Prado Coelho e protestou a ironia maldosa do Impertinente. Inefável e bonzo, «no bom sentido», aceita, mas «semi-óptico», nunca. «Isso é pura ignorância».
Consultei a minha amiga doutora Ana, psicóloga pela Sorbonne, que explicou que fui vítima de homofonia. Percebi, consternado, que a criatura tinha razão – o doutor Prado não é um «semi-óptico» é um praticante da «semiótica». Fui aqui para perceber do que se tratava, e fiquei aterrado com o que encontrei:

Sémiotique (nf)
Théorie des signes en général, la sémiotique a des ambitions totalitaires ...


Não li mais. Seria a inclinação do doutor Prado Coelho para a semiótica uma reminiscência do seu período PCP?
Seja como for, a admiradora admirada entra directamente na categoria dos detractores do Impertinências, ex aequo com o admirador do doutor Santana Lopes.

16/01/2004

CASE STUDY: Há uma tanga, mas (ainda) não sabemos de quem.

Têm aparecido nos jornais uns anúncios do ministério da Saúde demonstrando os “Resultados do 1º Ano de Empresarialização” que abrangem cerca de 3 dezenas de hospitais.
Todos os indicadores evidenciam nos primeiros 10 meses de 2003, face ao período homólogo de 2002, melhorias claras e, nalguns casos, notáveis. Vejam-se os números globais:
- Internamento (altas) +4,7%
- Consultas +9,4%
- Urgência +0,7% (idealmente deveria diminuir, por eliminação das falsas urgências)
- Hospital de dia +17,9%
- Intervenções cirúrgicas +19,1%.

Das duas, uma:
a) Estes números são uma grande tanga do MS, caso em que o doutor Ferro, que está a fazer da saúde a sua paixão (lembram-se da «paixão» do doutor Guterres pela educação?), vai fritar o ministro e nós batemos palmas;
ou
b) Estes números não são tanga e o doutor Ferro deveria explicar a tanga que o governo, em que diz que tem orgulho de ter participado, andou a dar aos portugueses durante 6-anos-6.

15/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Afonsos para todos – desde a Comissão Europeia até ao doutor Santana Lopes.

Secção Res ipsa loquitor
França e Alemanha, os Dupond e Dupont comunitários, violaram o limite de 3% do défice público, que Dupont tinha exigido e Dupond apoiou esforçadamente. A violação foi apadrinhada pelos ministros das Finanças, incluindo a nossa doutora Manuela. Presume-se que os ministros das Finanças dos Dupont e Dupond teriam virado o polegar para baixo se estivessem em causa os países maltrapilhos.
Ontem a Comissão Europeia decidiu apresentar recurso ao Tribunal Europeu para anular a deliberação dos ministros das Finanças de suspensão das sanções.
Três afonsos para a Comissão Europeia.

O Tribunal Constitucional italiano decidiu ontem invalidar, por violação do princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei, uma lei aprovada em Junho que concedia imunidade aos políticos que ocupassem os cinco mais altos lugares, durante o seu mandato. Uma lei à medida de Berlusconi para o colocar ao abrigo dos processos que correm contra si nos tribunais italianos.
Três afonsos para Tribunal Constitucional italiano.

Ontem o doutor Santana Lopes apresentou no Grémio Literário a sua nova obra «Causas de Cultura», com a ajuda da escritora Agustina Bessa-Luís e as presenças dos doutores Durão Barroso e Paulo Portas.
Mostrou assim que, se já levava vantagem do professor Carrilho como colunável, está agora a caminho de vencer o seu síndrome de Chopin preparando-se para derrotar em toda a linha o professor no grande choque das culturas que terá lugar durante as próximas eleições municipais. Isto se o doutor Santana Lopes não resolver dar um golpe de asa e subir a sua parada até à presidência da República.
Um afonso para o doutor Santana Lopes pela sua coragem de penetrar no templo com o seu livreco - os seus detractores podem chamar-lhe lata, mas isso é com eles.

CORRECÇÃO: Agora (hoje) já não foi ontem. Foi anteontem.

14/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Afinal está tudo explicado – foi a cerveja.

