Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/11/2003

ESTÓRIA E MORAL: Estão a dar música aos contribuintes?

Estória
Passaram 5 anos desde a escolha da Cidade da Tripa para Capital Europeia da Cultura, e passaram dois anos desde o final do ano de 2001, como poderia ter dito, se ainda fosse vivo, Monsieur de La Palice.
Dois anos depois, o custo total do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura ninguém sabe ainda quanto é, nem mesmo se sabe quando se saberá.
Há uns meses a Agência Lusa informou os contribuintes que o custo nunca seria inferior a seis vezes o orçamento inicial – qualquer coisa entre 75 milhões e 85 milhões de euros.
Uma parte da massa foi torrada para recuperar algum do património tripeiro mais amolgado e, talvez por isso, lá vi grafitos pintados em paredes da Invicta com os dizeres Estado do Património, ao lado de outros que saborosamente nos informam que Vistos daqui dá para ver que já era tempo de trocares de roupa interior.
Mas a fatia de leão, que neste caso com mais propriedade se deveria chamar fatia de dragão, foi e continuará a ser torrada para tentar pôr de pé a Casa da Música. E essa fatia, que, por razões de matemática elementar, não pode estar contida no alegado custo total, o qual deixa assim de ser total, para passar a ser parcial, vem crescendo de forma incontornável atingindo, na última estimativa do Dr. Alves Monteiro, a bonita soma de 98 milhões de euros,apenas um pouco mais do que o orçamento inicial de 46 milhões de euros.
É claro que o Dr. Alves Monteiro, não sendo um artista, lida um pouco melhor com os números e esclarece-nos que não é comparável o que está a ser comparado”. Quer ele dizer que na primeira estimativa se deixaram de fora várias pequenas coisas. O terreno por exemplo, coisa fácil de esquecer porque passado alguns meses já estava escondido debaixo da Casa da Música. Aliás, a própria Casa também foi crescendo ao longo da obra que era para ter acabado sucessivamente em Julho de 2001, Abril de 2002, Agosto de 2002 e, na última versão, mas não definitiva, em Abril de 2004.

Moral (infelizmente não tida em devida conta)
Quem paga, encomenda a música (provérbio russo).

29/11/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Uma penada nas conquistas de Abril.

Secção Padre Anchieta
A propósito da putativa constituição europeia, disse a Dona Ilda Figueiredo, em nome do PCP, num encontro com jornalistas portugueses, que o documento proposto seria um golpe constitucional no nosso País, porque perdíamos, de uma penada, todos os direitos conquistados com o 25 de Abril.
Quanto ao golpe constitucional podemos discutir a coisa, mas quanto à perda dos direitos, que se saiba, a ralé europeia, que não teve a sorte de beneficiar das conquistas de Abril, não parece muito preocupada com isso. Pelo contrário, parece mais preocupada pela ameaça da economia europeia não recuperar e poder ficar, pouco a pouco, parecida com a choldra da terra que teve o privilégio de beneficiar de tais conquistas gentilmente oferecidas pelo Dona Ilda e os seus colegas.
Irremediavelmente a Dona Ilda leva com os chateaubriands da praxe – 3 na circunstância, porque tem a atenuante de já estar no PCP há muitos anos, o que lhe concede a honra de 4 bourbons.

28/11/2003

BLOGARIDADES: Um funeral, um casamento, que também é um funeral, e o rio místico onde navega o macho man.

O fim anunciado do Cataláxia
Não há desculpas para liquidar um blogue impertinente. Não há nenhuma tese de doutoramento que o justifique. É uma desistência sem perdão. É um desastre na bloguilha e um rombo na minha bloguenave.

O casamento da Doutora Amélia
Não devia dizer isto, nem para os meus botões de marialva encartado, mas a verdade é que faz-me falta o pique daquela irreverente presunçosa. É uma vergonha acabar com o Procuro marido, só porque encontrou um marmanjo com um blog, um blog sério, muito lido. Muito lido, ainda vá (veja-se O Meu Pipi), mas sério?
O que vale é que morre na bloguilha a Doutora Amélia e nasce uma nova estrela: a Doutora Cornélia que procura um bigode farfalhudo entre os 27 e os 50 anos (sem marido apenso!), o que é uma missão muito mais difícil do que procurar apenas um marmanjo sensível, com ou sem blogue, mas sem bigode.

Mystic River
O homem a dias escreveu aqui sobre este trabalho do canastrão preferido do Impertinente: the macho man Clint Eastwood.
Concordo com quase tudo, excepto sobre qual será o filme do ano, porque não faço a ideia qual deva ser.
Para ter alguma coisa para dizer, sempre acrescento que cada novo filme de CE é mais humilhação para os críticos que o davam como um chaço, quando ele ainda estava nas fases Leone ou, mais tarde, 'Dirty' Harry Callahan.
O homem não é um chaço, mas tem as suas limitações. Por exemplo, não lida bem com os sentimentos no cinema, porque é demasiado frio e cerebral – não me lembro de ter sido arrebatado por uma única cena amorosa, seja lá o que isso for.
E o melhor filme da criatura talvez não seja A Perfect World, Honkytonk Man, ou Bridges of Madison County (este um bocado choramingas), mas Bird ou Unforgiven.
Nota: esta coisa está-se a parecer um retro-link, ainda por cima reincidente porque ainda há pouco estava a falar do homem e cá está ele outra vez.

ESTÓRIA E MORAL: O filósofo, o contra-poder e a desconstrução da propina.

Estória
Vagueando, um destes dias, pela bloguilha e esquadrinhando o Homem a Dias, ancorei numa a referência com um link para o Público onde se lia que o filósofo francês Jacques Derrida assinou ontem (20-11) o protocolo de adesão de Coimbra à Rede Internacional de Cidades-Asilo (INCA- International Networkof Cities of Asylum), para intelectuais perseguidos por regimes totalitários que não reconhecem a liberdade de criação. A cerimónia foi ainda abrilhantada pelo Doutoramento Honoris Causa da luminária e pelo colóquio internacional cujo título é, por si só, um programa: A Soberania-Crítica. Desconstrução, Aporias. Em torno do pensamento de Jacques Derrida.
Tenho que confessar que ignoro tudo sobre a criatura. Sabia vagamente que era um filósofo, isto é uma alma cega que, numa noite escura, procura, num quarto sem luz, um gato preto que lá não está. Mais vagamente ainda, lera que o homem era desconstrutivista - uma espécie de demolition man do edifício da epistimologia?
Além da mente, também o aspecto do Prof. Jacques é bastante agradável – um ancião, elegante, desconstruído. Tenho a certeza que o Prof. Manuel Maria Carrilho vai querer ser assim, quando for velhinho.
Tentei conhecer a criatura e fiquei a saber, muito por acaso (gentileza do saco de plástico) que o Prof. Jacques defende uma universidade sem condições que se oponha aos poderes estatais, aos poderes económicos, aos poderes mediáticos, ideológicos, religiosos e culturais.
Apesar do filósofo não nos dizer nada sobre a propina de tal universidade sem condições, adivinha-se, pelo local do doutoramento honoris causa, que deve ser a propina, sem cadeado, antes dos aumentos.
Fica por esclarecer quais os poderes que proporcionarão as patacas para sustentar tal universidade. Não estou a ver o Eng. Belmiro do poder económico, ou o Dr. Balsemão do poder mediático, ou mesmo o Dr. Carvalhas do poder ideológico, nem sequer o Cardeal-Patriarca do poder religioso, ou a Fundação Gulbenkian do poder cultural, a abrir os cordões à bolsa para pagar a quem se lhe oponha. Resta o único dos poderes, o público, que gosta de levar no toutiço e ainda paga por cima, sem se queixar, et pour cause. Quem mais pagaria a universidade sem condições senão os suspeitos do costume, os tansos contribuintes?
Moral
Chacun bride sa béte (ditado popular francês, singela homenagem ao Prof. Jacques, que poderia traduzir-se por cada um põe o freio à sua cavalgadura).

27/11/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Maninfestação contínua e o PEC é uma pécora.

Secção Idiotas Inúteis
A festa continua? Melhor, a festa é contínua.
Na terça feira, umas centenas de ociosos, talvez matriculados em universidade, fizeram uma maninfestação (ver Glossário) em Lisboa, Porto e Coimbra, subindo a um patamar superior da luta de classes, os rapazes passaram a pedir a cabeça do primeiro ministro.
Provavelmente, a melhor palavra de ordem deve ter sido gritada no Porto: Propinem as empresas. Carago, acrescenta o Impertinente. Sempre é uma ideia. Não é grande coisa, mas é uma alternativa à propinação dos contribuintes.
Já sem inspiração para zurir o tema, lembrei-me de pedir ajuda ao Prof. Saldanha Sanches que, apesar sua promiscuidade com a esquerdalhada, apresenta encorajadores sinais de lucidez, talvez devida à contaminação pela sua actividade como fiscalista, que certamente o sensibiliza aos custos das asneiras.
Escreveu ele no semanário do papel higiénico, que se a maioria dos estudantes de Coimbra (e de outros lugares, acrescento) acha que frequenta cursos tão maus que não vale a pena pagar a propina simbólica, então não vale a pena abrir a Universidade. Se esperamos lucidez dos reitores, é melhor esperarmos deitados, porque, diz ainda ele, há reitores das universidades públicas que têm hoje duas funções principais: bajular os estudantes e pedir dinheiro ao governo.
(Nota histórica: razão, antes de tempo, teve o grande dirigente da classe operária quando mandou expulsar do MRPP o então camarada Saldanha Sanches durante a primavera quente de 1975)
Em apoio à luta dos estudantes, o Impertinente exorta os matriculados maninfestantes a maninfestarem-se full time num qualquer maninfestódromo e deixarem em paz as criaturas que querem fazer pela vida. Como incentivo, os maninfestantes levam 3 bourbons e 4 chateaubriands.