Secção Perguntas impertinentes
aqui escrevi, com uma certa ironia, sobre o doutor João Magueijo e a sua obra «Faster than the speed of light: The story of a scientific speculation».
Para ser honesto, devo confessar que a ironia foi alimentada pela inveja. Onde tinha o doutor Magueijo encontrado a inspiração para a estória de tal especulação científica? Como é que os outros suam pesquisas nos laboratórios, gemem observações nos observatórios, e até ajoelham orações nos oratórios, para produzir umas insignificâncias e o nosso doutor João tem um clique e pimba!, deslumbra-nos com a sua especulação cosmogónica? Esmaga-nos com a quinta-essência. Arrasa-nos com a sua micro onda cósmica. Quem é que ele pensa que é? O professor Stephen Hawking? E onde está a cadeirinha de rodas?
No more envy. Na sua entrevista ao Independente de 9 de Janeiro a jornalista ataca a primeira pergunta com a resposta às minhas interrogações:
«Estava um belo dia um cientista alentejano a passear em Cambridge a tentar sobreviver a uma ressaca, depois de muitas cervejas. De repente – eureka! – o cientista concluiu que Einstein estava errado e que, afinal, a velocidade da luz é variável. Foi assim que nasceu a sua teoria revolucionária?
A coisa está explicada, mas é caso para perguntar: que raio de cerveja era essa?
Mesmo sem saber qual a cerveja, atribui-se um afonso incondicional ao doutor Magueijo pela sua estória - ainda que possa ser uma grande tanga, está bem contada. Levará gradualmente mais afonsos à medida em que a comunidade científica internacional se libertar da penis envy e se render à sua teoria revolucionária.
Contudo, o dever obriga-me a atribuir 5 ignóbeis pela substituição dum bom tintol de Borba por uma miserável lager, mesmo sabendo-se que duma ressaca com um poderoso elixir alentejano dificilmente se destilaria especulação cosmogónica.

13/01/2004

ESTÓRIA E MORAL: Jornalismo entre aspas.

Estória
No Impertinências só se escreveu sobre aspas aqui e aqui, mas podia escrever-se todos os dias. Não faltam pretextos, como o que Público nos dá hoje aqui.
Com o título «David Justino "esqueceu-se" de declarar rendimentos ao fisco», a propósito do “esquecimento” fiscal do ministro da Educação, o jornalista ensina-nos, mais uma vez, a importância das aspas.
A estória é simples. O ministro antes de ser ministro, mostrando um enorme talento evasivo, teve o “esquecimento” de declarar 2 meses de honorários como vereador da câmara de Oeiras (uma fuga engenhosa). Não contente com isso, teve o “lapso” de não declarar ao Tribunal Constitucional a totalidade dos rendimentos que constava da sua declaração de IRS (outra uma fuga engenhosa) e confessou ao Público que se tinha “esquecido”.
Como o Público não brinca em serviço, consultou sobre este momentoso problema evasivo o conhecido fiscalista professor Saldanha Sanches, também conhecido bloquista, que depois dum “cuidadoso” (também tenho direito às aspas, ou não?) estudo deu o seguinte parecer “parece-me pouco provável que tenha alguma coisa a receber e não a pagar".
Tantas as aspas e tão pouco tempo para falar delas.

Moral
Com um “jornalismo” assim a "opinião pública" pode dormir descansada que nenhum "crime" ficará “impune”.

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O violino de Chopin e o domínio da língua portuguesa do Impertinente.

Ontem escrevi que o professor Carrilho sabe, «desde a pré-primária, que Chopin não tocava violino, ao contrário do actual presidente da câmara».
Um admirador anónimo do doutor Santana Lopes enviou-me uma mensagem apócrifa de protesto. Ao contrário do «implícito ironicamente no post», entre os evidentes e abundantes dotes do doutor Santana Lopes, não se encontra o domínio do violino, explicou. «Isso não é de espantar. O que espanta é um músico como Chopin, sempre no top 10 dos clássicos, não saber tocar violino», e acrescentou, com verrina, «entre os dotes ausentes no Impertinente, pode incluir-se o domínio da língua portuguesa». Isto faz o admirador do doutor Santana ingressar, sem sombra de dúvida, na categoria dos detractores do Impertinências, com direito a fazer ouvir a sua voz.
Aqui fica, pois, a detracção.

12/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O fascínio semi-óptico e o jantar talvez estragado pelas hirsutas perguntas.

Secção Res ipsa loquitor
Percebe-se o fascínio da nossa intelectualidade periférica, historicamente tributária da cultura francesa, pelas luminárias gaulesas. Mas para além da história, temos que concordar que as luminárias locais nunca poderiam ficar fascinadas por um ex-militar como Colin Powell (apesar disso, o mais polido que a administração Bush pôde dispor para a secretaria de Estado), como ficam com o à vontade de salão de M. de Villepin quando se encontra nas Necessidades (que raio de nome para a sede dos Negócios Estrangeiros) com personalidades da cultura como os inevitáveis Eduardo Lourenço, Manoel de Oliveira (o homem é tão velho que ainda se escreve com «o») e, primus inter pares, o inefável bonzo da cultura nacional o doutor semi-óptico Eduardo Prado Coelho.
Uma cesta de bourbons para distribuição por todos os presentes no jantar das Necessidades, com excepção do premiado na Secção seguinte.

Perguntas impertinentes
No Seminário Diplomático promovido pela charmosa ministra dos Negócios Estrangeiros, Ramos-Horta o seu hirsuto homólogo timorense fez algumas perguntas que devem ter deixado igualmente hirsuto o elegante homólogo de ambos, M. de Villepin, e, quem sabe?, lhe estragaram o apetite para o jantar com as luminárias locais.
Eis algumas delas:
«Perante os crimes, é legítimo falar da santidade do princípio da não-ingerência?»
«Um genocídio seria legítimo se o Conselho de Segurança não autorizasse a intervenção?»
«A unipolaridade é o resultado do sucesso americano, ou do falhanço da Europa?»

11/01/2004

ESTÓRIA E MORAL: O professor Carrilho perfila-se incontornável no futuro dos alfacinhas.

Estória
Qualquer outro teria falado nos corredores do Rato ao doutor Ferro ou, pensando no futuro, ao doutor Coelho, ou, pensando ainda mais no futuro, teria telefonado ao doutor Vitorino, para se disponibilizar para mais uma missão de sacrifício ao serviço do país, mesmo quando o país, neste caso, é apenas o aglomerado urbano caótico onde se situa a capital. O professor Manuel Maria Carrilho não é desses. Ele anuncia no semanário do saco de plástico que nesse mesmo dia vai dar uma entrevista na TSF à doutora Margarida Power Ranger a declarar-se disponível para servir os alfacinhas, em vez do doutor Santana Lopes, com todas as vantagens que advêm de se bater com ele de igual para igual como colunável e de saber, desde a pré-primária, que Chopin não tocava violino, ao contrário do actual presidente da câmara.

Moral
«Este homem tem um futuro cada vez maior atrás de si».

BLOGARIDADES: Upgrade d’O Meu Pêpê (2).

Só a falta de tempo explica o desmazelo com O Meu Pêpê, desde o já longínquo Upgrade n.º 1 em que propus a colagem online das etiquetas nas obras penduradas ou, em alternativa, a abertura de concurso para os frequentadores do blogue.
Tal como o Impertinente, possivelmente muitos outros frequentadores do Abrupto gostariam de dar os seus palpites. Talvez não o façam receando ser despromovidos de admiradores críticos a detractores maledicentes, e levaram no toutiço com as imensas “Contrariedades” de Cesário Verde, com que o Abrupto castigou as “mediocridades combatentes”.
O Meu Pêpê nunca citará poemas para zurzir os detractores, aliás O Meu Pêpê nunca citará poemas, sob nenhum pretexto (com a possível excepção de cantigas de escárnio e maldizer e de alguns surrealistas, como O’Neill – supondo que seja surrealista).
O Meu Pêpê será um blogue pleno de humor e tolerância – uma área temática “O Meu Pêpê feito pelos seus detractores” será criada para dar espaço às vozes críticas.
O Meu Pêpê também nunca fará necrologias como esta. Pelo menos de defuntos recentes, com familiares ou amigos potenciais frequentadores do blogue. Assim se pouparão páginas e páginas A4 de protestos, podendo o espaço poupado reverter em benefício do humor.
Já que falo de humor, este será o mais british possível. O Meu Pêpê nunca se levará demasiado a sério e será capaz de auto-ironia. Será cuidadosamente evitado o género de humor francês – se é que tal espécie de humor existe, dúvida perfeitamente fundada, como se pode ler pela resposta do Economist em Very Droll (18th Dec 2003) à pergunta The french have jokes, but do they have a sense of humour?, que começa com o seguinte diálogo do filme Ridicule de Patrice Leconte:

«Baron, how did you find the English?
Very distracting. They have a form of conversation called humour, which makes everyone laugh a lot.
Humour—is this like esprit?
No, not really.
But then how do you translate it?
Well, I can’t. We in France don't have a word for it.
»

10/01/2004

CASE STUDY: É bom (às vezes) enquanto dura, mas é caro e dura cada vez menos.