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
A propósito da vergonha miserável que se passou no Ecofin ao decidir de poupar a França e a Alemanha às sanções pela violação do PEC, o Impertinente estava cheio de ganas de exportar uns balázios para vários destinos. Mas o mais importante seria comentar as sequelas domésticas.
Foi o que fez hoje, e bem, o Cataláxia aqui.
O Impertinente só precisa de entregar 3 chateaubriands ao governo e 5 pilatos ao PS, que não percebe que o governo não está a fazer demais, está a fazer de menos.
Já agora, dou ao PS mais 3 chateaubriands por não perceber que deveria rezar para o governo cuidar da vaca marsupial pública e deixá-la em condições para o PS, quando regressar ao poder, possa, uma vez mais, emprenhá-la de vitelos.

26/11/2003

CASE STUDY: O Meu Pipi está a ficar impotente? (work in progress)

O Impertinente ainda está a trabalhar na resposta a esta pergunta dilacerante. Temos que aguardar pela Tese nº 4.

Entretanto, podemos conhecer mais uma entrada, muito oportuna como se verá, para o Glossário: Maninfestação.

25/11/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A montra alfarrabista da estação marcelista.

Secção Res ipsa loquitor
Se os primeiros meses do (des)consolado do Prof. Marcello Caetano, com dois "l", foram chamados de primavera marcellista, é justo que se diga, a propósito do seu afilhado prof. Marcelo Rebelo de Sousa, só com um “L”, que ocupa todo o ano uma só estação, que transformou a TVI na estação marcelista, só com um “L.
O Impertinente é, desde há muito, um admirador do prof. Marcelo só com um “L”, principalmente da sua costela de criador de factos políticos, costela injustamente chamada intriguista por alguns invejosos.
Contudo, há sempre um contudo, que no caso é a progressiva transformação da sua brilhante prestação televisiva numa montra de alfarrabista. Avia livros sobre tudo e mais alguma coisa: o golfe, o vinho do porto, a aldeia de Carrazeda de Ansiães, Lisboa antiga, Lisboa moderna, a zona ribeirinha do Porto, as caves de Gaia, e o diabo a sete.
Não ponho em dúvida que o prof. leia toda aquela imensa parafernália editorial – afinal ele não dorme. Também, nem no duche, me ocorre que o prof. receba umas propinas dos autores ou editores – afinal o prof., além de não parecer do género colector de propina, não precisa dela.
Mas o que procura o prof. Marcelo? Que impulso interior pode levá-lo a enfiar compulsivamente, todos os domingos, tanto metro de prateleira pelas goelas da câmara?
Será levado pelo mesmo impulso do Dr. Pacheco Pereira de nos deslumbrar com a sua erudição? Não parece. Afinal, ao contrário do Dr. Pacheco Pereira que, pelo estilo e pelo discurso, a gente ouve com um silêncio respeitoso, como se estivéssemos numa biblioteca com as paredes apaineladas de carvalho, o Prof. Marcelo, pelo estilo e pelo discurso, convoca mais o nosso instinto de basbaques de feira, inscrito no fundo da matriz popular lusa.
É um mistério. É mais fácil Cristo voltar à terra do que decifrá-lo.
Seja como for, o Prof. Marcelo merece alguns bourbons, porque sempre foi assim, desde os tempos em que se metia debaixo da cama da avó e a abanava simulando um terramoto e assustando a pobre senhora, até aos tempos mais recentes em que chamava com ternura mal disfarçada Lélé da Cuca ao Dr. Balsemão. Não sei quantos bourbons, porque não faço ideia se Cristo ainda vai demorar muito. O Impertinente leva 2 chateaubriands, por não conseguir decifrar a mente ladina do Prof.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Os barões também se abatem?

Secção Tiros nos pés
Há algum tempo, o Central Banco de Investimento (CBI), um banco participado pelas Caixas de Crédito Agrícola Mútuo, cozinhou uma operação de engenharia financeira para esconder prejuízos, neste caso mais de cosmética contabilística, cujo desfecho foi de facto adicionar novos prejuízos.
Oito administradores do CBI que decidiram essa operação, incluindo o seu antigo presidente Dr. Tavares Moreira, uma luminária do PSD, e seu porta-voz habitual para as questões económicas, foram agora punidos pelo Banco de Portugal com a inibição de exercer funções de gestão em instituições de crédito durante sete anos, e pagar 100 mil euros de multa cada.
Não é muito vulgar uma instituição deste país ir às lonas de sumidades, muito menos quando elas acumulam com o baronato numa das agências de emprego, na circunstância, uma que faz parte do poder em exercício.
Para as sumidades vão 5 ignóbeis. Para a administração do BP e, em particular, para o antigo prof. do Impertinente, Dr. Vítor Constâncio, vão 3 afonsos, ficando de reserva mais 2 se resistirem ao que virá a seguir.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Quem melhor que o grossista da pedofilia para nos ensinar a educar os nossos filhos?

Secção Perguntas impertinentes
O Comité dos Direitos das Crianças recomendou a proibição pelos governos dos castigos corporais das crianças, inclusive pelos pais. A Dona Dulce Rocha, presidente da Comissão Nacional de Crianças e Jovens em Risco, mal tinha encerrada a conferência internacional sobre o “Abuso Sexual de Crianças” realizada em Lisboa (não, não foi na Casa Pia), apressou-se a comunicar que a sua comissão vai propor ao governo a aplicação dessa recomendação.
Esqueço, por agora, a dilema existencial que costuma surgir nos crânios dos emplastros que nunca tiveram filhos, e talvez até nunca tenham sido filhos, a saber: quando um nosso filho faz borrada devemos cantar com ele em coro we don’t need education dos Who ou devemos fazer leituras em voz alta do Dr. Spock?
Por agora, o Impertinente apenas deixa no ar algumas perguntas to whom it may concern:
- Devemos permitir que um Estado que durante décadas deu (e dá) guarida, protecção e emprego a pedófilos e foi (é?) grossista no mercado da pedofilia, nos ensine como devemos criar os nossos filhos?
- Podemos permitir que esse mesmo Estado, que durante outras tantas décadas usou a escola lúdica, local de eleição da disciplina consentida, para tentar, frequentemente com sucesso, transformar os nossos filhos em idiotas iletrados, regulamente as galhetas que lhes damos?
Enquanto não nos respondem, e aproveitando a boleia do dono do Dicionário do Diabo, que contrapôs, n’O Independente da semana passada, à ideia dos rapazes do radical chic de baixar para 16 anos a idade mínima dos eleitores, em vez disso, aumentá-la para 21 anos, por razões que ele explica e qualquer criatura cuja mente não se tenha evadido percebe perfeitamente, aproveitando a boleia, dizia deu, proponho a extensão do exercício da autoridade paternal, com uso apropriado de galhetas, até à idade do voto.
Deixando de paródia, a coisa só não é inquietante, porque, mesmo que as ideias da Dona Dulce tenham provimento, será sempre mais uma lei a juntar a tantas outras que se esgotam com a ejaculação do órgão legislativo.
Para a Dona Dulce vão 5 merecidos chateaubriands, e para o futuro ejaculante órgão legislativo vão 3 ignóbeis adiantados.

24/11/2003

DIÁRIO DE BORDO: O papel higiénico fica bem na 1º página do semanário do saco.

O Impertinente ainda não descontou, como se diz no mercado de capitais, a descida anterior de um degrau para o inferno tablóide, a que se dirige alegremente o Expresso, já o semanário do saco de plástico pisa o seguinte.
Desta vez, foi a foto na 1ª da página, do 1º dos 323 cadernos, do anúncio da Renova com um marmanjo com as cuecas a caírem, uma marafona pendurada nas traseiras do marmanjo, e no fundo uma latrina com um erótico papel higiénico no chão, o que faz dele um papel não higiénico.
A coisa é tão completamente gratuita, que dá para pensar não ser gratuita. Quer com isto o Impertinente dizer que pensou com os seus botões que talvez a Renova tenha pago ao saco de plástico, ou a um dos seus empregados, para botar aquela trampa – designação absolutamente apropriada neste cenário – na 1ª página. Não satisfeitos com a 1ª página do 1º caderno, os do saco de plástico reincidiram no 2º caderno com mais uma fotos explicando que em França a coisa tinha causado escândalo.
Não se percebe porquê o escândalo. Piedade talvez. Piedade por um semanário que se pretende de referência, que se rendeu às funções zingarilho - quanto mais fala em ética, mais se prostitui. Era um semanário mediano no género bom. E, pouco a pouco, transformou-se num semanário mau, no género mau.

NOVA ENTRADA PARA O GLOSSÁRIO: ejaculação do órgão legislativo.

Uma Avaliação Contínua que o Impertinente tem em curso, exigiu a produção dum novo termo para o Glossário das Impertinências, ou, se preferirem, exigiu uma nova ejaculação teórica.

Ejaculação do órgão legislativo
Tal como o macho, em muitas espécies, termina o seu papel face aos nascituros, futura prole, com o disparo genital, assim a assembleia da república com as suas leis, o governo com os seus decretos-lei, decretos, decretos regulamentares, portarias, e as câmaras municipais, que tal como as galinhas, fazem posturas, terminam o seu papel com o diploma ejaculado. A este acto podemos, com toda a propriedade, chamar ejaculação do órgão legislativo, que costuma produzir esperma infértil e com bichinhos sem cabeça, à imagem do órgão.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Amostras exasperantes e uma bela sova no radical chic.

A propósito da Blogaridade sobre as dúvidas do barnabé quanto a renovar a assinatura do Economist, prometi revelar algumas amostras sortidas deste monumento ao bom jornalismo profissional. Aqui vão hoje duas, possivelmente exasperantes para um barnabé.