Pode ler-se aqui que “a organização dos casamentos em Portugal é um negócio que representa mais de 1,14 mil milhões de euros por ano, cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) e o equivalente ao investimento estimado para o American’s Cup”.
Segundo as contas dos casamenteiros, o custo médio do forrobodó, incluindo o copo d’água, que tem tudo menos água, é de 20.000 euros, o que é uma bela soma para um país pelintra (ora aqui está um óptimo tema para polemizar na óptica da pobreza relativa).
A coisa conduz-me a uma profunda reflexão. A teoria económica faria prever que deveria ser aplicável aos casamentos uma Função Zingarilho ++ (quanto mais dinheiro gastamos com o casamento, mais ele dura), uma vez que quanto maior o investimento maior o período de recuperação, ceteris paribus.
Diferentemente, as estatísticas sociais mostram-nos que a função é do tipo +- (quanto mais dinheiro gastamos com o casamento, menos ele dura).
A única explicação que me ocorre é que não se trata de um investimento, nem talvez de um bem de consumo duradouro. O certo é que a procura é inelástica em relação ao preço ou, pior do que isso, tal como os bens de luxo, a procura até pode aumentar com o preço. Em conclusão, trata-se de luxúria, institucional mas, em todo o caso, luxúria - enfim, pelo menos quase sempre e durante algum tempo.

Nota explicativa:
A coisa saiu-me assim, já de madrugada. Volto da Maria Rita no Coliseu, um pouco esgalgado e avio uns bicoitos salgadinhos com um queijinho picante, tudo empurrado por um tintol alentejano. A coisa saiu-me assim. Vá-se lá saber porquê.

09/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A dieta da vaca marsupial pública.

Secção Res ipsa loquitor
Se é verdade o que disse o secretário de estado do Orçamento no parlamento na 3ª feira passada, o número de tratadores da vaca marsupial pública deverá ter diminuído duns 5.500 em 2003 (os números resultam do saldo de entradas e saídas da Caixa Geral de Aposentações).
É uma grande realização? No Portugal dos pequeninos, onde vivemos, é sim senhor. Afinal segue-se a um aumento médio anual de 10.000 funcionários durante o consolado do engenheiro Guterres.
Aumenta o desemprego? Pois aumenta, mas diminui o subemprego. Quem conhece outro processo de agilizar as organizações e aumentar a produtividade, ponha o dedo no ar.
Um afonso para o governo e a promessa de mais, se continuarem a sacudir as tetas da vaca, por muito que os sindicatos, e a oposição com eles, berrem os berros do costume.

08/01/2004

CASE STUDY: A ocupação das redacções pelo radical chic.

Por razões difíceis de entender e possivelmente demoradas de explicar, é detectável, um pouco por todo o mundo, um enviesamento para a esquerda nos média, em particular na imprensa, em relação as espectro eleitoral. É um facto conhecido e estudado – v. por exemplo “Bias: A CBS Insider Exposes How the Media Distort the News”, de B. Goldberg).
Também em Portugal isso foi notório, antes e depois do 25 de Abril, mesmo esquecendo o período excepcional de Abril de 1974 a Novembro de 1975, em que a esquerda comunista e maoísta dominou completamente os média.
O que para mim é surpreendente é o peso actual que tem a extrema-esquerda, segundo uma fonte credível que é o VALETE FRATES! (não por acaso o link para o seu blogue está prantado nesta página) – o Bloco de Esquerda representa 2,8% do eleitorado e 80% dos votos dos jornalistas.
Conhecida a qualidade medíocre e o exíguo profissionalismo da generalidade do jornalismo português (esquecendo a falta de escrúpulos, as avenças, etc. - um grande etc.), a completa confusão entre factos e opinião, por dolo ou incompetência, imagina-se o resultado desta caixa de ressonância ocupada pela esquerdalhada em geral e o radical chic em particular. Não é preciso imaginar, basta ler os nossos jornais (não falo do jornalismo televisivo porque não vejo, aliás não existe).
E se o enviesamento fosse para a direita? Seria menos grave? Depende da direita, claro. Se fosse a direita das causas seria suficientemente mau. Mas, nos tempos que correm, seria menos perigoso, porque a direita das causas é uma direita patologicamente estúpida.

BLOGOSFERA: Gostava de ser pobre, mas com muito dinheiro.

Continua aqui a polémica lançada pelo Jaquinzinhos acerca da "tola definição de pobreza relativa”. Não é bem uma polémica. É mais o Jaquinzinhos, feito Madre Teresa de Calcutá, a tentar ilustrar mentes estanques a qualquer argumento que comprometa o seu quod est demonstradum.
Sem querer entrar no tanque das piranhas, convém esclarecer que nesta polémica se fala ao mesmo tempo, e se misturam, três coisas distintas: a pobreza, a desigualdade e a sua percepção social. Não esquecendo que os efeitos sociais mais devastadores resultam precisamente desta última.
O indicador “pobreza relativa” não é um indicador de pobreza, é um indicador da desigualdade na distribuição do rendimento, de resto muito melhor medida pelo índice de Gini (ver a definição deste índice por exemplo aqui). Ao contrário deste último, que é uma medida neutra da desigualdade, a “pobreza relativa” é um indicador não científico, arbitrário e, em consequência, altamente manipulável pelos fazedores de opinião (quem quiser aprofundar este tema pode ir, por exemplo, aqui).
Apesar dos países pobres terem frequentemente uma desigualdade maior (veja-se o exemplo paradigmático do Brasil) do que a dos países ricos (por exemplo os países nórdicos), podem existir países (o Afeganistão dos talibã é, possivelmente, um bom exemplo) que, apesar de paupérrimos, têm uma distribuição de rendimento muito mais igualitária do que os países ricos.
É claro que a percepção da pobreza pode ser muito mais forte num país rico com forte desigualdade, do que num país pobre relativamente igualitário. Daí poderá resultar uma conflitualidade social superior no país rico desigual à do país pobre.
Também é claro que seria bom ter o melhor de dois mundos – a riqueza reflectida num elevado rendimento disponível per capita de braço dado com a igualdade, medida por um baixo índice de Gini. Seria bom, se fosse possível. Onde a porca torce o rabo é que a desigualdade é uma filha natural da liberdade, e para a eliminar é preciso matar a mãe (a história mostrou no passado e no presente inúmeros exemplos destes assassinatos - dos presentes aponte-se a Coreia do Norte, uma democracia d'après o camarada Bernardino Soares, como um dos países mais igualitários do mundo).
Mas tudo isto é indiferente a quem quer demonstrar a tese marxista do empobrecimento progressivo do extinto proletariado, que deverá conduzir à segunda revolução socialista que se iniciará em breve com uma nova tomada do Palácio de Inverno. Já agora recordemos que Marx não se referiu à pobreza relativa mas à pobreza absoluta.
Eu, pela minha banda, concordo com o comunista (e rico) Pablo Picasso: “Gostava de ser pobre, mas com muito dinheiro”.

07/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O documento panfletário e a ficção documental.

Secção Perguntas Impertinentes
O realizador Michael Moore rodou “Bowling for Columbine”, um retrato pretensamente objectivo do que se passou no massacre e a sua génese. Venceu um Oscar da Academia na classe Documentário, à falta duma classe Panfletos & Manifestos. À míngua de talento para fazer um filme de ficção, Moore reinventa a sociedade americana a pretexto de a retratar.
O realizador Gus Van Sant rodou “Elephant”, vencedor do Prémio de Melhor Realizador do Festival de Cannes 2003 (haja deus! que foi feito dos representantes do radical chic?). “Elephant” não pretende ser um retrato do que se passou no massacre, que lhe serve apenas como inspiração, nem abordar a sua génese.
O crítico de cinema Tiago Pimentel escreveu a respeito de "Elephant": “Sendo um objecto de ficção tem muito mais verdade documental do que «Bowling for Columbine» alguma vez sonhou conseguir.” Mais palavras para quê?
Porquê o panfleto de Moore excitou tanto os críticos da esquerdalhada e o filme de Van Sant os deixou numa estranha modorra? Terá sido a panfletária declaração de aceitação do Oscar em que Moore falou de "razões fictícias do Presidente fictício dos Estados Unidos, eleito numas eleições fictícias, para a guerra que está a decorrer". Será o pendor congénito para o cinema agit-prop?
Enquanto não há respostas para estas perguntas, brinde-se o Moore com três chateaubriands pelo panfleto e cinco ignóbeis pela declaração de aceitação do Oscar.
Para Van Sant, vão dois afonsos por resistir à demagogia fácil e fazer um filme decente, que ainda será visto muito tempo depois do vómito do Moore estar esquecido.

06/01/2004

CASE STUDY: O sexo da gestão e a gestão do sexo.

O Semanário Económico publicou a semana passada duas entrevistas com as profs Fátima Barros (FCEE/UC) e Rita Campos e Cunha (FE/UN). Foram colocadas “Dez questões sobre a Gestão” às quais as duas profs. dão respostas razoavelmente congruentes, com excepção das respostas à última questão: “Há diferenças entre a gestão no feminino e no masculino?”.

Eis as duas interessantíssimas respostas que revelam visões em absoluto diferentes:

Executive summary: As coisas são o que são. Viva a diferença. Em qualquer caso no fim ganhamos nós!

«Há certamente diferenças essenciais. Mas, apesar de a gestão feminina, muitas vezes, pecar por uma capacidade estratégica e de abstracção menos arguta, por outro lado ganha uma vantagem indiscutível nas relações interpessoais e, sobretudo, nas questões negociais, pela enorme intuição e sensibilidade que tantas vezes falta na gestão masculina
Fátima Barros

Executive summary: As coisas não são o que deveriam ser, mas já estamos a tratar disso.