Frases assassinas
Interrogando-se sobre as aparentes contradições dos lideres europeus que açoitam a administração americana pela intervenção no Iraque, depois de a terem verberado pela retirada da Somália em 1994, pela acção tardia nos Balcãs, por terem “permitido” aos Talibã tomarem o poder no Afeganistão, e ainda por só recentemente enviarem tropas para a Libéria, o Economist escreveu:
Uma resposta para esta última questão é que a incoerência é um dos luxos da impotência. Os que não podem, ou não querem, assumir as suas responsabilidades sentem-se à vontade para atirar sobre quem as assume.
(Greatest danger, or greatest hope? Nov 8th)
Por esta sentença politicamente incorrecta, o Economist merece 3 afonsos.

Secção George Orwell
Comentando a aparente falta de interesse dos governos sobre o tema vital do aquecimento global e a ausência de progressos nos trabalhos do Intergovernmental Panel on Climate Change, o Economic Focus (Hot potato revisited, Nov 8th) aborda a aparente falta de competência do painel composto por uma horda de autoridades recrutada num meio profissional muito limitado, que não inclui os saberes económicos e estatísticos necessários.
O produto dessas mentes pode avaliar-se pelas projecções catastrofistas para o aquecimento global. Essas projecções são baseadas em premissas tão lunáticas que, mesmo no cenário mais optimista, isto é com menores emissões, no final deste século a África do Sul, a Argélia, a Argentina, a Líbia, a Turquia e a Coreia do Norte teriam um PIB per capita superior ao dos Estados Unidos, conclui o jornalista.
De passagem, conclui o Impertinente, regista-se aqui mais um fenómeno de contaminação da ciência pela ideologia. Lá no inferno onde ardem Lenine e Estaline, adivinham-se murmúrios de aprovação.
Razão teve George Orwell quando disse que há ideias e opiniões tão obviamente idiotas que é preciso ser-se um intelectual para se acreditar nelas.
Dois afonsos para o George, outros tantos para o Economist, e 5 chateaubriands para os painelistas do IPCC.

Secção George Orwell (bis)
E já que estamos nesta Secção, vem a propósito remeter o leitor acidental para o massacre, levado a cabo pelo Contra a Corrente no passado dia 21, das teses dominantes na esquerdalhada e, em particular, nas capelas do radical chic sobre as origens e raison d’être do terrorismo islâmico.
Para a infantaria do politicamente correcto e a cavalaria do radical chic vão 5 chateaubriands e mais 5 bourbons para os que já estão fase do esquerdismo senil. Ficam reservados bourbons para os que, não se emendando antes de terem direito a descontos nos transportes públicos, forem admitidos na dita classe de esquerdismo.

23/11/2003

CONDIÇÃO MASCULINA: A diferença fundamental não é óbvia?

Não há nenhuma diferença entre homens e mulheres (além das óbvias, naturais e bem-vindas); há uma diferença fundamental entre pessoas medíocres e pessoas inteligentes, escreveu ontem a Bomba Inteligente.
Ao ler estas declarações sobre matéria de fé, o Impertinente disse para os seus botões: uma das grandes realizações do machismo foi conseguir que a condição feminina aceitasse a superioridade do modelo masculino, acreditando que a ascensão a esse patamar superior da humanidade exigiria negar as diferenças, excepto, claro as óbvias, naturais e bem-vindas. Talvez os militantes da condição feminina devessem valorizar as diferenças não óbvias e naturais, que estas, por definição, não precisam de ser valorizadas e, muito menos, precisam de ser bem-vindas, porque sempre cá estiveram e sempre cá estarão, se a engenharia genética não for usada para criar Frankensteins e She-Frankensteins.
O dogma desta religião igualitária resulta duma confusão irremediável, talvez fácil de ocorrer em quem não tem filhos ou só os tem mesmo género, ou para quem só vê os diferentes géneros aos domingos. Seja como for, quem tem as responsabilidades de ser mãe ou pai, de filhos do mesmo género ou de géneros diferentes, pode ser praticante, mas terá pouca vocação, e pouco tempo, para o sacerdócio, que nesta religião está confiado a celibatários ou casais sem filhos, a gays, lésbicas, bissexuais ou praticantes de sexo itinerante e aos cultores do politicamente correcto.
O resto da humanidade fraqueja na sua fé. Mas para as criaturas, com um módico de bom senso, que tenham criado filhos machos e fêmeas, ser sacerdote está fora de causa e até fica difícil ser fiel duma religião todos os dias contraditada pela observação da profunda diferença não óbvia entre os géneros.
Os casos irredutíveis resultam duma mente empanzinada com ideologia e preconceitos, ou da sua inflamação com os axiomas do politicamente correcto. O Impertinente tem um amigo cuja filha antropóloga - uma das áreas preferidas para o pouso do emplastro - só ficou com a sua fé abalada quando, a seguir a uma filha, teve um filho e, apesar dos seus esforços igualizadores, foi sucumbindo às persistentes diferenças de género, constantemente presentes nos interesses, nas emoções, na sua expressão, nos jogos, na relação entre si, com os pais e com toda a gente.

E qual o problema da diferença óbvia e não óbvia? Nenhum.
Onde talvez haja um problema é no dito da diferença entre pessoas medíocres e pessoas inteligentes. Mais exactamente, no não dito. O que é a inteligência? Há uma coisa chamada “a” inteligência? Um prémio Nobel da Física é mais inteligente do que um pintor? Um jogador de futebol medíocre é mais medíocre do que um escritor falhado? Qual é a diferença entre um bailarino falhado e um cineasta medíocre? Um filósofo de café é mais inteligente do que um competente gestor de empresas? Um intelectual de tertúlia que nunca mexeu uma palha é inteligente porque articula a vacuidade com elegância? Um engenheiro de sistemas é medíocre porque nunca leu Proust?

Mas esta é outra conversa que não cabe na Condição Masculina.

22/11/2003

BLOGARIDADES: Trocar o Economist pela Newsweek? Se me contassem não acreditaria.

Numa navegação de ontem pelos rios da bloguilha fui desaguar a um barnabé que se pergunta o que é que tem diferente dos outros?
Como o Impertinente tinha lá chegado para tentar perceber porque se inquietava a alma do barnabé com a renovação da assinatura do Economist , confesso que tive a premonição da sua diferença, quero dizer do que estava errado com o barnabé: um ser que se interrogava sobre a renovação - a re-novação, note-se - da sua assinatura da melhor revista de economia, finanças e etc.
Ainda admiti emprestar os 219,50 euros para a criatura renovar por dois anos, se fosse caso de falta de fundos. Mas não era. É uma falta de fundo.
Começa o barnabé por confessar-se vítima de deriva esquerdizante. A admissão da doença é às vezes o princípio da cura, pensei. Ao continuar, vi que estava enganado.
Trata-se de não aguentar mais a lenga-lenga beata sobre os mercados livres como a panaceia para todos os males, diz ele. Isto é escrito por um português, supõe-se, em Portugal, um dos países com maior aversão ao risco, aos mercados, à iniciativa privada ou pública, com uma devoção doentia pelo proteccionismo e pelo conforto do ventre acolhedor da vaca marsupial pública. Uma prosa destas é chover no molhado, como diz o povo.
Em troca, o barnabé propõe-se assinar o quê? Spectator, New Yorker, ou similares? Não era grande ideia, mas assim, como assim, antes fosse. Não. Pensa passar-se para assinante da Newsweek a revista do Powell, de acordo com barnabé.

Por tudo isto, a parte má do Impertinente levou-o ao sítio do barnabé deixar lá uma pitada de veneno:
O seu é um caso de cegueira esquerdizante?
Para quem lê regularmente o Economist, o que escreveu é um insulto à inteligência.
Para não conhece o Economist é manipulação da ignorância.
Se algum dia o jornalismo português conseguisse criar uma revista assim, Portugal passaria directamente à divisão de honra.


Por estas e por outras, um dia destes vou começar a expôr, para quem não conhece o Economist, algumas pequeníssimas amostras das peças de jornalismo da melhor revista de economia, finanças e etc. – provavelmente.

21/11/2003

CASE STUDY: Como aumentar o PIB (quase) sem dor.

Todos sabemos, ou alguns sabem, sei lá, que para aumentar o PIB há três vias, todas elas dolorosas, que se podem combinar de 7 modos diferentes. As 3 vias, são:
* Pôr mais criaturas a dar corda aos sapatos – dor para os novos explorados e oprimidos
* Pôr as mesmas criaturas a dar mais corda aos sapatos – mais dor para os antigos
* Aprender a dar corda aos sapatos, como deve ser – uma dor de cabeça para todos, explorados e exploradores, oprimidos e opressores.
Se é verdade que a junção das 3 vias dá um auto-estrada para o desenvolvimento, também não é mentira que é um sofrimento geral do caraças.
Mas os deuses da economia vêm em nosso socorro, abrindo uma janela de oportunidade para evitarmos as vias dolorosas no próximo ano que, diz o governo, será o princípio duma grande felicidade económica e, receia a oposição, que até poderá parecer.
Como assim?
Assim:
+ O ano de 2004 é um ano bissexto
+ O Dia da Liberdade (25-04) calha a um domingo
+ O Dia do Trabalhador (01-05) calha a um sábado
+ O Dia da Pátria (10-06) coincide com o Dia de Corpo de Deus
+ O Dia de Stº António (13-06) calha a um domingo
+ O Dia da Assunção de Nossa Senhora (15-08) calha a um domingo
+ O Natal calha a um sábado
+ O dia 1 de Janeiro de 2005 calha a um sábado
São ao todo mais 7 dias ou, em relação à média, mais 5 dias para trabalhar do que num ano “normal”.
Uma criatura “normal”, supondo que exista esse ser, dos 250 dias trabalháveis por ano, está férias 20 e doente outros tantos. Abatendo os dias das pontes, os dias para entregar o IRS, ir ao funeral da sogra (uhf!), os dias em que fica em casa para levar o cachorro ao veterinário ou mandar capar o gato, etc., fica o máximo duns 200 dias produtivos.
Os 5-dias-5 extra em 2004 permitirão assim um aumento de 2,5% do PIB, sem se dar por isso.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Um cardeal pode ser mais teso do que um comunista disfarçado de democrata.