«Algumas diferenças que eventualmente existam entre gestão no feminino e no masculino, enraizadas em diferenças de educação e socialização na infância e adolescência, são, quanto a mim, suplantadas por diferenças de formação, contexto organizacional e experiências profissionais. Considero que as diferenças de género são menos significativas, pelo menos em Portugal
Rita Campos e Cunha

É óbvio que está em causa não a teoria da gestão (que não tem género), mas a prática da gestão.
E quanto à prática da gestão temos duas teorias. Uma que parece aderir aos factos e talvez seja cientificamente correcta. A outra talvez seja politicamente correcta, mas é equivalente à ideia que é a conspiração dos criativos com os copywriters que faz os rapazes berrarem pelos action men e as raparigas chorarem pelas barbies.

05/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem.

Secção Tiros no Pé
Pedro d’Anunciação, escreveu no seu Zapping do Actual (centésimo segundo apêndice do Expresso):
«O Presidente Sampaio indultou uma enfermeira condenada pela prática de abortos clandestinos. Segundo depreendi das notícias que ouvi, essa enfermeira era uma beneficiária da legislação que proíbe o aborto - dedicando-se a uma actividade clandestina, de que auferia 200 mil euros anuais (40 mil contos), sem pagar impostos. Como a ganância era grande, em vez de comprar os medicamentos de que necessitavam as suas pacientes roubava-os num hospital público, sendo também por isso condenada. E, quando as mulheres não tinham dinheiro para pagamentos imediatos, ficava-lhes com fios de ouro ou outros objectos valiosos.»
Se (um se pequenino, nos tempos que correm) for verdade, o presidente Sampaio merece 5 chateaubriands (mereceria mais, mas não é possível).

CONDIÇÃO MASCULINA: Ainda o urinol (a resposta da doutora Ana).

A minha amiga doutora Ana, psicóloga pela Sorbonne, socióloga e antropóloga nas horas vagas, telefonou-me indignada com a prosa horrorosamente machista do post de ontem.
Tentei explicar-lhe que o urinar no chão para marcar o território é, para muitos mamíferos machos, um comportamento perfeitamente natural inscrito nos seus genes, e o homem não passa dum mamífero macho, incompletamente domesticado. Ouviu-me com hums, o que nela significa ó filho falas muito bem mas não me convences. Acrescentei que o urinol me parecia uma boa solução de compromisso entre a incontornável animalidade do homem e a sua desejável humanização. Que também era necessário preservar a biodiversidade, etc. e tal.
Nada. Respondeu-me, definitiva, que já é tempo do novo homem chegar – o homem sensível, que chora, que usa cremes, em suma que urina sentado.

04/01/2004

BLOGARIDADES: Brevíssima explicação porque o link ao bomba inteligente está prantado aqui à direita.

É isso. Foi o que disse com os meus botões, quando o Dicionário do Diabo escreveu que o encanto do Bomba Inteligente é essa mistura entre o mental e o mundano. Frequentemente o mundano afoga o mental, mas por vezes o mental emerge magnífico, como aqui.

CONDIÇÃO MASCULINA: O urinol no combate à discriminação sexual.

Sempre considerei o urinol um acessório eminentemente masculino, incompreensivelmente ausente das nossas casas. Se no passado, nos tempos do macho dominante, o urinol poderia ser considerado supérfluo, por razões que não deveria ser necessário explicar, mas convém, porque todos sabemos como a leitura repentista dos blogues não estimula a parte nobre do nosso cérebro – the little grey things, como lhes chama M. Poirot.
Nesses tempos gloriosos, o homem salpicava o chão (os mais cuidadosos) ou molhava-o abundantemente (os grunhos) e deixava a tampa da sanita levantada (todos). Fazia tudo isso e a patroa não refilava. Limpava (da classe média baixa para baixo) ou mandava limpar (da classe média alta para cima).
Após o triunfo dos movimentos feministas que marcaram a decadência do macho dominante e a sua submissão à fêmea agora dominante, o homem passou a ser constantemente atacado na sua virilidade e, os mais submissos, obrigados a urinarem sentado. Não me vou estender neste tema, que já tratei devidamente numa Carta aberta à falecida doutora Amélia.
O que há de novo é que na luta pelos direitos do homem surge agora um novo instrumento: o urinol doméstico. É o que nos dá conta a sempre útil Única - apêndice nº 135 do semanário do saco de plástico. Lá aprendemos que as mulheres (as americanas, por agora) se opõem firmemente à instalação do másculo acessório, porque razões que não deveria ser necessário explicar, mas convém, como já se viu.
A razão é simples. As mulheres não querem perder a oportunidade de humilhar o macho outrora dominante – tal como o capitalismo é a exploração do homem pelo homem e o socialismo é o seu contrário, também o machismo é a dominação dum género pelo outro e o feminismo é o seu contrário.
Aqui fica, portanto, uma exortação: Homens de todo o mundo, uni-vos na luta pelo urinol doméstico. Um urinol em cada lar. Já!

Informação útil (cortesia do saco de plástico): podem ver-se vários modelos, alguns bastante apelativos, aqui. De todos, o meu preferido é o de TV Hill, não por acaso, em Kabul (um muito obrigado aos talibã).

03/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Muamar Sitting Kadafi. (Sitting who?)

Um jovem utente do Impertinências que não teve oportunidade de ver os western dos anos cinquenta, pergunta quem é esse herói mítico Sitting Bull, ou Tatanka-Iyotanka para os amigos, e quem é o renegado general Custer. A PBS explica aqui como as coisas se passaram.
Já que falo em PBS, ora aí esta uma ideia inspiradora para o que poderia ser o Canal 2, como se pode ver aqui.
OK, aceito que se a esquerdalhada em geral ou o radical chic em particular lerem o parágrafo anterior são capazes de não apreciar excessivamente a ideia. Who cares?

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Muamar Sitting Kadafi.

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
O grande líder Muamar Kadafi, auto-proclamado chefe dum rectângulo de areia chamado Líbia, debaixo do qual Alá plantou um lençol de petróleo, é talvez um dos melhores exemplos de que o povo islâmico não precisa nada da globalização para se desgraçar.
Depois de se apresentar durante décadas como o paladino da revolução do 3º mundo, e semear terrorismo e atentados um pouco pelo 1º e pelo 2º mundos, Muamar, olhando para o triste começo do fim de Saddam, resolveu entregar os pergaminhos de revolucionário, admitiu ter tentado desenvolver armas de destruição maciça, prometeu não o fazer no futuro e aceitou inspecções internacionais. Tudo isto cortesia de George W., que compensa com acção a sua falta de articulação.
Ao hastear a bandeira branca Muamar mostra que tem um pouco mais de juízo do que as suas conhecidas excentricidades fariam supor.
São-lhe atribuídos três urracas, pela sua tardia mansidão, dois pilatos por ter deixado órfãos legiões de criaturas da esquerdalhada que viram nele um Sitting Bull dum qualquer general Custer, e cinco ignóbeis por fazer tudo isso pelo preço da sua cabeça. Dois afonsos a distribuir por George W. e Donald Rumspeak.

Secção Assaults of thoughts
O blogue Merde in France, membro da Internacional impertinente, escreveu a propósito da avisada posição do presidente Muamar, o seguinte (cito a versão francesa que, na circunstância, é mais saborosa, mas como Merde in France é bilingue quem preferir o inglês pode ir aqui):

"La France avait tort
La Libye annonce qu'elle démontera, de son plein gré, ses programmes de développement d'armes de déstruction massive. Les franchouilles n'avaient-ils pas déclaré que la politique américaine allait déstabiliser toute la région? On dirait que la 'déstabilisation' se produit de façon inattendue (et pour les français, non-désirée). En plus, cette décision signifie qu'il y aura un client en moins pour les fournisseurs français."


Três afonsos bem merecidos para o Merde in France.

02/01/2004

DIÁRIO DE BORDO: Indignações e inquietações.

Acabei por ficar inquieto por tantas inquietações, como esta, ou indignações como esta, ou ainda esta, que inclui mais uma bastonada.
Tudo a despropósito das cartas anónimas visando o doutor Jorge Sampaio, o doutor António Vitorino e o doutor Jaime Gama.
E acabei até por ficar indignado, por não ver inquietação por mais uma violação do segredo de justiça, nem indignação pelo facto das inquietações e indignações manifestadas partirem do pressuposto, nunca dito porque indizível, que as personalidades públicas têm, na sua vida privada, fora do exercício dos suas funções públicas, direito a um estatuto diferente do cidadão comum, que tornaria mais graves os eventuais erros judiciários ou as alegadas cabalas.
Alguém se inquieta ou indigna pelo facto do Zé dos Anzóis ter cartas anónimas no seu processo de investigação que dura há 3 ou 4 anos?
É preciso recolocar as questões no seu lugar: o que está em causa são alegados crimes de pedofilia de que são suspeitos certos cidadãos, desempenhem eles o cargo público que desempenharem. Se há negligência ou erro doloso na investigação o Estado e os responsáveis devem responder. Ponto final.