Secção Albergue espanhol
No dia dos funerais dos caribinieri assassinados em Nassiriah o cardeal Camillo Ruini, presidente da Conferência Episcopal italiana disse que a Itália não deve e não pode fugir do Iraque, não se deve amedrontar com os terroristas assassinos, mas enfrentá-los com coragem, determinação e com toda a energia de que é capaz.
A esquerdalhada hipocritamente à boleia da Igreja na condenação da intervenção da coligação anglo-americana no Iraque, disse, pela boca de Pietro Folena, do partido comunista agora rebaptizado de DS, não é da competência de Ruini intervir sobre a missão italiana no Iraque, mas sim do Parlamento. Ah, ah, ah.
Três afonsos para a coragem politicamente incorrecta do Cardeal Ruini e dois chateaubriands e dois ignóbeis para o porta-voz da esquerdalhada.

20/11/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Aditamentos ao exame ad hoc dos sub-21.

A pedido de vários leitores, acidentais uns, assinantes outros, o Impertinente vê-se obrigado a fazer os seguintes aditamentos ao exame ad hoc do França-Portugal:
Agradecimento aos nossos mais antigos aliados cujo representante na arbitragem não validou um golo limpinho da França, e que por isso ganha dois afonsos e um pilatos (por ter olhado para o lado).
Cinco afonsos para o lagarto Mário Sérgio que, debaixo duma chuva de vis apupos da plebe gaulesa, se ofereceu para marcar uma das humilhações.
Cinco ignóbeis para o jogador francês, espèce de cocu emmerdant, que atirou uma garrafa de cerveja a um dos nossos rapazes que festejava a vitória dos magriços sobre aquele tribo merdosa.
Dois ignóbeis para o Impertinente que escreveu alfaias galesas, quando, que se saiba, não havia trastes no balneário importados do País de Gales.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Onde se começa bem com os pés, se acaba mal com a cabeça, e se pergunta o imperguntável.

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
Os nossos rapazes dos sub-21, não jogaram grande coisa, mas com a preciosa ajuda da avantesma Djibril Cissé, expulsa à custa de aviar com o sarrafo nas polainas dum dos nossos meninos, fizeram aquela espécie pedante que vive na Gália engolir a arrogância.
Foi assim que os rapazes ganharam o jogo de pés. Mas perderam no jogo de cabeça, quando voltaram aos balneários e se transformaram, por seu turno, em avantesmas, partindo os trates e as alfaias galesas que por lá se encontravam.
Isto já era bastante mau, mas, assim o postulam as leis de Murphy, nada está tão mau que não possa ficar ainda pior. Foi o que aconteceu, com os insultos à inteligência de quem o ouviu, ao treinador Zé Romão a explicar o sucedido.
Para os rapazes 4 afonsos pela humilhação dos gauleses e 2 ignóbeis pela bagunça e, para o treinador Zé, 3 pilatos pela falta de acção e 2 chateaubriands pelas asneiras.

Secção Perguntas impertinentes
- A que propósito jornalistas viajam para o Kuwait num avião fretado pelo governo Português?
- A menina jornalista da Sic que foi ferida estava em missão de soberania ou trabalhava para o governo, que por isso mandou a avioneta dos contribuintes fazer as vezes do jatinho que o Dr. Balsemão não tem, mas que gostava de ter?
- O governo percebe que estas acções falam mais alto do que todas as palavras?
- O governo percebe que está a dizer para milhões de lusitanos: vede meus filhos como as tetas da vaca marsupial pública são fartas?
Enquanto o governo não responde leva 4 chateaubriands para a sua colecção.

19/11/2003

BLOGARIDADES: Informações talvez úteis.

Duas novas secções foram hoje adicionadas (ver Glossário):

- Entradas de leão e saídas de sendeiro
- Perguntas impertinentes

A posta de ontem da Tese nº 3 sobre o Pipi tinha algumas calinadas e imprecisões, agora corrigidas, para as quais me chamou a atenção o Belo Menir, que com um cajadada matou dois coelhos – do primeiro já falei; o segundo foi aguentar estoicamente a revelação perigosamente pública da sua ligação à FLM - Frente de Libertação do Macho.

CASE STUDY: Tese nº 3 sobre os públicos de O Meu Pipi. Diferentes públicos, mas nem todos distintos.

Prometida há mais duma semana e sempre adiada, é altura de tratar da tese dos públicos do Pipi, enquanto ainda há Pipi. Públicos para o Pipi é que nunca faltarão, dada a pletora de grunhus vulgaris lusitanicus que, não sendo o único público, são o mais persistente e abundante, como já se tinha concluído no Prelúdio à Tese nº 3.

Não tendo o produto sexo um target específico, é difícil ser exaustivo quando quase todas as criaturas são consumidores potenciais da prosa do Pipi. Potenciais mas não actuais, porque para estes se requerem as seguintes condições:
1) Um módico de literacia - com boa vontade 3 ou 4 milhões de criaturas
2) Ter acesso à Internet - o que reduz os 3 a 4 milhões a uns 300 ou 400 mil
3) Navegar na bloguilha, isto é ser bloguilhéu - talvez 10%, ou seja 30 a 40 mil
4) Conhecer o blogue do Pipi - talvez 60 a 80% dos bloguilhéus
5) Frequentá-lo - talvez uns 8.000 a 9.000 (*) bloguilhéus, o que dá um share extraordinário ao redor de 1/4.
(*) Nas últimas 10 semanas o Pipi arrotou 20 postas e teve aproximadamente 200.000 visitas, cerca de 10.000 por posta; a maioria das visitas é de grunhus vulgaris. Se admitirmos que uns 10-20% do público vomita e nunca mais lá volta, e que os restantes não perdem uma, a audiência total fidelizada do Pipi deve rondar as 8.000 a 9.000 almas. É claro que estou a esquecer as visitas redundantes, quer do visitante que gostou tanto que volta outra vez ao lugar do creme, quer do visitante ansioso que vai lá 3 dias ver se já há uma nova posta e só a encontra ao quarto. Retirando estes, a audiência seria eventualmente muito menor.

Até aqui é só aritmética do actual 9º ano, equivalente à 3ª classe da primária com a Dona Gertrudes e a sua palmatória didáctica. Vamos agora ao prato de sustância, com a ajuda da Doutora Ana, psicóloga pela Sorbonne e socióloga e antropóloga nas horas vagas. Esquecendo os 10-15% de leitores acidentais, afinal quem são essas 8.000 ou 9.000 criaturas? Se não as conhecemos, podemos ao menos arrumá-las nos seguintes segmentos:

Leitores reticentes
Leitores que conseguem aguentar irregularmente as visitas, sacrificando a agonia à qualidade delirante da prosa do Pipi.
Exemplo: o Impertinente e umas quantas outras almas.

Grunhus vulgaris
São leitores contumazes do Pipi e de longe a espécie mais abundante, representando talvez 70-80% da audiência. Entre os Grunhus vulgaris há que distinguir a variedade commentarius que se caracteriza por uma verbalização incipiente, resultado de só usar a parte mais primitiva do cérebro. A variedade commentarius é responsável por quase todos os comentários às postas do Pipi, que ao ritmo de cerca de 1.300 por posta conspurcam a bloguilha, que no caso deles se reduz a uma braguilha.
Exemplos: abundantes.

Grunhus literattus
É a elite dos grunhos. Distinguem-se dos grunhus vulgaris por serem portadores de literacia.
Exemplos: não muitos.

Épater le bourgeois
Por incrível que pareça, nestes tempos em que o tema sexo se banaliza, exala dos écrans da televisão generalista para os doces lares lusitanos, escorre das revistas, verte-se das conversas das viúvas de todos os S. Lourenços de Mamporcão, parece haver quem pense que o Pipi é a vanguarda do ataque aos tabus que deixa os patetas embasbacados.
Exemplos: vários.

FLM - Frente de Libertação do Macho
São militantes da causa que sofrem com a decadência do macho em geral, e do lusitano em particular, sucumbido ao paradigma do homem sensível, que chora, usa cremes, se meneia delicadamente, avia beijinhos, e é portador de todos os outros trejeitos peculiares que fazem as delícias da mulher distraída, que se julga emancipada. O Pipi é o seu herói.
Exemplo: O Belo Menir da Vareta Funda.

Cultores da Língua
Vêem no Pipi a redenção, pelo bom uso da língua, da parte escatológica do sexo. Gostariam da prosa do Pipi mesmo que ele escrevesse sobre jardinagem.
Exemplos: Bomba Inteligente, Dicionário do Diabo.

(Continua?)

18/11/2003

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Precisa-se uma Princesa para beijar um Sapo.

Secção Insultos à inteligência
Após alguns dias sem conseguir comunicar com as criaturas que moram no servidor de correio da hotmail.com, entre elas a Doutora Amélia, o Impertinente em estado de carência reclama ao Serviço de Apoio a Clientes da PTM.com no dia 28 de Outubro: queiram esclarecer as razões porque o meu correio dirigido a moradas em hotmail.com é rejeitado, escreveu o Impertinente.
Depois de várias insistências, o Serviço de Não Apoio a Pacientes, após duas semanas de recatado silêncio, resolve no dia 12 de Novembro responder-me a tudo o que eu gostaria de ter perguntado se tivesse coragem: gostaríamos de informar que, de facto o Hotmail está a barrar emails originados nos servidores do SAPO. É uma situação ao qual o SAPO é alheio mas garantimos que estamos a efectuar todos os esforços para que esta situação seja desbloqueada o mais depressa possível. E acrescentaram, com cinismo, lamentamos o eventual transtorno que esta situação possa estar a causar.
Mal eles sabiam que, além dos transtornos triviais, a sua falta de diligência me tinha privado de tentar dissuadir a Doutora Amélia de, em vez de se entregar a um noivo (que) também tem um blog, um blog sério, muito lido, continuasse mais uns tempos encalhada à espera dum capitão capaz de a navegar por mares encapelados, ainda que já navegados.
Por transtornos causados e gastarem duas semanas para me dizerem coisas que já sabia, os do SAPO levam 3 pilatos e 4 chateaubriands.

17/11/2003

DIÁRIO DE BORDO: A las cinco en punto de la tarde.

Um novo Impertinente da 3ª geração nasceu. A Impertinente da 2ª geração resolveu chamar-lhe Afonso. Não por causa dos afonsos, mas é uma bela coincidência.
É mais um contributo impertinente para pagar as vossas reformas dentro de 20 ou 30 anos.
Ó vós leitores acidentais correi a fazer filhos ou a convencer os vossos filhos a fazerem-vos netos.

ESTÓRIA E MORAL: A hiperpotência coloniza a nossa meteorologia.

Estória
O Impertinente quando viaja, como há dias na expedição ao Portugal profundo, gosta de saber se deve ou não levar chapéu de chuva, galochas, etc. ou, pelo contrário, pode ir de corpinho bem feito porque estará um tempo formidável.
Durante anos visitei o sítio do nosso Instituto de Meteorologia para conhecer as previsões para os próximos dias. Por lá ficava a saber se o céu estaria pouco ou muito nublado ou, quem sabe limpo, se o vento sopraria de nordeste ou sudoeste, moderado ou forte, se nas terras altas bla bla bla, se haveria uma pequena, grande ou moderada descida de temperatura mínima, se haveria formação de geada, aqui ou acolá.
Uma prosa sóbria, para gente letrada, sem imagens. Previsões para o Continente, ou, quando muito para os Litorais, os Nortes, os Centros ou o Sul. Nada de palpites ousados sobre a meteorologia na Baixa lisboeta. Nenhuma previsão para as próximas semanas que os nossos técnicos não vendem banha da cobra. Em resumo, uma previsão pobre, mas honrada, uma previsão nossa, para o nosso tempo, na nossa terra. Atrás dela estava o labor de centenas de técnicos nossos patrícios, com poucos recursos, mas que com grande dignidade, nos iam dando a previsão possível.
Tudo isto está em vias de mudar. Cada vez mais ataques vem sendo desferidos contra o nosso produto meteorológico. Todos os dias novos sites mundializantes tentam seduzir as nossas almas patrióticas com previsões para 5 ou mesmo 10 dias, com imagens excitantes, com temperaturas máximas e mínimas, com probabilidades de ocorrência de chuva, pressão atmosférica, humidade relativa e, pior que tudo, para cada uma das nossas cidades e vilas.
Aqui vai um entre muitos, o da Weather.com para a cidade de Lisboa que podem comparar com o nosso pobrezinho, mas muito nosso Instituto de Meteorologia.

Moral
Se for verdade, como escreve Jean Paul Kauffman, citado num daqueles imaginativos anúncios do Banco Privado Português, que a economia depende tantos dos economistas como o tempo dos meteorologistas, então talvez possamos ter esperança na recuperação do estado comatoso da nossa economia.

16/11/2003

DIÁRIO DE BORDO: Relato duma visita de estudo ao Portugal profundo.

Ainda abalado pela notícia do casamento anunciado da Doutora Amélia, só por obrigação presto contas da expedição, ou, diria a saudosa que estudou na Sorbonne, faço um enfastiado compte rendu.
Em S. Lourenço de Mamporcão, uma aldeola a caminho de Portalegre, com umas 2 centenas de famílias, 43 viúvas e apenas 1 viúvo, tive oportunidade de entrevistar várias pessoas, incluindo e nomeadamente 31 das 43 viúvas. Tentei também o viúvo, mas a sua completa surdez tornou a comunicação pobre, porque a linguagem gestual da criatura era muito limitada – praticamente só usava o dedo indicador para tentar significar o seu desinteresse já antigo pela matéria.
Ao contrário do que um citadino empedernido como o Impertinente poderia pensar, as viúvas inquiridas mostraram um surpreendente interesse e conhecimento da mecânica e geografia sexuais, com preferências por práticas bastante chocantes, ainda que na maioria dos casos não consumadas.
Apesar de nenhumas delas ter ouvido falar do Pipi, e muito menos ter lido a sua obra, aliás 3/4 são analfabetas, falaram com grande desembaraço do tema, como se conversássemos da melhor maneira de preparar as migas ou o cação com coentros. Foi uma oportunidade de confirmar as minhas suspeitas de que comida e sexo têm um profunda ligação.
Curioso por saber a fonte de tamanha ciência, lá consegui descobrir, por entre risinhos maldosos, que era a revista Maria, que as viúvas com letras liam para as iletradas, em sessões muito concorridas, no meio dum imenso chavascal de aplausos, apupos, gritos, suspiros, uivos e gemidos, segundo as suas próprias palavras. Perante o meu ar duvidoso, algumas delas sacaram do bolso do avental o último número da Maria, procuraram nas páginas já ensebadas e lá ouvi, com o rubor nas faces impertinentes, cartas de leitoras relatando os sacrifícios a que se obrigavam para reter os marmanjos dos seus namorados e maridos, mas também as delícias confessadas de outras com as prestações dos seus amores ou comoventes dúvidas de como consolar os seus próprios corpos carentes. De tudo um pouco.
Instruído com esta visão do Portugal profundo, o Impertinente ainda teve tempo de visitar a uma hora respeitável, antes do bulício nocturno, um estabelecimento de strip misto situado à beira da estrada entre Borba e Vila Viçosa, recomendado por duas das ousadas viúvas. A conversa com a gerência – um casal alternativo com práticas sexuais vagabundas - foi muito esclarecedora. Fiquei a saber que o seu negócio prosperava a olhos vistos, e eram muitos os esbugalhados todas as noites apreciando o exaltante espectáculo.
É por estas, e por outras, é que se recomenda aos intelectuais, aos políticos, aos artistas, e em geral às nossas iluminadas elites pelo menos uma visita por ano aos habitates dos indígenas que povoam o nosso Portugal profundo. Devemos ser nós, quer dizer vós, porque eu já fui, a ir até eles e não os jornalistas das Time ou outras revistas mundializantes que, por incompetência ou maldade, deturpam nos seus relatos os usos e costumes da nossa terra e dão uma ideia errada da alma do nosso Povo.

15/11/2003

BLOGARIDADES: Prestar contas e aprender a escrever bem.

Enquanto o Impertinente mergulhava na expedição ao Portugal profundo, a Doutora Amélia foi pedida em casamento. Do primeiro evento prestarei contas a seu tempo. Do segundo evento competirá à Doutora Amélia dar as devidas satisfações a todos os seus admiradores.
Também durante a minha curta ausência, uma alma amiga enviou-me as seguintes 29 dicas para escrever bem, que parecem inspiradas na prosa imaculada do Impertinente. Lembrando que nunca é tarde para aprender, aceitando que só a leitura das Impertinências possa não bastar e admitindo que essas dicas sejam úteis aos leitores acidentais das Impertinências, aqui vão elas:
1. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.
2. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.
3. Anule aliterações altamente abusivas.
4. não esqueça as maiúsculas no inicio das frases.
5. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
6. O uso de parêntesis (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
7. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.
8. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, tá fixe?
9. Palavras de baixo calão podem transformar o seu texto numa merda.
10. Nunca generalize: generalizar, é um erro em todas as situações.
11. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.
12. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: "Quem cita os outros não tem ideias próprias".
13. Frases incompletas podem causar
14. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma ideia várias vezes.
15. Seja mais ou menos específico.
16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!
17. A voz passiva deve ser evitada.
18. Utilize a pontuação correctamente o ponto e a vírgula especialmente será que já ninguém sabe utilizar o ponto de interrogação
19. Quem precisa de perguntas retóricas?
20. Conforme recomenda a A.G.O.P, nunca use siglas desconhecidas.
21. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.
22. Evite mesóclises. Repita comigo: "mesóclises: evitá-las-ei!"
23. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
24. Não abuse das exclamações! Nunca! O seu texto fica horrível!
25. Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da ideia nelas contida, e, por conterem mais que uma ideia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes, de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
26. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúaa portuguêza.
27. Seja incisivo e coerente, ou não.
28. Não fique escrevendo no gerúndio. Você vai deixando seu texto pobre - causando ambiguidade - e esquisito, ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo.
29. Outra barbaridade que você deve evitar é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras, carago.

12/11/2003

AVISO aos transeuntes

O Impertinente vai 3 dias em expedição ao Portugal profundo para inquirir os indígenas sobre as suas preferências sexuais e recolher material para preparar as Teses sobre o Pipi.
O Impertinente sugere aos leitores acidentais, para se entreterem enquanto esperam, a leitura diária 4 parágrafos do ESPECIAL DE S. MARTINHO, começando pelo último.

ESPECIAL DE S. MARTINHO - Prelúdio à Tese nº 3 sobre O Pipi.