DIÁRIO DE BORDO: Os economistas, a vichyssoise e o défice.

Disse-me um empregado do Pabe ter ouvido, enquanto servia a vichyssoise ao doutor Pina Moura, sucessor nas Finanças do doutor Sousa Franco e continuador da derrapagem orçamental, contar a maquiavélica estória duma suposta intervenção da doutora Manuela Ferreira Leite, sucessora nas Finanças do doutor d’Oliveira Martins e testamenteira da pesada herança, em que ela teria acusado o seu antecessor, ele próprio sucessor do doutor Pina Moura, de ter deixado o défice, mais do que derrapar, capotar duma previsão de 1% para de 5%.
Segundo ele (o empregado do Pabe) ouviu, a doutora Manuela teria começado uma sua intervenção num congresso dos revisores de contas dizendo, pouco mais ou menos, o seguinte:
Há três espécies de economistas: os que sabem fazer contas e os que não sabem.”
Ele jurou ter ouvido, mas eu não acredito, mesmo sabendo que o doutor Pina Moura também era conhecido por Cardeal.

DIÁRIO DE BORDO: Multiculturalismo = queima o sutiã e põe o véu?

Dizem-me que conhecidas marafonas esquerdalhas – as mais velhas, agora já com idade para terem juízo, queimaram in illo tempore o sutiã, pelo menos o sutiã simbólico - lhes deu para defenderem o uso do véu pelas mulheres muçulmanas. Usar o véu, não como poderiam usar uma peça Calvin Klein, como algumas tias do radical chic, mas como um símbolo da luta antiglobalizante (leia-se: a pain in the american ass). Ou como um símbolo do multiculturalismo (leia-se: a gente tanto defende o aborto na cristandade, como tolera o apedrejamento da mulher no Islão).
Será assim?
Senhor, se assim for, restituí-lhes o siso antes que a idade lho leve irremediavelmente.

01/01/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Obrigado senhor engenheiro Guterres, anyway.

Secção Com a verdade me enganas
Estou certo de que o tempo e a verdade dos factos confirmarão que foi a pensar no País e nos portugueses que Guterres abriu caminho a eleições”, disse o doutor Guilherme d'Oliveira Martins a O DIABO no penúltimo dia do ano.
Não tenho a certeza que quando o engenheiro Guterres concluiu abruptamente o seu consolado e se evadiu para o limbo pré-presidencial estivesse a pensar no País e nos portugueses, mas não restam dúvidas que, no fim, mais do que as intenções o que contam são as acções.
Obrigado senhor engenheiro Guterres, anyway.
Obrigado senhor doutor Guilherme d'Oliveira Martins por nos ter lembrado um dos poucos momentos altos da política portuguesa nos últimos 8 anos. Obrigado, mesmo no caso em que o seu amigo engenheiro, que nestas coisas não se distrai, venha a pensar que, com amigos como o senhor doutor os inimigos são supérfluos.
Cinco chateaubriands para o senhor doutor d’Oliveira Martins pela infinita bondade de propósitos com que nos revelou o que ia na alma do senhor engenheiro.

GLOSSÁRIO DAS IMPERTINÊNCIAS: Novas entradas.

O Glossário das Impertinências ganha no primeiro dia do ano mais duas definições. A primeira tornada necessária pela criatividade do doutor d’Oliveira Martins e a segunda tornada necessária pela criatividade dos arguidos do processo Casa Pia e dos seus advogados.

Secção Com a verdade me enganas
Acontece nas melhores famílias. Distraidamente umas vezes, outras não, falam-se verdades que parecem mentiras, ou vice-versa. Em relação às mentiras, recordo o poeta popular António Aleixo que um dia disse que a mentira para ter alcance e profundidade, tem que trazer à mistura alguma verdade (estou a citar de memória, a minha memória já não é o que foi, e por isso não vale a pena corrigirem-me). Em relação à verdade, a recíproca também parece aplicar-se: a verdade para ter alcance e profundidade, tem que trazer à mistura alguma mentira.

Alibi (juridiquês)
Um expediente que, com o auxílio duma agenda dinâmica, permite ao arguido demonstrar que em qualquer altura se encontrava sempre noutro lugar. Este expediente é, simultaneamente, uma negação experimental dum velho axioma da geometria não euclidiana (no mesmo ponto não podem encontrar-se ao mesmo tempo dois corpos diferentes, mas está visto que podem, pelo menos é essa a tese dos investigadores do caso Casa Pia) e dum velho princípio da física clássica (o mesmo corpo não pode encontrar-se ao mesmo tempo em dois pontos diferentes do espaço, e está visto que pode, se tiver uma boa agenda).