Como ontem contei, o telefonema do Alf e as suas sequelas fizeram entropicar a Tese n.º 3. As castanhas, a água-pé e, last but not least, a Doutora Ana, fizeram o resto.
Esquecendo o que já foi explicado e omitindo o que não precisa explicação, resta a Doutora Ana, psicóloga pela Sorbonne, socióloga e antropóloga amadora, nas horas vagas, que são muitas, porque praticamente já não faz clínica.
Insistiu comigo e fez-me prometer que só apresentaria a tese dos públicos do Pipi depois de especular sobre a especificidade do sexo como temática. Resisti quanto pude, até sucumbir ao argumento que arruma qualquer um habituado a fazer pela vida: não se pode falar dos clientes, de marketing e de merchandising sem falar do produto.
O que tem o sexo de tão especial? Nada que não tenham outras actividades humanas, como comer, por exemplo. Aliás, comer é muito mais importante (lembra-te da pirâmide de Maslow, disse a Doutora Ana), porque sem comer, nada feito. Já que falo disso, a relação entre comida e sexo obedece a funções do tipo zingarilho – quanto mais sexo, mais comida e ao contrário, quanto mais comida, menos sexo.
Até a relação que as criaturas têm com o sexo é parecida com a que têm com a comida. Há os que muito falam e pouco comem, há os que muito comem e pouco falam, há os que não falam nem comem, enfim há de tudo - está-se a ver a abundância na natureza das funções do tipo zingarilho?
Quando olhamos a coisa pelo lado da sofisticação, também aqui encontramos paralelos. No exercício da função, há javardos em qualquer das actividades, observando-se com grande frequência que os javardos a mastigar tendem a fazer do locus coitus um chavascal. A recíproca ocorre com menos frequência, porque, sendo o comer uma actividade semi-pública, alguns dos javardos do sexo tentam manter uma certa compostura enquanto enfardam a ração. Certos teóricos defendem que, tendendo o sexo a ser cada vez mais semi-público, no limite os javardos são-no igualmente em ambos os exercícios.
Mas o que aqui nos traz não é o uso da coisa, mas discorrer sobre ela, que é o que o Pipi faz. Aqui devemos introduzir, uma vez mais, uma distinção entre falar e fazer. Para nós portugueses é uma distinção facílima, com que nos desembaraçamos no dia a dia com grande competência.
Armados com esta distinção, podemos então perceber que se pode falar da coisa com requinte e ser um javardo no exercício da coisa e vice-versa. Mas também aqui, como noutras actividades humanas, parece haver uma certa especialização entre fazer e falar. Por exemplo, os especialistas em gastronomia, que ganham a vida a contar-nos como é bom comer, são geralmente uns sujeitos sofisticados a comer e a contar, e ensinam-nos a comer (degustar, corrigiu a patroa) com requinte. Contrariamente, os sexólogos ganham a vida a tentar convencer-nos a esquecer as maneiras, perder a vergonha e ser javardo.
Mas nem sempre esta teoria dos contrários se aplica. Por exemplo, na parte executiva, os profissionais da comida (no pináculo encontramos os Chefs de Cuisine) pretendem exactamente o mesmo que os profissionais do sexo - ganhar dinheiro a fazer-nos gozar com os seus serviços. Uma pequena diferença no pináculo, que no caso do sexo talvez devessemos chamar cume, onde encontramos, ainda, mais as do que os, diferentemente dos profissionais da degustação – uma chamada de atenção aos comissários europeus e, mesmo aos eurodeputados, é um campo quase virgem, passe o paradoxo, para o combate às desigualdades sexuais.
Na parte descritiva da função vamos encontrar enormes diferenças que importa investigar. Quanto à comida estamos conversados, porque falando dos especialistas em gastronomia, está tudo falado. Importa talvez registar, para futuro aprofundamento, que os especialistas na comida não ganhariam um chavo se descrevessem as iguarias que idealizam como os Pipis descrevem as javardices que inventam.
Chegados aqui encontramos um facto prático notável: não há público para os escritores da comida javarda.
Diferentemente, nos escritores do sexo, além dos citados sexólogos, que fingem praticar ciência, encontramos autores que tratam o tema como os gastrónomos tratam os seus manjares, como também encontramos outros que tratam o sexo como os faxineiros da suinicultura tratam a lavadura servida na gamela dos bácoros.
É aqui que chegamos ao Pipi, embora importe ainda distinguir neste último grupo de autores os diferentes graus de competência a descrever a lavadura, a gamela e o chavascal. Sobre isto as opiniões dividem-se, e o Impertinente, já jurou, não mete prego nem estopa. Há quem, como a Doutora Charlotte e o Dr. Mexia. defenda que o Pipi trata disso com genialidade, há outros que põem algumas reservas, e, quem sabe?, há uma maioria envergonhada por não vislumbrar génio nenhum.
Em conclusão, a única especialidade no tratamento do tema sexo é que há um público garantido para o escritor javardo, como já todos sabíamos, ou (os mais distraídos) ficámos a saber depois do êxito do Pipi.
(Escrito sob influência duma garrafa de água-pé e meio quilo de castanhas assadas)

11/11/2003

BLOGARIDADES: Alf e os mamilos do Zé.

Acredito que uma das piores asneiras que terei feito nos últimos meses foi recomendar alguns blogues ao Alf. Para piorar tudo, o Alf aprendeu português num curso brasileiro por correspondência e só percebe pela metade os postings sofisticados dos blogues que lhe recomendei.
Telefonou ontem de casa dos Tanners. Tinha lido um posting da Doutora Amélia no sábado à noite. Excitado, passou a madrugada atrás do gato, confessou-me.
O Schwarzkopf era o Norman? Perguntou. Qual Norman? Perguntei, feito sikh. O general da 1ª guerra do Iraque, disse ele. Ora essa, disse eu, não estou a ver a Doutora Amélia, que de bigodes só gosta do suave buço do Dr. Mexia, metida com a tropa. Deve ser uma cantora alemã de jazz, arrisquei ao ler os versos citados pela Amélia naquela língua arrepiante, e imaginando um bocado de swing nos braços a cingi-la. Fez-se luz no bestunto do Alf: nada disso, pá, já sei! É a Dame Elizabeth. Não é má, mas no Strauss prefiro a Karita Mattila, disse, com bazófia – teria o estupor feito mais um curso por correspondência?
Mas o pior estava para vir.
Quem é o Zé? O que são mamilos? Metralhou. Ainda consegui explicar-lhe que, pela conversa da Doutora Amélia, devia ser o Dr. Pacheco Pereira. A partir daí embalou num discurso especulativo e delirante, quase incompreensível pelo seu pouco domínio do português. Se o JPP era o que vivia na Marmeleira, se na Marmeleira havia marmelos, se os marmelos tinha mamilos, o que tinham de especial os mamilos dos marmelos do Zé. E continuou discorrendo, incansável, sobre marmelos e mamilos com aquele pulmão melmaciano que lhe ocupa um quarto do corpo.
Não estou para aturar este marmelo, disse eu. E desliguei.
E com isto atrasei a Tese n.º 3 sobre os públicos de O Meu Pipi prometida para a véspera de São Martinho. Sem falar duma outra encomenda da Doutora Ana de que falarei mais adiante.

10/11/2003

Avaliação contínua: A desafinação dos relógios da esquerda.

Secção Still crazy after all these years
É o gigantismo de Álvaro Cunhal, aos 90 anos e há 11 anos fora da política activa, que deve ser avaliado pelas ondas de choque que provocou o seu artigo publicado a semana passada no Avante? Ou será a pequenez da direcção comunista?
A falta de «-leninismo» no «marxismo-leninismo» será suficiente para provocar um tsunami naquelas mentes?
O Impertinente, com enorme respeito pela figura do ancião, sugere à direcção comunista, que reconstrua, à volta do Dr. Cunhal, uma casa, um bairro, uma cidade, um rádio, um canal de TV e dois jornais (Avante! e Pravda) na versão do verão de 1975. Mais pormenores podem ser vistos no filme de Wolfgang Becker Good bye, Lenin!.
Para o Dr. Cunhal, igual a si próprio até morrer, cinco bourbons. Para a direcção comunista um cocktail de bourbons e chateaubriands.

Secção Padre Anchieta
Noutro planeta da galáxia da esquerda, a Comissão Nacional do PS decidiu no sábado não decidir, esperando que a situação se resolva por si mesma, isto é que se consuma a decomposição do PS no pântano do caso Casa Pia.
Fundada em solidariedades equívocas, na melhor hipótese, ou cumplicidades inequívocas, na pior, a direcção do PS, por falta de comparência de outros, lá vai atrás do seu líder, que por sua vez espera sentado a chegada da alma, como os tupis do padre Anchieta.
Se isto fosse mau para o PS, pelo menos para dois terços dos eleitores seria para o lado onde dormiriam melhor. Acontece que a decomposição do PS, ocupado a lamber as suas feridas, deixa os trabalhos da oposição para uma horda composta pelas criaturas da esquerdalhada e pelas almas transviadas dos partidos do governo – o que é uma situação um pouco perigosa.
Entre um a cinco chateaubriands para as almas bem intencionadas da direcção socialista e entre um a cinco ignóbeis para as outras.

09/11/2003

CONDIÇÃO MASCULINA: Diferentes, mas iguais perante Bruxelas.

A área temática Condição masculina tem sido injustamente esquecida. O Impertinente só não pede desculpa porque indirectamente o tema tem estado quase sempre presente, nos links e retro-links. Sem esquecer as Teses sobre O Meu Pipi, que também têm muito a ver com a decadência do macho.
Desta vez é a Comissão Europeia que dá o pretexto para abordar o tema, por outras razões também bastante actual. Imaginem-se os poderes de Bruxelas, reforçados por uma Constituição europeia, dando poderes aos órgãos comunitários para normalizar o uso da nossa genitália, sem ter em conta, além do género, as preferências nacionais e até locais.
Prosseguindo o seu furor regulamentário, a Comissão Europeia apresentou no passado dia 5 uma proposta de directiva, há muito anunciada, que visa eliminar as desigualdades sexuais no acesso a produtos e serviços.
Vai ser compulsivo proceder à ablação do pénis no homem ou à mulher usar uma prótese? Ou será uma ortótese? Ainda não. Lá iremos. Sofreai a vossa impaciência.
Por agora a directiva providenciará, entre outras coisas, impedir que as bases técnicas e actuariais dos seguros considerem as diferenças de género, que existem e são tidas em consideração em vários seguros de vida, automóvel, etc. A discriminação actuarial, apesar de neutra ao género - nuns casos os prémios são mais altos para os homem, noutros para as mulheres - concita os furores dos comissários.
O Impertinente não conhece ainda o texto da directiva e não está em condições de confirmar se a cobertura de gravidez nos seguros de saúde passará a ser compulsiva para os homens.

08/11/2003

Case study: Tese nº 3 sobre os públicos de O Meu Pipi.

Em preparação. A publicar na véspera de São Martinho, acompanhado de castanhas e água-pé.

Blogaridades: Arnold n’A Praia.

Numa das vadiações pela Bloguilha cheguei acidentalmente à Praia , um blogue injustamente ignorado pelo Impertinente, sabe-se lá porquê. Preconceito? (Prejudice is a great time-saver – it enables you to form an opinion without bothering to get the facts).
Com uma surpreendente abertura de espírito, A Praia publicou em 08-10 um posting sobre Schwarzenegger, o culturista neoclássico onde consegue falar da criatura com pouco chavões, e sem aquela pesporrente superioridade moral da esquerda.
Claro que não se poderia esperar que A Praia resistisse à fábula sobre o George W., que de resto é muito mais cretino que ele (o Scharz).
O posting é convenientemente ilustrado por uma foto do Arnold exibindo os seus argumentos, mais tarde também usada pela Doutora Amélia para demonstrar o seu chimpanzé anabolizado.

Diário de Bordo: Slogans para o bisavô das Impertinências.

Vindo de outras paragens, pelas estradas da bloguilha, despenhei-me no GUTERRES 2006o Weblog não-oficial de apoio à candidatura de António Guterres a Presidência da Republica.
Fiquei siderado. É bom lembrar que as Impertinências são filhas dumas Estórias e morais, que sucederam a umas Crónicas de escárnio e maldizer (ver as Declarações de princípio) e que estas são, por sua vez, filhas espirituais do Sr. Engenheiro de Correntes Fracas António Guterres. Quer isto dizer que o Sr. Engenheiro, sendo pai espiritual, ou musa, das Crónicas, é avô espiritual das Estórias e, consequentemente, bisavô das Impertinências.
As Crónicas medraram durante o consolado da sua musa, alimentadas pela baba dialogante e viscosa que escorria das paredes de São Bento para todo o país. Como era de esperar, não sobrevirem muito tempo à fuga do Sr. Engenheiro, do pântano para o limbo presidencial, depois da hecatombe autárquica de Dezembro de 2001.
A aparição do GUTERRES 2006 indicia que o Sr. Engenheiro se apresta para sair do limbo a que se remeteu, preparando-se para voltar ao nosso convívio, devidamente reciclado, e revigorado o seu potencial de picareta falante, como lhe chamou o Dr. Vasco Pulido Valente, numa das suas prosas sulfúricas.
É altura das Impertinências, que tanto lhe devem, celebrarem o seu regresso, contribuindo para o peditório dos slogans para a campanha, que abriu no blogue GUTERRES 2006 no passado dia 5.

Aqui vão algumas ideias:
* Guterres não atrasa nem adianta, mas encanta.
* Dialogantes e solidários não votam em salafrários. Com Guterres sempre.
* Guterres em Belém, será como nossa mãe.

07/11/2003

Estórias e morais: Quem sabe da poda, não poda, para não ficar podado.

Estória
Na discussão parlamentar do Orçamento para 2004 foram produzidos inúmeros discursos mais ou menos delirantes, quer das bandas do governo, quer da oposição.
O governo foi atacado, uma vez mais, por ignorar a vida além do orçamento, como disse o presidente da República faz um tempo. A ministra das Finanças, teria sido vitimada pelo assédio das luminárias da oposição, não fora a sua colher de pau as manter a uma respeitosa distância.
A oposição que tem zurzido o governo por se obcecar com a redução do défice, acusou-o agora, pelo boca do Eng. Cravinho, do delito de intenção de, em 2005 e 2006, regressar aos défices eleitoralistas, numa explosão definitiva do mito da consolidação das finanças públicas sob o actual Governo. É como se a Doutora Amélia, que se tem metido com o marialvismo do Impertinente, antecipando a conversão do Impertinente a conviver com o seu lado feminino, o começasse a malhar, à cautela e por conta, chamando-o de futuro amaricado.
Mas não se ouve a oposição a reclamar do governo a substituição da cosmética das receitas extraordinárias por cortes à séria nas despesas correntes, emagrecendo o gigantismo da vaca marsupial pública (ver a definição no Glossário).
Introduzida a questão, o Impertinente lembrou-se de ir ao arquivo morto desenterrar, no número de 3 de Julho de The Economist o artigo I'm going to gut it, ilustrado por uma foto do Dr. Durão Barroso.
O emprego é para toda a vida. O despedimento é contra a lei. A promoção é automática. O salário é acima da média; estão garantidos aumentos regulares. O desempenho é sempre avaliado 10 numa escala de 0 a 10 escreve o jornalista e, interroga-se ele a seguir, trata-se de um lugar para uma única alma particularmente feliz? Não exactamente, acrescenta, mais de 708.000 trabalhadores que constituem o sector público português, 15% da população activa, estão empregados nestas condições invejáveis.
E, perante essa felicidade para as almas e esta desgraça para o país, o que fazer? O sugestivo subtítulo pode dar-nos algumas pistas: O primeiro ministro de Portugal planeia uma poda drástica e oportuna (Portugal's prime minister is planning a drastic but timely pruning).
Nada mais necessário. Mas como? O primeiro ministro garante que tudo isso acontecerá sem despedimentos, conclui o jornalista.
Chegado a este ponto, fiquei um pouco confuso sobre a semântica da coisa e fui a correr consultar o Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo, que mora aqui no meu leitor de CD, e confirmo que poda é o que eu suspeitava: acto ou efeito de podar; corte ou diminuição; lenha constituída pelas vides que se cortam na poda. Nada esclarecedor. Contudo, logo a seguir, encontrei a resposta para as minhas inquietações - o significado simbólico da poda, como em saber da poda, conhecer bem o assunto, entender do ofício.
Agora, sim, percebe-se. O primeiro-ministro conhecendo bem o assunto e entendendo do seu ofício, sabe perfeitamente que não vai haver poda nenhuma, que, a haver, lhe faria perder irremediavelmente as próximas eleições.
Moral
Poda tardio, semeia temporão, acertarás quatro anos e um não (sabedoria popular)

06/11/2003

Avaliação contínua: A fome e a fartura.

Secção Frases assassinas
O empresário brasileiro António Ermírio de Morais disse à revista Veja:
A ideia do Fome Zero é péssima. Lido com gente pobre há muitas décadas no meu grupo empresarial e na Beneficência Portuguesa. Pobre não quer esmola. Quer emprego. Um ou outro malandro está sempre pensando em maneiras de aumentar seus ganhos sem fazer nada, sem dar nada em troca. Mas, graças a Deus, no Brasil esse tipo de gente é minoria. Os homens de bem querem um emprego, querem criar a família com o fruto do seu trabalho. O Governo teria de estar focado em um programa de desemprego zero. A esmola do Fome Zero gera dependência. Já o emprego torna a pessoa independente do Governo. Não sei qual seria a intenção do Governo de criar legiões de dependentes. Espero que isso não tenha implicação eleiçoeira, o que seria um retrocesso desastroso.
3 afonsos para o Sr. António, com os agradecimentos do Impertinente, por ter dito quase tudo o que havia a dizer sobre o assunto em 7 linhas. 5 chateaubriands para o PT que, à força de tanto amar os pobrezinhos, não quer acabar com a pobreza.

Secção Idiotas Inúteis
Nas Impertinências já foi abordado o tema da luta dos estudantes contra o aumento das propinas. Mais uma vez os rapazes voltaram a sair ontem para a rua, desta vez munidos com 8.000 apitos. Um dos líderes falou assim para o Público Milhares de alunos pretendem demonstrar a uma só voz que estão contra o pacote para o ensino superior. (Os estudantes) ... não vão abandonar a luta, nem baixar a guarda.
The purpose of education is to replace an empty mind with an open one, escreveu Malcom S. Forbes. Se tivesse convivido com estes 8.000 estudantes do apito a uma só voz, Forbes pensaria que o processo educativo lhes tinha feito a hole in one, no lugar de an open one.
4 chateaubriands para os estudantes do apito.

05/11/2003

Blogaridades: O valor da palavra e a pedra fala mas não zurra.

Quando o Abrupto resolve pôr entre parêntesis a plantação de quadros e a pletora de erudição e solta a sua escrita, dá gosto ler. Por exemplo o posting de hoje - O valor da palavra

A propósito das Teses 1 e 2 sobre o Pipi, referi-me aos zurros dos asnos dos seus discípulos zurzidos pelas Doutoras Amélia e Charlotte. Essa expressão foi-me inspirada pela leitura que tinha feito dos comments ao Pipi, e neste caso só peca por suave. Mas acabou por atingir o Belo Menir, cujo texto não conhecia - não estava citado nos postings do fogo de barragem e do enxofrou, e o Belo Menir foi atingido por uma bomba não inteligente.
O Belo Menir pergunta-me se eu li o seu Requiem pelo MEU Pipi antes de o epitetar de asno zurrador. Não li. Se tivesse lido, como agora já fiz, não usaria essa expressão. Em vez de zurros dos asnos, talvez escrevesse lamentos duma alma confundida.

NOTA: acaba de nascer uma nova Área temática - Blogaridades.

Diário de Bordo: ainda O Meu Pipi. Pipi who?

Alguns amigos que leram o Case Study de ontem sobre o Pipi, perguntaram: afinal quem é esse Pipi? A princípio fiquei chocado. Como é possível alguém não conhecer o Pipi? É certo que esses amigos têm mais que fazer do que vadiar na blogosfera, mas mesmo assim.
Pensando melhor, percebe-se. O erro de perspectiva é meu. É uma espécie de efeito de insularidade - isto não é uma blogosfera é uma bloguilha. A comunidade blogueira, e o Impertinente com ela, vive demasiado ocupada a contemplar o umbigo.
Somos umas quantas almas penadas a escreverem tretas umas para as outras. Contas feitas, haverá uns poucos milhares de blogues PT, diz-se, e, suspeita o Impertinente, umas poucas dezenas de milhares de visitas por dia – a meia dúzia no top conta no total menos de 10 mil visitas/dia, das quais o Pipi tem um terço. Com estes números, é muito provável que a esmagadora maioria dos visitantes provenha deste huis clos, como lhe chama a minha amiga Doutora Ana, que estudou na Sorbonne.
Chegado a este ponto, lembrei-me de já ter feito umas contas parecidas, trinta anos atrás, para chegar à conclusão que todas as manifs de Abril eram feitas pelos mesmos 50 mil galfarros, incluindo o Impertinente, que circulavam de manif em manif, imaginando que eram uma mole imensa e que o país estava com eles.
E qual é o problema? Nenhum. Mas percebe-se agora que aqueles amigos do Impertinente não façam a mínima ideia sobre quem seja o Pipi.

Post scriptum:
Sentem-se no ar os sinais duma pequena tempestade na bloguilha, onde só podem ocorrer pequenas tempestades, à volta do Pipi e do seu livro. A coisa gira à volta de traições que o Pipi terá feito aos grunhus vulgaris seus seguidores por ter publicado o raio do livro. Se havia dúvidas sobre os efeitos que a obra dum grunhus litteratus pode ter sobre o bestunto dos grunhus vulgaris, já não há.
Devia o Pipi publicar a sua escatologia do sexo? Porque não? Porque sim. Porque ao fazê-lo atinge outras audiências onde há esperança de haver menos grunhus vulgaris. E se, como dizia uma luminária qualquer, o meio é tudo, então é de esperar que o som de retorno desta audiência tenha menos grunhidos.
Não merece troco a condenação do Pipi por querer ganhar uns dinheiros com o livrito, como lhe chama a minha fada blogueira. Afinal não está a vender a alma. E se estivesse? Se estivesse não teria falta de companhia.

04/11/2003

Case study: Teses nºs 1 e 2 sobre O Pipi. O Pipi é um grunho; talvez genial, mas certamente grunho.

Com estas duas teses, o Impertinente inicia a publicação duma série de reflexões desalinhadas e desconformes sobre esse fenómeno das audiências blogosféricas que trata da mecânica do sexo - O Meu Pipi.
As teses não são crítica literária, por variadas razões. A começar pela incompetência do Impertinente e a acabar porque a crítica literária definitiva do Pipi foi já feita pelo Dr. Pedro Mexia – o texto tem o título Singularidades deste doce idioma camoniano, mas perdi-lhe o rasto.
Por coincidência, estas primeiras teses saem pouco depois do fogo de barragem com que a minha fada blogueira Doutora Amélia mimoseou os discípulos do Pipi, acorrendo a proteger os flancos da Doutora Charlotte que também se enxofrou com os zurros dos asnos.
Isso obriga-me a esclarecer que não venho em socorro daquelas Senhoras Doutoras, por duas razões essenciais. Primeiro porque já não há pachorra, no século XXI, para cavaleiros andantes, e segundo porque elas têm que chegue para os filhos do Pipi ou quaisquer outros filhos.

Tese n.º 1 – O Pipi talvez seja genial
Esta tese, na sua versão mais conclusiva, é do Dr. Pedro Mexia, merecendo, por isso algum respeito. Lembro-me da conclusão do seu citado texto onde escreveu: O Meu Pipi é genial, dentro do género. Mas nem todos gostarão do género.
O Impertinente, por exemplo, só consome o género em doses moderadas, por períodos limitados, e se a produção tiver qualidade, que amortize parte da vulgaridade, como é o caso da prosa pipiana.

Tese n.º 2 – O Pipi é um grunho
Esta sim é uma tese original e, aparentemente, bastante solitária na blogosfera.
Mas o que é um grunho? Um grunho é um grunho, ponto final.
É claro que, teoricamente, ou em laboratório, pode haver grunhos geniais, mas ocorrência da genialidade terá uma frequência baixíssima, porque os grunhidos, isto é as manifestações dos grunhos, são geralmente bastante primitivos e estão estatisticamente associados ao atraso mental.
Uma consulta aos comments dos postings do Pipi é suficiente para confirmar que a maioria dos comentários feitos por grunhus vulgaris são puros exercícios de bestialidade analfabeta.
Aliás este facto experimental é um dos fortíssimos argumentos que poria em causa a competência do Pipi, se o Pipi fosse médico. Com tais efeitos secundários na exacerbação da idiotia congénita do grunhus vulgaris, a medicina do Pipi não poderia ser grande coisa.

Outras teses a publicar brevemente – sobre os públicos do Pipi, as razões do seu sucesso e outros temas igualmente excitantes.

03/11/2003

Estórias e morais: fazer pela vidinha.

Estória
Mesmo quem não sabe como funciona a compra de influências ou a venda de consciências de jornalistas, basta estar atento ao ler os jornais para adivinhar as encomendas.
Esta prática é bastante mais frequente do que parece e comporta várias estratégias, umas mais hardcore, outras menos. Umas sem intermediação, outras com intermediação dos ateliers de imagem.
Os produtos a promover são de todas as classes, incluindo a corporate image que é mais nobre e mais rentável, até aos produtos de mercearia, passando pela imagem dos gestores de sucesso, sem esquecer os produtos culturais e de entretenimento, que são aqueles que inspiraram ao Impertinente esta reflexão, quando lhe escorregarem as vistas pelo apêndice n.º 498, chamado Actual, da edição 1618 do semanário do saco de plástico mais pesado do mercado.
Lá (pág. 29 in fine) se inclui uma mal disfarçada promoção aos DVD do Indiana Jones, um daqueles objectos cativantes que o próximo Natal vai pôr em muitas das nossas casas, nas palavras do crítico JLR.
Moral (popular)
Com arte e engano vivo metade do ano, e com engano e arte, a outra parte.

02/11/2003

Avaliação contínua: a privação dum heterossexista.

Secção George Orwell
Desavergonhadamente homofóbico, o Impertinente não podia passar em branco a reacção duma infinidade de associações de gays e lésbicas, ao acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que qualificou os actos homossexuais entre adultos e menores como mais graves do que os actos heterossexuais entre adultos e menores, por considerarem aqueles substancialmente mais traumatizantes por representarem um uso anormal do sexo.
As bichas indignadas consideraram o acórdão profundamente homofóbico e heterossexista.
Para ser honesto, e de caminho fingir neutralidade, o Impertinente tem que escrever que os juizes se meterem por caminhos curtos porque, pouco familiarizados com a teoria económica, não explicitaram a hipótese ceteris paribus para fundar a sua argumentação. Se o tivessem feito, toda a gente perceberia que, na igualdade das outras circunstâncias, tais como idade, uso de violência, etc., seria então mais grave um pedófilo seduzir ou violar um menor do mesmo sexo. Não sei se muito, se pouco, mas mais.
Mas é claro que a bicharia não está nada preocupada com isso, o que a bicharia visa é mudar, subrepticiamente, o paradigma da normalidade sexual através dum contrabando intelectual onde o desvio passa a ser apresentado como a normalidade e esta como mais um comportamento, que, com boa vontade, talvez tenha que ser tolerado, porque uma bicha é um modelo de tolerância. Ou não? Não.
Classificar alguém como homofóbico, seja lá o que isso for (socorro Doutora Charlotte), ainda vá, agora heterossexista?!
Por estas confusões atribuem-se 4 chateaubriands a cada uma das 137 associações bicheiras, e 5 (cinco) à Associação Não Te Prives.

01/11/2003

Estórias e morais: a elite é igual à choldra, apenas mais elegante.

Estória
As viagens do Dr. Pacheco Pereira são uma oportunidade excelente para o Impertinente mergulhar no Abrupto, nas suas fossas de Mindanau no formato blogue. A expedição em curso é ao piton da la Fournaise. Arrebatado pelo vulcão, JPP moderou a sua produção e o Impertinente regalou-se na pesca às pérolas sem forçar demasiado o pulmão.
Desta vez, encontrei uma deliciosa e elucidativa carta de Eça para Oliveira Martins - uma desavergonhada cunha do primeiro ao segundo, a favor dum sobrinho para que este venha a ser engenheiro, sem nada saber dos impossíveis físicos e metafísicos ... e ... aprovado em todas essas matérias que o Estado lhe fez decorar, que ele decorou com paciência e submissão, mas que, no momento preciso, lhe podem esquecer - como todas as coisas que a gente sabe só de cor, e só em obediência ao Estado!
Pela amostra se percebe a diletantismo com que Eça discorre sobre a imbecilidade da pedagogia nacional, como ele escreve, e conclui que a cunha, a que chama com eufemismo empenho, é o correctivo do bom senso público aplicado ao disparate oficial.
Para além do excelente exercício literário que é esta carta de Eça, o Impertinente vê nela o paradigma do drama de um povo cujos eméritos filhos sucumbem com tanta elegância às mesmas práticas sociais que deploram na choldra, acima da qual as luminárias julgam pairar.

Moral
Esta gente não tem que cair, porque não é um edifício; tem que sair com benzina porque é uma nódoa, escreveu Eça de Queiroz, obviamente não se reconhecendo como alvo da benzina.

NOTAS:
(1) Esta pérola epistolar imperdível pode ser lida integralmente em PARA UMA ANTOLOGIA DA CUNHA EM PORTUGAL: EÇA DE QUEIRÓS PARA OLIVEIRA MARTINS, posting do dia 25-10 às 13:33 no Abrupto.
(2) As Impertinências passam ter um link ao Abrupto - um tributo ao mestre e um expediente prático para facilitar o acesso ao Armazém de Artes & Letras.